ūüó≥ÔłŹ A corrup√ß√£o da causa animal

O Presidente Jair Bolsonaro sanciona a Lei 14.064/20

Ao ouvir ou ler a palavra corrup√ß√£o, provavelmente a primeira coisa que vem √† mente √© desvio de dinheiro p√ļblico. Aquelas cenas cl√°ssicas de milhares de reais sendo apreendidos pela pol√≠cia, os carr√Ķes de luxo sendo guinchados de mans√Ķes que indicam um elevado padr√£o de vida etc. Pois bem, num pa√≠s em que isso ocorre tantas e tantas vezes nas mais variadas inst√Ęncias de poder pol√≠tico e financeiro, seja na figura de agentes p√ļblicos ou privados, pode ser normal que assim seja.

Mas a palavra corrup√ß√£o n√£o se limita a isso. √Č uma coisa quase antiquada, eu sei, mas vamos ao dicion√°rio. Existem muitos dicion√°rios diferentes, ent√£o, vou escolher um, o Houaiss, para identificar as acep√ß√Ķes (palavras podem ter diversos significados) da palavra corrup√ß√£o para avan√ßarmos nesta discuss√£o que o Saber Animal vem tratando j√° h√° algum tempo de formas variadas:

CORRUPÇÃO (1344 cf. IVPM)

substantivo feminino

ato, processo ou efeito de corromper(-se)

1 deteriora√ß√£o, decomposi√ß√£o f√≠sica, org√Ęnica de algo; putrefa√ß√£o ‚ÄĻc. dos alimentos‚Äļ

2 modifica√ß√£o, adultera√ß√£o das caracter√≠sticas originais de algo ‚ÄĻc. de um texto‚Äļ

3 fig. depravação de hábitos, costumes etc.; devassidão

4 ato ou efeito de subornar uma ou mais pessoas em causa pr√≥pria ou alheia, ger. com oferecimento de dinheiro; suborno ‚ÄĻusou a c. para aprovar seu projeto entre os membros do partido‚Äļ

5 emprego, por parte de grupo de pessoas de servi√ßo p√ļblico e/ou particular, de meios ilegais para, em benef√≠cio pr√≥prio, apropriar-se de informa√ß√Ķes privilegiadas, ger. acarretando crime de lesa-p√°tria ‚ÄĻ√© grande a c. no pa√≠s‚Äļ

6 jur disposi√ß√£o apresentada por funcion√°rio p√ļblico de agir em interesse pr√≥prio ou de outrem, n√£o cumprindo com suas fun√ß√Ķes, prejudicando o andamento do trabalho etc.; prevarica√ß√£o

Viram? Apenas na quarta acep√ß√£o temos algo que √© aquilo que imaginamos ser o mais comum em nossa sociedade. Sim, a corrup√ß√£o acontece em larga medida. Depois do monstro da infla√ß√£o que tomou conta do nosso imagin√°rio nos anos 80 e in√≠cio dos 90 do s√©culo passado, o monstro da corrup√ß√£o assumiu o seu lugar de modo acachapante. Os problemas dos brasileiros, ent√£o, podem ser basicamente resumidos em uma √ļnica palavra: corrup√ß√£o.

S√≥ n√£o √© t√£o simples assim‚Ķ Na verdade, trata-se de uma narrativa, como tantas outras, que predomina na imprensa, nas novelas, nas rodas de conversa, por ter sido este o inimigo escolhido (pelas elites que controlam o pa√≠s) para nos ocuparmos disso. Cada √©poca tem o seu vil√£o. As emerg√™ncias clim√°ticas, por exemplo, nunca pintaram por aqui (a despeito da ECO-92) com essa mesma for√ßa que a corrup√ß√£o tem, para ficar num √ļnico exemplo, e vejam o estrago que elas (as emerg√™ncias clim√°ticas) est√£o fazendo, ceifando vidas humanas e n√£o humanas de forma cada vez mais acelerada em inc√™ndios, inunda√ß√Ķes, secas e toda sorte de desequil√≠brio nos mais diversos ecossistemas.

As primeiras acep√ß√Ķes da palavra corrup√ß√£o tem mais rela√ß√£o com aquilo que quero destacar com esse texto. Em especial a segunda, que indica que algo original foi adulterado, no caso, a causa animal e, em certa medida, tamb√©m o veganismo:

2 modifica√ß√£o, adultera√ß√£o das caracter√≠sticas originais de algo ‚ÄĻc. de um texto‚Äļ

A causa animal √© internacionalmente reconhecida. Ela basicamente combate a explora√ß√£o animal que se d√° das mais variadas formas e tem forte car√°ter emotivo, pois envolve as vidas de pessoas n√£o humanas que s√£o exploradas e tiradas literalmente aos bilh√Ķes todos os anos em todo o planeta. Ver animais sendo abatidos ou torturados para a satisfa√ß√£o dos caprichos humanos deixa muitos completamente destro√ßados emocional e psiquicamente. √Č no ativismo que justamente muitos encontram for√ßas para seguir em frente depois de tomarem conhecimento das atrocidades que fazemos com as outras esp√©cies.

A causa animal, portanto, cobra um alto preço de seus adeptos: ver ou testemunhar tanto sofrimento é algo que deixa marcas profundas em todos nós.

