ūüó≥ÔłŹ Direita e extrema-direita abra√ßaram a “causa animal”


Antes do in√≠cio das elei√ß√Ķes municipais de 2020 tentei identificar o perfil de pessoas engajadas ou ligadas de algum modo na causa animal (praticamente com aten√ß√£o restrita a c√£es e gatos) que se candidataram a vereador ou prefeito. A tarefa de avaliar mais de 500 mil candidatos(as) seria praticamente imposs√≠vel se n√£o tivesse optado por um recorte simples: analisei apenas candidatos(as) que usavam a alcunha de protetor(a) ou prote√ß√£o no nome que aparece na segura e confi√°vel urna eletr√īnica.

Parte do apelido dos(as) candidatos(as) daria uma dimensão, mesmo que incompleta, do que poderia vir pela frente em apenas um dos aspectos (a proteção de cães e gatos) de uma causa tão ampla e complexa como é a causa animal.

Saiba mais: A CORRUPÇÃO DA CAUSA ANIMAL, por Fabio Montarroios

A elei√ß√£o desses(as) candidatos(as) tamb√©m poderia trazer uma no√ß√£o do valor que o eleitorado atribui √† ‚Äúcausa animal‚ÄĚ quando decidiu votar em um(a) candidato(a) que indicava ser protetor(a) dentre diversas bandeiras poss√≠veis: a da mobilidade, a da sa√ļde, a da educa√ß√£o, a da seguran√ßa etc. As elei√ß√Ķes municipais tendem a ser muito disputadas e com os votos se dispersando em muitos candidatos – com rar√≠ssimas exce√ß√Ķes. Alguns, proporcionalmente ao eleitorado de suas cidades, ter√£o vota√ß√£o expressiva e outros, mesmo com poucos votos, conseguir√£o uma vaga. O protetor mais votado que analisamos teve 5.834 votos e o menos votado contou com apenas 220 votos.

O perfil que se sobressaiu entre os 259 candidatos(as) que usaram o apelido de protetor(a) ou proteção na urna é de candidata do gênero feminino (78%), de cor branca (69%) e filiada a um partido de direita (55%).

N√£o tinha √†quela altura como cravar a ideologia dos participantes da elei√ß√£o, mas deu para inferir que candidatos(as) que se filiaram √† partidos de direita, centro ou esquerda tinham alguma afinidade m√≠nima com esses partidos e, portanto, definimos que candidatos(as) filiados(as), por exemplo, ao REPUBLICANOS eram de direita, filiados(as) ao MDB, de centro, e filiados(as) ao PT eram de esquerda. H√° uma margem de erro nessa avalia√ß√£o a ser considerada, mas, mesmo assim, j√° era poss√≠vel ver alguns sinais de que uma parte das a√ß√Ķes da causa animal, a prote√ß√£o de animais “de estima√ß√£o”, “de rua” ou em outras situa√ß√Ķes vulner√°veis, como bandeira principal de candidatos(as) aos cargos de vereador(a) e prefeito, estava concentrada num determinado perfil: uma mulher, branca e, muito provavelmente, de direita querendo ingressar ou se manter na vida p√ļblica.

FORA O ATRASO DA APURAÇÃO, NÃO HOUVE SURPRESAS

Dito e feito: os resultados da eleição deste ano apontaram 39 candidatos(as) vitoriosos(as) com o nome de protetor na urna (apenas 15% daqueles 259 candidatos que acompanhamos) e o perfil se confirmou com 30 eleitos(as) no gênero feminino, de cor branca e em partidos de direita. Havia apenas um prefeito na disputa com a alcunha de protetor, mas ele não conseguiu se eleger. Todos os 39 eleitos são, portanto, vereadores e eles conquistaram 45.282 votos em todo o país.

Os votos se concentraram numa parte do Brasil, pois haver√° vereadores eleitos com a alcunha de protetor(a) apenas nos Estados de S√£o Paulo (62%), Minas Gerais (23%), Paran√° (8%), Rio Grande do Sul (5%) e Rio de Janeiro (3%). Isso n√£o quer dizer, vale insistir, que em outras regi√Ķes do pa√≠s candidatos(as) ligados √† causa animal n√£o tenham sido eleitos(as) no Norte, Nordeste e Centro-Oeste, eu apenas n√£o os(as) identifiquei.

