ūüéěÔłŹ Cinema: Cont√°gio (2011)

O ator Jude Law no papel de Alan Krumwiede

ATENÇÃO: Esta crítica contém spoilers de dois filmes!

Praticamente n√£o h√° mais locadoras para se alugar Cont√°gio (2011), de Steven Soderbergh. E, agora, mesmo se ainda houvesse alguma pr√≥xima de mim, ela n√£o estaria aberta, assim como todos os demais estabelecimentos considerados n√£o essenciais que foram fechados pelos governos de tantas cidades brasileiras. N√£o estamos como na fic√ß√£o do filme em quest√£o, mas no momento da escrita desta cr√≠tica, na S√£o Paulo de 2020, o m√™s de mar√ßo tem sido mais quieto de que em todos outros que j√° vivi, com milh√Ķes de pessoas sendo impedidas de sair de casa e tendo que, apesar do contrassenso que algo assim poderia representar noutro contexto, buscar novos arranjos de vida em suas pr√≥prias moradas que parecem desconhecer. Os sem-teto? Ah, esses continuam por a√≠, vulner√°veis n√£o s√≥ √† doen√ßa nova da vez, mas a todas as outras que j√° existem e que, de algum modo, performavam no nosso imagin√°rio de pequenos temores cotidianos.

Desviar de algo enferrujado no meio do caminho para fugir do t√©tano; n√£o atravessar uma enchente, algo bem comum em muitas cidades brasileiras, para escapar da leptospirose; ficar atento se algu√©m est√° com conjuntivite e se afastar um pouco; recear que aquela pessoa que tosse insistentemente possa estar com tuberculose; ler no notici√°rio que os casos de leishmaniose est√£o aumentando; cogitar a possibilidade do ebola se espalhar pelo mundo j√° que o Ocidente fica tranquilo enquanto ele n√£o sai do continente africano; se dar conta que os jovens n√£o mais se preocupam tanto com a AIDS e darem de ombros quando adultos falam de uma s√©rie de outras doen√ßas sexualmente transmiss√≠veis; desenvolver as mais variadas formas para manter mosquitos longe de casa para n√£o contrair dengue, zica, febre amarela ou chicungunha; se dar conta que um simples pote de a√ßa√≠ possa conter a doen√ßa de chagas se os devidos cuidados com sua produ√ß√£o n√£o tiverem sido tomados; e, por √ļltimo, ir √† farm√°cia atr√°s de qualquer rem√©dio para aliviar os sintomas de um gripe comum.

A lista acima, incompleta, e com apenas uma doen√ßa entre as vinte que mais matam no pa√≠s (a AIDS), j√° seria motivo o suficiente para instaurar uma crise de p√Ęnico em qualquer pessoa sensata e que gostaria de viver o m√°ximo poss√≠vel, mas ningu√©m pensa nelas quando sai de casa por qualquer raz√£o: trabalhar, estudar, divers√£o ou ir na padaria. Mas n√£o est√° sendo bem assim com o coronav√≠rus (SARS-CoV-2, o v√≠rus, e Covid-19, a doen√ßa), que at√© o momento (23/3) matou 21 mil pessoas desde a sua descoberta no fim de 2019. Esse n√ļmero, no momento da sua leitura, certamente estar√° desatualizado. Os n√ļmeros n√£o param de crescer e em cada pa√≠s que o v√≠rus ganha for√ßa, os temores aumentam e medidas protetivas precisam ser instaladas o mais r√°pido poss√≠vel para evitar a contamina√ß√£o de mais e mais gente que precisar√° de atendimento m√©dico. No caso do coronav√≠rus, as pessoas mais severamente atingidas precisam de tratamento intensivo e n√£o h√° leitos suficientes para todos. Os sistemas de sa√ļde, rapidamente, v√£o entrando em colapso e as sociedades mais distintas vislumbram a possibilidade do caos sociais se instaurar lentamente.