Ativistas da causa animal, al√©m de pressionar a sociedade por mudan√ßas, tamb√©m buscam nos pol√≠ticos e nos candidatos (nossos representantes dentro do sistema democr√°tico) alguma forma de di√°logo para que pautas relevantes √† causa animal sejam levadas a s√©rio e se convertam, quando for o caso, em uma lei ou em a√ß√Ķes por parte do Poder Executivo. Ora, eis que muitos notaram, ent√£o, que existe um eleitorado que estava sendo quase que praticamente ignorado e que seus votos poderiam ser angariados caso a causa animal encontrasse eco no Senado, no Congresso, nas C√Ęmaras Municipais‚Ķ

Dito e feito! O que estamos testemunhando agora em 2020 é uma verdadeira onda de pessoas aderindo à causa animal das mais variadas formas. E já que é assim, listo dez pontos que devem ajudá-lo(a) a se orientar e ver as vantagens e desvantagens desse contexto. Vamos lá!

1. O linchamento Aqui e Agora

N√£o √© t√£o dif√≠cil assim encontrar v√≠deos na internet em que ditos protetores de animais interpelam supostos agressores de forma violenta e que beiram o linchamento. Eles gritam, cercam, chamam para a briga, exp√Ķem as pessoas e seus endere√ßos na internet‚Ķ Uma devassa completa! A viol√™ncia s√≥ tem limite com a chegada da pol√≠cia em muitos dos casos. O espet√°culo n√£o tem rela√ß√£o com a seguran√ßa e prote√ß√£o dos animais: ele serve apenas de material para marketing pol√≠tico, quando essas figuras, que lan√ßam m√£o desse tipo de artif√≠cio, v√£o explorar esse material para angariar votos.

Essa postura autorit√°ria (e que √†s vezes se personifica numa autoridade!), que exige uma satisfa√ß√£o imediata ap√≥s uma s√©rie de amea√ßas, sempre esteve no gosto do eleitorado reacion√°rio do pa√≠s que, quero crer, n√£o √© a maioria nesta na√ß√£o. Emula-se, isto √©, imita-se tamb√©m o formato de telejornais policiais em que a mis√©ria alheia √© explorada at√© a √ļltima gota – de sangue ou n√£o. Foi assim com o caso do c√£o Manchinha morto por um seguran√ßa de um supermercado, por exemplo. Sua morte tem sido explorada exatamente nesse sentido.

Tamb√©m n√£o √© poss√≠vel verificar se o n√ļmero desse tipo espec√≠fico de agressores de c√£es e gatos em ambiente dom√©stico ou em estado de abandono seja t√£o elevado assim sem algum estudo s√©rio sobre o tema. O mais prov√°vel √© que esses agressores de animais configurem uma minoria dentro da sociedade. O espet√°culo armado por esses candidatos, e at√© por pol√≠ticos j√° eleitos, d√° uma outra dimens√£o a esses casos durante essas abordagens sensacionalistas.

Daí que o ódio e desejo de morte para humanos agressores de animais não humanos é uma forma de corrupção da causa animal.

2. Levantando peso e votos

Quest√Ķes insepar√°veis! Manifestante no dia do “ELE N√ÉO” em 2018, √†s v√©speras das elei√ß√Ķes que, infelizmente, elegeriam Jair Bolsonaro para presidente desta sofrida na√ß√£o / Foto de Fabio Montarroios

Se antes tínhamos as famigeradas mulheres-frutas que davam ênfase da cintura para baixo dos seus corpos na luta por votos, hoje temos muitos candidatos homens que se exibem da cintura para cima, inundando as redes sociais com suas imagens, para conquistar votos de mulheres que se importam com os animais e também se encantam com os candidatos. Vale lembrar que o Fernando Collor de Mello ganhou muitos votos por ter sido considerado bonito à época!

O vazio pol√≠tico em ambos os casos √© o mesmo: se as mulheres-frutas n√£o tinham propostas e queriam apenas serem eleitas, os homens que exibem seus m√ļsculos querem a mesm√≠ssima coisa. A diferen√ßa √© que as mulheres exploravam o interesse dos homens em seus corpos e os homens exploram os animais e os interesses das mulheres em seus corpos. As mulheres-frutas, ora vejam, tinham pelo menos uma vantagem moral sobre os supostos protetores homens da atualidade: n√£o exploravam os animais.

A corrup√ß√£o da causa animal aqui vem na apropria√ß√£o da a√ß√£o de proteger animais resgatando-os de situa√ß√Ķes humilhantes ou degradantes que parte de protetores (os n√£o acumuladores) que buscam a ado√ß√£o dos animais resgatados ou que eles sejam destinados a santu√°rios ou abrigos adequados. Usar o resgate de um animal n√£o humano como material de marketing pol√≠tico √© abjeto‚Ķ

O perfil desse tipo de candidato geralmente é de homem, branco, hétero e de direita que, nitidamente, não cultiva valores compatíveis com a causa animal tais como: o antirrascismo, o antisexismo e o antiespecismo.

3. Farejando populistas

Voc√™ deve se lembrar de um sem n√ļmero de pol√≠ticos que posam para fotos segurando criancinhas. Esse √© um gesto batido, mas s√≠mbolo de que o candidato se importa com o futuro da na√ß√£o, afinal, as crian√ßas v√£o herdar todas as nossas a√ß√Ķes daqui a alguns anos. Situa√ß√£o id√™ntica acontece com os animais: muitos pol√≠ticos seguram cachorros no colo e posam para fotos na busca pela conquista do voto para ingressar no mundo pol√≠tico ou apenas buscam reelei√ß√£o. Os animais, como as crian√ßas, n√£o sabem que vivenciam esse contexto pol√≠tico e n√£o t√™m sa√≠da a n√£o ser posarem ao lado de pessoas interessadas t√£o somente em poder.

