ūüéôÔłŹ Podcast Saber Animal #006 – Not√≠cias

Vacas exploradas pela pecuária em fila vestidas de pijama listrado em alusão ao povo judeu massacrado pelos nazistas (ilutração da artista e ativista pelos direitos animais, Jo Fredericks)
Quando é que nós vamos aprender, de Jo Fredericks, artista e ativista pelos Direitos Animais

No episódio de hoje, falamos como o tratamento que dispensamos aos animais nos dias de hoje pode ser comparado com o que os nazistas faziam, na sequência fazemos um pequeno bate-papo sobre a exploração dos cães onde se reforça a ideia especista da sociedade de que há animais para nos servir e ainda sobre um autêntico grupo de heroínas que protege os animais da caça ilegal no Zimbábue.

Apresentação: Vanice Cestari e Fabio Montarroios / Edição de áudio: Fabio Montarroios. Produção: Vanice Cestari / Roteiro: Vanice Cestari e Fabio Montarroios.


O NAZISMO E OS ANIMAIS

No dia 17 de janeiro de 2020, nos deparamos com uma bomba logo cedo: o site independente Jornalistas Livres revelou que Roberto Alvim, agora ex-Secret√°rio Especial da Cultura do governo do Presidente Jair Bolsonaro, havia parafraseado o nazista Joseph Goebbels ao apresentar um edital de cunho completamente nacionalista e, inevitavelmente, fascista. Mas antes de revelar esse lado, Alvim j√° havia ofendido a c√©lebre e premiada atriz Fernanda Montenegro e disparado baz√≥fias em f√≥runs internacionais. A figura, pat√©tica por si s√≥, deixou a esquerda quando era diretor de teatro e passou para o lado mais podre do espectro pol√≠tico depois de se curar de uma grave doen√ßa atrav√©s, diz ele, de uma ‚Äúinterven√ß√£o direta de Nosso Senhor Jesus Cristo‚ÄĚ. Pois √©‚Ķ

Para n√£o deixar margem para d√ļvidas, Goebbels foi respons√°vel pela propaganda do partido nazista na d√©cada de 30 e 40 do s√©culo XX. At√© se credita a ele a pr√≥pria cria√ß√£o da propaganda pol√≠tica como conhecemos hoje! Sua admira√ß√£o por Adolf Hitler era total. Juntamente com Heinrich Himmler e Hermann G√∂ring, eles formavam o n√ļcleo duro do alto comando nazista. N√£o se tratava, portanto, de um nazista qualquer. Imit√°-lo seria quase t√£o infame quanto imitar o pr√≥prio Hitler. Seu bi√≥grafo, Peter Longerich, n√£o lhe d√° tanto cr√©dito assim, indicando que Goebbels era, al√©m de violento, um narcisista e seu minist√©rio da propaganda servia basicamente para criar o mito de que ele era um g√™nio e algu√©m muito importante.

Da√≠ que, com o passar das horas, n√£o demorou muito para que uma teoria da conspira√ß√£o surgisse nas redes socais de perfis alinhados ao governo creditando a fala do ex-secret√°rio a uma artimanha de… petistas. Eles teriam, vejam s√≥, ardilosamente colocado l√° no texto do ex-secret√°rio a frase maldita para ser lida e depois denunciada. Tal ideia s√≥ n√£o soa mais estapaf√ļrdia, porque temos o pr√≥prio falando em entrevista ao jornal O Estado de S√£o Paulo que ‚Äúassina em baixo‚ÄĚ as falas nazistas que proferiu em v√≠deo no qual ele, de fato, imita Goebbels – inclusive nos gestos e no penteado. Bizarro‚Ķ