Olhando para a fic√ß√£o de Soderbergh, que tenta ser bastante realista, mas que, claro, pinta um cen√°rio impreciso, j√° que a realidade pode ser (e geralmente √©) bem mais cruel, sem chance para salva√ß√Ķes milagrosas e atos heroicos de pessoas abnegadas que querem apenas o bem da humanidade, podemos imaginar como seriam as coisas caso toda humanidade estivesse amea√ßada por um v√≠rus fatal e sem cura no horizonte. Na verdade, para ser justo, o diretor d√° √™nfase na mesquinhez de atos de altas autoridades envolvidas no controle de uma nova praga que eles descobrem depois de v√°rios e v√°rios casos de pessoas morrendo rapidamente ap√≥s infectadas. Os respons√°veis pela administra√ß√£o da crise avisam seus parentes do caos que se avizinha ou testam uma vacina em pessoas queridas para garantir a elas a cura mesmo que isso viole c√≥digos de conduta dur√≠ssimos. Em meio a qualquer crise, parece evidente que o altru√≠smo √© solapado e proteger a si mesmo e aos seus se torna prioridade para a maioria das pessoas comuns.

Trancado em casa, e por sugest√£o da Netflix, antes de rever Cont√°gio, revi Pandemia (1995), de Wolfgang Petersen. Ao contr√°rio das facilidades do streaming, conseguir ver filmes fora de cat√°logo depende da sorte deles estarem sendo compartilhados via BitTorrent para download. Essa pr√°tica, considerada ilegal no mundo todo, menos pelos piratas, claro, √© a salva√ß√£o para quem quer ver um filme indispon√≠vel de qualquer outra forma que se possa pagar por ele (depois descobri que estava para loca√ß√£o pelo Google, ent√£o voc√™ n√£o precisa ser um fora da lei para v√™-lo). Baixar um arquivo desse jeito, para funcionar, depende que outras pessoas tamb√©m tenham o filme (ou pelo menos alguma parte dele) em suas m√°quinas para ir sendo ‚Äúmontado‚ÄĚ nas m√°quinas de outras pessoas que tamb√©m querem aquele arquivo digital. Voc√™ consegue um pedacinho dele vindo de v√°rios lugares do mundo e a velocidade para que o filme completo apare√ßa na sua m√°quina vai depender da velocidade da conex√£o de internet dos envolvidos na trama. O medo do Outro que o v√≠rus causa, no caso, √© a salva√ß√£o para cin√©filos que √†s vezes se esquecem que tamb√©m podem ter suas m√°quinas contaminadas com v√≠rus de computador que facilmente podem ser propagados dessa mesma forma: ao lado do seu filme, um arquivo execut√°vel colocado ali estrategicamente pode abrir muitas portas do seu computador.

A nossa vida √©, alguma medida, mediada por formas de viraliza√ß√£o: seja pela doen√ßa, seja pela informa√ß√£o em todo tipo de conte√ļdo. O filme Cont√°gio era um dos mais baixados no momento em que o busquei. Mais que blockbuster do momento. O filme se tornou atraente por nos apresentar um cen√°rio poss√≠vel, um destino poss√≠vel. A pretens√£o realista ajuda a refor√ßar essa condi√ß√£o.

Agora, Pandemia, outro filme com a mesma tem√°tica, beira o c√īmico, porque em 1995, claro, ningu√©m dava l√° muita pelota para ser realista com um assunto como este. A filmografia dos anos 90 (Twister, por exemplo) √© t√£o louca quanto os pr√≥prios anos 90 foram em todos os outros campos da vida. Os clich√™s militaristas, o clich√™ do casal divorciado que ainda se ama, o clich√™ das situa√ß√Ķes de perigo, que s√£o revertidas de maneira improv√°vel, e por a√≠ vai. N√£o d√° pra levar Pandemia a s√©rio, apesar de, ainda assim, haver uma mensagem ali: os militares s√£o maus, apesar de existirem boas pessoas no meio deles, e o que fazemos com o planeta √© feio. Mas algo o aproxima de Cont√°gio e que nos interessa particularmente: os usos dos animais e o desmatamento.