Assim como é possível ver milhares de crianças ainda espalhadas pelas ruas das cidades tentando conseguir alguns trocados para sustentarem a si mesmas e suas paupérrimas famílias, também vemos milhares de cães, gatos, cavalos, jumentos abandonados perambulando pelas ruas em busca de comida, abrigo e algum afeto. Se sempre houve a promessa histórica por parte da esquerda brasileira em acabar com esse flagelo das crianças de rua, agora temos a direta e a extrema-direita, historicamente alheia às crianças, se importando, falsamente, com os animais que padecem de cuidados. Não que políticos e candidatos políticos de esquerda também não acenem timidamente à causa animal, mas não é pauta relevante e digna de atenção de suas lideranças.

Nesse sentido, o espet√°culo grotesco da cerim√īnia de san√ß√£o da Lei 14.064/20, que ocorreu no dia 29/9/20, conhecida como Lei Sans√£o, traz √† luz mais um aspecto da corrup√ß√£o da causa animal. O nome da lei √© uma refer√™ncia a um c√£o que teve suas patas traseiras decepadas e que, vejam s√≥, participou tamb√©m da cerim√īnia que sancionou a lei em sua ‚Äúhomenagem‚ÄĚ. C√£es, como sabemos, n√£o precisam desse tipo de coisa‚Ķ Enfim, o que vale notar √© que as falas do Presidente e do Deputado Federal autor do Projeto de Lei se coadunam justamente no esp√≠rito punitivista de ambos.

N√£o sei o Sans√£o vai entender aqui, n√©? Au, au! Quer dizer parab√©ns, Sans√£o. [O Presidente Jair Bolsonaro (sem partido), falando com um c√£o em cerim√īnia oficial no Planalto.]

A inten√ß√£o da Lei √© que autores de maus tratos contra c√£es e gatos, apenas c√£es e gatos mesmo, possam ficar at√© cinco anos na pris√£o se condenados. O Brasil, vale lembrar, √© o pa√≠s com a terceira popula√ß√£o prisional do mundo! Jovens, pretos e pobres constituem a grande maioria dos detidos – milhares a espera de um julgamento. Trata-se t√£o somente de populismo uma lei que visa colocar mais pessoas na cadeia e que ignora as raz√Ķes para que os maus tratos aconte√ßam e que ignora totalmente o sofrimento animal que tamb√©m ocorre na ind√ļstria da carne, na pesquisa dita cient√≠fica (incluindo c√£es e gatos), na ind√ļstria da moda etc.

Todos sabemos que h√° um clamor por parte da sociedade que quer p√īr mais e mais gente nas cadeias mesmo sabendo que elas n√£o resolvem os problemas, na verdade, elas at√© os amplificam – veja o PCC, por exemplo. Esse esp√≠rito reacion√°rio ganhou corpo e volume desde 2016, quando da ascens√£o de um pol√≠tico obscuro e caricato de extrema-direita que faz parte do baix√≠ssimo clero da nossa pol√≠tica partid√°ria.

A bajula√ß√£o para com a Primeira Dama, Michelle Bolsonaro, que chegou a colocar um apelo em suas redes sociais para que o marido presidente sancionasse a lei, foi s√≥ mais uma das diversas cenas pat√©ticas da cerim√īnia. N√£o menos pat√©tico foi uma live do Presidente Jair Bolsonaro que tratou do assunto, vejam s√≥ o simbolismo da coisa, com uma crian√ßa de dez anos sobre se pessoas que agridem animais deveriam passar mais tempo na cadeia.

“D√° para voc√™ entender o que s√£o dois anos de cadeia? D√° para voc√™ entender uma pessoa ficar dois anos atr√°s das grades porque uma pessoa maltratou um cachorro? L√≥gico que temos pena do cachorro, ficamos tristes, a pessoa tem que ter uma puni√ß√£o, mas dois anos‚Ķ Dois a cinco anos? (…) Tr√™s anos de cadeia, em m√©dia, √© pouco ou muito para quem maltrata um cachorro?”, perguntou o presidente √† criancinha. A criancinha respondeu: ‚ÄúEu acho que √© muito pouco, viu? Porque coitados dos animais, gente. A gente tem que cuidar do animal, n√£o tem que maltratar ele‚ÄĚ.

Esta lei já foi esmiuçada por Vanice Cestari em 5/9/20, quase um mês antes, e pode ser plenamente compreendida em um contexto muito mais amplo que o noticiado pela imprensa e ecoado por ativistas e simpáticos à causa animal.

Saiba mais: DA S√ČRIE PROJETOS DE LEIS CAPENGAS, por Vanice Cestari.

O populismo, então, é uma via para a corrupção da causa animal. Fique atento!

4. Plataformas obscuras com listas de candidatos(as)

N√£o chega a ser novidade algo do tipo, mas pintou no cen√°rio um conjunto de sites que indicam quais candidatos(as) s√£o confi√°veis ou n√£o dentro da causa animal. Alguns sites oferecem cartas compromissos para que tais candidatos(as) assinem e n√£o se desviem de suas inten√ß√Ķes iniciais quando buscavam os votos para a primeira elei√ß√£o ou mesmo a reelei√ß√£o.

