ūü•ď O brasileiro morre (e mata) pela boca

Festival do Bacon, no Memorial da América Latina (SP), 2017

J√° se passaram tr√™s anos quando tentamos, quixotescamente, impedir a realiza√ß√£o do 2¬ļ Festival do Bacon, realizado no Memorial da Am√©rica Latina em S√£o Paulo, no ano de 2017. O projeto Saber Animal ainda estava no papel, mas mesmo assim fomos ao pat√©tico evento apinhado de gente, que j√° havia ocorrido em 2016 e prosseguiu durante os anos de 2018 e 2019. Ele s√≥ n√£o ocorreu mais uma vez este ano por conta da pandemia que todos vivemos e que alguns testemunham at√īnitos suas consequ√™ncias. Nossas motiva√ß√Ķes foram, essencialmente, animalistas: queremos o fim da explora√ß√£o animal, mas suas consequ√™ncias, al√©m de beneficiarem as pr√≥prias v√≠timas (os animais n√£o humanos), tamb√©m favoreceriam as popula√ß√Ķes humanas em largu√≠ssima escala.

Evidentemente n√£o conseguimos impedi-lo apesar de termos feito os seguintes contatos:

1. Com a Secretaria de Estado da Sa√ļde de S√£o Paulo (SES-SP) para tomar alguma provid√™ncia;

2. Com o Minist√©rio P√ļblico do Estado de S√£o Paulo para alertar da situa√ß√£o;

3. Com o Memorial da América Latina para ter acesso aos contratos dos eventos;

4. Procuramos o Comit√™ Estadual para a Promo√ß√£o da Alimenta√ß√£o Saud√°vel e Preven√ß√£o de Doen√ßas Cr√īnicas N√£o Transmiss√≠veis no Estado de S√£o Paulo para nos ajudar na empreitada; e

5. Com uma acadêmica da Universidade de São Paulo (USP) para justamente tentar aproximação com o Comitê.

Os representantes da Secretaria de Estado da Sa√ļde, com quem falamos primeiro, deram de ombros e riram dos nossos argumentos. Foram feitos v√°rios contatos telef√īnicos √† √©poca tentando achar algu√©m que soubesse do Comit√™ ou que simplesmente pudesse nos atender.

O segundo (MP-SP), por email mesmo, respondeu que não via ilegalidade alguma no evento que, curiosamente, indicava ter data de assinatura do contrato (o qual não tivemos acesso) do exato dia de sua realização como era possível ver no Diário Oficial do Estado de São Paulo.

O terceiro, o Memorial da Am√©rica Latina, dificultou o quanto p√īde o acesso, mesmo via Lei de Acesso √† Informa√ß√£o (12.527/2011), ao contrato do evento e tivemos que desistir por termos que nos deslocar at√© o local para ter acesso aos documentos que poderiam ter sido enviados remotamente, o que inviabilizou essa etapa.

O quarto, o Comit√™, se existiu em algum momento, n√£o foi encontrado vest√≠gio de suas a√ß√Ķes e sabe-se l√°, portanto, se reuniu-se em algum momento para ajudar a popula√ß√£o paulista a se alimentar e viver melhor.

J√° o quinto contato, uma professora da USP que na ocasi√£o lan√ßava o livro Nutri√ß√£o e Sa√ļde P√ļblica: produ√ß√£o e consumo de alimentos, de Flavia Mori Sarti e Elizabeth Ap. F. da Silva Torres (orgs.), me disse expressamente que ‚Äún√£o devemos estigmatizar os alimentos‚ÄĚ quando falei do Festival do Bacon e que o bacon era um alimento cancer√≠geno‚Ķ A publica√ß√£o, diga-se, tem um aned√≥tico pref√°cio da nutricionista Sophie Deram que traz a seguinte p√©rola: ‚ÄúA internet est√° repleta de informa√ß√Ķes sensacionalistas sobre um suposto perigo de certos alimentos que fazem parte do nosso cotidiano h√° muito tempo (p√£o, leite, manteiga, carboidratos, gorduras, caf√©, carne e at√© legumes e frutas). A popula√ß√£o est√° sofrendo um terrorismo nutricional e n√£o sabe mais o que comer‚ÄĚ (grifo nosso). A popula√ß√£o, Sophie Deram deveria saber, est√° morrendo‚Ķ e n√£o por atentados de terroristas, mas, sim, atrav√©s das a√ß√Ķes da ind√ļstria que explora os animais n√£o humanos e da neglig√™ncia do Estado!

