ūüéôÔłŹ Podcast Saber Animal #007 ‚Äď Pangolim

Uma m√£e e filhote de pangolim saem para um passeio no centro de resgate no Zimb√°bue. Em cima, o filhote aprende comportamentos importantes com a m√£e, como encontrar formigas.
Uma m√£e e filhote de pangolim saem para um passeio no centro de resgate no Zimb√°bue. Em cima, o filhote aprende comportamentos importantes com a m√£e, como encontrar formigas. (Foto: Elyane And Cedric Jacquet / National Geographic)

No episódio de hoje, falarei sobre o pangolim, o animal silvestre mais traficado do mundo e que foi apontado por alguns pesquisadores como sendo o possível hospedeiro intermediário do novo coronavírus ou de uma versão do vírus que agora vem causando a pandemia da Covid-19.

Apresentação e Roteiro: Vanice Cestari / Edição de áudio: Fabio Montarroios.


COVID-19

Os estudos sobre a relação do novo coronavírus com o pangolim ainda não são conclusivos, não sendo descartada a hipótese de contato com animal de outra espécie.

Saiba mais: O ASSASSINATO E A EXPLORA√á√ÉO DE ANIMAIS NOS COLOCAR√Ā DIANTE DE NOVAS PANDEMIAS, por Vanice Cestari

O que se sabe √© que a propaga√ß√£o e dissemina√ß√£o da doen√ßa se deve √† transmiss√£o de humano para humano. Em meio ao obscurantismo que tamb√©m se faz presente nas quest√Ķes relativas √† defesa animal e ambiental nunca √© demais esclarecer que o pangolim, o morcego ou qualquer outra esp√©cie de animal n√£o humano que possa vir a ser relacionada com o novo coronav√≠rus n√£o s√£o os respons√°veis ou culpados pela atual pandemia. Os √ļnicos respons√°veis somos n√≥s, seres humanos absolutamente capazes. No jornal El Pa√≠s Brasil, h√° um artigo digno de nota escrito pela jornalista Eliane Brum: o v√≠rus somos n√≥s ou uma parte de n√≥s.

Os animais n√£o humanos s√£o as primeiras v√≠timas da nossa humanidade insaci√°vel que se comporta de modo praticamente suicida e que nos levou a esse estado calamitoso atual. Para termos um futuro poss√≠vel, n√£o podemos voltar √† ‚Äúnormalidade‚ÄĚ.

N√£o existe ‚Äúv√≠rus chin√™s‚ÄĚ e nem mesmo o novo coronav√≠rus √© o vil√£o dessa hist√≥ria, j√° que apenas segue o prop√≥sito biol√≥gico de sua exist√™ncia: hospedar-se no corpo de um ser vivo e multiplicar-se, sem qualquer poder de escolha, diferentemente do ‚Äúv√≠rus homo sapiens sapiens‚ÄĚ.

Para não pularmos de pandemia em pandemia, quiçá até mais graves do que a Covid-19, é necessário encararmos os fatos como eles são, a realidade como ela é. Precisamos escancarar as portas da verdade para que mais pessoas a conheçam a fim de que possamos aprender com os erros já consumados para então seguirmos outros caminhos em benefício de todos os seres vivos deste magnífico planeta, dos quais somos absoluta e humildemente dependentes.

Ocupar-se de nossas a√ß√Ķes como se fossem isoladas do todo, ou ocupar-se do exclusivo destino da humanidade, √© persistir no caos, na desordem da involu√ß√£o contrariando o fluxo vital, o qual precisa emergir cada vez mais neste nosso tempo.

Finalmente a atividade pecu√°ria vem chamando a aten√ß√£o de alguns cientistas mais empenhados em decifrar a enorme quantidade de doen√ßas zoon√≥ticas surgidas nas √ļltimas d√©cadas, por vezes ocasionando doen√ßas mais letais nos humanos do que a Covid-19 e n√£o s√≥ na China, mas em todo o mundo.

No site Saber Animal nós abordamos o tema em três artigos e um deles é uma crítica sobre o filme Contágio, de Steven Soderbergh, que vale assistir de novo ou pela primeira vez, caso não viu, que no nosso entendimento é a ficção virando realidade, guardadas as pontuais diferenças da trama.