O que pega nesse ponto não é nem o gesto de ajudar o eleitorado a identificar candidatos do seu interesse, mas de eliminar a etapa de avaliação crítica do candidato que deve ser feita exclusivamente pelo eleitor. Se candidatos são oferecidos e entregues a você com uma espécie de selo de qualidade é altamente recomendável desconfiar!

Cartas compromissos n√£o tem valor legal algum. Elas n√£o orientam vota√ß√Ķes e s√£o puramente simb√≥licas. Temos casos de prefeitos de grandes cidades que assinaram cartas compromissos indicando que ficariam em seus cargos at√© o fim do mandato, mas na primeira possibilidade de participar de uma nova elei√ß√£o eles pulavam fora alegando que havia um clamor popular para que um prefeito se candidatasse a governador, por exemplo.

O pr√≥prio teor da carta compromisso n√£o passa pelo escrut√≠nio da sociedade (e nem mesmo dentro do movimento da causa animal) e podem ter origem obscura, n√£o sendo poss√≠vel identificar seus autores e suas inten√ß√Ķes. A sele√ß√£o dos candidatos e candidatas tamb√©m pode n√£o ser transparente e os crit√©rios para figurar na lista podem ser de qualquer ordem. √Č simplesmente imposs√≠vel saber.

Assinar uma carta, em que ela pr√≥pria pode ser, de largada, uma corrup√ß√£o da causa animal quando prop√Ķe coisas que prejudicam os animais n√£o humanos de qualquer esp√©cie ou quando fazem candidatos a se comprometerem com quest√Ķes fora de suas al√ßadas, n√£o garante que o candidato ser√° honesto e cumprir√° com suas promessas (as condizentes e as poss√≠veis de serem cumpridas, diga-se).

Pesquise ativamente pelo(a) candidato(a), não deixe essa responsabilidade que é sua na mão de outras pessoas que você, provavelmente, nem conhece ou que só conheceu através de redes sociais…

5. O veganismo estratégico na política?

Uma mulher carregando uma sacola com os dizeres “Lutando contra testes em animais” na manifesta√ß√£o “ELE N√ÉO” em 2018 / Foto de Fabio Montarroios

Não poderia deixar de falar de uma espécie de posicionamento que também é muito conhecido e se dá pelo tal veganismo estratégico. Aliás, algo bastante parecido com o toma lá, dá cá que observamos na política nacional.

Esse ‚Äúveganismo‚ÄĚ √© uma corrup√ß√£o do veganismo. √Äs vezes √© dif√≠cil perceber como isso se d√° por conta do jogo de palavras: veganismo √© bom e estrat√©gia √© algo que pode ser bom tamb√©m. Veganismo + estrat√©gia s√≥ pode ser algo que tende a dar certo. Certo? Errado‚Ķ O veganismo estrat√©gico prop√Ķe, entre outras coisas, a suspens√£o do boicote, ferramenta essencial dos ativistas para mobilizar a sociedade e torn√°-la consciente, de marcas que exploram os animais para que se mergulhe de cabe√ßa no consumo de produtos ‚Äúveganos‚ÄĚ com origem em empresas que administram os maiores matadouros do mundo!

Daí que muitos candidatos podem estar se apresentando como veganos e isso, por si só, não é garantia de que eles sejam veganos de fato, pois é impossível saber dos seus hábitos de vida, e ser vegano(a) não significa que essa pessoa se importa com animais (pessoas entram e às vezes saem do veganismo alegando seus motivos diversos). Há veganos e veganas que só se preocupam com a sua própria dieta.

Saiba mais: POR QUE AS “PRINCIPAIS” ONGS “VEGANAS‚ÄĚ E OS ‚ÄúPRINCIPAIS‚ÄĚ ATIVISTAS ‚ÄúVEGANOS‚ÄĚ EST√ÉO TODOS ERRADOS?, por Fabio Montarroios.

Nessas elei√ß√Ķes de 2020 temos pelo menos tr√™s ou quatro candidatos que se declaram como veganos em seus nomes que aparecer√£o na urna. √Č um n√ļmero √≠nfimo e que talvez apenas demonstre o pouco apelo que o veganismo tem na sociedade brasileira ou que, como mote para elei√ß√Ķes municipais, n√£o √© capaz de atrair o eleitorado vegano que talvez esteja mais atento aos candidatos protetores de animais.

6. Desconfie do que chega pelas redes sociais

Manifestantes em 2018 na caminhada pelo “ELE N√ÉO” observam conte√ļdo em aparelho de celular / Foto de Fabio Montarroios

N√ļmeros expressivos de milhares de seguidores em redes sociais, infelizmente, funcionam hoje como uma esp√©cie de selo de qualidade. √Č estranho, mas √© assim mesmo. Basta algu√©m ou alguma empresa ter milhares de seguidores para ela ser mais relevante que outras com menos seguidores.

Conseguir seguidores de modo org√Ęnico, isto √©, sem pagar um centavo pelas postagens ou pelos likes, em redes sociais √© algo que leva tempo (anos) para acontecer e demanda muito empenho e dedica√ß√£o (uso intenso das redes sociais).