Inflamado pelas redes socais e pela incr√≠vel repercuss√£o mundial do ultrajante v√≠deo, a oposi√ß√£o e muitos daqueles contr√°rios ao governo Bolsonaro indicaram, com propriedade, que esta situa√ß√£o n√£o deveria surpreender tanto assim, afinal, o pr√≥prio presidente da Rep√ļblica j√° dava sinais h√° muitos anos de ser uma pessoa violenta, racista, homof√≥bica, machista, de idealizar um nacionalismo torpe e nutrir admira√ß√£o por perigosos milicianos‚Ķ Em suma, era algu√©m que j√° ostentava um curr√≠culo bastante adequado para ingressar nas fileiras neonazistas. Mas mesmo com esse passado, o mesmo jornal ‚ÄúO Estado de S√£o Paulo‚ÄĚ, √† √©poca das elei√ß√Ķes de 2018, em editorial, dizia que os brasileiros tinham pela frente uma escolha muito dif√≠cil: ou √≠amos de Jair Bolsonaro ou de Fernando Haddad. J√° me expressei especificamente sobre esta quest√£o em artigo para o site Saber Animal.

Saiba mais: BOLSONARO E LULA ENTRARAM NUMA CHURRASCARIA. E DA√ć?, por Fabio Montarroios

A disputa entre direita (incluindo a√≠ a extrema-direita) e esquerda que sempre descamba para a medonha competi√ß√£o de quem matou mais, se o nazismo ou o comunismo, √© bem recorrente em ambientes virtuais. Disputa essa, vale frisar, geralmente puxada pelos direitistas. Ora, esta quest√£o n√£o se imp√Ķe num debate s√©rio entre adultos minimamente escolarizados, pois todos os regimes que mataram ou perseguiram pessoas pelas mais diversas raz√Ķes s√£o infames. A despeito de seus m√©todos e escolhas, pois uns podem nos parecer mais horrendos que outros a depender do nosso posicionamento pessoal, o resultado da persegui√ß√£o do Estado ou de determinados grupos √© o mesmo: a aniquila√ß√£o da vida. Quantificar o rastro de morte de regimes totalit√°rios pode trazer algum al√≠vio de consci√™ncia para quem se d√° a esse trabalho, mas acaba servindo mesmo √© para escancarar o nosso poder destrutivo de colocar de p√© e funcionando institui√ß√Ķes voltadas exclusivamente para a morte.

E ao mesmo tempo em que fizemos da humanidade v√≠timas de n√≥s mesmos no holocausto judeu (para nos limitarmos a este genoc√≠dio, j√° que foram muitos), colocamos os animais em id√™ntica situa√ß√£o, mas a diferen√ßa √© que continuamos fazendo isso todos os dias de modo ininterrupto no mundo todo. A partir da era industrial, mas n√£o se limitado a ela, um sem n√ļmero de animais, tiveram como destino uma morte cruel ou uma vida de puro sofrimento. Para ficarmos em apenas um exemplo na √°rea da cultura, a mesma do ex-secret√°rio que clamava por uma arte puramente nacional, o filme Okja (2017), de Bong Joon Ho, traz, n√£o √† toa na forma de met√°fora, os famigerados campos de exterm√≠nio, onde diversos animais esperam a morte, como a protagonista Okja, um animal manipulado geneticamente para servir aos interesses da ind√ļstria da carne. O cen√°rio sombrio escolhido pelo diretor poderia muito bem aludir a Auschwitz. A cena em que o animal e sua jovem tutora passam por outros animais presos certamente partir√° seu cora√ß√£o.

Agora, se os nazistas foram capazes de eliminar de modo sistem√°tico e met√≥dico a vida de 6 milh√Ķes de judeus, apenas no Brasil entre os anos de 2003 e de 2019 j√° se foram quase 80 bilh√Ķes de animais mortos registrados oficialmente pelo Minist√©rio da Agricultura. Ficam de fora desse n√ļmero, que seria muito maior, os peixes, os animais silvestres mortos v√≠timas crimes ambientais ou do tr√°fico, os abates clandestinos, os animais usados como entretenimento em rodeios, vaquejadas etc e os abates com finalidades religiosas sejam elas quais forem.