Saiba mais: CINEMA: CONT√ĀGIO (2011), por Fabio Montarroios

Mais do que nunca a √©tica se imp√Ķe como um valor essencial a ser concretizado nas sociedades humanas, onde nossas a√ß√Ķes individuais devem sempre considerar a exist√™ncia e o respeito √†s vidas alheias, aos demais seres vivos, um dos fundamentais aprendizados trazidos pela atual pandemia. A import√Ęncia de nossos atos individuais amplificados no corpo coletivo. Que essas valiosas li√ß√Ķes de respeito √†s vidas alheias, que inclui os demais animais e a natureza sejam aprendidas para o bem de todos.

Saiba mais: O VEGANISMO PODE NOS AJUDAR CONTRA O CORONAV√ćRUS?, por Vanice Cestari

A partir de agora eu vou contar um pouco sobre o pangolim e sobre o que humanos n√£o veganos fazem com ele.


PANGOLIM

Com essa pandemia, muitos no Ocidente ouviram falar pela primeira vez do pangolim. O que n√£o se ouve falar e, consequentemente, muita gente n√£o sabe, √© que os pangolins s√£o as maiores v√≠timas do tr√°fico de animais silvestres e est√£o √† beira da extin√ß√£o j√° que o interesse da humanidade nos demais animais √© puramente econ√īmico, gastron√īmico, explorat√≥rio. Da√≠ porque agora temos a Covid-19.

Se no passado a ca√ßa de pangolins se restringia entre a popula√ß√£o mais pobre por uma quest√£o de sobreviv√™ncia, agora os pangolins s√£o covardemente capturados em seu habitat e assassinados por motivos f√ļteis em suposto benef√≠cio humano. Os seus corpos mortos s√£o vendidos e servidos como iguaria e suas escamas s√£o extra√≠das para a produ√ß√£o de f√°rmacos e medicamentos que prometem o imposs√≠vel: aumento do t√īnus muscular, aumento da libido e outras tantas promessas inveross√≠meis, inver√≠dicas.

Os pangolins s√£o mam√≠feros nativos de regi√Ķes tropicais da √Āsia e da √Āfrica e muito embora sejam fisicamente parecidos com o tatu-bola e com o tamandu√°, na realidade s√£o parentes mais pr√≥ximos dos c√£es e dos ursos, eles s√£o do tamanho de um filhote de c√£o da ra√ßa golden retriever. 

A vida do pangolim vem sendo dizimada por conta da cobiça de suas escamas, da gula insaciável que reduz a vida de dóceis animais a um prato culinário. E não tem nenhuma diferença entre comer a carne de um pangolim ou de um boi, frango ou peixe, todas essas práticas promovem devastador desequilíbrio ambiental, doenças e evidentemente sofrimento animal. A vida do pangolim não tem valia para os humanos que tem levado esses indivíduos ao extermínio. Matar os animais não humanos é destruir uma parte essencial de nós mesmos, os sapiens, os animais humanos.

Segundo reportagem da National Geographic Brasil publicada na edi√ß√£o de junho do ano passado, o ex-vice-reitor da escola americana de medicina tradicional chinesa em S√£o Francisco afirma que na pr√°tica n√£o h√° nenhuma situa√ß√£o em que seja indispens√°vel o uso das escamas do pangolim, especialmente porque s√£o compostas de queratina (o mesmo material das unhas e fios de cabelo humano). E mesmo que fosse indispens√°vel, seria a express√£o da arrog√Ęncia e ego√≠smo humano em seu ponto alto dar causa √† matan√ßa de outros seres vivos para gerar algum ‚Äúconforto e bem-estar √† sa√ļde humana‚ÄĚ, para um prazer fugaz, seja ele qual for, como geralmente acontece, sobretudo quando existem in√ļmeras alternativas que respeitam a vida do outro.