Notadamente, muitas p√°ginas surgem e depois de apenas pouco tempo e poucas postagens elas j√° possuem milhares de seguidores. Isto s√≥ √© poss√≠vel de modo artificial (pagando por likes e seguidores √† empresas que prestam esse tipo de servi√ßo atrav√©s de processos automatizados) ou impulsionando. De uma forma ou de outra √© preciso dinheiro para custear essas a√ß√Ķes. P√°ginas de grupos sem identifica√ß√£o clara e que espalham mensagens fofinhas de animais por a√≠ h√° aos montes e muitas delas possuem origem incerta. N√£o √© poss√≠vel saber quem est√° por detr√°s delas. E mesmo quando isso √© poss√≠vel n√£o se sabe como elas s√£o mantidas e financiadas.

√Č um mundo sinistro que contribui de modo acelerado para a corrup√ß√£o da causa animal e da nossa pr√≥pria democracia, transformada muitas vezes em postagens que basicamente desinformam ou manipulam pessoas verdadeiramente interessadas na causa animal ou mesmo no veganismo. O cuidado com essas p√°ginas deve ser o mesmo para p√°ginas que propagam fake news, pois seus m√©todos s√£o similares, quando n√£o os mesmos.

7. Cuidado com candidatos(as) que usam apelidos

Em todo o pa√≠s s√£o 258 candidatos a vereador e 1 a prefeito cadastrados no Tribunal Superior Eleitoral que usam nos nomes que aparecer√£o nas urnas eletr√īnicas no dia da vota√ß√£o em novembro a alcunha de PROTETOR ou PROTETORA.

Obviamente h√° mais candidatos que tamb√©m se identificam ou atuam na causa animal e que n√£o usaram nada que pudesse identific√°-los imediatamente. De todo modo, esta amostragem serve para percebermos que dos 553.380 mil candidatos a vereador e prefeito em todo o pa√≠s, apenas uma min√ļscula fra√ß√£o est√° disposta a atrelar seu mandato de forma mais forte √† causa animal. Eles, provavelmente, representam outros protetores em suas cidades e tentam tamb√©m angariar votos das pessoas que se importam, basicamente, com c√£es e gatos que est√£o abandonados nas ruas.

√Č um n√ļmero relativamente baixo, especialmente pensando que se trata de todo o pa√≠s! Mesmo assim, fica evidente, pelo menos nos Estados de S√£o Paulo e Minas Gerais, que concentram o maior n√ļmero de candidatos com a alcunha de protetor(a), h√° um n√ļmero razo√°vel deles que enxergaram na causa a possibilidade de acesso ao poder legislativo.

Mas √© justamente a√≠ que mora o perigo: como saber se o candidato(a) √©, verdadeiramente, protetor(a)? Ser√° necess√°rio, no m√≠nimo, pesquisar. E mesmo que o resultado da pesquisa seja positivo, ainda ser√° necess√°rio avaliar o que o candidato ou candidata pretende fazer se eleito(a), se ele ou ela sabe quais s√£o as atribui√ß√Ķes de um vereador ou prefeito, se ele tem um passado limpo, qual a sua trajet√≥ria na causa que diz representar etc. E os outros animais que n√£o nasceram c√£es ou gatos?! Esses “n√£o merecem” prote√ß√£o? S√£o alguns fatores que uma breve pesquisa ajuda a elucidar. √Č importante que a pesquisa seja feita pelo nome do(a) candidato(a) e n√£o pelo apelido.

Muitos protetores de animais trabalham e atuam com sinceridade e grande entrega √† causa. Alguns atingem um n√≠vel at√© perigoso de abnega√ß√£o da vida pessoal devido a sua devo√ß√£o aos animais. Mas muitos “protetores” tamb√©m s√£o apenas acumuladores de animais e ao inv√©s de ajud√°-los os prejudicam ainda mais, fazendo os viver em espa√ßos ex√≠guos e sem as m√≠nimas condi√ß√Ķes para uma vida saud√°vel.

Ocorre que eles n√£o promovem a ado√ß√£o da grande maioria desses animais depois que os resgatam, o fazem de modo inadequado por falta de orienta√ß√£o ou falta de condi√ß√Ķes materiais e n√£o conseguem custear os gastos com veterin√°rios, limpeza e alimenta√ß√£o permanentes. Essas pessoas, mesmo que bem intencionadas, precisariam elas pr√≥prias de ajuda social do Estado para poderem se tratar e identificarem o que as levam √† acumula√ß√£o de animais.

Infelizmente, os protetores ao n√£o preservarem a vida dos animais que pretendem ajudar, colocando-os em situa√ß√Ķes degradantes e comumente ignorando a prote√ß√£o as outras tantas esp√©cies de animais, tamb√©m corrompem a causa animal‚Ķ

8. Não existe democracia sem os partidos políticos no Brasil


Manifestantes com cartazes indicando a ausência de partidos políticos em Junho de 2013 na capital paulista / Foto de Fabio Montarroios

Você se lembram um pouco das jornadas de junho em 2013? Provavelmente sim, a depender da sua idade, afinal elas mexeram de tal modo com o país que é praticamente impossível esquecê-las.

Elas n√£o abriram as portas apenas para movimentos golpistas que tomaram forma em 2016, promoveu-se tamb√©m a ideia de que os partidos pol√≠ticos no Brasil s√£o dispens√°veis e que era poss√≠vel seguir sem eles. O grito ‚Äúsem partido‚ÄĚ ecoou pelas ruas e resultou na maior crise de representatividade dos √ļltimos tempos.