O escritor americano Isaac Bashevis Singer, ganhador do pr√™mio Nobel de literatura em 1978 disse: ‚ÄúEm rela√ß√£o aos animais, todas as pessoas s√£o nazistas; para os animais, √© um eterno Treblinka.‚ÄĚ Treblinka foi outro campo de exterm√≠nio nazista na Pol√īnia. Quem se interessar mais pelo assunto, dentro da vasta filmografia sobre o tema, pode assistir ao document√°rio Shoah (1985), de Claude Lanzmann e ao filme O filho de Saul (2015), de L√°szl√≥ Nemes. O autor Issac Singer era um judeu vegetariano e sabia do que estava falando. Mesmo sendo um conservador no campo das ideias, sentia compaix√£o pelos animais e via na forma como os trat√°vamos (e tratamos) muita semelhan√ßa com o sofrimento do seu povo perseguido pela m√°quina de matar dos nazistas. Outro escritor, o sul-africano J. M. Coetzee, tamb√©m ganhador do pr√™mio Nobel, desta vez em 2003, escreveu por interm√©dio do seu alter ego, a Elizabeth Costello, que ‚Äúfoi nos matadouros de Chicago que os nazistas aprenderam como processar corpos‚ÄĚ.

N√≥s, os que estamos vivos hoje, nos apropriamos dos habitats dos animais, de suas secre√ß√Ķes (como o leite) e de suas capacidades reprodutivas como os nazistas faziam com os judeus tomando suas casas, seus pertences e suas vidas. N√≥s transportamos os animais para a morte como os nazistas faziam nas deporta√ß√Ķes para os campos de exterm√≠nio, mas usamos as rodovias e os navios numa log√≠stica impressionante. N√≥s destru√≠mos suas fam√≠lias do mesmo jeito que os nazistas faziam quando separavam pais, filhos e irm√£os. N√≥s fazemos coisas distintas e diversas com os animais no campo da experimenta√ß√£o cient√≠fica, mas que n√£o ficam nada muito distantes da curiosidade que o famoso nazista Joseph Mengele, o anjo da morte que passou d√©cadas escondido no Brasil, nutria por crian√ßas g√™meas. N√≥s matamos animais como os nazistas matavam judeus. A diferen√ßa √© que fazemos isso numa escala muito maior e, al√©m de ser algo que a maioria das pessoas n√£o se importa, √© o pilar econ√īmico de muitas sociedades que transformaram os animais em commodities.

Esta comparação entre o holocausto e o destino dos animais até pode parecer desrespeitosa ou de alguma forma inadequada com os sobreviventes ou familiares das vítimas, mas não é o caso para qualquer pessoa razoável que pode perceber, nitidamente, que o que fazemos com os animais é tão terrível como qualquer outro genocídio que já tenha ocorrido na história humana. A semelhança com os métodos nazistas é o que salta aos olhos! O autor Charles Patterson, no livro Eternal Treblinka: Our Treatment of Animals and the Holocaust, desenvolve muito bem esta questão especificamente, mas o livro, apesar de disponível para compra no formato de ebook, só está disponível em inglês. De todo modo, fica a recomendação.

Pode at√© parecer dif√≠cil de conceber, mas assim como h√° quem negue o aquecimento global, h√° tamb√©m quem negue o holocausto judeu. Por isso que os n√ļmeros tamb√©m t√™m a sua import√Ęncia e quando usados em discuss√Ķes in√ļteis perdem o seu sentido de registro hist√≥rico das atrocidades humanas. Negar que o que fazemos com os animais √© algo abomin√°vel e s√≥ faz criar uma nova categoria de negacionistas, mas o pior √© que desta vez, o n√ļmero de pessoas que se encaixa nela √© muito maior do que qualquer ex√©rcito ou mesmo o de uma na√ß√£o humilhada, como era o caso da Alemanha derrotada na 1¬™ Guerra Mundial, que acreditava poder dominar o mundo.

