ūüéôÔłŹ Podcast Saber Animal #004 – Turismo Animal

Homens e mulheres montados em elefantes enquanto eles cruzam um rio. Um dos homens está em pé sobre o elefante. Há turistas e "tratadores".
Santa dog / Flickr

O tema abordado no episódio de hoje é turismo animal: uma das violências mais perversas que o ser humano impinge aos animais não-humanos numa autêntica escravidão que é mantida por um estado de inconsciência ou indiferença de muitos turistas e viajantes.

Apresentação: Vanice Cestari / Edição de áudio: Fabio Montarroios. Produção: Vanice Cestari e Fabio Montarroios / Roteiro: Vanice Cestari


A revista National Geographic Brasil, na edi√ß√£o 06.2019 traz uma reportagem especial intitulada A Face Oculta do Turismo Animal. A foto de capa √© uma pregui√ßa presa numa jaula de madeira na Amaz√īnia com a finalidade de entreter turistas.

Não é nada incomum ouvirmos as pessoas dizerem que amam os animais. Ou que, ao menos, desaprovam a crueldade e os maus-tratos.

A editora chefe Susan Goldberg relata que nas plataformas da National Geographic as fotos dos animais s√£o as que recebem o maior n√ļmero de likes dos seus seguidores no Instagram.

O turismo que explora animais continua de vento em popa, apesar das crescentes den√ļncias de quem, em s√£ consci√™ncia, sabe bem o terror a que s√£o submetidos os animais em parques, resorts, aqu√°rios, fazendas, circos, zool√≥gicos e at√© mesmo ao ar (ou mar) ‚Äúlivre‚ÄĚ.

Diferentes espécies de animais são exploradas no turismo e a reportagem da National Geographic aborda o sofrimento de alguns espécimes com foco nos animais selvagens.

A revista enviou uma repórter e uma fotógrafa a várias partes do mundo para investigar a vida de animais cativos (aqueles que vivem em cativeiro) antes e depois que os turistas fazem suas selfies e voltam para as suas casas.

Logo no sum√°rio da revista, uma mo√ßa posa para uma foto com um l√≥ris na cabe√ßa que parece bastante assustado e, veja s√≥ a ironia, ela veste uma camiseta com os dizeres truly lost que podemos traduzir para ‚Äúassumidamente perdida‚ÄĚ.

A explora√ß√£o tur√≠stica de animais vai al√©m dos zool√≥gicos, circos e aqu√°rios. H√° alguns anos, uma orangotango f√™mea escravizada para turismo sexual na Indon√©sia, foi salva por uma associa√ß√£o de defesa animal. Durante um ano, essa associa√ß√£o que defende a vida de orangotangos precisou arrecadar fundos para a contrata√ß√£o de 35 policiais armados para efetivar o resgate de Pony. Na √©poca, a veterin√°ria que atendeu o caso disse n√£o se tratar de caso isolado, afirmando que ‚Äúna Tail√Ęndia √© frequente ver bord√©is usarem f√™meas de orangotango como divers√£o sexual para os clientes‚ÄĚ. H√° ainda relato sobre combate de boxe entre orangotangos. A reportagem da National Geographic n√£o aborda essa outra forma execr√°vel de abuso contra as f√™meas que talvez ainda aconte√ßa.

A editora da revista introduz o tema com o t√≠tulo animais explorados falando sobre os elefantes que s√£o sequestrados de suas m√£es e assim, domados desde beb√™s a fim de transportar pessoas e fazer proezas sem ferir humanos, dentre outras formas de explora√ß√£o comercial. Vale observar que a reportagem √© sobre o turismo, mas esses mesmos animais n√£o est√£o livres de serem usados tamb√©m em outras atividades, como o elefante Plai Thong Bai que √© famoso na Tail√Ęndia por ser astro de propaganda de cerveja e nos outros dias √© pintado e alugado para festas. Ele vive num cercado acorrentado pelas pernas dianteiras. Ou ent√£o s√£o usados em eventos, a exemplo de duas chinesas vestidas de noiva e montadas em jovens elefantes conforme narra a rep√≥rter.

Tamb√©m n√£o √© incomum usarem os mesmos elefantes de uma atra√ß√£o tur√≠stica em outra: em um museu a c√©u aberto os animais s√£o vistos caminhando desacorrentados no que chamam de turismo ecol√≥gico para camuflar a explora√ß√£o que sofrem ‚Äď √© o Ecovale dos Elefantes -, em local diverso h√° poucos quil√īmetros dali, em uma outra atra√ß√£o da mesma empresa, os elefantes ‚Äúfelizes‚ÄĚ s√£o vistos transportando visitantes e se exibindo ao p√ļblico sendo espetados por um afiado gancho de metal para que obede√ßam aos comandos de seus tratadores. A propriet√°ria diz cinicamente que transportar pessoas e se exibir ao p√ļblico permite que os seus 56 elefantes satisfa√ßam a sua necessidade de exerc√≠cio e claro, a velha m√°xima de sempre, eles s√£o ‚Äúbem cuidados‚ÄĚ afirmando que o comportamento da Meena melhorou desde que seu tratador lhe p√īs a corrente com cravos. Falaremos dessa elefantinha mais adiante.

Mahout (tratador / domador) e turistas passeiam com elefantes no rio, pr√°tica comum em “santu√°rios” de elefantes na Tail√Ęndia. (Fotos: Daniel Meyer / Flickr)

Dar banho em elefantes dentro de rios, por exemplo, est√° na moda e esse turismo intitulado ‚Äú√©tico‚ÄĚ e ecol√≥gico se apresenta como mais uma face perversa da explora√ß√£o, muito embora os turistas geralmente n√£o veem assim. Aqui tamb√©m a gente pode constatar um exemplo de como o turismo ecol√≥gico ou sustent√°vel que atualmente √© defendido dentro de uma sociedade antropoc√™ntrica pode ser uma grande armadilha para os animais n√£o-humanos quando estes n√£o est√£o inclu√≠dos como sujeitos de direitos.

A presença e/ou utilização desse instrumento de tortura em elefantes é uma constante nos passeios turísticos. (Foto: Lee LeFever / Flickr)

Em primeiro lugar é preciso entender que um elefante, assim como outro animal selvagem utilizado em qualquer atividade turística foi e é brutalmente violentado para prestar obediência aos comandos humanos, não há outro meio de domar um animal.

Segue trecho da reportagem:

‚ÄúO phajaan √© o tradicional e brutal per√≠odo de dias ou semanas durante o qual um elefante jovem √© amansado. Essa pr√°tica √© muito antiga na Tail√Ęndia e em todo o Sudeste Asi√°tico. Os elefantes s√£o amarrados com cordas, confinados em ex√≠guos recintos de madeira, passam fome e s√£o repetidamente espancados com aguilhadas, pregos e martelos at√© perderem todo o √≠mpeto de reagir. N√£o se sabe em que grau o phajaan persiste em sua forma mais severa‚ÄĚ.