Em Pandemia tudo come√ßa com um macaco selvagem: o pobrezinho √© hospedeiro de um v√≠rus ultramortal para humanos chamado Mutaba. Ele tem o azar de ser capturado aparentemente por ca√ßadores a servi√ßo de uma empresa que faz testes em animais nos EUA e √© despachado por via mar√≠tima. O primeiro cara que teve mais contato com o macaco bateu as botas j√° no navio que o transportava. Um funcion√°rio da empresa Biotest, a mesma que capturou o animal, o furta e no meio do caminho, enquanto dirige no maior g√°s, leva uma baita cusparada nojenta na cara dada pelo macaquinho que provavelmente queria zoar com aquele mala. Literalmente pagou mico! O cara tenta vend√™-lo para um tipo de petshop e o macaco acaba arranhando o dono do estabelecimento. Bem feito – ele tamb√©m adoece e morre! Quem mandou comercializar animais em petshops? Bicho n√£o √© coisa, p√ī! Depois o funcion√°rio pilantra da Biotest fica parecendo um zumbi e volta pra casa de avi√£o parecendo um zumbi. A ficante patricinha, sem muito amor pr√≥prio, beija o cara que est√° um trapo velho quando o recebe da viagem. Ambos, claro, v√£o parar no hospital e morrem tipo Romeu e Julieta, mas em um enredo que jamais teria sido escrito por Shakespeare de t√£o tosco. Outros eventos desastrosos acontecem em benef√≠cio do v√≠rus e assim vai. Bom, depois de tanta gente morrendo de modo bizarro e horr√≠vel, bravos militares do governo estadunidense, todos brothers, contrariando ordens superiores (essa √© do arco da velha!), e mesmo com a possibilidade de irem parar no xilindr√≥, v√£o l√° averiguar e descobrem que aquela desgra√ßa toda est√° se espalhando numa bela cidadezinha republicana, ou seja, com uma renca de boc√≥s da ro√ßa que adoram andar armados para protegerem suas terras. A ex-esposa do major rebelde, funcion√°ria do CDC (Centro de Controle e Preven√ß√£o de Doen√ßas) – da√≠ a afinidade entre os dois: eles gostam de v√≠rus – vai l√° confirmar e ajudar. E o que voc√™s acham que vai acontecer com ela? Bem, √© certo que vamos precisar de um mocinho para salvar a virulenta, n√£o √© mesmo? √Č 1995, mas poderia ser tamb√©m A bela adormecida de 1959. Sai a mo√ßa enfeiti√ßada, entra o v√≠rus fatal! Voc√™s acham que o bravo combatente salva a donzela depois de uma eletrizante persegui√ß√£o de helic√≥pteros? Como o v√≠rus, deixo a d√ļvida no ar‚Ķ Mas adianto que eles acham a cura testando possibilidade em macacos.

No super-realista Cont√°gio, um filme que n√£o √© de terror, mas que d√° calafrios assim mesmo, os animais surgem de modo mais realista: os macacos s√£o usados para a experimenta√ß√£o cient√≠fica. Eufemismo para a crueldade com seres que consideramos coisas e que podemos fazer o que quisermos com eles para o nosso pr√≥prio bem. Todos somos benefici√°rios das vacinas e conseguimos com ela grande sobrevida. Sem as vacinas perecer√≠amos t√£o facilmente que certamente a nossa sociedade seria muito diferente do que √© hoje. Talvez estiv√©ssemos vivendo ainda como na Idade M√©dia – rica culturalmente, mas deficiente de sa√≠das para as doen√ßas que assolaram aqueles tempos. Os animais, ratos, macacos, cachorros, gatos, coelhos, porcos e tantos outros s√£o usados de modo cruel e indistinto na busca por curas para nossos males. Algo que sabidamente n√£o √© eficiente, mas que continua sendo utilizado, pois alimenta uma ind√ļstria complexa de cria√ß√£o e venda de animais ligada √† academia, laborat√≥rios e, claro, cientistas.