Ah, e uma coisa que sempre vale refutar quando nazismo e animais entram em uma mesma discuss√£o, seja qual for a raz√£o, √© que algumas pessoas correm lembrar que Hitler era vegetariano. Ora, n√£o √© bem o caso. Seu bi√≥grafo, Ian Kershaw, relata em sua obra que Hitler ‚Äúconvencera-se de que carne e bebidas alco√≥licas n√£o lhe faziam bem e, ‘a sua maneira fan√°tica (…) acabou fazendo disso um dogma e, a partir de ent√£o, s√≥ comeu comida vegetariana e bebeu bebidas sem √°lcool‚Äô”. O fil√≥sofo franco-magrebino Jacques Derrida em conversa com a c√©lebre historiadora e psicanalista, a francesa √Člisabeth Roudinesco, no livro De que amanh√£‚Ķ di√°logos, tratam exatamente deste assunto. Roudinesco diz aludindo a Hitler que ‚Äúo terror de ingest√£o da animalidade pode ser sintoma de um √≥dio do vivo levado at√© o assassinato‚ÄĚ. Sendo respondida por Derrida da seguinte forma: ‚ÄúAlguns j√° ousaram extrair um argumento desse vegetarianismo de Hitler. Contra os vegetarianos e os amigos dos animais. Luc Ferry, por exemplo. Essa catilin√°ria caricatural procede mais ou menos assim: ‘Ah, voc√™ esquece que os nazistas, e Hitler em particular, foram uma esp√©cie de zo√≥filos [amigos dos animais]! Portanto amar os animais √© odiar ou humilhar o homem! A compaix√£o pelos animais n√£o exclui a crueldade nazista, √© inclusive seu primeiro sintoma!‚Äô O argumento me parece grosseiramente falacioso. Quem pode acreditar um segundo nessa par√≥dia de silogismo? E aonde nos levaria ele? A redobrar a crueldade para os animais a fim de dar provas de um humanismo imacul√°vel?‚ÄĚ


BATE-PAPO: USO DE CÃES POR MILITARES E CIVIS

Fazemos um bate-papo a respeito do tema, citamos o exemplo dos c√£es Thor e Barney que morreram muito jovens, tendo sido diuturnamente explorados em opera√ß√Ķes de resgate e tamb√©m dos c√£es-guias, dentre outros exemplos (n√£o exaustivos).

Agradecimentos a Marcos Ramon e Renata Fortes.


AKASHINGA

Na linha de frente é o título da reportagem publicada pela revista National Geographic Brasil na edição de junho do ano passado, que fala da proteção dos animais selvagens em uma reserva ecológica do Zimbábue, a qual está nas mãos de um time feminino bastante combativo.

Quem melhor poderia compreender a exploração, violência e crueldade se não as pessoas que sentiram na própria pele? Quando o assunto é o combate à caça ilegal no Zimbábue, as mulheres vítimas de abuso, exploração e violência doméstica demonstraram, segundo a reportagem, muito mais aptidão do que os homens na tarefa de proteger a vida dos animais selvagens, vítimas de implacáveis caçadores.

O Parque Phundundu √© uma antiga zona de ca√ßa de 300 quil√īmetros quadrados (hoje uma reserva ecol√≥gica) e a reportagem informa que a regi√£o de seu entorno perdeu milhares de elefantes para ca√ßadores ilegais apenas nos √ļltimos vinte anos.

Para enfrentar essa verdadeira guerra que é o combate à caça de animais, um ex-militar australiano chamado Damien Mander que serviu na Guerra do Iraque criou uma Fundação Internacional contra a Caça Ilegal (IAPF, na sigla em inglês) e uma equipe chamada Akashinga, um braço dessa Fundação formada por um grupo de guardas-florestais, todas mulheres, que recebem treinamento para a corajosa e difícil tarefa de defender a vida dos animais selvagens alvos de caçadores.

Akashinga significa ‚ÄúCorajosas‚ÄĚ ou ‚ÄúValentes‚ÄĚ, na l√≠ngua shona e esse grupo feminino anti-ca√ßa √© respons√°vel por patrulhar o Parque Phundundu que faz fronteira com 29 comunidades e, segundo o treinador Mander, o envolvimento dessas comunidades, de onde saem essas mulheres guardi√£s, √© um fator fundamental para o √™xito das opera√ß√Ķes desse grupo totalmente feminino que atua desde 2017:

‚ÄúDepois de anos treinando guardas-florestais masculinos, ele concluiu que as mulheres eram mais adequadas para o trabalho. Ele descobriu que elas eram menos suscet√≠veis ao suborno oferecido por ca√ßadores e mais aptas a diminuir a tens√£o em situa√ß√Ķes potencialmente violentas‚ÄĚ.