A reportagem da National Geographic cita que existe mais de uma centena de terapias alternativas para tratamento da sa√ļde humana √† base de ervas e minerais, mas a estupidez e ignor√Ęncia continuam fazendo v√≠timas, continua-se violentando e abusando dos animais. Por que tanto desprezo e indiferen√ßa pela vida do outro? N√≥s chamamos isso de especismo. Isso tamb√©m √© autoexterm√≠nio. O especismo precisa ser questionado por todos n√≥s, especialmente pelos defensores dos direitos humanos e dos valores de justi√ßa. Como podemos atribuir aos indiv√≠duos vulner√°veis e indefesos tamanha responsabilidade em servir √† nossa esp√©cie com seus corpos, suas vidas numa aut√™ntica escravid√£o e ainda hastearmos a bandeira da justi√ßa? Por que picotar e comer animais, os corpos dos animais, silvestres ou n√£o, quando j√° est√° mais do que demonstrado que √© plenamente poss√≠vel vivermos √† base de uma dieta saud√°vel, livre de crueldade e que tem potencial de regenera√ß√£o planet√°ria? N√£o tem como passarmos inc√≥lumes a tanto sofrimento que a nossa humanidade cria e despeja no mundo, a tanta devasta√ß√£o ambiental. A pandemia da vez est√° a√≠ esfregando na nossa cara o tanto de coisas que h√° muito temos ignorado.

Reclamamos dos governantes mas seguimos apegados √†s tradi√ß√Ķes, costumes e crendices que prejudicam outras vidas. Enquanto a mudan√ßa individual √© incipiente e assim a transforma√ß√£o coletiva n√£o se concretiza, os governantes s√£o espelhos da sociedade e assim seguem atendendo exclusiva e incessantemente os interesses do capital e da sociedade do consumo, exatamente √† semelhan√ßa de nossas atitudes do cotidiano que exploram vidas alheias, causam dor, viol√™ncia e sofrimento.

No Zimb√°bue existe um centro de resgate para pangolins, resgatados das m√£os de mercadores que os ca√ßam para contrabandear suas escamas e abastecerem o mercado chin√™s, isto porque o exterm√≠nio dos pangolins n√£o est√° restrito ao continente asi√°tico. Nessa Funda√ß√£o, al√©m dos tratadores humanos assumirem um papel maternal, eles conseguem ajudar muitos pangolins a se recuperarem para que possam ser devolvidos aos seus ambientes naturais, da√≠ a import√Ęncia da educa√ß√£o ambiental abranger, de modo adequado e eficaz, a conscientiza√ß√£o sobre a import√Ęncia da vida do indiv√≠duo animal no seu habitat.

O corpo morto do pangolim tamb√©m √© consumido nas regi√Ķes oeste e central da √Āfrica, al√©m do consumo de pangolins ser realizado por grupos aut√≥ctones do sul e do sudeste asi√°tico. Em regi√Ķes da √Āfrica subsaariana, as escamas do pangolim tamb√©m s√£o usadas para ‚Äútratamentos de sa√ļde‚ÄĚ. Essa Funda√ß√£o tamb√©m abriga animais resgatados de outras esp√©cies: um ant√≠lope, algumas vacas, uma cabra e dois asnos.

Em outro canto da √Āfrica, uma jovem camaronesa veste roupas e acess√≥rios da moda segurando uma faca afiada em uma das m√£os e na outra um pangolim pelo rabo que, no alto de sua inoc√™ncia e vulnerabilidade fareja a terra sem ao menos perceber o iminente golpe mortal. A jovem com um sorriso no rosto est√° prestes a cometer um ato covarde: matar√° o pangolim para vender a sua carne na barraca de sua propriedade, embora o com√©rcio na Rep√ļblica dos Camar√Ķes tenha sido proibido, informa a reportagem.

Clique aqui para ver as fotos da reportagem, com legenda à direita no idioma inglês.

