ūüó≥ÔłŹ O abolicionismo animalista tem partido e √© de esquerda

Multid√£o de esquerda protesta em SP (Foto: Fabio Montarroios)
Multid√£o de esquerda protesta em SP (Foto: Fabio Montarroios)

Não existe movimento social apartado da política, assim como não existe política apartidária ou suprapartidária no Brasil.

O Brasil √© um Estado Democr√°tico de Direito onde o pluralismo pol√≠tico √© um dos fundamentos da Rep√ļblica. Com esta frase que extra√≠mos do artigo 1¬ļ da nossa Constitui√ß√£o Federal podemos entender que se admite a diversidade de ideologias, pensamentos ou conjunto de ideias que passam a coexistir e se relacionar de forma interdependente e pac√≠fica.

Essa multiplicidade pol√≠tica √© expressa atrav√©s da soberania popular, a qual √© exercida atrav√©s do voto nas elei√ß√Ķes por meio de representantes que se organizam em partidos pol√≠ticos (democracia representativa), inexistindo possibilidade de apartidarismo ou suprapartidarismo pol√≠tico. Isto significa que quem nos representa (ou quem supostamente represente a causa animal nos espa√ßos de poder) tem partido.

Ninguém pode ser eleito, participar ativamente da vida política, institucionalmente falando, sem fazer a sua primeira escolha fundamental que consiste em se filiar a este ou aquele partido político. Naturalmente que candidatos(as) à cargos eletivos se filiam onde se identificam ideologicamente ou, ainda que não haja absoluta identificação, certamente se vincularão onde há uma mínima base de ideais convergentes. Filiar-se a um partido político é, literalmente, tomar parte ou integrar aquele sistema de valores ideológicos.

Além do pluralismo político, a nossa Constituição Cidadã também trouxe o pluralismo partidário, ou seja, uma grande diversidade de partidos, um pluripartidarismo que não é um problema em si, mas que acabou se desviando para um excesso de partidos políticos.

Temos excesso de partidos pol√≠ticos no Brasil e algumas cr√≠ticas a respeito, pois na pr√°tica, o que est√° entre esquerda e direita √†s vezes se torna um amontoado de ideologias confusas, fracas ou com poucas diferen√ßas entre elas, seja nos posicionamentos pol√≠ticos, ou nos estatutos partid√°rios, o que acaba ensejando muitas distor√ß√Ķes que fragilizam e colocam em risco o sistema representativo e o pr√≥prio regime democr√°tico.

N√£o √† toa, aqueles eleitos que n√£o tem compromisso com a sociedade, ou os mais antidemocr√°ticos (ou, quando se trata de pessoas do povo, aqueles desiludidos do sistema pol√≠tico ou despolitizados no sentido de carecerem de compreens√£o hist√≥rica, social e pol√≠tica) por vezes se colocam em uma conveniente ‚Äúneutralidade‚ÄĚ que se traduz naquela frase inventada ‚Äúmeu partido √© o Brasil‚ÄĚ.

Quem diz que o seu partido é o Brasil também tem ideologia e, portanto, também toma o seu partido, literalmente falando, seja na defesa de seus próprios interesses ou dos seus. Aqui também não há apartidarismo ou suprapartidarismo.

N√£o existe pessoa sem ideologia. A ideologia faz parte da vida humana, √© a forma como vemos e percebemos o mundo ao nosso redor atrav√©s do racioc√≠nio, √© a nossa postura perante as situa√ß√Ķes da vida que inclui nossas cren√ßas individuais sobre conceitos como justi√ßa, coletividade, seguran√ßa, direitos, individualidade, liberdade etc., √© a nossa percep√ß√£o sensorial do mundo externo, √© o nosso conjunto de convic√ß√Ķes filos√≥ficas, sociais, pol√≠ticas, morais, individuais e coletivas.