O morcego que perdeu seu habitat entra em contato com outros animais
Porcos sendo criados para serem mortos
Porco que comeu uma banana mastigada pelo morcego
Porco morto sendo preparado para ser servido em restaurante
Pesquisadores diante de mais um macaco morto
Macaco sobrevivente da experiência
Pesquisadora cercada de jaulas de macacos usados em testes
Vacinas testadas em animais. Depois de muitas tentativas, uma delas funciona
Pesquisadora injeta vacina em si mesma depois de testes em macacos
A c√Ęmera que explica tudo

Diferentemente dos anos 90, os anos 2000 vivem o esplendor da rede mundial de computadores (e tamb√©m dos smartphones), tamb√©m conhecida como Internet. √Ä √©poca, ainda sem as famigeradas redes sociais determinando tanto as coisas como agora (o Facebook dava os primeiros passos), as pessoas se destacavam com suas opini√Ķes atrav√©s, principalmente, de blogs. Sim, n√£o eram os influencers do Instagram que ditavam o que dever√≠amos achar para contrariar o pessoal da velha guarda que ainda escrevia em jornal√Ķes, n√£o‚Ķ Voc√™ ia l√° e montava um blog e podia escrever o que quisesse! Isso foi visto de maneira muito otimista como uma forma concreta de democratizar a opini√£o, antes restrita a poucas empresas de comunica√ß√£o. Pois bem, o lado obscuro dos blogs √© que qualquer maluco poderia ir l√° e publicar toda sorte de coisa, especialmente teorias conspirat√≥rias sobre os problemas da vez. No filme Cont√°gio temos exatamente essa situa√ß√£o: frente a grande amea√ßa pand√™mica, um cara alerta as pessoas sobre o que ele acredita ser ‚Äúas mentiras do CDC‚ÄĚ do seu pa√≠s, a gloriosa Am√©rica, e que um rem√©dio pode ajud√°-los a atravessar a crise: a fors√≠tia. Basicamente homeopatia. E, claro, n√£o d√° certo, mas o ajuda a refor√ßar sua reputa√ß√£o e ele consegue ainda mais espa√ßo, ao ponto de desbaratar autoridades revelando seus podres. Mas √© justamente nas falas desse outsider que teremos a vis√£o mais realista do que os animais sofrer√£o enquanto pesquisadores buscam desenvolver uma vacina:

Blogueiro: Sussman [um pesquisador] será premiado pela Academia Nacional de Ciências e as empresas farmacêuticas vão entrar numa corrida.

Blogueiro: Cultivarão o vírus em todos os laboratórios da Terra.

Blogueiro: √Č uma √©poca ruim para os macacos de teste.

Blogueiro: Primeiro nós os mandamos para o espaço, e agora os injetamos com topo tipo de vírus.

Curiosamente, depois de quase dez anos da estreia do filme, o projeto Saber Animal tem início justamente em um blog e, bem, os personagens dizem:

Pesquisador: Blogging não é escrever, é pichação com pontuação.

Blogueiro: Sou jornalista e h√° discuss√Ķes informadas na “blogosfera”.

De fato encontramos muitas discuss√Ķes informadas na ainda muito ativa blogosfera. Mas essas discuss√Ķes se estendem em podcasts, v√≠deos, redes sociais‚Ķ E a analogia que usam para indicar o seu sucesso nessas distintas plataformas de conte√ļdo √©, ironicamente, ‚Äúviralizar‚ÄĚ. Enquanto o seu conte√ļdo n√£o ‚Äúviraliza‚ÄĚ, ele n√£o √© relevante.