Valeria uma abordagem especial para os 39 eleitos, mas por uma questão de disponibilidade, vou me concentrar nos três primeiros colocados e, depois, comentar sobre o contexto da eleição em São Paulo que teve nada menos que cinco candidatos, ligados à proteção de cães e gatos, eleitos e um deles com grande votação. Nenhum deles precisou, diga-se, se declarar protetor…

RELAÇÃO DOS VEREADORES ELEITOS

NOMEESTADOCIDADEPARTIDOVOTOS
GELEIA PROTETORSPGUARULHOSPSDB  5.834
PROTETORA CAROL DEDONATTIPRFOZ DO IGUA√áUPP  2.709
KATIA FRANCO PROTETORAMGJUIZ DE FORAPSC  2.697
DRIKA PROTETORAMGUBERL√āNDIAPATRIOTA  2.653
DOMINGOS PROTETORRJPETR√ďPOLISPSC  2.560
CHANDELLY PROTETORSPVOTUPORANGAPODE  2.521
CECI PROTETORAMGMONTES CLAROSPP  1.786
SIDICLEY PROTETOR DE ANIMAISMGMONTE CARMELOPSD  1.621
DAIA PROTETORAMGLAVRASPSD  1.508
VANDERLEI PROTETOR DOS ANIMAISMGCONGONHASMDB  1.481
TATIANE LOPES PROTETORASPLIMEIRAPODE  1.472
ALESSANDRA PROTETORA ANIMAISSPPIRACICABAREPUBLICANOS  1.459
JORDAN PROTETORRSCACHOEIRINHAPDT  1.330
SANDRO DO PROTE√á√ÉOPRFAZENDA RIO GRANDEPROS  1.241
NILCE PROTETORA DOS ANIMAISSPOURINHOSPSD  1.122
TELMA PROTETORASPCA√áAPAVAPSD  1.108
ALEXANDRA ANDRADE PROTETORASPGUARATINGUET√ĀPL  1.075
C√ČSAR ROCHA PROTE√á√ÉO ANIMALSPVALINHOSDC  1.032
DEBORA DAU PROTETORAMGARAGUARIPSC  1.009
JANA PROTETORASPAMPAROPDT     730
ARLENE PROTE√á√ÉO ANIMALRSFARROUPILHAPP     669
SIMONE PROTETORA DOS ANIMAISMGLUZPP     621
ZELIA PROTETORA DOS ANIMAISSPAM√ČRICO BRASILIENSEPL     618
MARA PROTETORA DE ANIMAISMGS√ÉO JO√ÉO DEL REIPSC     609
DIEGO PROTETORSPTREMEMB√ČPL     608
JILMARA KIRINO PROTETORASPPO√ĀAVANTE     554
PROTETORA ROSE STORARISPSERRANAMDB     551
REGIANE PROTETORASPSANTA ISABELPODE     539
CLAUDIA PROTETORA DOS ANIMAISSPDOURADOPTB     474
KEILA PROTETORASPIGARA√áU DO TIET√äPSL     459
MARISA PROTETORA DOS ANIMAISSPBARRINHAPL     411
LILIAN PROTETORASPCEDRALMDB     360
JOISIANY  CEBER PROTETORASPTUPI PAULISTADEM     308
JANAINA PROTETORASPQUELUZPL     286
CANDINHA PROTETORA DE ANIMAISSPNOVA GRANADAREPUBLICANOS     277
MARILZA PROTETORA DOS ANIMAISPRPRIMEIRO DE MAIOPSD     266
THAYNARA PROTETORASPS√ÉO BENTO DO SAPUCA√ćPSL     254
ANGELA PROTETORASPCACHOEIRA PAULISTAMDB     250
SIRLEI PROTETORASPNEVES PAULISTAPSD     220
Fonte dos dados: Tribunal Superior Eleitoral / Amostragem com candidatos que usam a alcunha de protetor(a) na urna / Separa√ß√£o no espectro pol√≠tico elaborada por Saber Animal a partir de informa√ß√Ķes do site Congresso em Foco
Fonte dos dados: Tribunal Superior Eleitoral / Amostragem com candidatos que usam a alcunha de protetor(a) na urna
Fonte dos dados: Tribunal Superior Eleitoral / Amostragem com candidatos que usam a alcunha de protetor(a) na urnaR

O PROTETOR MAIS VOTADO: GELEIA PROTETOR

Curiosamente, o candidato mais bem votado entre o que carregavam a alcunha de protetor(a) nas urnas contraria os tr√™s pontos do perfil b√°sico que tra√ßamos antes das elei√ß√Ķes: ele √© homem, preto e est√° num partido de centro. GELEIA PROTETOR (Vlademir Jo√£o Carlos Galdino), na cidade de Guarulhos (SP), aparentemente n√£o indica ter tradi√ß√£o na √°rea de prote√ß√£o de c√£es e gatos na cidade em que foi eleito conforme foi poss√≠vel verificar em seu perfil no Instagram e Facebook.