√Č mais que evidente que isto √© uma mentira, pois nosso sistema eleitoral s√≥ funciona com os partidos pol√≠ticos. Essa ideia falaciosa de que ‚Äúo meu partido √© o Brasil‚ÄĚ serviu apenas, naquele contexto, para insuflar o antipetismo e alavancar partidos fisiol√≥gicos e nanicos, alguns com pol√≠ticos caricatos como o pr√≥prio Presidente Bolsonaro, que se elegeu pelo inexpressivo PSL, um partido de direita.

O espectro pol√≠tico brasileiro n√£o √© dos mais claros e um mesmo partido, a exemplo do PSL, pode ser visto de formas variadas a depender dos par√Ęmetros que os cientistas pol√≠ticos usam. Pessoalmente, considero o PSL de extrema-direita. Mas para efeito de simplifica√ß√£o ficarei apenas com as designa√ß√Ķes esquerda, centro e direita na an√°lise da amostragem que fa√ßo mais adiante no item 10.

Quando um candidato se apresenta ligado a um partido reconhecidamente vinculado a uma determinada ideologia, isto diz algo sobre ele. Você imagina um bolsonarista filiado ao PSOL? Ou você pode conceber um lulista filiado ao PSDB? Isso não acontece e não aconteceria, pois os próprios partidos não permitiriam…

Saiba mais: ūüéôÔłŹ PODCAST SABER ANIMAL #008 ‚Äď OS ANIMAIS NO JOGO POL√ćTICO

No momento que um candidato escolhe um partido para lan√ßar sua candidatura, ele pode at√© ignorar ou desconhecer os aspectos ideol√≥gicos do partido que escolhe, pois isso tende a ser mais comum em elei√ß√Ķes municipais, que re√ļnem um n√ļmero maior de candidatos e com n√≠veis de escolaridade relativamente baixos, mas n√£o √© poss√≠vel que uma no√ß√£o m√≠nima do que o partido representa n√£o esteja em sua mente no momento da escolha, seja por afinidade ou conveni√™ncia.

Para candidatos de primeira viagem, as quest√Ķes ideol√≥gicas podem nem fazer tanto sentido, pois o alvo √© eleger-se e depois ele v√™ o que faz‚Ķ Foi assim com o Deputado Federal Tiririca (PL-SP), por exemplo, que teve ampla vota√ß√£o e est√° filiado a um partido de direita‚Ķ E a pr√≥pria percep√ß√£o do eleitorado do espectro pol√≠tico brasileiro pode ser incerta e quando estimulada, como foi na d√©cada passada, colocando os partidos pol√≠ticos como desnecess√°rios, as coisas podem ser ainda piores.

√Č fundamental que as propostas do(a) candidato(a) tenham alguma rela√ß√£o com o partido pol√≠tico ao qual ele ou ela se filiou, do contr√°rio, √© praticamente certa a corrup√ß√£o da causa animal tamb√©m por essa via.

Ah, e sempre que algu√©m ou representantes de algum partido disserem que acabaram com a corrup√ß√£o (na quarta acep√ß√£o), essas pessoas estar√£o mentindo, pois a corrup√ß√£o √© parte da nossa forma de vida em sociedade. Ela n√£o est√° incorporada em uma pessoa ou partido pol√≠tico apenas; n√£o, ela est√° em todos n√≥s e depende da nossa pr√≥pria vigil√Ęncia em impedir que ela se manifeste ou se propague. S√≥ os nossos s√≥lidos valores morais podem mant√™-la contida no seu devido lugar, isto √©, apenas no campo da possibilidade. √Č algo que voc√™ poderia fazer, mas n√£o o far√° por saber que √© errado, por saber que isso prejudica pessoas e animais n√£o humanos, que √© contra as leis etc.

9. Cadê a esquerda?

Manifestantes em 2018 na caminhada pelo “ELE N√ÉO”, contra a elei√ß√£o do Bolsonaro que j√° estava no segundo turno disputando com um candidato de esquerda / Foto de Fabio Montarroios

Nestas elei√ß√Ķes de 2020, √© poss√≠vel perceber que a maioria dos candidatos e das candidatas que se apresentam como protetores ou protetoras est√° filiada a partidos de centro ou de direita. A minoria se vinculou a partidos de esquerda e isto pode ter duas explica√ß√Ķes: afinidade ideol√≥gica dos candidatos e candidatas com partidos de centro e direita ou ainda estamos todos sob os efeitos de 2013-6, com avers√£o aos partidos de esquerda que foram, e s√£o, demonizados desde √†quela √©poca, representando, eles pr√≥prios, a corrup√ß√£o (na quarta acep√ß√£o), a desordem, a roubalheira etc.

√Č curioso, pois a preocupa√ß√£o com os animais n√£o humanos parece fazer mais sentido dentro do espectro ideol√≥gico da esquerda, que pensa de maneira mais enf√°tica em pol√≠ticas p√ļblicas e a√ß√Ķes do Estado para um arranjo justo e digno das pessoas sem permitir que os efeitos delet√©rios de uma sociedade capitalista recaiam pesadamente sobre os desvalidos, desfavorecidos e despossu√≠dos. A preocupa√ß√£o com os pobres, marginalizados, minorias e vulner√°veis √© uma bandeira hist√≥rica da esquerda e ela poderia ser muito bem estendida aos animais n√£o humanos.

Alguns políticos de esquerda perceberam isso em 2018 quando da intensa e forte manifestação de diversos ativistas a favor do projeto de lei na Assembleia Legislativa Paulista que proibia o comércio de animais vivos por vias marítimas ou fluviais. O PL, diga-se, está parado… E, pelo que consta, pelo menos nessa mesma casa, há apenas uma candidata (num mandato coletivo) que ainda tem alguma relação com a causa animal. Ela, por exemplo, se colocou contra a comercialização de animais em Pet Shops quando esse tema foi alvo de uma CPI.