Segundo a reportagem, as guardas-florestais demonstram ser muito mais resistentes (tanto física quanto psicologicamente) do que os homens que haviam participado de cursos de formação em anos anteriores para a mesma função, isto é, para o combate à caça ilegal dos animais selvagens. O treinador atribui esse fato não só por elas serem moradoras dos povoados vizinhos ao Parque, mas também porque todas elas sofreram violência em algum grau de seus companheiros e de suas famílias.

Olhando as fotos que ilustram a reportagem, é possível notar um ar de empoderamento dessas mulheres no controle de suas próprias vidas com maior autonomia e independência, fortalecidas por suas próprias experiências traumáticas. A matéria sugere que as guardas-florestais mudaram de vida se libertando dos abusos sofridos graças ao trabalho que desenvolvem no Parque na defesa de outros seres vulneráveis.

Clique aqui para ver as fotos da reportagem no idioma inglês.

O artigo romantiza um pouco essa situa√ß√£o, pois ainda que elas gostem do of√≠cio e at√© mesmo tiveram a possibilidade de criar la√ßos entre si, n√£o devemos desconsiderar que talvez integrem a Akashinga por falta de melhor op√ß√£o de trabalho na regi√£o em que vivem, j√° que √© uma atividade de alt√≠ssimo risco uma vez que quem combate √† ca√ßa ou a viol√™ncia mortal dirigida contra os animais tamb√©m acaba se tornando um alvo em potencial, sobretudo na mira de ca√ßadores sem escr√ļpulos.

Algumas fotos da reportagem tamb√©m mostram as mulheres em momentos de comunh√£o, como se pertencessem a uma s√≥ fam√≠lia. Numa das imagens elas est√£o todas reunidas para uma refei√ß√£o. Todas elas seguem uma dieta vegana que foi estabelecida por Mander desde a cria√ß√£o da Akashinga para evitar a crueldade contra os animais, segundo a mat√©ria. ‚ÄúA comida √© uma parte importante do programa‚ÄĚ, diz o treinador Mander.

Ao contrário do que o senso comum pode imaginar, a alimentação à base de plantas é rica em nutrientes, o que é importante para o treinamento e trabalho pesado que requerem força e resistência constantes, além da coerência ética e do evidente significado ideológico que está por trás dessa escolha.

E aqui h√° uma particularidade curiosa: Damien Mander, treinador e fundador da Akashinga tamb√©m j√° foi um ca√ßador, mas isso eu soube por meio de um breve v√≠deo de 5 minutos, narrado por ele mesmo, em outra reportagem para a Folha de S.Paulo. Essa mat√©ria da National Geographic n√£o comenta sobre essa parte do passado dele, mas apenas um ex-militar que serviu nas guerras do Iraque e nas linhas de frente da guerra contra a ca√ßa ilegal na √Āfrica, mesmo porque o protagonismo aqui √© das mulheres. Vale conferir o depoimento dele.

Em resumo, ele conta que era um mercenário e caçador e seu propósito de vida era apenas ganhar dinheiro matando pessoas humanas e animais, eis que um belo dia teve sua vida transformada depois que conheceu pessoas que defendiam a vida dos animais e a preservação da natureza apesar de todos os riscos e dificuldades que se possa imaginar.

A postura de n√£o viol√™ncia na alimenta√ß√£o e a defesa da vida selvagem n√£o s√£o meros acasos. Assim como a matan√ßa de gente e a matan√ßa dos animais n√£o-humanos est√£o umbilicalmente ligadas. Um ex-soldado e ex-ca√ßador certamente entende bem a trama dessas quest√Ķes que no fim se resume a um √ļnico fato: toda matan√ßa √© cruel e toda guerra √© desnecess√°ria.

Nada mais l√≥gico se opor contra todas as formas de barb√°rie impostas a quem n√£o pode se defender, aos inocentes, aos animais ‚Äď humanos ou n√£o-humanos. Se opor √† matan√ßa e √† crueldade, seja no combate √† ca√ßa ilegal dos animais selvagens, seja por meio da alimenta√ß√£o √© firmar o posicionamento claro na linha de frente contra a selvageria e covardia.