Apesar de j√° ter se candidato em 2016, apenas como Geleia (sem o protetor no nome de urna), conforme √© poss√≠vel verificar pelo apoio que recebeu do exdeputado federal Ricardo Tripoli, na mesma cidade de Guarulhos, n√£o me deparei com qualquer outro registro de suas a√ß√Ķes desde √†quela √©poca at√© o in√≠cio da nova campanha. Ser protetor de longa data seria algo que poderia ter lhe dado natural notoriedade e teria justificado sua expressiva vota√ß√£o: foram 5.834 votos, sendo o d√©cimo mais votado em sua cidade.

Mas parece que bastou para ele, al√©m de ter tido novamente o apoio de Ricardo Tripoli e do Roberto Tripoli este ano, apelar ao expediente que apontei como uma forma de corrup√ß√£o da causa animal no texto anterior que escrevi antes do pleito: aquelas idas √†s periferias para abordar pessoas que s√£o denunciadas por maus-tratos de animais bem ao estilo do jornalismo policial sensacionalista e que proporciona verdadeiras sess√Ķes de linchamento moral (flertando com o linchamento f√≠sico), bastaram para convencer o eleitorado guarulhense dessa vez.

Atualização 01/06/21: O vídeo (ID 1652015598287243) da campanha do então candidato a vereador Geleia Protetor, ao qual me refiro no parágrafo acima, está indisponível em seu Facebook.

Isto me leva a crer que ele seguiu a cartilha da extrema-direita na produ√ß√£o do material para a campanha e sua acolhida num partido como o PSDB de hoje (o de Jo√£o Doria e companhia), que est√° muito mais pr√≥ximo da direita (e extrema-direita) do que do centro-esquerda como j√° esteve no passado, exp√Ķe as √°reas cinzentas das demarca√ß√Ķes ideol√≥gicas dos partidos pol√≠ticos brasileiros e da nossa pr√≥pria pesquisa que se limitou a indicar se o candidato se filiou a um partido de direita, esquerda ou centro.

O eleitor quando abre m√£o de pesquisar ativamente em sua cidade e se deixa levar apenas por conte√ļdos compartilhados por terceiros em redes sociais n√£o consegue ter uma vis√£o clara do complexo cen√°rio pol√≠tico (e de crise de representatividade) em que estamos e isso facilita demasiadamente a√ß√Ķes das mais diversas, entre elas as de car√°ter populista.

Apesar de eleito, até o momento da finalização deste texto, a candidatura de Geleia Protetor continua aguardando julgamento pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral) para ser totalmente validada.

UM CLÃ CHAMADO TRIPOLI

E por falar em Ricardo Tripoli (PSDB), dois de seus familiares se candidataram em São Paulo, capital, e conseguiram se eleger. O clã, que também conta com Giovanna Tripoli (candidata derrotada à deputada estadual pelo PSDB em 2018, mas também com expressiva votação: mais de 40 mil votos), contou com Roberto Tripoli (PV) e Xexéu (Reginaldo) Tripoli (PV). Ambos se elegeram vereadores com 46.219 e 30.495 votos, respectivamente.

Saiba mais: COMO FICA A DEFESA DOS DIREITOS ANIMAIS EM ANO DE ELEIÇÃO?, por Vanice Cestari

A proteção de cães e gatos em São Paulo segue em alta para o eleitorado. Infelizmente não me deparei com alguma pesquisa que esclarecesse o interesse da população pela causa. Mas tendo em vista o sucesso de celebridades que atuam com salvamentos e a linha punitivista, não é de se estranhar que um caldo de desejo por punição e resgates formem o interesse do eleitorado que sente aflição com o sofrimento de cães e gatos nas ruas, com criadores, acumuladores ou até mesmo tutores.