Ritual phajaan (cenas fortes de violência): https://www.youtube.com/watch?time_continue=249&v=SVckvi_gWVo

Animal selvagem ‚Äúdomado‚ÄĚ √© animal torturado, seviciado. Via de regra, qualquer intera√ß√£o humana com esses animais √© atividade explorat√≥ria e cruel e se vira atra√ß√£o tur√≠stica tem-se a certeza de uma atividade anti√©tica. Animal resgatado de abuso e explora√ß√£o √© animal totalmente ‚Äúaposentado‚ÄĚ e livre em seu habitat natural e, na impossibilidade, livre em espa√ßo natural, ainda que artificialmente criado, que reproduza as condi√ß√Ķes ambientais necess√°rias em observ√Ęncia √†s cinco liberdades conforme j√° citei no epis√≥dio anterior.

Diversas esp√©cies de animais e esp√©cimes (indiv√≠duos) s√£o explorados nessa ind√ļstria cruel e milion√°ria. Inclusive, fizemos aqui uma breve pesquisa e existe um local na Tail√Ęndia que tenta simular um santu√°rio de elefantes mas est√° bem longe de ser, √© um desses espa√ßos chamados conservacionistas e que possui uma peculiaridade: eles formaram uma orquestra de elefantes! Obrigam os animais a tocarem enormes instrumentos de percuss√£o produzidos para esse fim. J√° gravaram alguns √°lbuns. De frente aos elefantes, um homem balan√ßa uma vareta pra l√° e pra c√° como se tivesse regendo. A orquestra foi fundada pelo neurocientista David Sulzer (ou Dave Soldier como dizem ser conhecido no mundo da m√ļsica). Essa aberra√ß√£o a revista deixou passar.

(Foto: Jerry Alexander)

Numa pequena cidade peruana √†s margens do Rio Amazonas, turistas se divertem com um tamandu√° retirado da selva. A rep√≥rter disse que deram iogurte aromatizado para o tamandu√° ‚Äúdentre outras coisas‚ÄĚ. As pregui√ßas amaz√īnicas s√£o retiradas da selva para protagonizarem fotos com turistas de todas as idades, vindo a morrer semanas depois de serem postas em cativeiro.

No outro canto do mundo, ursos s√£o torturados para atra√ß√Ķes circenses. Numa das fotos mais terr√≠veis, tr√™s ursos est√£o amorda√ßados e acorrentados pelo pesco√ßo a uma corrente curt√≠ssima, sendo for√ßados a ficarem em p√© para que fortale√ßam seus m√ļsculos posteriores de modo a andarem somente sob duas pernas. A postura do urso que est√° em p√© bem √† frente de seu soberano algoz n√£o deixa de sugerir uma s√ļplica perante uma compaix√£o inexistente.

P√°gina da revista National Geographic Brasil – Jun/19

Ainda na R√ļssia, um urso-polar dan√ßa no gelo amorda√ßado com uma focinheira de metal aos comandos de sua algoz treinadora que empunha uma vara tamb√©m de metal.

Bebês tigres são sequestrados de suas mães ao nascerem e trancafiados em jaulas para serem pegos no colo por turistas alienados e ansiosos em produzir uma foto para compartilhar o momento apoteótico das suas férias inesquecíveis. As mamães tigres não podem ficar com seus filhotes porque são forçadas a nova e rápida reprodução, aliás, muito semelhante com a exploração de fêmeas caninas que abastece o mercado de cães de raça conforme falamos no episódio anterior, com a diferença de que aqui estamos falando de um animal selvagem.

Os tigres adultos também são escravizados para que turistas tirem fotos ao lado deles. O tigre fica preso ao chão por uma corrente curta que envolve seu pescoço de modo que não possa se levantar, e além de serem dopados, tem as suas garras previamente removidas para a total segurança dos humanos.

P√°gina da revista National Geographic Brasil – Jun/19

A reportagem aponta pr√°ticas explorat√≥rias e cru√©is que acontecem longe dos olhos dos turistas e tamb√©m algumas que parecem evidentes, sem declar√°-las como tal, denunciando a perversidade da ind√ļstria do turismo animal e informando que a maioria dos turistas que se deleitam com esses encontros n√£o sabe de nada.

De fato, quando falamos em explora√ß√£o animal, grande parte da realidade √© propositalmente ocultada. Por√©m, aqui eu fa√ßo uma cr√≠tica pontual no sentido de que √© um equ√≠voco descartar a ignor√Ęncia deliberada ou volunt√°ria das pessoas (jovens, adultas e idosas) na suposi√ß√£o de uma ingenuidade absoluta desses turistas de modo a tamb√©m coloc√°-los, de certo modo, na posi√ß√£o de v√≠timas numa descabida equival√™ncia com os animais n√£o-humanos dominados, explorados e violentados. A responsabilidade pela inomin√°vel dor desses animais √© compartilhada entre os seus exploradores e os turistas. N√£o houvesse p√ļblico interessado, n√£o haveria turismo que usa animais selvagens.

Em certo momento, a rep√≥rter da National Geographic afirma que ‚Äúa economia desse ramo depende de as pessoas acreditarem que os animais que elas est√£o pagando para ver ou transport√°-las tamb√©m est√£o se divertindo‚ÄĚ.

Ao longo de toda a reportagem destaca-se, com certa frequ√™ncia, as seguintes express√Ķes em refer√™ncia aos turistas: ‚Äún√£o sabem‚ÄĚ (utilizada 7 vezes), ‚Äúsem saber‚ÄĚ, ‚Äúdesconhecem‚ÄĚ, ‚Äúnem imaginam‚ÄĚ, ‚Äúningu√©m sabe‚ÄĚ, ‚Äún√£o pensam‚ÄĚ. A eventual ignor√Ęncia n√£o pode ser uma escusa para a pr√°tica da viol√™ncia, afinal, onde est√° a nossa responsabilidade em buscar saber? No fim do artigo, um lampejo de lucidez da rep√≥rter: ‚Äúmas sabemos que eles sentem dor‚ÄĚ.

As fotos da reportagem tamb√©m n√£o retratam nada de ‚Äúbacana‚ÄĚ para quem tem consci√™ncia e valores √©ticos, ou apenas um cora√ß√£o elevado. Em muitos casos os maus-tratos acontecem na frente de turistas que possuem a absoluta capacidade de discernir o que pode ferir e agredir um outro ser vivo, a exemplo da constante presen√ßa de uma vara com ponta de ferro afiada que √© espetada nos elefantes, a exemplo de uma cena inusitada como um elefante sentado √† beira de uma praia para uma foto ou at√© mesmo um elefante acorrentado, a exemplo de um tigre dopado preso a corrente curta e sem garras para que n√£o esboce nenhuma rea√ß√£o na presen√ßa humana, a exemplo de ursos-polares amorda√ßados com arame, dentre outras maldades expl√≠citas.