Dentro da causa animal, por exemplo, h√° diferentes ideologias. H√° quem queira pol√≠ticas p√ļblicas apenas para c√£es e gatos, h√° quem queira pol√≠ticas para os animais silvestres, outros por sua vez desejam pol√≠ticas para os animais explorados pela ind√ļstria pecu√°ria (n√£o necessariamente pela atividade pecu√°ria em si), j√° outros possuem uma ideologia mais conservadora que se reflete na defesa de medidas bem-estaristas para os animais, enquanto outros lutam por uma efetiva liberta√ß√£o dos animais de toda cadeia explorat√≥ria (que √© um campo ideol√≥gico mais alinhado ao progressismo) e assim por diante.

Portanto, se queremos eleger um(a) candidato(a) para um mandato parlamentar, o qual alegue representar a causa animal, precisamos de muita informação prévia acerca dessa pessoa antes de votar às cegas, como faríamos com qualquer outro(a) candidato(a). Às vezes pode ser muito mais interessante votar em quem não representa a causa, mas que pode estar receptivo(a) a considerar novas ideias e propostas que incluem o efetivo respeito aos animais em seu plano de governo.

Se n√£o h√° pessoa sem ideologia, tamb√©m n√£o h√° pessoa sem partido no amplo sentido da palavra. Todos n√≥s sempre estamos tomando partido em algo nas nossas vidas ou interagindo no mundo que nos cerca mediante posicionamentos ideol√≥gicos (sistema de cren√ßas, costumes, valores, convic√ß√Ķes) e √© absolutamente l√≥gico que isto n√£o termina com o ingresso na vida p√ļblica ou pol√≠tica.

N√£o h√° uma descontinuidade ideol√≥gica entre o ser humano e o cargo pol√≠tico ou fun√ß√£o p√ļblica que passa a exercer. Todo ser humano tem partido porque tem ideologia, se orienta por suas cren√ßas, ainda que hipoteticamente n√£o esteja muito consciente disto (o que leva muitos a anularem seu voto nas elei√ß√Ķes, por exemplo).

√Č um desservi√ßo a qualquer causa ou movimento social quando seus integrantes declaram, creio que seja por falta de consci√™ncia ou educa√ß√£o pol√≠tica, que n√£o tem partido (‚Äúmovimento apartid√°rio‚ÄĚ) ou, pior ainda, que a causa que representam est√° acima de qualquer partido (‚Äúmovimento suprapartid√°rio‚ÄĚ ao estilo ‚ÄúBrasil – ou ‘n√≥s’ – acima de tudo‚ÄĚ). Mas quando se aproximam as elei√ß√Ķes, esses mesmos ativistas que n√£o querem vincular a causa animal a partido algum manifestam apoio a candidatos(as) que pleiteiam vagas no parlamento como representantes da causa animal. Ora, candidato(a) tem partido!

Jornadas de Junho na Av. Paulista, em 2013 / Foto de Fabio Montarroios

Parece que o √ļnico crit√©rio considerado √© ser candidato(a) que diz representar a causa animal de algum modo, se apresentando como protetor(a) ou vegano(a), mas para ocupar uma fun√ß√£o p√ļblica t√£o importante √© preciso de muito mais. Algumas perguntas que merecem pesquisa: em qual partido se filiaram? Qual forma√ß√£o educacional? Qual ocupa√ß√£o profissional? Em quem votam ou apoiam nas elei√ß√Ķes? O que pensam sobre abolicionismo, bem-estarismo? Conhece os direitos dos animais j√° alcan√ßados? Conhece bem a legisla√ß√£o b√°sica de prote√ß√£o animal? Qual setor da causa animal representam? O que j√° transformaram? Quais as propostas concretas? Como pretendem realiz√°-las? N√£o podemos acreditar que uns posts e fotos nas m√≠dias sociais com animais ou uma p√°gina na internet possa ser o suficiente.

N√£o h√° como apoiar candidaturas aleat√≥rias de pessoas inconscientes ou despolitizadas apenas porque se declaram ‚Äúamigas dos animais‚ÄĚ e automaticamente esperar por relevantes transforma√ß√Ķes sociais em benef√≠cio dos animais. Se eleitas, estas pessoas tamb√©m decidir√£o sobre muitas outras pautas, relacionadas ou n√£o com a causa e o partido ao qual se filiaram ditar√° boa parte destas decis√Ķes.