Observo tamb√©m que a milit√Ęncia de esquerda sofre, historicamente, de agress√Ķes por parte das pol√≠cias nos Estados brasileiros. Essa sistem√°tica opress√£o tamb√©m afasta dos partidos adeptos ou simpatizantes da causa, pois quem quer acabar ferido ou at√© mesmo morto numa manifesta√ß√£o leg√≠tima?

Saiba mais: BOLSONARO E LULA ENTRARAM NUMA CHURRASCARIA. E DA√ć?, por Fabio Montarroios

A despeito do contexto atual, de avers√£o aos partidos de esquerda estimulada na √ļltima d√©cada, n√£o √© e n√£o foi poss√≠vel, em governos de esquerda, ver um interesse verdadeiro pela causa animal e talvez por isso sua baixa capacidade em atrair candidatos.

Vale sempre ressaltar que em nome do desenvolvimentismo, durante os anos de governo do PT na esfera federal, o n√ļmero de animais mortos pela ind√ļstria da carne atingiu o valor estonteante de 63.380.178.432 bilh√Ķes (sem contar os peixes, o tr√°fico de animais, as pesquisas cient√≠ficas, queimadas, desastres ambientais, abatedouros ilegais etc) de acordo com dados do Minist√©rio da Agricultura. O Estado contribuiu para essa matan√ßa financiando abatedouros com farto cr√©dito, por exemplo, e n√£o se tem not√≠cia de nenhuma pol√≠tica p√ļblica voltada aos animais n√£o humanos at√© os √ļltimos dias da administra√ß√£o do PT em n√≠vel federal.

Estamos, ent√£o, numa situa√ß√£o delicada com tantos candidatos vinculados a partidos fisiol√≥gicos (MDB) ou reacion√°rios (PSL) que, de algum modo, passaram a atrair protetores de animais que parecem, em larga medida, se coadunarem com as propostas punitivistas como a da Lei Sans√£o ou s√£o indiferentes ao jogo pol√≠tico das lideran√ßas partid√°rias nos √Ęmbitos federal, estadual e at√© municipal.

10. Mulher, branca e de direita

O perfil m√©dio do candidato √© o de uma mulher, branca e filiada a um partido de direita. N√£o d√° pra cravar que os candidatos desse perfil sejam de fato de direita, por conta das quest√Ķes que j√° abordei mais acima, mas √©, pelo menos, um ind√≠cio da fei√ß√£o que uma das pontas da causa animal, a prote√ß√£o animal, tem no munic√≠pios brasileiros. Pode at√© ser, ainda no n√≠vel da especula√ß√£o, que a pr√≥pria primeira dama seja uma inspira√ß√£o a essas mulheres, afinal ela √© uma mulher, branca e de direita (e ela pr√≥pria adotou um cachorro).

O punitivismo, o populismo, o analfabetismo pol√≠tico, a desinforma√ß√£o e as fake news, a orquestra√ß√£o contra os partidos de esquerda etc provavelmente ajudaram a direita e a extrema-direita a tornar o discurso da causa animal algo mais pr√≥ximo de um discurso reacion√°rio. Querer a morte, a tortura e a pris√£o de um agressor de animais √© algo que vai nesse sentido (o desejo de pris√£o tamb√©m ressoa na chamada esquerda punitiva) e encontra eco nas den√ļncias feitas por protetores de todo o pa√≠s em redes sociais. Ler os coment√°rios dessas postagens √© ver o √≥dio em sua forma pura.

Fonte dos dados: Tribunal Superior Eleitoral / Amostragem com candidatos que usam a alcunha de protetor(a) na urna
Fonte dos dados: Tribunal Superior Eleitoral / Amostragem com candidatos que usam a alcunha de protetor(a) na urna
Fonte dos dados: Tribunal Superior Eleitoral / Amostragem com candidatos que usam a alcunha de protetor(a) na urna / Separa√ß√£o no espectro pol√≠tico elaborada por Saber Animal a paritir de informa√ß√Ķes do site Congresso em Foco
Fonte dos dados: Tribunal Superior Eleitoral

Partidos de direita: DC, DEM, PATRIOTA, PL, PODE, PP, PRTB, PSC, PSD, PSL, PTB, PTC e REPUBLICANOS. Partidos de centro: AVANTE, MDB, PROS, PSDB e SOLIDARIEDADE. Partidos de esquerda: CIDADANIA, PDT, PMN, PSB, PSOL, PT, PV e REDE. A divisão no espectro político é feita a partir de classificação segundo o site Congresso em Foco.

Num pequeno passeio pela hist√≥ria, n√£o t√£o distante assim, at√© a Alemanha Nazista de Hitler (um exemplo √≠mpar de sistema pol√≠tico corrompido at√© a alma) tinha um severo c√≥digo de prote√ß√£o animal. Convenhamos, n√£o vale a pena apoiar a extrema-direita, porque mesmo que a oferta seja a de uma prote√ß√£o aos animais (dentro de uma vis√£o deturpada do que √© proteger animais, evidentemente), o custo seria o racismo, o preconceito, a xenofobia, a persegui√ß√£o, as mentiras e o desejo de morte e destrui√ß√£o. Seria algo parecido como ver um l√≠der de uma na√ß√£o dar de ombros a uma pandemia ou dizer que n√£o estamos vendo os animais e nossos biomas queimarem e ainda aplaudi-lo quando ele segura um cachorro no colo e sanciona uma lei in√ļtil.