Festival do Bacon no Memorial da América Latina, 2017. Foto de Fabio Montarroios
Festival do Bacon no Memorial da América Latina, 2017. Foto de Fabio Montarroios

Acredito que vale dar √™nfase aos objetivos deste peculiar Comit√™ segundo o texto Institui√ß√£o do Comit√™ Estadual para a Promo√ß√£o da Alimenta√ß√£o Saud√°vel e Preven√ß√£o de Doen√ßas Cr√īnicas N√£o Transmiss√≠veis no Estado de S√£o Paulo publicado na Revista de Sa√ļde P√ļblica de 2008:

1. Fomentar articulação intra e intersetorial visando a promoção da alimentação saudável no Estado de São Paulo;

2. Promover pacto-compromisso social com diferentes setores (Poder Legislativo, setor produtivo, órgãos governamentais e não-governamentais, organismos internacionais, setor de comunicação e outros), para a execução das estratégias definidas pelo Comitê;

3. Incentivar a adoção de hábitos alimentares mais saudáveis entre a população, com ênfase no aumento do consumo de frutas, verduras, legumes, cereais e derivados integrais (grifo nosso).

4. Para a consecução dos seus objetivos, caberá também ao Comitê, incentivar os municípios do estado de São Paulo a adotarem medidas de incentivo e acesso à alimentação saudável.

As estratégias do Comitê para atingir os objetivos acima são as seguintes, observando ainda a mesma publicação:

1. Mobilizar as institui√ß√Ķes p√ļblicas, privadas e de setores da sociedade civil organizada visando ratificar o desenvolvimento de a√ß√Ķes de aumento do acesso ao alimento saud√°vel pelas comunidades e pelos grupos populacionais mais pobres;

2. Articular e mobilizar os setores p√ļblico e privado para a promo√ß√£o de ambientes que favore√ßam a alimenta√ß√£o saud√°vel, o que inclui: oferta de refei√ß√Ķes saud√°veis nos locais de trabalho, nas escolas e para as popula√ß√Ķes institucionalizadas;

3. Articular e mobilizar os setores da sociedade para a proposi√ß√£o e elabora√ß√£o de medidas regulat√≥rias que visem a promover a alimenta√ß√£o saud√°vel e reduzir o risco de doen√ßas cr√īnicas n√£o transmiss√≠veis, com especial √™nfase para a regulamenta√ß√£o da propaganda e publicidade de alimentos.

E, curiosamente, constatamos que o pr√≥prio Minist√©rio P√ļblico do Estado de S√£o Paulo faz parte do Comit√™ que re√ļne outras 33 Secretarias ou Entidades.

Este Comitê, ao que tudo indica, foi criado por conta da demanda internacional de se encarar o problema da alimentação de forma integrada, pois não é apenas o Brasil, mas o mundo todo encara, pela primeira vez em sua história, uma maior população com excesso de peso do que com fome e isso, como podemos deduzir sem muita dificuldade, tem consequência direta na qualidade de vida das pessoas.

O Memorial da Am√©rica Latina, que em novembro daquele mesmo ano de 2017 viu seu audit√≥rio arder em chamas, est√° sob o controle do Estado. Ora, se o Estado assumiu o compromisso de promover a alimenta√ß√£o saud√°vel para a popula√ß√£o paulista, por que diabos abriga em suas instala√ß√Ķes um festival como o Festival do Bacon? E n√£o √© s√≥ isso: o mesmo local, quem tem a miss√£o de ‚Äúser polo de integra√ß√£o social, cultural e pol√≠tico dos pa√≠ses de l√≠ngua latina e caribenha, para resgatar a antiga ideia de solidariedade e de uni√£o defendidas pelos libertadores da Am√©rica no s√©culo 19‘” abrigou 146 festivais desde 2015, identificados atrav√©s da √°rea de eventos do Facebook da empresa Art Shine Promo√ß√Ķes e Eventos, dedicados a alimenta√ß√£o n√£o saud√°vel e consumo de bebidas alco√≥licas! Cento e quarenta e seis festivais de alimenta√ß√£o n√£o saud√°vel s√£o 3 festivais todo m√™s durante quatro anos‚Ķ