Ap√≥s uma boa an√°lise, pode n√£o ser interessante apostar nossas fichas em quem, definitivamente, n√£o poder√° mudar muita coisa, por melhor que sejam as suas inten√ß√Ķes. Para quem busca real transforma√ß√£o social atrav√©s de um mandato parlamentar, sobretudo na defesa de todos os animais, n√£o √© simplesmente algo f√°cil e m√°gico, como muitos fazem parecer.

N√ďS FAZEMOS A POL√ćTICA E TOMAMOS PARTIDO

Não é apenas por meio da política institucionalizada que podemos melhorar a condição dos animais na sociedade. Há muitas e diferentes maneiras e todos já somos esses agentes de mudança. Se você está aqui lendo este texto, ainda que acredite que nada esteja fazendo mas está aqui interessado ou curioso nesse tema, já é agente de mudança.

A liberta√ß√£o animal j√° est√° acontecendo h√° s√©culos. Ningu√©m realiza nada sem saber e reconhecer o que j√° foi conquistado. Vamos reconhecer cada conquista e toda a luta secular de quem se sensibilizou com o sofrimento animal antes de n√≥s chegarmos aqui. Vamos honrar nossa caminhada e acreditar na transforma√ß√£o que j√° realizamos e que continuamos a realizar, por n√≥s e pelos animais, a cada simples escolha do cotidiano, ao inv√©s de se desvalorizar e apostar em ‚Äúher√≥is ou hero√≠nas salvadores‚ÄĚ com um mandato parlamentar.

Todos fazemos pol√≠tica em diversos momentos da vida, fazemos pol√≠tica por meio de nossas escolhas, das mais simples √†s mais complexas, fazemos pol√≠tica pelos animais ao consumir ou n√£o consumir certos produtos, fazemos pol√≠tica ao agir ou ao nos omitir, fazemos pol√≠tica quando incorporamos ou n√£o a √©tica em nossas a√ß√Ķes… √Č a nossa consci√™ncia que transforma o mundo e n√£o a pol√≠tica partid√°ria.

O indivíduo molda o social mas também é moldado por ele e isso é política, portanto, vamos nos conscientizar mais e reconhecer que já está excelente simplesmente fazermos a nossa parte na nossa vida privada, segundo nosso próprio juízo de valores, e se tivermos chance ou disponibilidade, em conjunto com mais algumas pessoas engajadas.

N√£o estou desestimulando ou desincentivando que pessoas comprometidas e id√īneas participem ativamente da vida p√ļblica, que tamb√©m √© importante, mas √© preciso mais consist√™ncia e um melhor preparo que vai al√©m de carregar uma apresenta√ß√£o como vegano(a), protetor(a) de animais etc.

Ningu√©m precisa necessariamente ‚Äúentrar para a pol√≠tica‚ÄĚ porque todos j√° estamos inseridos nela, o que significa que sempre √© a vez dos animais. Hoje mais do que ontem e amanh√£ mais do que hoje. Acredite.

Na causa em defesa dos animais tamb√©m h√° os negacionistas. Alguns ativistas n√£o enxergam a si pr√≥prios, nem mesmo a sua constante contribui√ß√£o com os animais e s√≥ v√™em esperan√ßa na pol√≠tica partid√°ria, enquanto outros por sua vez recha√ßam o partidarismo pol√≠tico. Outros envolvidos com a causa animal, negam ou desconhecem a exist√™ncia do movimento hist√≥rico e secular da prote√ß√£o animal no nosso pa√≠s, pois talvez gostariam, eles mesmos, de “reescrever a hist√≥ria” do zero, como se pudessem apagar o passado e “come√ßar o novo tempo” como protagonistas, bem √† moda bolsonarista.

Defensores(as) do abolicionismo animal geralmente se alinham √† esquerda, pois compreendem o contexto social, hist√≥rico e outras quest√Ķes relacionadas, como a estreita liga√ß√£o com a defesa dos direitos humanos e ambientais, por exemplo.