Sofrimento apenas de c√£es e gatos em determinadas situa√ß√Ķes, que fique claro, pois os outros animais, em especial os destinados ao consumo como alimento, n√£o s√£o do interesse da popula√ß√£o que, inclusive, h√° n√£o muito tempo, recha√ßou a ideia da segunda-feira sem carne em reparti√ß√Ķes p√ļblicas do Projeto de Lei do ex-deputado estadual (SP) Feliciano Filho (PATRIOTA) em 2018. Feliciano tamb√©m tentou emplacar o fim do uso de animais vivos em pesquisas pelas universidades do Estado de S√£o Paulo (USP, UNIFESP e UNICAMP). Ambos os projetos, mesmo com a aprova√ß√£o de seus pares deputados, foram vetados pelo ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB), um aliado e representante hist√≥rico do agroneg√≥cio paulista.

A SEGUNDA MAIS VOTADA: A PROTETORA CAROL DEDONATTI

Já a segunda posição de protetora mais votada, esta sim ocupada por uma candidata que atende ao perfil básico da nossa pesquisa, está nas mãos de uma mulher, branca e filiada a um partido de direita. A PROTETORA CAROL DEDONATTI (Carolina Dedonatti), do PP, em Foz do Iguaçu (PR), foi, inclusive, a candidata mais votada de sua cidade! Pelo menos em seu perfil no Facebook e Instagram foi possível verificar que ela tem algum tipo de engajamento relacionado com a proteção de cães e gatos, compartilhando imagens desses animais não humanos que precisam de auxílio para o custeio de gastos veterinários, além de promover eventos relacionados (adoção e arrecadação).

Em algumas de suas postagens se nota um tom agressivo quando diante de eventos que envolvem maus-tratos. A linha punitivista parece ser a preferencial dos protetores, especialmente daqueles alinhados à direita e à extrema-direita.

A Protetora Carol Dedonatti tamb√©m contou com a indica√ß√£o de um pol√≠tico ligado √† prote√ß√£o de c√£es e gatos: o deputado estadual de S√£o Paulo, Bruno Lima (PSL), em uma postagem em seu canal, ele aparece recomendando a ent√£o candidata. Na mesma imagem √© poss√≠vel ver uma longa lista com nomes de outros candidatos para o qual ele gravou um v√≠deo similar de recomenda√ß√£o de voto. Todos eles, possivelmente, tamb√©m ligados √† prote√ß√£o de c√£es e gatos e alinhados com a linha punitivista do pr√≥prio deputado que tem como bandeira permanente a pris√£o para agressores e abusadores. Tal postura se refletiu em √Ęmbito federal com a san√ß√£o da lei Sans√£o conforme j√° abordamos em outro momento aqui no Saber Animal. Ela tamb√©m recebeu o apoio de outro deputado que tem seu nome ligado √† prote√ß√£o de c√£es e gatos, o deputado federal Ricardo Izar (PP).

Saiba mais: DA S√ČRIE PROJETOS DE LEIS CAPENGAS, por Vanice Cestari

Saiba mais: CARTA ABERTA, por Vanice Cestari

Agora, um candidato do PSL pedindo voto para candidata do PP n√£o parece algo t√£o estranho, afinal, ambos os partidos est√£o no campo da direita e, coincidentemente, os dois partidos j√° abrigaram o presidente Jair Bolsonaro que atualmente est√° sem partido algum (ele fracassou na tentativa de criar seu pr√≥prio partido em tempo para as elei√ß√Ķes municipais). Conta tamb√©m o fato que, no Brasil, os partidos se arranjam em coliga√ß√Ķes em cada munic√≠pio e tamb√©m n√£o √© nada muito estranho ver partidos de direita, centro e esquerda apoiando uma mesma chapa para prefeito‚Ķ Foi o caso, por exemplo, da candidata eleita JANA PROTETORA (Janaina Pereira de Oliveira), na cidade de Amparo (SP), que mesmo estando no PDT, um partido de esquerda, recebeu apoio do deputado paulista Bruno Lima, que est√° num partido de direita (ou extrema-direita).