P√°gina da revista National Geographic Brasil – Jun/19

Ent√£o, n√£o, a ind√ļstria n√£o se aproveita do ‚Äúamor das pessoas pelos bichos‚ÄĚ como pensa Susan Goldberg, editora chefe da National Geographic. Certamente a ind√ļstria se aproveita de outros fatores e de outros sentimentos, que n√£o o amor. Essas pessoas n√£o amam animais, ainda que algumas delas pensem o contr√°rio. Elas amam selfies loucamente, elas amam ver as suas redes sociais lotadas de seguidores e curtidas, elas amam experi√™ncias extravagantes. Elas n√£o amam animais, elas viabilizam uma sobrevida de perp√©tuo sofrimento aos selvagens at√© que eles morram sem conhecerem o amor e o respeito humano e ent√£o a ind√ļstria do turismo se aproveita da inconsci√™ncia e da indiferen√ßa delas.

Chegou o momento de contar um pouco da hist√≥ria de Meena, ali√°s, bem diferente de todo aquele dramalh√£o rid√≠culo que √© contado nos zool√≥gicos para a comunidade a cada nascimento de um animal. Meena tem 4 anos e 2 meses, √© uma criancinha elefante que fica presa a uma corrente curta por um dos p√©s acima da superf√≠cie com uma argola cheia de cravos de metal, de modo que quando ela se cansa e tenta baixar o p√©, os cravos espetam mais fundo o seu tornozelo. Desde os 11 meses de idade ela est√° no Maetaman Elephant Adventure, um parque situado ao norte da Tail√Ęndia. Desde ent√£o Meena tem sido torturada e escravizada para pintar.

Elefantes de pouca idade s√£o escravizados para pintar e fazer truques para turistas. (Foto: Dennis Jarvis / Flickr)

Segue a leitura de um trecho da reportagem:

‚ÄúDuas vezes por dia, diante de multid√Ķes de visitantes tagarelas, o seu tratador p√Ķe um pincel na ponta da tromba de Meena e pressiona sua face com um prego de a√ßo para direcionar as pinceladas enquanto ela arrasta cores prim√°rias pelo papel. Ele costuma gui√°-la para que pinte um elefante selvagem na savana. As pinturas s√£o vendidas a turistas‚ÄĚ.

Segundo a reportagem, s√≥ a Tail√Ęndia possui cerca de 3.800 elefantes cativos e outros milhares est√£o no Sudeste Asi√°tico. Meena ser√° obrigada a executar esse verdadeiro show de horror at√© mais ou menos 10 anos de idade. Esp√©cimes jovens s√£o escravizados para fazerem truques aos turistas, s√£o sequestrados de suas m√£es e domados desde muito cedo o que significa submiss√£o √† tortura. Passada a juventude, mudam de atividade escravagista: ser√£o for√ßados a transportar turistas sentados em um banco preso √†s suas costas. Quando adoecerem demais para carregarem humanos, se ficarem imprest√°veis para a ind√ļstria, ou quando envelhecerem, o destino comum √© o abandono e morte.

Elefantes escravizados para carregarem grupo de turistas sentados em bancos de madeira em passeio na Tail√Ęndia. (Foto: Funky Ckickens / Flickr)
A pr√°tica explorat√≥ria tamb√©m ocorre em outros pa√≠ses, a exemplo da √ćndia. (Foto: Sandeepachetan / Flickr)

√Č prov√°vel que Meena percorrer√° essa longa trajet√≥ria em sua triste vida invis√≠vel e esquecida. Solit√°ria. A reportagem n√£o diz, mas talvez ainda acabe vendida para um circo ou um zool√≥gico, incrementando mais brutalidade e viol√™ncia em sua mente e corpo mediante introdu√ß√£o de novas formas de tortura f√≠sica e psicol√≥gica.

Me parece que todas as proezas e truques feitos pelos animais n√£o-humanos que s√≥ podem ser aprendidas mediante tortura e servid√£o ao longo dos anos, s√£o sinais latentes da manifesta√ß√£o da nossa pequenez humana que, do alto de uma soberania ins√Ęnia, encontra contentamento e sentido em ver comportamentos antropom√≥rficos expressados por animais selvagens altamente inteligentes e cognitivamente complexos, seres absolutamente indom√°veis em suas ess√™ncias.

Parques ao ar livre que exibem elefantes para que turistas montem neles ou para serem i√ßados por suas trombas; botos cercados em meio ao Rio Negro no Amazonas por um grupo de turistas em c√≠rculo fechado enquanto um guia oferece um peixe como isca ao boto que, segundo a rep√≥rter, apresenta numerosos arranh√Ķes pelo corpo devido ao embate com outros animais ‚Äď curioso notar que nesse grupo h√° uma crian√ßa humana que, na sua plena inoc√™ncia parece n√£o entender nada daquela confus√£o e tem seu bracinho esticado por um homem, possivelmente o seu pai, para que ela toque um boto-cor-de-rosa); macacos que andam de triciclo, lan√ßam bola de basquete e giram sombrinha antes de serem enclausurados numa gaiola para o show do dia seguinte… todas essas atra√ß√Ķes tur√≠sticas que exploram animais, de certo modo podem ser vistas como um desdobramento perverso da institui√ß√£o do zool√≥gico ou circo. Afinal, para muitos frequentadores esses animais est√£o livres e vivendo a sua vida longe de jaulas, pelo menos ao longo do dia, momento em que esse turismo acontece a c√©u aberto.

O autor Brian Massumi, em seu livro O que os animais nos ensinam sobre pol√≠tica explicita o funcionamento dessa l√≥gica demasiado humana, utilizando-se como analogia a moldura de uma pintura, onde √© preciso o ‚Äúduplo enquadramento‚ÄĚ a fim de ‚Äúdelimitar o fundo contra o qual as figuras ser√£o percebidas‚ÄĚ, em cita√ß√£o ao pensador brit√Ęnico Gregory Bateson, sob pena de borramento da separa√ß√£o entre as premissas que operam dentro da moldura (isto √©, animais dentro do zool√≥gico ou em uma institui√ß√£o similar) e aquelas que operam fora da moldura (isto √©, a ‚Äúcultura‚ÄĚ humana ou o territ√≥rio humano da institui√ß√£o do zool√≥gico).