Creio que nenhum pol√≠tico id√īneo levar√° a s√©rio o leg√≠timo movimento social em defesa de todos os animais enquanto a maioria de ativistas ou ‚Äúinfluencers‚ÄĚ ‚Äď que s√£o aqueles(as) que tem mais destaque e visibilidade nas m√≠dias sociais ‚Äď n√£o tiverem uma base m√≠nima de educa√ß√£o e compreens√£o social e pol√≠tica que fundamente coerentemente seus posicionamentos ideol√≥gicos. O que defendem, afinal? O que querem, concretamente falando? Se quem est√° dentro do movimento muitas vezes n√£o entende, que dir√° quem est√° de fora. O movimento em defesa dos animais √© diversificado, plural e ativistas ou militantes precisam se posicionar claramente sobre o que pensam sobre diversas quest√Ķes, especialmente se almejam uma vaga no legislativo.

Partidos de direita ou extrema-direita n√£o se interessam em garantir a efetiva prote√ß√£o ou os direitos para indiv√≠duos vulner√°veis e discriminados (animais) em face de um sistema econ√īmico superpredat√≥rio, pois seus integrantes defendem esse sistema, declarada ou veladamente. Ali√°s, s√£o bem simp√°ticos a tudo que √© retrocesso. Ent√£o com essa turma tudo se resume a algumas medidas de pseudoprote√ß√£o √† c√£es e gatos e bastante populismo penal como a tal da toler√Ęncia zero ou cadeia para maus-tratos, o que sabemos que n√£o melhora a situa√ß√£o dos animais. Cadeia n√£o √© pol√≠tica p√ļblica, nem libera√ß√£o de armas, nem maior puni√ß√£o.

Saiba mais: DA S√ČRIE PROJETOS DE LEIS CAPENGAS; PASSANDO A R√ČGUA NO TEMA, por Vanice Cestari

Foto de ação pedindo cadeia para maus tratos em animais com cruzes e fotos coladas a elas em Brasília
Manifestação punitivista em frente ao Congresso Nacional / Foto de Sérgio Lima

Dentro da causa animal também há a categoria de empresários veganos que comumente estão mais alinhados e identificados com as pautas liberais da direita e até da extrema-direita que carrega bem forte a sedutora bandeira de mais punição, apoiando o atual governo federal (adeus defesa animal), enquanto ainda podem se identificar como abolicionistas. Raramente os veremos apoiando candidatos(a) ou partidos de esquerda. Logo, podem não ser boas referências como lideranças políticas em defesa dos direitos animais.

Escolhemos indivíduos, grupos ou ideologias com as quais nos identificamos, somos livres, mas simplesmente vamos nos aceitar como somos (caso contrário, podemos mudar de opinião) e assim, quando formos nos posicionar, o faremos de forma honesta, clara, evitando atrapalhar quem está buscando fazer um trabalho coerente e sério, inclusive na política. A confusão começa quando se passa uma imagem falsa de si, às vezes devido a uma autoimagem distorcida, onde se mistura conceitos, ideologias diferentes, contribuindo para a despolitização de um movimento socialmente importante que é a proteção dos animais no amplo sentido.

Tamb√©m precisamos aceitar que nem todos praticantes do veganismo, vegetarianismo ou protetores de animais privilegiam ou priorizar√£o os animais a todo tempo, especialmente quando h√° conflitos com suas ideologias mais enraizadas ou com seus interesses pessoais. Quando a pessoa √© candidata a um cargo eletivo, tanto melhor que saibamos pesquisar bem antes do voto em “defesa animal”.

Fa√ßamos a nossa parte, defendendo aquilo que acreditamos depois de ler, estudar, pesquisar, sentir e deixar cada um(a) com suas cren√ßas e escolhas conforme a sua pr√≥pria consci√™ncia. Perceber com maior amplitude todas essas quest√Ķes tamb√©m √© desenvolver uma maior consci√™ncia pol√≠tica. E com mais consci√™ncia, tanto poderemos dialogar melhor com pessoas de fora da causa animal que poder√£o efetivamente nos ajudar (levando adiante essa bandeira pelos animais), quanto estaremos mais aptos para melhor escolher em quem votar.