Apenas Jana e JORDAN PROTETOR (Jordan Maurício Silva da Silva), também no PDT, na cidade de Cachoeirinha (RS), foram protetores eleitos estando num partido de esquerda. Eram 64 (25%), dos 259 candidatos(as) com o nome de protetor na urna, que também estavam em partidos de esquerda na disputa. Apenas 5% dos eleitos estão em um partido de esquerda, pois os demais estão na direita (77%) e no centro (18%). E como já disse e vale dizer novamente, mesmo estando em partidos com orientação de esquerda, direita ou centro, os(as) candidatos(as) não necessariamente têm a mesma ideologia.

A TERCEIRA MAIS VOTADA: KATIA FRANCO PROTETORA

A toada é a mesma, a candidata eleita na cidade de Juiz de Fora (MG) também recebeu apoio de um político já ligado à proteção de cães e gatos. O deputado estadual Noraldino Junior (PSC), eleito por Minas Gerais, aparece com KATIA FRANCO PROTETORA (Katia Aparecida Franco), do mesmo partido, agradecendo os votos dados a ela, uma candidata de sua confiança.

Me pareceu uma mensagem padr√£o e a presen√ßa de mais um deputado em cena pode indicar que h√° uma busca pela forma√ß√£o de uma base de apoio para as pr√≥ximas investidas desses deputados nas elei√ß√Ķes que est√£o por vir para mais um mandato, afinal estamos falando de pol√≠ticos profissionais e n√£o aventureiros. A prote√ß√£o de c√£es e gatos vai se consolidando como uma forma, principalmente, de assegurar votos nos √Ęmbitos municipal, estadual e federal dentro de uma articula√ß√£o muito bem orquestrada.

Mas uma coisa me chamou a atenção em relação a candidata eleita Katia Franco em relação aos outros dois primeiros protetores mais votados: ela parece demonstrar interesse pelo veganismo e em suas postagens no Facebook foi possível se deparar não apenas com receitas de pratos veganos, mas com uma lamentação, por exemplo, com porcos sendo transportados vivos para um matadouro.

Esse sentimento, se fosse expresso tamb√©m pelos outros dois candidatos mais votados, n√£o encontraria acolhida nos deputados apoiadores, sobretudo pelo que se tem not√≠cia que os atuais deputados (estaduais e federais) ligados √† prote√ß√£o de c√£es e gatos n√£o t√™m o veganismo como uma de suas bandeiras. √Č por isso que n√£o d√° para falar de ‚Äúdeputados da causa animal‚ÄĚ e o correto √© indic√°-los como ligados apenas √† prote√ß√£o de c√£es e gatos v√≠timas de maus-tratos nas ruas e resid√™ncias, porque eles, como a maioria dos vereadores eleitos, quando muito t√™m olhos basicamente para esses animais e em certas condi√ß√Ķes.

Outro ponto a se destacar √© que as personalidades dos(as) eleitos(as) √© complexa e com nuances que, do ponto de vista humanista, n√£o podem ser ignoradas dada suas implic√Ęncias para as pessoas envolvidas e tamb√©m para os animais. Katia Franco diz que a sua atividade na prote√ß√£o a ajudou a sair da depress√£o. A situa√ß√£o da depress√£o √© grave e atinge a milhares de pessoas sem que elas busquem tratamento adequado. N√£o posso afirmar que este √© o caso da candidata eleita, mas n√£o √© uma situa√ß√£o de todo incomum e que √†s vezes resultado em casos de pessoas que alegam serem protetoras ao inv√©s de apenas acumuladoras.

A falta de pol√≠ticas p√ļblicas que ajudem protetores(as) a lidarem com seus dilemas pessoais (depress√£o e outros eventuais problemas) torna suas vidas ainda mais penosa e, consequentemente, a dos animais que funcionam como v√°lvula de escape. A prote√ß√£o de animais √© um peso demasiadamente grande para se carregar sem apoio e n√£o √© raro ver, principalmente mulheres, agindo de modo totalmente isolado. E, infelizmente, at√© mesmo isto tem sido usado dentro de certas narrativas pol√≠ticas para se obter votos.

UM DOS MAIS VOTADOS NA CIDADE DE SÃO PAULO: FELIPE BECARI

Nas cidades brasileiras tivemos, claro, outros candidatos que aderiram à proteção e que mesmo sem usar a alcunha conseguiram se eleger. Novamente, não temos meios de saber quais foram todos esses candidatos, pois se fosse possível tal identificação teríamos uma amostragem maior e melhor. Mas vale falar de um exemplo que, em parte, foge um pouco do perfil básico, mas que chamou muita atenção pela expressiva votação que recebeu no maior colégio eleitoral do país, São Paulo.