Se toda matança é desnecessária e cruel, não importa se a vítima é humana, se é um animal não-humano selvagem ou domesticado justamente para ser servido em bandeja como se comida fosse. Combater a caça e combater a matança de animais para qualquer propósito é posicionar-se do mesmo lado da trincheira contra os caçadores e matadores.

Uma das guardas-florestais afirma que não pensava nos animais antes de ingressar na Akashinga e essa declaração é interessante porque mesmo sofrendo violência e abuso, como no passado recente dessas mulheres, dificilmente nos colocamos no lugar do outro que também é vítima de comportamentos brutais onde os algozes somos nós. Antes de defendermos os nossos irmãos animais é como se não tivéssemos a integral consciência sobre o quão injustos e violentos também podemos ser.

A equipe das mulheres valentes parece ter encontrado for√ßa e coragem suficientes para lutar por suas vidas ao mesmo tempo em que lutam pela vida dos animais selvagens, dentre leopardos, elefantes, ant√≠lopes e outros animais, todos e todas mais do que merecedoras de uma vida digna, independente e livre de toda explora√ß√£o e viol√™ncia impostas por quem se acha no gozo de um poder tir√Ęnico.

A ca√ßa √© t√£o presente na √Āfrica e em outras regi√Ķes do Zimb√°bue que esse front digno de honrarias parece uma simples gota em meio ao oceano, no entanto, conforme reportagem da Folha de S.Paulo, desde quando essas primeiras guardi√£s ou guardas-florestais entraram em a√ß√£o, os casos de ca√ßa ilegal ca√≠ram em 80% nessa regi√£o, havendo muitas deten√ß√Ķes sem que tenha sido disparado um √ļnico tiro!

Enquanto isso, fa√ßo aqui um par√™nteses para citar que, em maio do ano passado, foi noticiado que autoridades no Zimb√°bue autorizaram a ca√ßa a b√ļfalos com arco e flecha para “atrair parte do crescente mercado da ca√ßa esportiva” e tamb√©m a cidade vizinha Botsuana colocou fim √† proibi√ß√£o da ca√ßa de elefantes que vigorou por cinco anos sob o absurdo argumento de que tal medida ajudar√° a atrair dinheiro para os pa√≠ses pobres, levando a uma melhor administra√ß√£o das reservas de animais. Nota-se que quando o desejo de matar os indesej√°veis dita as a√ß√Ķes pol√≠ticas, tudo vira uma quest√£o de justificar o injustific√°vel: esporte, economia, turismo, ‚Äúconserva√ß√£o‚ÄĚ… E agora mais recentemente, a carnificina dos camelos por helic√≥pteros na Austr√°lia, exatamente como ocorrido no ano de 2013, que tamb√©m promoveram o massacre de cavalos selvagens e burros por ‚Äúquest√Ķes ambientais‚ÄĚ. A matan√ßa sem freios n√£o √© √ļnica de um pa√≠s ou de poucos pa√≠ses, todos, inclusive o Brasil, apelam para a carnificina sempre que surge alguma quest√£o que envolva os animais n√£o-humanos. Onde n√£o h√° respeito pela vida, onde n√£o h√° √©tica, qual √© o limite da estupidez humana?

Ca√ßar para preservar? Qual o sentido l√≥gico disto? √Č absolutamente ultrajante as declara√ß√Ķes de autoridades que tamb√©m preferem ignorar a sexta extin√ß√£o em massa que estamos vivendo! Esp√©cies √† beira da extin√ß√£o, emerg√™ncia clim√°tica, o mundo ruindo em ritmo acelerado mas, esquerda e direita, s√≥ se sabe falar em eterno crescimento econ√īmico com ou sem respeito m√≠nimo √† natureza, mas sempre √†s custas da covardia e da morte dos indefesos que s√£o capazes de sofrer, os animais n√£o-humanos.