A CAUSA ANIMALISTA ABOLICIONISTA TEM PARTIDO E √Č DE ESQUERDA

Em certos momentos, a falta de posicionamento claro ou a omiss√£o tamb√©m mostra a escolha de um lado, o voto ou prefer√™ncia por um pol√≠tico ou partido, o apoio √† ideologia dominante. Muito importante nos lembrarmos desses fatos nas pr√≥ximas elei√ß√Ķes quando alguns ativistas ou “influencers” reaparecerem falando de pol√≠tica com ‚Äúares de propriedade‚ÄĚ na qualidade de candidatos(as) em ‚Äúdefesa animal‚ÄĚ, alguns propondo o “novo” com o apoio ou apadrinhamento da velha pol√≠tica (que n√£o √© a da esquerda) e outras esquisitices mais.

Ativistas podem n√£o ter partido pol√≠tico algum ou at√© mesmo n√£o se identificarem com a pol√≠tica partid√°ria e nem por isso deixar√£o de ser ativistas, pois o ativismo em si j√° √© fazer pol√≠tica em outro √Ęmbito, mas pol√≠ticos ou candidatos(as) √† mandatos eletivos tem sim partido, assim como a causa animalista abolicionista tamb√©m tem partido.

Mas pode acontecer que em dado momento haja conflitos ideol√≥gicos entre interesses humanos (de candidatos ou ocupantes de mandato parlamentar) e o suposto melhor interesse dos animais, ainda que estejamos falando de “representantes da causa animal”. Da√≠ a import√Ęncia de acompanhar a vida pol√≠tica n√£o somente perto das elei√ß√Ķes, pois o brasileiro tem a fama de votar hoje e esquecer amanh√£ em quem votou, especialmente para cargos de vereadores e deputados, o que parece bem real.

Saiba mais: A CORRUPÇÃO DA CAUSA ANIMAL, por Fabio Montarroios

Os animais certamente não tem partido, mesmo porque não podem tomar partido de nada para serem lembrados ou beneficiados de algum modo, mas é óbvio que os ditos defensores ou defensoras de animais tem partido, porque estes e estas têm ideologia, muitas ideologias que podem convergir ou divergir.

A ideologia abolicionista est√°, sem d√ļvida, mais pr√≥xima do pensamento de esquerda, n√£o importando se pol√≠ticos profissionais ou partidos de esquerda ainda n√£o tenham se dado conta da relev√Ęncia dessa pauta e sua aproxima√ß√£o com outras tantas pautas de especial interesse social que √© a quest√£o da fome, da pobreza, das mudan√ßas clim√°ticas, da desigualdade, do trabalho escravo e outras quest√Ķes interligadas que fazem parte da agenda esquerdista.

Protesto “Mulheres Contra Bolsonaro – Ele N√£o”, pr√©-elei√ß√£o presidencial de 2018 / Foto de Fabio Montarroios

O lado que luta por mais direitos, por educa√ß√£o, por mais igualdade, inclus√£o, justi√ßa social, solidariedade √© o da esquerda. J√° a direita se ocupa da defesa do mercado, da ind√ļstria, do crescimento econ√īmico sem fim, sem preserva√ß√£o de direitos, sem preserva√ß√£o ambiental. A extrema-direita (atual governo federal) tamb√©m √© declaradamente inimiga dos animais com suas pol√≠ticas de viol√™ncia declarada, como a ca√ßa, libera√ß√£o de armas, rodeio, vaquejada, cavalgada e toda ordem de retrocessos aos direitos animais. Ent√£o √© de simples compreens√£o e n√£o deveria restar d√ļvida sobre onde encaixamos a causa em defesa dos direitos animais, assim como sabemos quais pol√≠ticos e quais partidos defendem direitos humanos.