Lamento e pe√ßo desculpas aos que leem esta cr√≠tica. √Č imposs√≠vel falar do filme e da quest√£o que agora nos tomou a todos de assalto, o coronav√≠rus, sem falar do seu final. Est√° a√≠ algo que evito e acho chato quando vejo fazerem, mas pondero: estragar a experi√™ncia de ver o filme n√£o consiste apenas em se deparar com spoilers, mas ao apreciar a narrativa pela primeira vez, sem conhecimento pr√©vio, o impacto tende a ser maior, mas nem sempre isso √© o mais importante de algumas hist√≥rias. S√≥ que no caso de Cont√°gio, que tem uma estrutura n√£o linear, com v√°rias hist√≥rias correndo em paralelo deixando a trama din√Ęmica, temos um filme que come√ßa no segundo dia da cadeia de eventos que levam a sociedade ao colapso e isto √© proposital. Durante uma parte substancial do filme, pesquisadores e investigadores tentam identificar quando a epidemia mortal come√ßou. Busca-se o paciente zero para, atrav√©s da ci√™ncia, tentar estabelecer as causas de tudo aquilo e, bem, gerar mais informa√ß√£o para, talvez, nos protegermos melhor? √Č tudo meio vago nessa busca que, no filme, √© em boa parte mal sucedida at√© que se ache uma vacina. Apenas n√≥s, a audi√™ncia que √† √©poca do lan√ßamento do filme (2011) at√© que tinha o que temer ante outras amea√ßas, como a primeira vers√£o da SARS (no v√≠rus SARS-CoV), que explodiu em 2003, e agora, em tempos do novo coronav√≠rus, desde sua descoberta em 2019, tem mais ainda, ficamos sabendo como tudo se deu. √Č um presente que o diretor nos d√° por termos aguentado firme at√© ali. Merecemos saber, mesmo isso sendo praticamente imposs√≠vel. Eis que surge um momento deus ex machina (uma m√°quina fotogr√°fica com fotos esquecidas encontrada ao acaso nos revela tudo com o acr√©scimo de um retorno no tempo) para ligar todos os pontos da trama:

  • A poderosa empresa multinacional AIMM, empregadora da primeira v√≠tima estadunidense (numa interpreta√ß√£o bastante impactante), uma executiva, √© a mesma que desmata florestas na China.
  • Morcegos que habitam essa floresta se veem obrigados a procurar outro lugar para viver.
  • Um deles ruma para uma √°rea de cria√ß√£o de porcos.
  • O morcego comia um peda√ßo de banana e o deixa cair.
  • Um jovem porco come esse peda√ßo.
  • O porco √© abatido e vai parar num restaurante que prepara um prato usando a carne do porco.
  • O chefe que prepara o prato, sem lavar as m√£os, ele apenas as limpa no seu avental, √© convocado para falar com uma cliente.
  • A cliente √© justamente a primeira v√≠tima: a mulher estadunidense.

O que pega (desculpem o trocadilho) em Cont√°gio √© que essa sequ√™ncia de eventos, que se d√° no fim do filme, se d√° de maneira muito r√°pida e se voc√™ piscar perde a sequ√™ncia arranjada para explicar como o v√≠rus, previamente rastreado pelos pesquisadores do CDC estadunidense (sempre eles desvendando tudo), salta de um morcego, para um porco e depois para um humano. O desenvolvimento da vacina √© outro ponto do filme, mas a√≠ ele j√° pende para algo pouco cr√≠vel: uma pesquisadora, depois de muitos resultados ruins, finalmente consegue fazer um macaco sobreviver aos testes. A vacina de n√ļmero 57 d√° resultados e ela testa em si mesma e depois em seu pai doente. A vacina √© preparada, distribu√≠da √† popula√ß√£o mundial toda adoecida e mergulhada em caos controlado parcialmente pelo militares. H√° pessoas imunes ao v√≠rus e as que potencialmente podem adoecer.