A inclus√£o de elementos que lembram o habitat natural dentro de uma jaula equivaleria a ‚Äúuma moldura dentro de outra moldura‚ÄĚ (por isso o chamado duplo enquadramento) e muito embora o autor esteja se referindo principalmente a institui√ß√£o do zool√≥gico, parece evidente que podemos usar esse racioc√≠nio para essa outra forma de explora√ß√£o tur√≠stica que acontece ao ar livre mediante o uso dos animais. Nesse processo ocorre a exclus√£o inclusiva do animal que concerne √† estrutura, ‚Äúcujo tra√ßo constitutivo √© o desenho de uma fronteira entre o dentro e o fora‚ÄĚ, numa din√Ęmica de trazer √† luz e deixar √† sombra, criando-se uma zona de indistin√ß√£o ou indiferen√ßa como resultado de um borramento dessa demarca√ß√£o.

Segue um trecho da obra O que os animais nos ensinam sobre política:

‚Äúesse enquadramento zoo-l√≥gico repete o gesto que Giorgio Agamben identifica como o gesto fundador da pol√≠tica humana. O animal fica reduzido ao status da zo√© ‚Äď mera vida biol√≥gica sob a regra categ√≥rica das leis da natureza ‚Äď e, consequentemente exclu√≠do da p√≥lis (ou, mais precisamente, inclu√≠do apenas como exclu√≠do). Os espectadores humanos gozam do estatuto da bios ‚Äď a forma ou maneira de viver pr√≥pria de um indiv√≠duo ou de um grupo; uma vida qualificada, reconhecida como uma pessoa, e dotada do estatuto jur√≠dico que acompanha esse reconhecimento (personalidade moral)‚ÄĚ.

Uma constante do turismo animal é a proposital humanização dos animais, o que também encontramos na reportagem e nas fotos da National Geographic.

Todo o poss√≠vel √© feito para incitar o p√ļblico humano a se identificar com os animais a fim de arrecadar fundos. A proje√ß√£o identificat√≥ria acontece por meio da antropomorfiza√ß√£o (o que, em regra, parece assegurar a falta de consci√™ncia da explora√ß√£o), de modo que aqui os animais passam a divis√£o categ√≥rica de bios, isto √©, ao reconhecimento de uma ‚Äúvida qualificada‚ÄĚ que tem valor unicamente em raz√£o das proezas e truques que s√£o ‚Äúcapazes‚ÄĚ de executar. Todavia, esse deslocamento subjacente por meio da identifica√ß√£o emocional do turista num aut√™ntico melodrama √© incapaz de substituir a dura exclus√£o constitutiva da pol√≠tica humana.

Elefantes são escravizados para fazer truques aos turistas, na foto um jovem elefante lançando dardos. (Foto: Dennis Jarvis / Flickr)

Brian Massuni em seu livro observa o seguinte: ‚Äúa figura exclusivamente inclu√≠da do animal como definido pela zo√© some de vista, ficando atr√°s do papel de parede zoo-l√≥gico. Os animais agora tem rostos e pensamos ver nos seus olhos a imagem refletida da nossa pr√≥pria humanidade (…) O horror ao vis√≠vel sufocamento da vitalidade dos animais √© convertido em divers√£o ‚Äď a divers√£o, em grande medida, √© reconhecer-se no outro. √Č claro que a opera√ß√£o nem sempre funciona. As crian√ßas, que s√£o seus principais alvos, s√£o frequentemente as menos capazes de negligenciar o horror e fazer vista grossa para a singularidade do animal (…)‚ÄĚ.

E aqui não posso deixar de comentar o quão nociva é a falta ou a má qualidade da educação transmitida por muitas mães, pais e mestres, que não raras as vezes deseducam as crianças sufocando o seu potencial criativo e inventivo sobre o mundo que a cerca, impossibilitando que elas superem o que está dado, num verdadeiro desastre em cadeia para toda a sociedade.

Em muitos casos, o sofrimento desses animais, se n√£o claramente percept√≠vel, pode ser suposto com um pouco de aten√ß√£o voltada ao animal e as circunst√Ęncias que o rodeiam. H√° uma diferen√ßa entre n√£o saber e n√£o querer saber. Muitos turistas comportam-se de maneira alienada e entram num √™xtase descomunal, adicionando histrionicamente seus esfor√ßos em doses identificat√≥rias  – conforme explicita Brian Massumi, as tornando incapazes de observar quem est√° al√©m de seu pr√≥prio umbigo dentro dessa estrutura da pol√≠tica humana fadada ao fracasso.

√Č comum na Tail√Ęndia a exist√™ncia de falsos santu√°rios, locais voltados exatamente para quem est√° em busca de um passeio “√©tico” que inclua a intera√ß√£o com animais selvagens. H√° um grande problema nisso.

Aproveitei que a reportagem denuncia alguns casos e fiz uma breve pesquisa na internet sobre esse assunto. Encontrei quatro blogs que falam de turismo com dicas de viagens e passeios, onde todos citam supostos santu√°rios de elefantes.

Dois desses sites manifestam uma certa consci√™ncia sobre a explora√ß√£o dos elefantes na Tail√Ęndia ao mesmo tempo em que desinformam os seus leitores quando passam a falar sobre a exist√™ncia de um “turismo √©tico” com esses animais. S√£o pessoas que visitaram esses lugares e os recomendam cegamente. Em outro blog, a autora alega interesse nesses passeios na Tail√Ęndia e expressa uma certa desilus√£o ao ter descoberto a explora√ß√£o dos elefantes nesses locais, mas logo depois se mostra animada no seu texto com a possibilidade de interagir com elefantes nos tais “santu√°rios √©ticos” passando a indic√°-los, sem ao menos ter pisado l√°. Parece que ningu√©m quer ter a viagem ou o passeio estragado, parece que a quest√£o √©tica √© um mero detalhe.

Conforme a reportagem da National Geographic e o que tamb√©m se confirma nesses blogs, esse turismo que promete experi√™ncias ‚Äú√©ticas‚ÄĚ com animais vem crescendo com o aumento dessa demanda por turistas. Mas parece que esses turistas n√£o entenderam muito bem o que √© a √©tica animalista. Eles usam a velha lente antropoc√™ntrica.

De fato, se veem como pessoas conscientes e transbordam em elogios pensando que est√£o apoiando um turismo √©tico, ecol√≥gico e sustent√°vel, j√° que eles podem ver os elefantes “livres” e “felizes”. O terceiro blog que encontrei particularmente me chamou aten√ß√£o porque √© escrito por uma jornalista que afirma ter 10 anos de experi√™ncia no jornalismo de turismo e comenta, ironicamente, que virou “militante da causa” (s√≥ se for da causa dos turistas exploradores). Mais adiante, uma outra pessoa comenta perguntando se ela sabe se o Patara Elephant Farm tem um trabalho √©tico, ao que ela responde “√© dif√≠cil dizer” ao mesmo tempo em que afirma saber que l√° √© permitido montar nos elefantes. Ora, se √© permitido subir nas costas de um animal selvagem, evidente que n√£o √© √©tico. As pessoas amam o autoengano. Amam alimentar o pr√≥prio ego. Mais uma vez √© preciso dizer: essas pessoas n√£o amam os animais.