Uma coisa √© apresentar uma causa complexa (como a de defesa dos direitos animais) para toda a sociedade, independentemente do posicionamento pol√≠tico das pessoas para que possam conhecer o sofrimento dos animais, ver por um outro √Ęngulo, ou se aproximarem de uma causa que visa proteger seres que acreditamos merecer visibilidade, direitos, dignidade. Outra coisa √© esperar que determinadas figuras pol√≠ticas ou partidos pol√≠ticos (como os de extrema-direita) que s√£o declaradamente avessos √†s pautas progressistas, humanit√°rias e sociais, possam se sensibilizar com o sofrimento dos animais (quando na realidade usam do esc√°rnio), al√©m de tamb√©m ser not√≥rio que sequer se sensibilizam com o sofrimento humano. A quest√£o central √© que com alguns √© poss√≠vel estabelecer um di√°logo, uma aproxima√ß√£o democr√°tica, com outros n√£o.

Nenhuma conquista de direitos acontece de um dia para o outro e assim é o movimento secular em defesa dos direitos animais no Brasil e no mundo. Na esfera política é importante identificarmos aqueles pontos que nos aproxima (que aproxima a causa pela qual militamos) de outros que, apesar de pensarem diferente da gente, ainda assim nos respeitam, respeitam a trajetória de quem chegou antes de nós, respeitam a nossa história, respeitam a nossa causa, respeitam a nossa luta. E além de tudo ainda defendem pautas ideológicas bastante semelhantes que a nossa. Isso também é fortalecer a consciência política.

Pessoas com boa vontade e abertura para novas ideias que possam beneficiar o coletivo (ideologia progressista) s√£o aliadas da causa animal, o que dificilmente encontramos em pessoas centradas em seus pr√≥prios interesses e/ou interesses do grupo socioecon√īmico a qual pertencem, as quais tendem a se inclinar ao conservadorismo, ou at√© mesmo ao autoritarismo, classismo, racismo, sexismo, especismo…

Aut√™nticos defensores dos direitos humanos t√™m partido, assim como os aut√™nticos defensores do meio ambiente e, logicamente, os aut√™nticos defensores dos direitos animais. Pessoas conscientes do que significa a constante viola√ß√£o de direitos e garantias fundamentais t√™m partido. Pessoas emp√°ticas ou compassivas t√™m partido. Assim como aquelas que violam os direitos dos trabalhadores ou os direitos de outrem porque est√£o habituadas a valorizarem e priorizarem seus interesses econ√īmicos a qualquer custo, ou porque ainda n√£o desenvolveram a compaix√£o ou o amor pelo pr√≥ximo, estas tamb√©m t√™m partido.

A causa humana, ambiental e animal se assentam em uma base comum, ressalvadas suas especificidades, estando interligadas ideologicamente em sua raiz (busca da liberdade, igualdade, fraternidade, solidariedade, justiça, inclusão, dignidade, em uma inovadora sustentabilidade planetária).

A causa animal não é especial e diferenciada, assim como não o são seus defensores. Independente do movimento social com o qual nos afinamos ou nos identificamos, todos temos nossos interesses e direitos humanos (onde se inclui o meio ambiente) e é evidente que tudo isso também está em jogo em qualquer eleição cujo resultado impactará em maior ou menor grau a vida de todos.

√Č falsa a afirma√ß√£o de que os animais foram exclu√≠dos da Constitui√ß√£o Brasileira e da Democracia. Muito pelo contr√°rio, pois pela primeira vez na hist√≥ria do nosso pa√≠s (e alguns garantem que na hist√≥ria constitucional do mundo), a eles foi reservada uma prote√ß√£o especial no cap√≠tulo do meio ambiente.

A causa animal representa a defesa dos direitos fundamentais de indiv√≠duos cujo sofrimento √© invisibilizado ou desconsiderado por aqueles que tem o poder econ√īmico, o poder de decis√£o e de comando (por quem det√™m o capital), muito al√©m do p√ļblico consumidor. Os animais s√£o escravizados e oprimidos pela ind√ļstria pecu√°ria, pela economia, pelo mercado, pela academia (classe cient√≠fica), em suma, pelo capital que comanda todos os setores sociais (e os governos).