O candidato eleito é um homem, branco e de direita. Trata-se de Felipe Becari (PSD), que usou como nome de urna o seu próprio nome, sem apelar a seu cargo na Polícia Civil ou ao seu alegado interesse por cães e gatos. Sua candidatura na cidade de São Paulo amealhou quase 100 mil votos, tendo sido o quarto mais votado. Uma votação que chegou próxima a de um experiente e tarimbado político como Eduardo Suplicy (PT), o mais votado na cidade com mais de 160 mil votos.

Sua r√°pida ascens√£o n√£o tem elo com quest√Ķes pol√≠ticas ou mesmo partid√°rias, pois ela surge praticamente do nada sendo explorada em suas redes sociais desde 2019 (Instagram). Investigador da Pol√≠cia Civil do Estado de S√£o Paulo, Felipe Becari seguiu fielmente os passos do j√° citado deputado estadual Bruno Lima (PSL) que h√° dois anos conseguiu se eleger com um pouco mais de cem mil votos em uma elei√ß√£o disputad√≠ssima que contou com a participa√ß√£o de Janaina Paschoal (com mais de 2 milh√Ķes de votos), personagem de destaque no impeachment de Dilma Rousseff em 2016.

Vídeo com entrevista de Felipe Becari para o canal E aí, bicho?

Ambos (Felipe Becari e Bruno Lima) usaram as redes sociais de modo estrat√©gico para exibir suas a√ß√Ķes, na condi√ß√£o de policiais, ou seja, enquanto prestavam servi√ßos ao Estado, e conseguiram assim, atrav√©s delas, conquistar milhares de seguidores (principalmente seguidoras) que depois, em parte, se tornaram tamb√©m suas eleitoras.

√Č a nova din√Ęmica das elei√ß√Ķes no Brasil: o uso intenso de redes sociais permite a intera√ß√£o direta com o eleitorado sem qualquer tipo de filtro cr√≠tico. O conte√ļdo nas redes sociais, quando bem trabalhado (inclusive aquele assessorado por uma ag√™ncia especializada), permite um maior alcance e, consequentemente, um maior envolvimento com os seguidores que tornar√£o os conte√ļdos ainda mais vis√≠veis. A arquitetura pr√≥pria das redes sociais explora justamente o lado emocional das pessoas fazendo com o que o engajamento nas redes seja criado atrav√©s de conte√ļdos que geram fortes emo√ß√Ķes. O √≥dio, assim como a raiva, vingan√ßa e o desejo por justi√ßamento, √© fundamental nesse arranjo e ele √© direcionado aos praticantes de maus-tratos sempre que vemos imagens de c√£es e gatos feridos por abusadores.

N√£o deixa de ser interessante notar que tanto Bruno Lima, quanto Felipe Becari, ainda colhem frutos da onda de 2013, pois eles n√£o discutem necessariamente pol√≠ticas p√ļblicas em suas postagens – o primeiro nas campanhas que apoiou e o segundo na campanha que fez. Todas as demais quest√Ķes envolvidas com a prote√ß√£o de c√£es e gatos ficam ausentes no discurso de ambos: as castra√ß√Ķes, a guarda respons√°vel, a responsabilidade das autoridades, os abrigos, a venda de animais, os criadores etc praticamente nem s√£o elencados, muito menos debatidos.

N√£o que a atividade deles no √Ęmbito da prote√ß√£o de c√£es e gatos tenha sido de todo ruim ou mesmo sem sentido, pois h√° crimes vitimando animais n√£o humanos e h√° pouco ou quase nenhum interesse nisso por parte das pol√≠cias (e demais autoridades dos estados e dos munic√≠pios), mas eles como legisladores n√£o mais s√≥ resgatar√£o animais ou dar√£o voz de pris√£o aos criminosos na condi√ß√£o de deputado ou vereador.

Ao mesmo tempo em que o deputado Bruno Lima e o candidato √† vereador, eleito, Felipe Becari dizem se importar com c√£es e gatos, eles tamb√©m indicam que se despontam como defensores de interesses corporativistas (no caso o dos policiais civis). Bruno Lima tem, inclusive, outros interesses: esportes, educa√ß√£o e, claro, seguran√ßa p√ļblica. De algum modo, entre 20 Projetos de Lei que ele √© autor ou participa com outros deputados na ALESP (Assembleia Legislativa do Estado de S√£o Paulo), apenas cinco deles tem rela√ß√£o direta com animais n√£o humanos.