A visão ética de uma pessoa animalista abolicionista, ou seja, ativista vegana engajada na defesa dos direitos animais para que estes possam desfrutar de suas próprias vidas com paz, liberdade e dignidade, é muito cuidadosa e diametralmente oposta a essa farsa que é vendida por pessoas desinformadas, aproveitadoras ou inconscientes. Seguindo a linha de pensamento de Brian Massumi, ouso dizer que nós, abolicionistas animalistas, felizmente já nos afastamos da sociopatia que estrutura a política humana e estamos mais próximos de uma política animal.

O animalista abolicionista desenvolveu uma visão biocêntrica e antiespecista que considera os animais não-humanos como indivíduos. Não é da natureza de um animal selvagem interagir de forma tão direta com pessoas humanas ainda que tenha vivido em cativeiro desde a mais tenra idade, ou mesmo nascido em cativeiro.

A aglomera√ß√£o de pessoas e a presen√ßa humana de modo geral, salvo hip√≥teses de tratamento e assist√™ncia por quest√Ķes espec√≠ficas e pontuais, √© uma perturba√ß√£o para animais selvagens. Logo, muitos desses sites de dicas de viagens ao estilo “o que voc√™ precisa saber” √†s vezes at√© denunciam a explora√ß√£o animal mais vis√≠vel (como os locais que acorrentam elefantes e/ou sediam shows com animais) mas tamb√©m indicam e recomendam outros locais igualmente cru√©is sob o verniz de uma √©tica inexistente, sem apurar a fundo como funcionam esses falsos santu√°rios, eis que dominados por um pensamento antropoc√™ntrico e especista, pois entendem que receberem turistas para dar banho em elefante, prepararem quitutes de ervas para aliment√°-los, dar-lhes frutas e fazerem papel com o esterco deles, enquanto se aglomeram e tiram muitas fotos, √© sinal de que est√° tudo bem com esses animais. N√£o existe turismo √©tico quando a divers√£o √© oriunda da escravid√£o de um ser senciente e consciente, seja animal selvagem ou dom√©stico.

O quarto e √ļltimo blog que encontrei √© o mais pat√©tico de todos. Quase cinquenta fotos de um jovem rico interagindo com elefantes no Patara Elephant Farm que acompanham um texto basbaque onde o rapaz narra com detalhes a sua aventura com os elefantes escravizados ao ar livre. O t√≠pico turista sem no√ß√£o e bobalh√£o que vive loucamente uma experi√™ncia como se n√£o houvesse amanh√£, como se ele pr√≥prio fosse o ser mais especial do planeta e aquele dia o mais importante de sua vida. Fica claro no texto a √Ęnsia que o jovem tem em arrancar at√© a √ļltima gota de divers√£o que os elefantes podem lhe oferecer. Vejo as fotos e sinto uma tristeza profunda pelos elefantes, pena de uma vida humana que se compraz com o sofrimento alheio e acredito que, neste caso, na mais pura inconsci√™ncia. As fotos definem bem o que √© especismo. A palavra de ordem no turismo que envolve o uso de animais √© m√°xima divers√£o e, literalmente, explora√ß√£o. Tudo incentivado e ao comando dos funcion√°rios da tal reserva ‚Äú√©tica‚ÄĚ e ecol√≥gica. Numa das fotos o rapaz aparece escalando uma elefanta pela perna dianteira se agarrando em sua orelha e em seu corpo. Em outra, ele aparece montado em cima da cabe√ßa do animal enquanto d√° uma volta no parque, ali√°s n√£o s√≥ ele, mas uma mo√ßa que segue no elefante de tr√°s repete o feito numa boa. Um grupo de turistas explorando o dia inteiro esses animais, cada um com seu escravo, fazendo da vida deles um verdadeiro inferno.

S√£o in√ļmeras as formas de servid√£o impostas aos animais na ind√ļstria do turismo, onde muitas vezes uma s√≥ esp√©cie animal passa por variadas formas de explora√ß√£o e em diferentes locais. A revista aborda algumas, mesmo porque a imagina√ß√£o humana para escravizar os vulner√°veis n√£o humanos √© infinita.

Elefantes escravizados jogam bola conduzidos pelos tratadores. Nota-se a presença do instrumento de tortura nas mãos dos mahouts. (Foto: Dennis Jarvis / Flickr)

Todas as fotos da reportagem da revista s√£o horr√≠veis no sentido do que elas representam. Ali, nenhuma foto √© bacana porque nada que envolva sofrimento e viol√™ncia, ainda que impl√≠cita, pode ser divertido. O sorriso das pessoas, embora n√£o percebam, √© cruel e revela um cinismo que encobre a barb√°rie estrutural de uma ind√ļstria que explora o turismo animal.

A rep√≥rter elegeu dois animais que mais a impressionaram em virtude do aparente sofrimento, ambos do mesmo estabelecimento tur√≠stico: um elefante de quatro anos visivelmente exaurido que fica alojado no subsolo de um est√°dio, acorrentado na perna dianteira, tenta escorar todo o peso de seu corpo na outra que est√° curvada e inchada, com uma pata meio suspensa no ar como se procurasse um ponto de apoio, seus olhos reviram, sua t√™mpora est√° ferida e ensanguentada. A sua tarefa √© agradar humanos pintando, chutando enormes bolas de futebol ao som de m√ļsica bombando nos alto-falantes, lan√ßando dardos ou talvez um pouco de cada coisa. Se sobreviver a esse mart√≠rio, depois de alguns anos talvez ainda possa fazer truques em circos ou quem sabe servir de passeio para que subam em suas costas.

P√°gina da revista National Geographic Brasil – Jun/19

O outro animal visivelmente doente √© um tigre idoso que passa sua vida preso a uma corrente curta pelo pesco√ßo que est√° presa ao ch√£o em um est√ļdio fotogr√°fico. O tigre possui um abscesso dent√°rio grav√≠ssimo com uma infec√ß√£o n√£o contida na parte inferior da mand√≠bula, como se a mand√≠bula estivesse solta da parte superior da cabe√ßa. O dono do estabelecimento, ao ser inquirido pela rep√≥rter sobre a situa√ß√£o dos animais, diz que o fato de n√£o terem morrido comprova que s√£o bem cuidados. De certo modo a sua fala n√£o √© muito diferente da fala dos turistas que s√£o capazes de frequentar esses locais e assim mant√™-los em pleno funcionamento para o horror desses animais.