Os pangolins s√£o vendidos na Rep√ļblica dos Camar√Ķes em feiras livres de carne silvestre, ao lado de macacos e p√≠tons sobre tabuleiros improvisados e na beira de estradas. H√° den√ļncias de que s√£o consumidos e exportados ilegalmente tanto nos Camar√Ķes como em outros pa√≠ses africanos em quantidades alarmantes. Em locais onde se concentram estrangeiros, √© comum encontrar a carne do pangolim, de ant√≠lopes e do porco-espinho-africano √† venda em restaurantes onde constam nos card√°pios antes mesmo dos pratos de cuscuz, banana-da-terra e feij√£o. Logo se v√™ que a Covid-19 se iniciou na China, mas poderia ter se originado em qualquer outro pa√≠s, inclusive no continente africano.

A carne dos animais silvestres √© bastante apreciada nos Camar√Ķes e segundo a reportagem muitos a preferem mais do que a carne de animais domesticados. A rep√≥rter e o fot√≥grafo encontraram com uma sul-africana que estava se preparando para abrir o primeiro centro de resgate de pangolins no pa√≠s. A mo√ßa tem um filho de 8 anos que contou pra equipe da National Geographic o quanto ele gosta dos pangolins e o qu√£o entusiasmado est√° com a possibilidade de poder ajud√°-los.

A grande demanda pela carne do pangolim também fomenta o contrabando das suas escamas, o que significa que não dá pra abordar apenas o tráfico dos animais ou o consumo da carne, isoladamente.

Os investigadores de uma organiza√ß√£o n√£o governamental que ajudam os governos a aplicarem as leis de prote√ß√£o √† fauna silvestre afirmam que √© cada vez mais comum verem o transporte de escamas partindo da √Āfrica Central e passando pelos Camar√Ķes √† caminho da Nig√©ria, onde os traficantes acreditam que a repress√£o ao tr√°fico seja mais branda.

As rotas de contrabando da √Āfrica para a √Āsia de partes de outros animais j√° s√£o consolidadas, tais como dentes de elefantes e hipop√≥tamos e assim os criminosos delas se beneficiam, alerta a reportagem. O massacre dos animais se insere em uma cadeia gigantesca, pois os governos atuam pela perpetua√ß√£o do exterm√≠nio dos pangolins em benef√≠cio dos poderosos e nesse cen√°rio leis protetivas n√£o servem pra prote√ß√£o animal, mas apenas legitimam as pr√°ticas de viol√™ncia contra os animais e a destrui√ß√£o do ambiente natural.

A captura ou caça legalizada (que também alimenta o tráfico dos pangolins) é incentivada pelas províncias chinesas que emitem licenças, todos os anos, para que as empresas utilizem, em média, 26,6 toneladas de escamas, retiradas de cerca de 73 mil pangolins.

As escamas do pangolim s√£o secas, mo√≠das em p√≥, colocadas em c√°psulas e vendidas como medicamentos variados, facilmente encontrados em feiras de rem√©dios populares por toda a √Āsia, incluindo Vietn√£, Tail√Ęndia, Laos e Mianmar. H√° persist√™ncia da demanda, o que faz a China contar com a produ√ß√£o de mais de 200 empresas autorizadas pelo governo para fabrica√ß√£o de cerca de 60 tipos de rem√©dios contendo escamas do pobre pangolim.

A reportagem denuncia que o estoque de escamas menor do que a demanda e a falta de fiscaliza√ß√£o das empresas farmac√™uticas s√£o motivos suficientes para desconfiar de que √© o tr√°fico que alimenta o com√©rcio legalizado. Essa din√Ęmica confirma o que eu j√° abordei no Saber Animal sobre a quest√£o da legalidade versus ilegalidade em pr√°ticas explorat√≥rias e aqui mais especificamente, na retirada dos animais silvestres da natureza.

As esp√©cies asi√°ticas de pangolins j√° est√£o √† beira da extin√ß√£o, o que levou a intensifica√ß√£o do tr√°fico das esp√©cies africanas, haja vista a puls√£o destrutiva humana. Na Costa do Marfim 3,6 toneladas de escamas de pangolim foram apreendidas entre 2017 e 2018. Quantos animais foram chacinados na √Āsia e na √Āfrica? J√° parou pra pensar? Essa alt√≠ssima quantidade de apreens√£o de escamas d√° uma vaga ideia da barb√°rie sem precedentes, tanto de quem trafica quanto de quem demanda, de quem consome. Percebe que pouco importa se o com√©rcio √© legal ou ilegal?