A p√°gina no Facebook indica que esses eventos atra√≠ram o interesse de 5.162.671 milh√Ķes de pessoas! √Č um n√ļmero alt√≠ssimo de gente querendo entretenimento e divers√£o barata atrav√©s de alimentos que as deixam simplesmente doentes. O pior √© que tudo isso acontece sob os olhos do Estado (com incentivo da imprensa que promove tais eventos com olhar totalmente acr√≠tico), pois ele, indiretamente, abrigou esses festivais e, em momento algum, sequer alertou a popula√ß√£o paulista dos riscos que aqueles alimentos representavam √† nossa sa√ļde. Nenhum cartaz, nenhuma faixa, nenhum quiosque‚Ķ nadinha.

Ou seja, o Estado (de S√£o Paulo, no caso) tem √≥rg√£os de prote√ß√£o que visam a orienta√ß√£o para a alimenta√ß√£o saud√°vel ao mesmo tempo em que promove a alimenta√ß√£o n√£o-saud√°vel, produto da mais odienta explora√ß√£o animal, e tudo ocorre em perfeita harmonia – exceto para a popula√ß√£o que adoece, claro. O Minist√©rio P√ļblico n√£o viu ilegalidade ou nada de errado na atividade mesmo fazendo parte do tal Comit√™ Estadual para a Promo√ß√£o da Alimenta√ß√£o Saud√°vel e Preven√ß√£o de Doen√ßas Cr√īnicas N√£o Transmiss√≠veis no Estado de S√£o Paulo. Institu√≠do ainda na administra√ß√£o do governador Jos√© Serra (PSDB), os representantes do Comit√™, se dessem o ar da gra√ßa, poderiam, no m√°ximo, representar uma apresenta√ß√£o circense, porque tudo isso me pareceu uma grande palha√ßada.

Veja o nome de alguns dos festivais e tire suas conclus√Ķes sobre a qualidade dos alimentos ali servidos:

Festival de Churros; Festival de Costela; Festival de Milk Shake e Sorvetes; Festival de MMs, confetes e disquetes ; Festival de Torresmo; Festival de Waffles no Brasil; Festival do Pastel; Festival de Cerveja Artesanal; Festival da Churrascada Cervejada; Festival da Coxinha; Festival de Churrasco; Festival de Hamburguer; Festival de Porco no Rolete; Festival de Torresmo; e Festival do Bacon.

Muitos desses festivais tiveram v√°rias edi√ß√Ķes, alguns contando com mais de uma edi√ß√£o do mesmo festival por ano. E os dez festivais que atra√≠ram mais de cem mil pessoas cada um conforme indica o perfil da Art Shine Promo√ß√Ķes e Eventos no Facebook s√£o: 1¬ļ Festival de Churros; 1¬ļ Festival da Batata; Festival da Coxinha; 10¬ļ Festival do Morango; Festival da Batata; Festival de Camar√£o; Festival do Pastel; 2¬ļ Festival de Churros; e 4¬ļ Festival Gastron√īmico At√© R$ 10,00. Ah, e n√£o se iludam: os festivais do Morango e da Batata n√£o visavam o consumo da fruta e do legume t√£o somente sem nenhum acr√©scimo de gordura, a√ß√ļcar, muito sal etc. N√£o, o consumo desses alimentos, nesses festivais, √© s√≥ mais um ingrediente das junk foods que eles servem √† rodo.

Fonte: Facebook da empresa Art Shine Promo√ß√Ķes e Eventos. Dados coletados em outubro de 2020.