P√°gina da revista National Geographic Brasil – Jun/19

Para mim todos ali sofrem em intensidade e forma indiz√≠veis em linguagem humana. E os animais fotografados que sa√≠ram da invisibilidade total devido a reportagem s√£o apenas representantes de outras centenas ou talvez milhares de outros explorados na ind√ļstria do turismo e n√£o citados na reportagem, como por exemplo os equinos, asininos e muares nas charretes e carruagens de passeio, ou tamb√©m explorados nos parques tem√°ticos ou tamb√©m explorados nas chamadas fazendinhas para montaria de crian√ßas, jovens e adultos. Outro exemplo s√£o os camelos em dunas e desertos para passeio dos turistas e suas tralhas. E tantas outras esp√©cies e indiv√≠duos.

Stephanie Van Houten tem 20 anos √© uma influenciadora do Instagram e possui seguidores em quantia suficiente para atrair patrocinadores que bancam roupas e viagens para a jovem mundo afora. Segundo a reportagem, ela j√° esteve num desses resorts que usam elefantes e dessa vez voltou em virtude de um acordo que fez com uma marca n√£o divulgada pela revista. A tarefa da mo√ßa √© fazer um piquenique com elefantes e publicar a aventura para sua legi√£o de mais de 25 mil seguidores no Instagram. Em troca, ganhar√° um generoso desconto na sua di√°ria e, obviamente, promover√° o local e a marca. Nesse mesmo resort chamado Anantara onde a protocelebridade far√° um piquenique com elefantes, esses animais ficam presos a cordas com comprimento o bastante para se deslocarem de modo que os h√≥spedes possam tocar neles e praticar ioga ao lado dos elefantes. Certamente o local tamb√©m est√° na lista de ‚Äúsantu√°rio‚ÄĚ e turismo ‚Äú√©tico‚ÄĚ com animais. Feito o piquenique, a garota edita uma centena de fotos, escolhe uma para ser publicada em hor√°rio que calcula ter o maior n√ļmero de seguidores online e que, segundo a rep√≥rter, inclui uma longa legenda que se resume a “minha hist√≥ria de amor com essa criatura incr√≠vel”, onde a mo√ßa acredita sentir uma conex√£o com o elefante retratado e diz acreditar que a foto possa transmitir isso. Ela posta a foto e imediatamente aparecem mais de mil intera√ß√Ķes, al√©m de coment√°rios e emojis de cora√ß√£ozinho nos olhos.

Turistas fren√©ticos com seus smartphones, assim como formadores de opini√£o e influenciadores digitais acabaram por alavancar o ramo do turismo animal que j√° existia mas, segundo a revista, foi intensificado pois antes a divulga√ß√£o dessas atividades era feita apenas em guias de viagem. A reportagem afirma, ainda, que o papel das redes sociais nesse problema vem sendo reconhecido, dando como exemplo uma antiga mat√©ria publicada tamb√©m pela National Geographic em dezembro de 2017 ‚Äúsobre o danoso turismo de vida selvagem na Amaz√īnia peruana e brasileira‚ÄĚ, ocasi√£o em que o Instagram introduziu uma funcionalidade que consiste num pop-up que abre na tela do usu√°rio avisando que o conte√ļdo exibido pode ser prejudicial aos animais a depender das hashtags buscadas, no entanto, a meu ver parece que isso n√£o ajudou muito no desest√≠mulo desse tipo de turismo, pois o Instagram deveria remover tais conte√ļdos de sua plataforma caso realmente quisesse colaborar eficazmente e combater a crueldade contra os animais. N√£o o faz porque tamb√©m se beneficia dela.

P√°gina da revista National Geographic Brasil – Jun/19

A reportagem tamb√©m apresenta outras pessoas que se aproveitam das redes sociais para lucrar com o sofrimento animal. Contratada por pessoas que querem posar ao lado de animais selvagens, uma fot√≥grafa russa diz ter acordado celebridade no ano de 2015 quando canais da m√≠dia internacional a encontraram e seu p√ļblico saltou para mais de 80 mil seguidores no mundo todo. Diz ela que quer mostrar a ‚Äúharmonia entre pessoas e animais‚ÄĚ. Seria dif√≠cil uma competi√ß√£o para avaliar o grau de cinismo entre todos os envolvidos na explora√ß√£o de animais. Uma jovem em seu anivers√°rio de 18 anos deu-se de presente uma sess√£o com a fot√≥grafa e uma matilha de lobos, era o sonho dela por eles serem selvagens, disse a garota. Sonho dos humanos √© o pesadelo aos n√£o-humanos. Outra fam√≠lia contratou a fot√≥grafa para registr√°-los, tr√™mulos e sorridentes ‚Äď diz a revista, na floresta de b√©tulas junto a um urso chamado Stepan.

Stepan √© explorado por um casal russo que o transformou em ‚Äúestrela das redes sociais‚ÄĚ para um p√ļblico √°vido por uns minutos de fama e atra√ß√£o de seguidores. Em uma foto o urso aparece sentado em meio a sua soberana humana, que introduz algo em sua boca, e a uma mo√ßa vestida de anjo. N√£o obstante √† fantasia alada, a imagem toda retrata uma cena demon√≠aca, a depender dos olhos de quem v√™. Outra fam√≠lia levou seu filho de 2 anos para uma foto com o urso na floresta, fazendo com que segurasse a pata do urso. Num outro dia, um grupo de 12 mo√ßas que, segundo a reportagem, tem contas quase id√™nticas no Instagram com fotos de modelos afagando corujas, lobos e raposas pagou, cada uma delas, o equivalente a 760 d√≥lares (totalizando aproximadamente 9.120 d√≥lares ao casal explorador) para fazer fotos iguais com o urso na floresta. Elas ainda n√£o tem muitos seguidores e desejam um p√ļblico igual ao da ‚Äúfot√≥grafa-celebridade‚ÄĚ, que vai ampliando o seu cat√°logo virtual. Fot√≥grafos de Moscou tamb√©m pagam quase 800 d√≥lares ao casal explorador para registrar as imagens que ser√£o postadas no Instagram como um conto de fadas em meio √† floresta.

P√°gina da revista National Geographic Brasil – Jun/19

Ningu√©m dessas pessoas se importa com o fato de que Stepan √© apenas um urso. Um urso que n√£o goza de vaidade, de ambi√ß√£o e de necessidade de se exibir em fotos e redes sociais. √Č um urso-pardo idoso que mal pode andar, tendo passado a vida toda nas m√£os desse casal que o escravizou desde os 3 meses de vida quando o compraram num zool√≥gico ressignificando o inferno na vida desse animal.