Desde 2013, com as jornadas de Junho arrebatadas pela direita e pela extrema-direita, politizar algo ou uma discussão é visto como negativo e indesejável por parte do eleitorado que tem demonstrado aversão aos partidos políticos. Daí o paradoxo: despolitizar-se como candidato político (principalmente quando se está à direita ou principalmente à extrema-direita) se tornou crucial para vir a ser um político eleito e que terá, a exemplo do deputado Bruno Lima, que fazer política para ter seus projetos aprovados por seus pares.

Outro ponto igualmente crucial é que aqueles candidatos que concentraram uma expressiva votação em São Paulo (na Capital e no Estado) indicam que a proteção de animais está sendo vista como um problema de polícia (a ser resolvido principalmente pela polícia) e sendo quase que exclusivamente abordada por essa perspectiva. Mimetiza-se, de certa forma, a famigerada guerra às drogas fazendo uma pequena guerra aos maus-tratos. O resultado já dá para adiantar: abordagens nas periferias, população pobre e preta humilhada e detida como sempre. Como se vê o eleitorado ainda espera, especialmente na figura do policial valentão pronto para a briga, a solução para problemas de toda ordem.

Mesmo a causa animal (n√£o apenas a de prote√ß√£o de c√£es e gatos) sendo um movimento social pouco expressivo no Brasil, ela tamb√©m nos ajuda a perceber que o bolsonarismo, ao contr√°rio do que se imaginava com os resultados obtidos nas elei√ß√Ķes de 2020, n√£o est√° necessariamente perdendo for√ßa, ao contr√°rio, pois considerando a maioria esmagadora de candidatos eleitos sendo de direita e as expressivas vota√ß√Ķes em figuras populares (e populistas) alinhadas ao presidente Bolsonaro, n√£o h√° ind√≠cio de que os cidad√£os est√£o dispostos a ter uma vis√£o que n√£o a punitivista contra quem pratica maus-tratos com c√£es e gatos.

Tamb√©m n√£o h√° sinal no horizonte de eleitos(as) e eleitores que se sensibilizem com os diversos usos de c√£es, gatos e outros tantos animais n√£o humanos pelos diversos segmentos econ√īmicos da nossa sociedade: a pesquisa cient√≠fica, a alimenta√ß√£o, a moda e o vestu√°rio etc. Os mercadores da morte contam ainda com uma grande ajuda da sociedade e dos pol√≠ticos e, √†s vezes, eles d√£o uma pequena ajuda aqui e ali, mas apenas para c√£es e gatos em determinados contextos, que fique bem claro!

AS ESQUERDAS SEGUINDO AS PEGADAS DA DIREITA E DA EXTREMA-DIREITA

Infelizmente at√© mesmo o candidato a prefeito de S√£o Paulo, que disputar√° o 2¬ļ turno (29/11), Guilherme Boulos (PSOL), ao se aproximar da quest√£o, foi levado a pensar da mesma forma que candidatos de direita e de extrema-direita, vendo na prote√ß√£o de c√£es e gatos o maior problema da causa animal. Assessorado por ONGs e ativistas que representam uma min√ļscula fra√ß√£o do ativismo da causa animal, o candidato indica que criar√° uma Secretaria de Defesa dos Direitos dos Animais e firma em pe√ßa publicit√°ria que ‚Äúchega de maus-tratos‚ÄĚ.

A cria√ß√£o de uma secretaria √© um passo importante na defesa dos animais (todos eles e n√£o apenas c√£es e gatos), pois indica claramente uma preocupa√ß√£o espec√≠fica do governante, mas tamb√©m sabemos que secretarias podem ser aparelhadas por militantes e ativistas que veem nas elei√ß√Ķes tamb√©m uma oportunidade de conseguir uma renda. Os animais n√£o humanos e a causa animal propriamente dita podem acabar ficando em segundo plano dentro da burocracia que existe num √≥rg√£o de governo e suas naturais disputas pol√≠ticas.