Segundo a reportagem, estima-se que 1 milhão de pangolins tenham sido ilegalmente capturados entre 2000 e 2013. Quantas famílias de pangolins foram dizimadas? Qual é o impacto ambiental dessa aniquilação em massa? Estão à beira da extinção e continuam sendo consumidos, seus corpos traficados, suas escamas arrancadas.

Importante reafirmar, ainda que seja uma captura legalizada, n√£o h√° d√ļvida de que esse ato se reveste da mesma crueldade, do mesmo desequil√≠brio ambiental, j√° que a natureza n√£o √© regida por leis e normas jur√≠dicas que comumente servem aos poderosos interesses econ√īmicos.

Existem oito esp√©cies de pangolim, quatro na √Āsia e quatro na √Āfrica, e todas elas est√£o em risco de extin√ß√£o devido ao com√©rcio (legal ou ilegal) das escamas e dos cad√°veres desses d√≥ceis animais que agradam os consumidores humanos e enchem os bolsos dos comerciantes.

Fazendo uma observa√ß√£o sobre a situa√ß√£o dos animais silvestres no Brasil, como j√° mencionei no √ļltimo artigo publicado pro Saber Animal de minha autoria, os animais silvestres tamb√©m s√£o tratados como recursos naturais pelo Estado, sendo legalmente permitida a sua retirada da natureza desde que atendidos determinados requisitos, sendo igualmente permitida a sua reprodu√ß√£o em cativeiro e tamb√©m a sua comercializa√ß√£o como ‚Äúpet‚ÄĚ ou animal de estima√ß√£o.

Estudando um pouco o assunto e ouvindo especialistas que se ocupam, de fato, do bem-estar desses animais, n√£o h√° d√ļvida que a simples retirada dos silvestres da natureza e sua tentativa de domestica√ß√£o se revestem da mais absoluta crueldade com esses indiv√≠duos, embora nem sempre proposital, al√©m, evidentemente, do incalcul√°vel impacto ambiental.

E do mesmo modo que acontece na China e em outros pa√≠ses, essa cadeia de explora√ß√£o (e de viol√™ncia absurda) legalizada tamb√©m favorece o tr√°fico desses animais, que se d√° dentro do pa√≠s e tamb√©m fora dele. Segundo a ONG brasileira Renctas, os animais s√£o traficados para abastecer zool√≥gicos e colecionadores particulares, para fins cient√≠ficos (ou seja, para us√°-los como cobaias e experimentos) e para o com√©rcio em petshop’s. Portanto, o combate ao tr√°fico de animais silvestres, assim como outras quest√Ķes que envolvem a efetividade da prote√ß√£o animal, √© uma quest√£o muito mais complexa do que simplesmente aumentar a puni√ß√£o do agente infrator, especialmente quando se pretende proteger os animais.

Todo o discurso populista que aposta apenas na criminaliza√ß√£o e puni√ß√£o, no aumento de penas, √© falacioso, discriminat√≥rio e oportunista e claro, muitos pol√≠ticos se aproveitam disso e se elegem com a bandeira da causa animal, j√° que encontram amplo apoio no p√ļblico leigo, desinformado e essencialmente punitivista.

Voltando à reportagem da National Geographic, mais de 4 mil carcaças congeladas de pangolins (além de escamas e indivíduos ainda vivos) foram descobertas em abril de 2015 na Indonésia em um contêiner marítimo que supostamente levava peixe congelado. Indiretamente, a demanda em consumir peixe também acabou contribuindo com o extermínio dos pangolins nesse caso.

Quem se alimenta de animais interfere negativamente em in√ļmeras outras esp√©cies que sequer faz ideia, colaborando com o desequil√≠brio ambiental, dissemina√ß√£o de doen√ßas etc. al√©m de financiar a dor e o sofrimento de seres vivos conscientes e sencientes, √© claro.