A explora√ß√£o animal para entretenimento humano tamb√©m est√° em todo canto do planeta e a tradi√ß√£o russa nessa explora√ß√£o n√£o se limita aos ursos. As belugas tamb√©m s√£o capturadas em √°guas russas, passando a integrar um novo tipo de turismo: os aqu√°rios itinerantes. A proposta √© facilitar o acesso desse turismo a quem n√£o pode viajar para destinos ex√≥ticos e assim, espet√°culos itinerantes levam esses animais at√© a popula√ß√£o de cidades pequenas por toda a R√ļssia. As belugas n√£o sobrevivem por muito tempo nessas condi√ß√Ķes.

(Foto: Fujitariuji / Flickr)

O homo sapiens inventou um outro nome para o confinamento de animais marinhos: al√©m do terr√≠vel aqu√°rio, existe o ocean√°rio. √Č o oceano √† domic√≠lio! Muda-se o nome talvez para mascarar a barb√°rie de uma pol√≠tica humana que tende a repetir os mesmos erros.

Belugas e golfinhos s√£o levados de um lado pro outro na R√ļssia (e tamb√©m na Indon√©sia) dentro de caminh√Ķes, de cidade a cidade. Isso mesmo: belugas, golfinhos e baleias de pequeno porte em viagens terrestres para exibi√ß√£o aos pobres que s√≥ termina quando os animais marinhos morrem.

No estacionamento de um shopping, os habitantes de uma cidade que fica a 150 quil√īmetros de Moscou sem sa√≠da para o mar podem ver os golfinhos do Mar Negro. Dentro de um estacionamento, ao lado de uma loja de ferragens, foi montado um tanque tempor√°rio para exibir golfinhos que tentam nadar: √© o Delfin√°rio Itinerante de Moscou. At√© o copo pl√°stico tem formato de golfinho para animar a turma (‚Äú√© proibida a venda de canudinhos de pl√°stico para salvar os oceanos‚ÄĚ – s√≥ falta essa placa). As fam√≠lias pobres tamb√©m n√£o sentem piedade dos animais e nem dos golfinhos, que em meio a toda euforia, ‚Äúnadam‚ÄĚ apaticamente em c√≠rculo num espa√ßo min√ļsculo: ‚Äúmeus filhos est√£o pulando de alegria‚ÄĚ ‚Äď diz uma mulher.

√Č proibido capturar golfinhos no Mar Negro, mas pescadores russos tem cotas para capturar belugas e orcas em nome da ci√™ncia e da educa√ß√£o e parece que isso √© uma porta para a captura ilegal. A comercializa√ß√£o interna de belugas para serem confinadas em aqu√°rios √© permitida, por√©m h√° suspeita de que as orcas estejam sendo capturadas tamb√©m para exporta√ß√£o para a China, sendo vendidas por milh√Ķes de d√≥lares.

A reportagem lembra do document√°rio Blackfish que, logo ap√≥s seu lan√ßamento em 2013 provocou um rebuli√ßo especialmente no p√ļblico norte-americano ao revelar as condi√ß√Ķes terr√≠veis que as orcas tem em cativeiro. Passados alguns anos o assunto esfriou e tudo foi voltando √† normalidade da pol√≠tica humana. Sea World n√£o fechou e surgiram outros espa√ßos t√£o m√≥rbidos quanto ao redor do mundo.

Na Inglaterra o √ļltimo parque de animais marinhos fechou em 1993, segundo informa a revista. Numa das viagens para elabora√ß√£o dessa mat√©ria sobre turismo animal, a rep√≥rter da National Geographic encontrou um ingl√™s em lua de mel com sua esposa no Hava√≠. O ingl√™s diz ter ficado transtornado com o que viu em Blackfish. No entanto, a rep√≥rter o encontrou no Dolphin Quest Oahu, que √© uma empresa que promove nado com golfinhos para clientes endinheirados dentro de um resort. Ele e a esposa pagaram para nadar com golfinhos por 30 minutos junto a um pequeno grupo. Esses animais s√£o capturados dos oceanos para isso: interagir com turistas ricos em piscinas.

Segundo a rep√≥rter a√≠ existe uma incoer√™ncia: ‚Äúos ocidentais evitam os espet√°culos que mostram animais se exibindo, mas veem o nado com golfinhos cativos como um rito de passagem para experimentar nas f√©rias‚ÄĚ.

Eu acho que a repórter está enganada e não compreendeu bem a questão de fundo. Ocidentais não evitam exploração animal no turismo, pois a maioria é especista (isto é, desprezam as demais espécies animais por não serem humanas, as colocando numa categoria de objetos, de coisas desprovidas de singularidade e individualidade, privando-as de um reconhecimento moral) e nesse quesito não há diferença alguma entre ocidentais e orientais.

Mais adiante a reportagem informa que na China atualmente há 78 parques de animais marinhos e outros 26 em construção.

Turistas-especistas se divertem √†s custas da domina√ß√£o e da crueldade animal, especistas riem e desdenham quando falamos em respeito aos animais, especistas s√£o hip√≥critas ao demonstrarem algum tipo de como√ß√£o com a explora√ß√£o animal. O repert√≥rio de justificativas especistas n√£o muda: √© um sonho de inf√Ęncia da esposa, no resort √© diferente porque os golfinhos est√£o sendo vistos por eles quando s√£o alimentados e tratados etc etc. Ante a rep√≥rter, o ingl√™s tenta colocar a responsabilidade do passeio, que ele tamb√©m est√° fazendo, na esposa, mencionando o document√°rio Blackfish, ao que ela reclama: ‚Äúpare de transformar meu sonho numa coisa horr√≠vel!‚ÄĚ. Ego√≠smo e hipocrisia: caracter√≠sticas bastante presentes no especismo.

E claro, as ONG¬īs bem-estaristas, neste caso a American Humane, certifica e apoia essa e outras empresas desse ramo tur√≠stico: padr√Ķes humanos elevados, veterin√°rios a postos, tanques de √°gua marinha filtrada. O confinamento de animais marinhos que evolu√≠ram para nadar por enormes dist√Ęncias e viverem em oceanos, em grupos sociais complexos e etc… vira um mero detalhe.

Os propriet√°rios e gerentes desses locais afirmam, no topo de sua arrog√Ęncia, que os ‚Äúseus‚ÄĚ animais vivem mais tempo em cativeiro que seus cong√™neres, se colocando sordidamente na posi√ß√£o de seus salvadores. (Ali√°s, vejo semelhan√ßas com pessoas que comem animais, mas dizem am√°-los). Bem, voltando ao tema, gabam-se que usam parte do dinheiro em projetos de conserva√ß√£o e ainda afirmam, cinicamente, que educam os turistas sobre os perigos que os animais marinhos enfrentam na natureza, desde poss√≠veis predadores √† perigos ambientais. Tem que dispor de algum grau de estupidez pra acreditar em toda essa lorota empresarial, mas nem √© preciso muito esfor√ßo quando turistas e visitantes centram-se nelas mesmas passando a vibrar o qu√£o divertido e inesquec√≠vel pode ser a sua pr√≥xima viagem.