Fechando aqui o par√™nteses que fiz, voltemos a falar da equipe feminina que guarda a vida dos animais no Zimb√°bue. √Č no territ√≥rio ou no povoado que a vida acontece onde a realidade pode ser transformada e segundo a reportagem da National Geographic, as guardi√£s dos animais que integram a Akashinga demonstram ter conhecimento de um princ√≠pio b√°sico e verdadeiro de conserva√ß√£o: ‚Äúa vida selvagem com vida vale mais para a comunidade do que morta pelas m√£os de ca√ßadores ilegais‚ÄĚ. Vale dizer que a revista n√£o tem uma abordagem antiespecista (ou seja, n√£o enxerga a vida animal com um valor intr√≠nseco, que segue seus pr√≥prios interesses e prop√≥sitos enquanto indiv√≠duo dotado de senci√™ncia e consci√™ncia) que √© pr√≥pria de veganos e ativistas animalistas e por isso onde diz ‚Äúvida selvagem‚ÄĚ est√° se referindo ao coletivo da natureza, um ser inserido no meio ambiente natural e no ecossistema, necess√°rio para o desenvolvimento e perpetua√ß√£o da vida ecol√≥gica como um todo.

Por√©m, seja qual for a abordagem da revista (que segue a vis√£o tradicional antropoc√™ntrica), a vida de cada indiv√≠duo animal √© especial e conta como √ļnica, sendo tutelada pelas guardas-florestais que integram a Akashinga, que parecem ter desenvolvido um olhar interdisciplinar sobre a import√Ęncia da vida dos animais para eles, sujeitos de uma vida, e para todos da comunidade.

Se a defesa da vida dos animais selvagens implica, por via indireta, na sobreviv√™ncia da esp√©cie humana e dos ecossistemas, tamb√©m beneficia mais de perto a vida e o desenvolvimento das comunidades locais (sobretudo a vida das mulheres de regi√Ķes pobres e marginalizadas, como a das mulheres nas adjac√™ncias ao Parque Phundundu, que sofrem maior impacto ambiental conforme o avan√ßo de a√ß√Ķes explorat√≥rias).

Combater a ca√ßa ou defender a vida dos animais selvagens no habitat √© mais inteligente, verdadeiramente sustent√°vel e rent√°vel preservando eficazmente a natureza, al√©m da vida dos animais e garantindo at√© mesmo um retorno positivo √† economia local. A reportagem da National Geographic informa que, nessa regi√£o da √Āfrica, isso tem sido uma tarefa predominantemente feminina: pesquisas apontam que as mulheres de pa√≠ses em desenvolvimento e que trabalham investem 90% de sua renda em suas fam√≠lias ‚Äď em compara√ß√£o a 35% entre os homens.

Conforme j√° tratamos aqui no epis√≥dio do podcast sobre a ca√ßa, somos contra a ca√ßa de animais em qualquer circunst√Ęncia, seja ela legalizada ou n√£o, j√° que se revestem de uma matan√ßa despropositada e perversa, uma verdadeira guerra contra os animais que representa uma das faces mais cru√©is e vexat√≥rias da humanidade que se vangloria do terror que provoca e, claro, o fato de sermos veganos corrobora com esse entendimento. A reportagem da National Geographic trata, no entanto, apenas do combate √† ca√ßa ilegal nessa reserva ecol√≥gica do Zimb√°bue, no entanto, n√£o resta d√ļvida de que o treinador Mander (que tamb√©m se tornou vegano) e as guardas-florestais da Akashinga s√£o contra qualquer tipo de ca√ßa por saberem muito bem a barb√°rie e injusti√ßa que essa pr√°tica representa para os animais n√£o-humanos.

Para ouvir o episódio #001 do Podcast Saber Animal no qual tratamos da caça, clique aqui.

A caça ilegal abastece o comércio com peles, dentes, garras e ossos de animais covardemente assassinados, transforma vidas inocentes e preciosas em mercadorias, em troca de um dinheiro sujo de sangue derramado que jamais poderá trazer algum benefício real para quem quer que seja e tampouco servirá para salvar a humanidade da destruição em massa que estamos semeando aos sermos bárbaros ou simplesmente coniventes com a matança de animais para qualquer propósito.


M√ļsicas:

Meat is murder (Johnny Marr e Morissey), The Smiths

Gute Nacht. Kinder (Stephan Zacharias), Stephan Zacharias

Surveillance (Mark Isham), Mark Isham

Nhemamusasa: complete performance, Zimbabwe Shona Mbira Music