O mais desolador desse cen√°rio √© que o eleitorado, em tempos de redes sociais e aplicativos de mensagens que entregam conte√ļdos com desinforma√ß√£o e mentiras, est√° sujeito a realinhar o seu posicionamento ideol√≥gico baseado nesse tipo de material. Decorre que quanto maior a informa√ß√£o e quanto maior o interesse por pol√≠tica uma pessoa apresentar, maior a chance dela se definir ideologicamente. Nesse sentido, for√ßas da direita e extrema-direita, que dominam e usam amplamente esses novos recursos de comunica√ß√£o, deixando de lado, ent√£o, a televis√£o, o r√°dio e at√© mesmo os santinhos impressos, tem grande poder de influ√™ncia. Parece ter sido exatamente esse o movimento que criou a onda bolsonarista que elegeu n√£o apenas o Presidente Bolsonaro e toda sua fam√≠lia, mas muitos aliados e muitos candidatos que, √† √©poca, pegaram carona em suas propostas e personalidade autorit√°ria. Se j√° t√≠nhamos um eleitorado historicamente mais ao centro e √† direita no Brasil, agora ele vem sendo rapidamente empurrado para a extrema-direita.

Adolf Hitler e seu cachorro Wolf em 1923. Foto de Heinrich Hoffmann

Faça diferente desta vez, eleitor(a)!

Caro(a) leitor(a) e eleitor(a): n√£o entregue seu voto ao primeiro candidato que aparecer se identificando como Fulano ou Fulana Protetor(a), pois n√£o tem como saber se a tal prote√ß√£o √© verdadeira e mesmo que seja isso n√£o significa que essa pessoa tenha propostas relevantes. N√£o entregue seu voto a pol√≠ticos que dizem, agora, carregar a bandeira da prote√ß√£o animal sem antes fazer uma pesquisa sobre seu passado, suas a√ß√Ķes. Cobre desde j√° suas propostas palp√°veis, reflita sobre elas. N√£o entregue seu voto a pol√≠ticos ligados a partidos da extrema-direita ou que dissimulam essa condi√ß√£o, pois esses partidos n√£o tem qualquer considera√ß√£o pelos direitos humanos, base do sistema democr√°tico. N√£o vote em pol√≠ticos que fazem promessas de hospital p√ļblico para animais se n√£o demonstrarem um plano efetivo de como o Estado vai constru√≠-lo e, depois, mant√™-lo funcionando ao longo de d√©cadas. N√£o entregue seu voto aos fort√Ķes ou √†s bonitonas das redes sociais que aparecem agarrados com c√£es e gatos e se dizem totalmente engajados com a causa animal, porque, reparem bem, eles geralmente n√£o t√™m propostas s√≥lidas, mas apenas repeti√ß√Ķes de propostas que discriminam animais por sua esp√©cie, frases de efeito e clich√™s baratos para oferecer. Enfim, n√£o entregue seu voto t√£o f√°cil com intuito de ajudar os animais, afinal voc√™ tamb√©m pode conseguir justamente o contr√°rio: ser mais um(a) a corromper a causa animal.

Veja o que acontece com o pr√≥prio veganismo que j√° foi corrompido h√° muito tempo‚Ķ Quando pessoas, famosas ou n√£o, anunciam que uma empresa que mata milh√Ķes de animais todos os anos tamb√©m vende produtos ‚Äúveganos‚ÄĚ e por isso atende ao p√ļblico vegano, isto √© uma corrup√ß√£o do veganismo. Quando as pessoas, famosas ou n√£o, dizem que um lugar que vende animais mortos para alimenta√ß√£o ou vestimenta tamb√©m tem ‚Äúop√ß√Ķes veganas‚ÄĚ vamos do mesmo jeito para o campo da corrup√ß√£o. As ‚Äúop√ß√Ķes veganas‚ÄĚ s√£o, invariavelmente, uma corrup√ß√£o do veganismo que n√£o est√° limitado aos interesses exclusivos de uma pessoa. O veganismo, em sua defini√ß√£o cl√°ssica, √© uma filosofia de vida que implica a n√£o-explora√ß√£o de animais n√£o humanos nas mais diversas facetas da vida humana, ponto.

Agora, o que acontecer√° com um sistema pol√≠tico quando ele √© representado por analfabetos pol√≠ticos? Provavelmente mais candidatos e candidatas se aproximando da direita e da extrema-direita‚Ķ O que poderemos ver com mais intensidade depois das elei√ß√Ķes de 2020 e 2022 se o est√≠mulo ao desinteresse pela pol√≠tica e por partidos pol√≠ticos, agora tamb√©m na causa animal, continuar sendo estimulado na sociedade pelas for√ßas obscuras‚Ķ

As elei√ß√Ķes est√£o chegando: preparem-se!

Texto parcialmente revisado por Vanice Cestari em 13/10/2020.

Atualizado em 7/11/2020. Acrescentado gráfico com a distribuição dos candidatos por partidos políticos e a divisão dos partidos políticos no espectro político brasileiro com respectiva classificação.

Atualizado em 26/11/2020. Corrigido o n√ļmero (e gr√°ficos) de candidatos com a alcunha de protetor(a) para 259.