Naquela √©poca, agosto de 2017, n√£o havia o SARS-CoV-2 (v√≠rus respons√°vel pela doen√ßa covid-19), apesar de haver tantos outros at√© mais mortais √† espreita como MERS-CoV ou mesmo a gripe su√≠na e avi√°ria, da√≠ que o neologismo sindemia n√£o estava no nosso vocabul√°rio apesar das condi√ß√Ķes para a sua exist√™ncia j√° terem sido anunciadas desde bem antes: o sedentarismo das popula√ß√Ķes humanas ancestrais foi o primeiro passo para a acelerada degrada√ß√£o do planeta e da nossa pr√≥pria esp√©cie; a escraviza√ß√£o dos animais foi o segundo passo; os nossos diversos e m√ļltiplos arranjos sociais (incluindo as revolu√ß√Ķes, como a industrial e informacional) o terceiro passo; a nossa indiferen√ßa com tudo isso apesar de todo o conhecimento acumulado por mil√™nios √© o quarto passo; e, enfim, essa marcha f√ļnebre prossegue em dire√ß√£o ao abismo.

Cerveja de bacon e sunday com bacon no Festival do Bacon, Memorial da América Latina, 2017. Fotos de Fabio Montarroios
Alimentos disponíveis no Festival do Bacon, Memorial da América Latina, 2017. Foto de Fabio Montarroios

SINDEMIA À BRASILEIRA

A √ļltima grande amea√ßa biol√≥gica que os brasileiros viveram, fora talvez a dissemina√ß√£o repleta de preconceito que envolveu o v√≠rus da Aids nos anos 1980, se deu h√° mais de cem anos, com a gripe espanhola‚Ķ Bom, o termo sindemia surgiu em janeiro de 2019, no estudo publicado na revista The Lancet, e ele indica a combina√ß√£o de tr√™s grandes pandemias agindo simultaneamente sobre as popula√ß√Ķes no mundo todo: a obesidade, a desnutri√ß√£o e as emerg√™ncias clim√°ticas. Da√≠ que pa√≠ses como o Brasil e sua brutal desigualdade social e falta de efici√™ncia nas gest√Ķes p√ļblicas (em todo o espectro pol√≠tico ideol√≥gico), amplificam os efeitos da chegada de uma nova pandemia, como est√° sendo o caso neste exato momento, da pandemia de Covid-19.

N√£o √© preciso, contudo, ser um cientista genial para constatar que voc√™ j√° tem grandes problemas para lidar e um novo problema surge, voc√™ tem um problema ainda maior nas m√£os, mas o que pega √© que √†s vezes o √≥bvio, como √© o caso dos sabidos efeitos delet√©rios das Doen√ßas Cr√īnicas N√£o Transmiss√≠veis (DCNT), respons√°veis por 70% das mortes em todo o mundo (e 72% no Brasil), nos escapa totalmente ou fica l√° jogado para escanteio quando algo retumbante surge como est√° sendo o caso agora da pandemia de Covid-19. √Č √≥bvio, portanto, que num pa√≠s como o Brasil, e ainda mais no atual contexto de um governo negacionista (da pandemia e tamb√©m das emerg√™ncias clim√°ticas) e, consequentemente, genocida, que as coisas ser√£o bem piores. Na verdade, elas j√° est√£o sendo: desde mar√ßo, quando o v√≠rus do momento aportou aqui atrav√©s de pessoas vindas da It√°lia, os n√ļmeros j√° est√£o em 160 mil mortos.

Saiba mais: O ASSASSINATO E A EXPLORA√á√ÉO DE ANIMAIS NOS COLOCAR√Ā DIANTE DE NOVAS PANDEMIAS, por Vanice Cestari.