Vídeo da campanha de Guilherme Boulos

A preocupa√ß√£o com c√£es e gatos nas grandes cidades √© leg√≠tima, pois sabemos que eles sofrem horrores com o abandono ou mesmo com as a√ß√Ķes de acumuladores que agem como protetores, mas se essa for a √ļnica preocupa√ß√£o, ela de certa forma legitimar√° as a√ß√Ķes da direita e da extrema-direita que veem na ‚Äúguerra aos maus-tratos‚ÄĚ a sua principal bandeira. As esquerdas precisam encarar os maus-tratos n√£o pela √≥tica punitivista e n√£o se limitar a apenas isso.

Ainda voltando aos candidatos eleitos em S√£o Paulo, outro ligado √† prote√ß√£o que contou com boa vota√ß√£o (26.748 votos), e √© de esquerda, Toninho Vespoli (PSOL) tem pautas similares aos seus pares √† direita (Felipe Becari, Roberto e Xexeu Tripoli e Rodrigo Goulart) seguindo o mesmo caminho da prote√ß√£o de c√£es e gatos e sem atacar demais problemas da causa animal que, insisto, √© ampla e complexa. √Č preciso fazer oposi√ß√£o ao uso de animais em experimentos cient√≠ficos, oposi√ß√£o √† ca√ßa, oposi√ß√£o ao consumo de animais como alimento, oposi√ß√£o ao uso de animais para transporte e trabalho no campo, oposi√ß√£o ao uso de animais como divers√£o e esporte, oposi√ß√£o √† destrui√ß√£o dos habitats dos animais selvagens, oposi√ß√£o ao com√©rcio de animais, etc.

Em suma, falta às esquerdas um posicionamento abolicionista e vegano perante a causa animal, pois a regulamentação / exploração tem sido do interesse da direita.

Os vereadores eleitos com a bandeira da prote√ß√£o de c√£es e gatos na capital paulista conquistaram nada menos que 233.651 votos – ou 4% dos votos v√°lidos da cidade inteira! Eleitorado que definitivamente faz brilhar os olhos de qualquer candidato a vereador, prefeito e deputado (estadual e federal) e at√© de governador e presidente. Valores similares talvez sejam encontrados em outras cidades e tudo somado d√° uma medida das raz√Ķes para haver tantos candidatos com essa bandeira e o qu√£o acirrada tende a ser a disputa por esses votos nas pr√≥ximas elei√ß√Ķes.

A inusitada live, às vésperas da votação no segundo turno, com Guilherme Boulos e Luisa Mell (uma popular celebridade ligada à proteção de cães e gatos) são um sinal que apenas reforça essa avaliação, pois reuniu um candidato de esquerda e uma personalidade mais ligada à direita.

‚ÄúPIOR DO QUE T√Ā N√ÉO FICA‚ÄĚ?

Apesar do posicionamento, sempre √† esquerda, do Saber Animal, n√£o foi poss√≠vel identificar nessas diversas correntes que disputavam as elei√ß√Ķes de 2020 uma que estivesse realmente ligada √† causa animal e n√£o apenas √† prote√ß√£o de c√£es e gatos.

N√£o conseguimos, pessoalmente, nos sentir representados por nenhuma delas nesse aspecto. Faltou, de um modo geral, sensibilidade aos candidatos de esquerda com a causa animal que √© totalmente compat√≠vel com algumas outras bandeiras que eles j√° sustentam: combate ao racismo, √† homofobia e ao sexismo, por exemplo. Quem apoia os direitos humanos pode tranquilamente tamb√©m adotar uma postura antiespecista, pois as duas quest√Ķes s√£o convergentes.

Em São Paulo, vale voltar a falar dessa cidade que é um bom referencial para o que pode ocorrer no resto do país, tivemos cinco candidatos eleitos ligados à proteção de cães e gatos. Todos eles são homens, brancos e quase todos de direita (exceção apenas para Toninho Vespoli).

Ao t√©rmino dessas elei√ß√Ķes, um tanto menos conturbadas que as de 2018 que representaram a chegada da extrema-direita at√© o cargo m√°ximo, resta saber se poderemos contar com um futuro diferente em 2022. Mas pela breve amostra que pude analisar e levando em conta alguns arranjos pol√≠ticos e algumas expressivas vota√ß√Ķes, aquela m√°xima do deputado Tiririca (PL) poder√° ser novamente subvertida, inclusive na causa animal.

Saiba mais: PODCAST SABER ANIMAL #008 ‚Äď OS ANIMAIS NO JOGO POL√ćTICO