A situa√ß√£o na qual estamos, na realidade fora das telas, √© t√£o urgente e grave, que est√° obrigando as empresas que criam vacinas a pular a fase de testes em animais e ir direto para testes em humanos. Convenhamos, esse √© o cen√°rio correto e √©tico, pois o que os animais t√™m a ver com os nossos problemas? Insistimos muito nessa quest√£o no Saber Animal e por sermos veganos abolicionistas defendemos que esse seja o procedimento: que os testes sejam feitos diretamente com volunt√°rios humanos, pois esses sim podem escolher se querem ou n√£o participar da solu√ß√£o de um problema que √© essencialmente humano. Por que os outros animais (lembrando aqui que tamb√©m somos animais, ditos racionais) precisam pagar pelos nossos problemas, pela nossa curiosidade e pela nossa f√ļria assassina? N√£o deveriam e a situa√ß√£o atual √© uma prova de que se quisermos, enquanto sociedade, mudar os rumos das coisas, precisamos agir diferente. Muitos outros aspectos das nossas vidas, agora que desaceleramos, tamb√©m est√£o em xeque e agora todos podemos reparar o qu√£o louca e sem sentido √© a busca por um infinito crescimento econ√īmico. Logo abaixo mais algumas falas reveladoras do filme:

Pesquisadora: O vírus contém as sequências do morcego e do porco.

Pesquisadora: Em algum lugar do mundo, o porco errado encontrou o morcego errado.

O morcego e o porco s√£o os errados da hist√≥ria! Os humanos, bem, s√£o humanos e parecem estar sempre certos, n√©? N√£o! N√£o h√° morcego e nem porco errados‚Ķ H√° apenas as nossas a√ß√Ķes que levam ao encontro esp√©cies que jamais se encontrariam na natureza, h√° uma altera√ß√£o sens√≠vel dos mais diversos ecossistemas de modo t√£o r√°pido que n√£o h√° menor chance para a adapta√ß√£o. Ao mesmo tempo que temos milhares de cientistas alertando para as consequ√™ncias dessas interven√ß√Ķes, temos tantos outros milhares de cientistas desenvolvendo t√©cnicas e produtos que, al√©m de usarem elementos da natureza como mat√©ria prima que a destroem e degradam quando extra√≠dos, modificam e transformam tudo em coisas que n√£o existiam antes e n√£o possuem um lugar natural no mundo. √Č um vasto conjunto de artificialidades que criamos que transforma a realidade naquilo que chamamos de realidade! A ind√ļstria petroqu√≠mica, extremamente poluidora e respons√°vel por espalhar pl√°stico no mundo todo, √© altamente cient√≠fica e transformadora da realidade – para pior, evidentemente.

A voracidade do ser humano, que quer consumir tudo o que há ao seu alcance, relegando aos animais e seu habitat à condição de coisa para o nosso usufruto é uma clara demonstração de dominação, ao mesmo tempo em que ela leva a todos nós para a cova de maneira tão absurda. Nós criamos todo esse desequilíbrio e depois passamos a negá-lo para então iniciarmos buscas por saídas que, geralmente, não atacam o problema principal: o que nós fazemos com os animais. Está identificado que 70% das novas doenças tem origem nos animais. E o que fazemos com eles, todos eles, é errado do ponto de vista ético e também do ponto de vista da nossa própria preservação como espécie. Na natureza é difícil encontrar casos de animais que provoquem tamanha destruição em seu próprio ecossistema. Paradoxalmente, se considerarmos os vírus seres vivos, eles seriam o nosso melhor paralelo para explicar o nosso comportamento em relação ao nosso hospedeiro, o planeta Terra.