Portanto, se torna evidente que a causa animal se insere no √Ęmbito progressista (comumente o campo da esquerda), logo, quem pretende realmente fazer algo ‚Äúgrandioso‚ÄĚ dentro da pol√≠tica partid√°ria, antes precisa construir o b√°sico fora dela e para isso deve compreender bem o movimento animalista e suas diferentes correntes ideol√≥gicas (abolicionismo, bem-estarismo, prote√ß√£o de c√£es e gatos etc), a hist√≥ria, a legisla√ß√£o, a pol√≠tica, a sociedade, o que √© democracia etc… para ent√£o perceber se tem algo a contribuir, qual √© o seu partido, qual √© o seu lugar, qual √© o seu lado, qual seu verdadeiro papel na fun√ß√£o p√ļblica que pretende ocupar, caso contr√°rio, se eleito(a), poder√° ser apenas mais um fracasso coletivo.

Atualmente não há lideranças na causa animal, pois não há nada sendo construído coletivamente que se aproxime de um movimento coeso, onde exista consciência política, com uma mínima agenda que seja inclusiva e democrática. Pautas genéricas ou superficiais não se sustentam, tampouco um movimento pulverizado onde ninguém sabe bem aonde está e para onde vai, nem o que buscar ou priorizar. Sem uma construção coletiva de base, ninguém pode representar ninguém na política partidária.

Precisamos amadurecer, além de estudar, além de criar propostas factíveis, concreta e potencialmente transformadoras. Vamos levar uma causa que acreditamos (e que alguns realmente vivenciam) a sério para que finalmente nos levem a sério. E, principalmente, para que levem à sério a causa e a condição dos animais na nossa sociedade, conforme permite nosso atual sistema político que é democrático, pluralista e partidário, assim como também deve ser a causa animal.

E quem pretende ingressar na pol√≠tica partid√°ria como “representante da causa animal” deveria mostrar claramente seus posicionamentos, suas opini√Ķes, para todos, n√£o s√≥ em √©poca de elei√ß√Ķes (para o segundo turno no pr√≥ximo dia 30 √© obrigat√≥ria a manifesta√ß√£o, por √≥bvio), pois √© assim que podemos come√ßar a conhecer os futuros candidatos.

Nestas e nas pr√≥ximas elei√ß√Ķes, que possamos enxergar al√©m. Muitas vezes √© preciso coragem para se posicionar publicamente, tomar partido. A coragem deriva do amor, n√£o da ignor√Ęncia ou da intoler√Ęncia. Ent√£o que tenhamos a coragem para escolhermos a melhor op√ß√£o para os animais, para o planeta e para a coletividade. T√° bem f√°cil.

Protesto “Mulheres Contra Bolsonaro – Ele N√£o”, pr√©-elei√ß√£o presidencial de 2018 / Foto de Fabio Montarroios

Vamos fazer a nossa parte para que haja mais vida, mais oportunidade e compaixão para com aquelas vidas invisibilizadas e sofridas, para que haja mais alegria, mais afeto, mais acolhimento, mais esperança, mais arte, cultura, livros, educação, solidariedade e mais justiça, a qual inclui o perdão.

Os apoiadores do atual governo federal j√° distorceram tanto o cristianismo, mas quando os reais preceitos crist√£os forem incorporados em mais e mais vidas humanas, talvez n√£o haja mais necessidade de polariza√ß√£o entre esquerda e direita como hoje, talvez tenhamos novos modelos pol√≠ticos e sociais fluindo de rela√ß√Ķes verdadeiramente fraternas e amorosas. At√© l√°, fa√ßamos a nossa parte buscando maior discernimento e uma consci√™ncia mais integrada com o cora√ß√£o e com os p√©s bem firmes no ch√£o a fim de que nos responsabilizemos por nossas escolhas, pois √© tomando partido que este nosso mundo funciona.

Quem defende os direitos animais tamb√©m tem lado nas elei√ß√Ķes e toma parte em defesa do amor.