O predador natural do pangolim é o leão e, para o desconforto daqueles que preferem fechar os olhos e ouvidos para a realidade, este sim pode ser considerado o topo da cadeia alimentar terrestre, mas a captura de um pangolim por um ser humano é especialmente covarde e evidencia aquela parte da nossa humanidade que em nada nos orgulha. A reportagem conta que quando uma mamãe pangolim sente medo, ela se enrola toda no formato de uma bola e assim protege o próprio ventre e também o seu filhote com sua penugem macia sob a armadura formada por suas escamas. Essa posição protege mãe e filho eficazmente de um leão, mas é a pior posição possível frente a um predador humano, que assim consegue os agarrar facilmente com as mãos, sem necessidade de qualquer artefato.

Tamuda √© mais uma v√≠tima do tr√°fico de animais silvestres e foi resgatado ainda beb√™. Com um pouco de sorte, talvez o Tamuda ainda esteja √† salvo e sob os cuidados desse centro de resgate que citei h√° pouco, no Zimb√°bue. √Č que esses centros de resgaste e acolhimento invariavelmente se tornam alvos de inescrupulosos criminosos que tentam reaver esses animais. Talvez o Tamuda tenha sido reintegrado na natureza e esteja ainda vivo, infelizmente isso tem se tornado cada vez mais dif√≠cil.

Os pangolins são animais muito sensíveis e criam laços estreitos com seus cuidadores, que os ensinam a se alimentar de formigas e cupins. Os exploradores, caçadores, consumidores gananciosos, tiram tudo deles e quando não os matam covardemente, o que por si só é um pleonasmo já que todo assassinato de um animal não humano por um humano ambicioso é revestido da mais pura covardia, os privam dos aprendizados mais caros para a sobrevivência digna deles, uma vez impedidos de observar os comportamentos e ensinamentos de suas mães. Ora, qual criança se sentiria segura, amparada e confortável sem a sua mãe?

A rep√≥rter registra um pouco do que presencia. Depois de se alimentar por alguns minutos, Tamuda ‚Äúmove-se desajeitadamente e o tratador mostra outro formigueiro ao animal. Este tomba para o lado como se fosse um beb√™ prestes a ter um acesso de birra. Tamuda enrola ent√£o o corpo na bota do tratador, que se curva e, com todo cuidado, tenta afast√°-lo. Sem conseguir, por√©m: √© √≥bvio que Tamuda quer aten√ß√£o. Ele levanta as patas dianteiras, implorando para ser carregado. O tratador tenta se manter firme ‚Äď afinal, a ideia √© que mostre ao pangolim como se virar sozinho -, mas o apelo √© forte demais para ser resistido. Como faria qualquer m√£e pangolim, ele acomoda Tamuda em seus bra√ßos e o embala‚ÄĚ. Era no dorso da m√£e que Tamuda devia estar e esse direito lhe foi retirado, assim como o direito de sua m√£e ao desfrute da pr√≥pria vida e maternidade.

H√° 20 anos o com√©rcio internacional das quatro esp√©cies asi√°ticas foi proibido e mais recentemente, desde 2017, entrou em vigor a proibi√ß√£o do com√©rcio internacional de todas as oito esp√©cies por meio de uma conven√ß√£o coletiva firmada por 183 pa√≠ses. No entanto, o tr√°fico n√£o foi interrompido e os carregamentos com as maiores quantidades de escamas s√£o origin√°rios de Camar√Ķes, da Nig√©ria, de Serra Leoa e de Uganda, quase sempre com destino √† China.

Nesse cen√°rio, podemos imaginar que o que √© confiscado pelas autoridades chinesas n√£o mostra a verdadeira realidade do tr√°fico, mas na realidade serve como cortina de fuma√ßa, j√° que √© interesse do governo chin√™s a continuidade desse neg√≥cio nefasto. Em 2017, por exemplo, 11,9 toneladas de escamas de pangolim, retiradas de aproximadamente 30 mil animais foi considerada uma das maiores apreens√Ķes realizadas. Em 2018, um √ļnico carregamento de mais 7 toneladas foi apreendido.

Mais adiante, a reportagem conclui: ‚Äúsegundo estimativas conservadoras, as apreens√Ķes representam um quarto de todo o tr√°fico‚ÄĚ.