“Cada pessoa √© um superorganismo, uma coletividade de esp√©cies vivendo lado a lado, em coopera√ß√£o, para controlar o corpo que nos sustenta. Nossas c√©lulas, embora bem maiores em volume e peso, s√£o superadas √† raz√£o de dez para uma pelas c√©lulas dos micr√≥bios que moram dentro da gente e sobre nosso corpo. Esses 100 trilh√Ķes de micro-organismos ‚Äď conhecidos como a microbiota ‚Äď s√£o predominantemente compostos por bact√©rias: seres microsc√≥picos constitu√≠dos de uma s√≥ c√©lula. Junto com elas, h√° outros: v√≠rus, fungos e arqueias. Os v√≠rus s√£o t√£o pequenos e simples que colocam em xeque o conceito do que seria necess√°rio para constituir ‚Äúvida‚ÄĚ, pois dependem das c√©lulas de outras criaturas para se replicarem. Os fungos que vivem em n√≥s em geral s√£o levedos, organismos mais complexos do que bact√©rias, mas ainda assim unicelulares. As arqueias formam um grupo semelhante √†s bact√©rias, mas suas diferen√ßas, em termos evolutivos, s√£o t√£o significativas quanto as que separam as plantas dos animais. Juntos, os micro-organismos vivendo no corpo humano somam 4,4 milh√Ķes de genes ‚Äď esse √© o microbioma: o genoma coletivo de nossa microbiota. Esses genes cumprem seu papel no controle de nosso corpo junto com nossos 20 mil genes humanos. Segundo esses n√ļmeros, voc√™ √© apenas 0,5% humano.” [10% Humano, de Alanna Collen]

A atual onda do coronav√≠rus muito provavelmente nasceu num mercado de animais em Wuhan, na China. Do que se p√īde ver na internet, v√≠deos esparsos mostram um lugar com v√°rias esp√©cies diferentes, sendo abatidas ali mesmo, com muito sangue e circula√ß√£o de pessoas. √Č uma bomba-rel√≥gio, que explodiu silenciosamente e s√≥ foi percebida quando foi tarde demais. No ocidente, ficamos todos horrorizados, especialmente quando vemos gatos e cachorros √† espera da morte. Os animais ali ser√£o servidos das mais variadas formas e geralmente s√£o comprados por pessoas com muitos recursos, pois s√£o caros e atendem a demandas supersticiosas ou paladares insaci√°veis. Os demais animais possuem suas doen√ßas, claro, eles n√£o vivem num mundo m√°gico de paz e harmonia. Os animais vivem seus pr√≥prios dilemas e quando atravessamos suas exist√™ncias com a nossa f√ļria cega, n√£o sa√≠mos inc√≥lumes, porque n√£o somos t√£o diferentes deles assim. Ora, tamb√©m somos animais e para os v√≠rus, que poder√≠amos entender talvez como entidades em busca de sobreviv√™ncia e perpetua√ß√£o, tanto faz o hospedeiro, contanto que ele possa dar as condi√ß√Ķes que ele precisa para se multiplicarem. O v√≠deo abaixo mostra a din√Ęmica dentro de uma perspectiva hist√≥rica desse mercado de animais e ajuda a entender as bases reais da fic√ß√£o que h√° em Cont√°gio.

√Č essa situa√ß√£o a qual, compreendida num n√≠vel extraordin√°rio dado todo o nosso conhecimento acumulado por s√©culos, deveria nos fazer ainda mais cuidadosos e respeitosos com a natureza. Mas caminhamos justamente no sentido contr√°rio quando transformamos animais em recursos. Tanto que se tudo no filme, e na realidade, come√ßou mesmo com um v√≠rus em um morcego, n√£o √© t√£o √† toa que estejamos todos vendo o mundo como eles veem: de cabe√ßa para baixo.

ūüéěÔłŹ Cinema: Cont√°gio (2011)
Filmando o invisível
10
Qualidade das histórias paralelas
7
Como o filme foi arrematado
6
Em comparação com outros filmes do mesmo gênero
9
Pontos positivos
Bom ritmo
Bastante did√°tico
Grande elenco
Pontos negativos
O arremate
Algumas atua√ß√Ķes
Previsibilidade
8