Al√©m do confinamento de animais marinhos em aqu√°rios ou ocean√°rios, itinerantes ou n√£o, lembra dos botos-cor-de rosa cercados por turistas no Rio Negro, no Amazonas, que mencionei no come√ßo do epis√≥dio? Entrei num famoso site que re√ļne avalia√ß√Ķes de turistas em todo o mundo e l√° est√° o passeio ‚ÄúFlutuante dos Botos Cor de Rosa‚ÄĚ onde a grande maioria dos avaliadores acha um passeio excelente e indica. De 95 avalia√ß√Ķes, 3 acharam ruim. Dessas 3, vou ler o coment√°rio de duas pessoas que se referem aos animais:

  • Mariana disse em dez/17: “N√£o curti a experi√™ncia.

Fui j√° (sic) sem saber o que achava do mergulho com botos. Quando cheguei, vi que grupos grandes entravam na √°gua (at√© 10 pessoas), e resolvi que n√£o gostaria de entrar. Botos s√£o animais que n√£o est√£o acostumados a viver juntos, e por isso (disputa de territ√≥rio) acabam que muitos dos que v√£o aos flutuantes est√£o cheio (sic) de marcas de briga por outros botos. Antes de ir, creio que vale pesquisar um pouco”.

  • Louren√ßo disse em jun/16: “N√£o recomendo.

Ver os Botos √© legal, n√£o dessa forma. O lugar n√£o √© agrad√°vel e apesar de alegarem que os botos vivem soltos na natureza (acredito nisso), s√£o criados, ao meu ver, como em cativeiro, pela alimenta√ß√£o constante dada a eles. Um dos guias local (sic) n√£o demonstrou estar seguro e preparado para alimentar os animais e tomou uma mordida, com consequ√™ncias, nos deixando apreensivos. Ponto positivo por n√£o mais permitirem nadar com os botos”.

O comentário desses dois turistas que, apesar de terem ido ao local e nessa condição colaboraram com a manutenção da exploração dos botos cor-de-rosa no Amazonas, nos dá uma ponta de esperança: é possível mudar de ideia! Rever atitudes! Tudo indica que esses dois não voltarão mais lá.

E você que me ouviu até aqui e realmente quer fazer a diferença por sentir apreço pelos animais, por entender que ele merecem respeito, não precisa ir num local que explora para ver com os próprios olhos, pesquise antes, veja o que dizem os defensores animalistas abolicionistas.

√Č poss√≠vel come√ßar a respeitar, de fato, os animais, n√£o colaborando com a explora√ß√£o deles em todos os setores, ficando longe do turismo animal pode ser um come√ßo e informando a todos sobre os maus-tratos e sofrimento que passam esses animais para que outras pessoas tamb√©m deixem de visitar.

Caminhando para a segunda década do século XXI, muitas espécies de animais estão à beira da extinção como resultado da nossa negligência e imprudência humana, da nossa falta de consciência ética e sistêmica. Engana-se quem ainda pensa que os humanos não estão nessa lista. A ciência reconheceu a consciência dos animais não-humanos em 07 de julho de 2012 e hoje, mais do que ontem, temos amplo acesso à informação para compreendermos evidências que estão postas à nossa frente, um chamado para revermos comportamentos e ampliarmos a nossa própria consciência enquanto o tempo está correndo em desfavor da própria espécie humana.

Animais selvagens e silvestres n√£o est√£o neste planeta para serem perturbados e perseguidos para divers√£o ou entretenimento humano. Se n√£o podemos ir na floresta, na selva, na savana, no deserto ou nos oceanos para apreciar animais totalmente livres a uma dist√Ęncia bastante segura para eles sem interferir no ambiente natural, segurando apenas um bin√≥culo ‚Äď se desejarmos, n√£o existe turismo animal √©tico. Aceitar √© simples quando sabemos utilizar a nossa consci√™ncia, deixando que as outras esp√©cies animais sejam livres para viver a plenitude da liberdade conforme a natureza delas.

A reportagem da National Geographic encerra com o seguinte subt√≠tulo ‚Äúorienta√ß√Ķes para ver animais selvagens‚ÄĚ onde menciona a import√Ęncia de observar os crit√©rios internacionais estabelecidos pelas ‚Äúcinco liberdades‚ÄĚ na avalia√ß√£o dos estabelecimentos que possuem animais cativos. Parece que essas dicas n√£o ajudam muito e a meu ver a revista aqui cometeu um erro, pois ao inv√©s de informar corretamente sobre a crueldade e o sofrimento presentes na vida de animais selvagens em cativeiro (al√©m do desequil√≠brio ambiental), deixa a tarefa de decidir – qual destino tur√≠stico ou estabelecimento deve ou n√£o ser escolhido – a cargo de turistas desinformados e desinteressados no bem-estar animal. Esses animais sequer deveriam estar em cativeiro o que j√° √© o bastante para n√£o frequentar e n√£o financiar esses locais, al√©m de que a regra √© que todo e qualquer turismo animal envolve explora√ß√£o, maus-tratos (ainda que indireto) e crueldade e, portanto, deve ser desestimulado, desincentivado.

Referências:

Revista National Geographic Brasil ‚Äď Edi√ß√£o 06.2019

Orangotangos s√£o usados em redes de prostitui√ß√£o na Tail√ĘndiaEstado de Minas

Defensores de animais dizem que Grécia acoberta abuso de burros em SantoriniReuters

Cavalo morre enquanto puxava charrete em São Lourenço, MGG1, Globo

Empresário suíço oferece passeio de dromedário nas dunas de NatalG1, Globo

Animais sofrem diversos maus-tratos em pontos turísticos do Egito РRevista Galileu

Livro


M√ļsicas:

Urso, Assopro

The bear, Ben Salisburry, Geoff Barrow

On reflection (Max Richter), Max Richter

Submarine poetry, krill.minima

The tourist (Colin Greenwood, Ed O’Brien, Jonny Greenwood, Philip Selway, Thom Yorke), Radiohead

(Obs.: a partir do tempo 6’30” o som ouvido ao fundo √© de uma das muitas “m√ļsicas tocadas” por elefantes na “orquestra” de um “santu√°rio conservacionista” e foi utilizada neste epis√≥dio como den√ļncia, de modo que nos recusamos em compartilhar a refer√™ncia).