Estamos falando de centenas de milhares de animais assassinados todos os anos por motivos f√ļteis, em nome da riqueza financeira de poucos e mediante a impossibilidade de defesa dessas v√≠timas, estamos falando de conduta hedionda, de holocausto animal, de desastre ambiental e sanit√°rio, de desigualdade e injusti√ßa social.

E a barbárie não para por aí. Esforços foram ajustados entre chineses e africanos para a criação intensiva de pangolins a fim de extraírem constantemente as suas escamas, vindo a matá-los, portanto, em larga escala e embora os pangolins sejam extremamente sensíveis e não consigam sobreviver muitos dias em cativeiro, nada impediu os envolvidos de fundarem, a partir de 2013, duas empresas chinesas que passaram a operar em Uganda.

Segundo a reportagem da National Geographic, em 2016 e 2017, ambas empresas foram alvo de buscas pelas autoridades ugandenses sob a suspeita de serem instala√ß√Ķes de fachada para operar o tr√°fico de pangolins capturados na natureza, inclusive uma filial em Mo√ßambique.

√Č at√© dif√≠cil imaginar o sofrimento a que s√£o submetidos esses animais em cativeiro antes do seu covarde assassinato. Por estarem presos a um ambiente antinatural, j√° que s√£o animais silvestres, os d√≥ceis pangolins ficam propensos a √ļlceras estomacais e a pneumonia, em geral provocadas pelo grande estresse do confinamento.

O desrespeito pela vida animal √© levado at√© as √ļltimas consequ√™ncias, at√© a extin√ß√£o das esp√©cies e causando irrevers√≠vel desequil√≠brio ambiental, colocando todos n√≥s em risco. Poucos tem essa compreens√£o, poucos questionam recomenda√ß√Ķes de autoridades e assim seguem repetindo sistemas de cren√ßas perigosas, como por exemplo a busca de al√≠vio para seus males em fontes de origem animal.

A rep√≥rter da National Geographic acredita que a quantidade de gente interessada na medicina tradicional chinesa tende a aumentar porque a escola chinesa est√° prestes a ser incorporada aos tratamentos recomendados pela Organiza√ß√£o Mundial da Sa√ļde.

A ativista sul-africana que estava nos preparativos para montar um centro de resgate de pangolins convidou a rep√≥rter e o fot√≥grafo a acompanharem uma viagem por uma estradinha de terra, para a soltura de tr√™s pangolins resgatados na Rep√ļblica dos Camar√Ķes. A jornalista relata a frustra√ß√£o que foi ver aqueles animais sendo soltos perto de um campo gramado, depois que avistou no caminho da ida uma barraca de carne de animais silvestres √† venda ao lado de um punhado de escamas de pangolim que secavam pr√≥ximo dali. Sem nenhum apoio dos √≥rg√£os governamentais, ali√°s, eles fomentam esse com√©rcio, como garantir a sobreviv√™ncia desses animais?

Mais do que libertar os animais, devolv√™-los √† natureza e √† sua pr√≥pria vida, devemos entender que nenhum animal √© recurso ambiental √† servi√ßo humano. A natureza tamb√©m n√£o √© nosso recurso, mas nossa fonte de vida. N√≥s somos todos animais. Evocando a cultura ind√≠gena, n√≥s somos a natureza. √Č nosso dever humano n√£o participar dessa explora√ß√£o e destrui√ß√£o.

Que a nova pandemia que aflige humanos e a poss√≠vel rela√ß√£o com o animal mais traficado do mundo, seja para o consumo, seja para o com√©rcio de suas escamas, sirva de muitas reflex√Ķes sobre o nosso comportamento com os demais seres vivos, sobre o nosso papel na natureza e nossa rela√ß√£o com esse planeta maravilhoso que √© dos que aqui estavam antes de n√≥s, o qual tomamos provisoriamente emprestado.


M√ļsicas:

Luteous pangolin, Ben Monder

Virus (Bj√∂rk Gu√įmundsd√≥ttir e Sjon), Bj√∂rk

O sal da terra (Beto Guedes e Ronaldo Bastos), Beto Guedes