Falar com o presidente sobre esses milhares de brasileiros que perderam suas vidas e ouvir um ‚Äúe da√≠?‚ÄĚ ou ‚Äúeu n√£o sou coveiro‚ÄĚ como resposta √© algo abjeto e indica que tratar de outros assuntos com a figura execr√°vel que assume o posto m√°ximo da na√ß√£o, em outros poss√≠veis questionamentos, teria resposta similares a algumas que j√° vimos, por exemplo, se o assunto fosse o n√ļmero de mortos no tr√Ęnsito: ‚Äúcala a boca‚ÄĚ; o n√ļmero de assassinados pela pol√≠cia: ‚Äúminha vontade √© encher a sua boca de porrada‚ÄĚ; o n√ļmero de mortos por DCNT: ‚Äúpergunta pra sua m√£e‚ÄĚ; e por a√≠ vai. Este √© o baixo n√≠vel em que nos encontramos. Ora, d√° pra incluir, no nosso caso nem t√£o particular, j√° que presidentes assim de extrema-direita pipocam no mundo todo, o bolsonarismo como mais um elemento de uma sindemia √† brasileira, afinal, essa onda s√≥ est√° amplificando problemas que j√° t√≠nhamos.

Mas, como sempre fazemos no Saber Animal, buscamos um contexto maior para explicar os problemas que identificamos sempre que tratamos de qualquer assunto. A vis√£o cr√≠tica, nosso norteador m√°ximo, nos guia sempre que nos colocamos a produzir algum conte√ļdo.

Vale observar, ent√£o, que podemos inferir que o que tem acontecido nas tr√™s √ļltimas d√©cadas, apesar de j√° termos tido governos n√£o t√£o ruins com governantes cheios de problemas em suas administra√ß√Ķes (Fernando Henrique Cardoso, Lula, Dilma Rousseff e at√© o golpista Michel Temer), √© que o n√ļmero de mortes por todas as DCNT geralmente subiu ano ap√≥s ano. Na somat√≥ria, de 1996 at√© 2019, j√° se foram 6.148.805 milh√Ķes de brasileiros que poderiam ter vivido mais e melhor se a√ß√Ķes dos pr√≥prios cidad√£os e, principalmente, do Estado tivessem sido colocadas em pr√°tica. As a√ß√Ķes que o Comit√™ Estadual para a Promo√ß√£o da Alimenta√ß√£o Saud√°vel e Preven√ß√£o de Doen√ßas Cr√īnicas N√£o Transmiss√≠veis no Estado de S√£o Paulo s√£o apenas um exemplo do que poderia ter sido feito.

Pude observar que nas minhas pesquisas de alguns estudos sobre o tema apontavam para, ao contr√°rio do que imaginava, uma diminui√ß√£o das DCNT ao longo dos anos, especialmente na d√©cada retrasada‚Ķ S√≥ que esses resultados s√£o poss√≠veis apenas quando algumas das DCNT s√£o selecionadas como par√Ęmetro de avalia√ß√£o. Preferi, ent√£o, usar todos os indicadores do Painel de Monitoramento da Mortalidade Prematura (30 a 69 anos) por DCNT, da Secretaria de Vigil√Ęncia em Sa√ļde, que incluem a totalidade de DCNT listadas no servi√ßo.

Escolher apenas algumas delas, mesmo que sejam as destacadas pela OMS (Organiza√ß√£o Mundial da Sa√ļde) como as principais (as doen√ßas cardiovasculares, o c√Ęncer, o diabetes Mellitus e as doen√ßas respirat√≥rias cr√īnicas) me pareceu abrir espa√ßo para uma compreens√£o de que estamos tendo uma melhora no cen√°rio quando √© justamente o oposto quando levamos em conta, novamente, todas as DCNT.

Em estat√≠stica √© poss√≠vel, se a pessoa quiser, destacar apenas os melhores n√ļmeros e pintar um cen√°rio at√© diferente do que ele realmente √© e isso me pareceu ter sido uma op√ß√£o deliberada, por exemplo, do relat√≥rio Plano de A√ß√Ķes Estrat√©gicas para o Enfrentamento das Doen√ßas Cr√īnicas N√£o Transmiss√≠veis (DCNT) no Brasil, 2011-2022, do Minist√©rio da Sa√ļde. O ministro da sa√ļde da vez, Alexandre Padilha, a servi√ßo do Governo Dilma Rousseff, indica no texto de abertura que ‚ÄúNa √ļltima d√©cada [2000-2010], observou-se uma redu√ß√£o de aproximadamente 20% nas taxas de mortalidade pelas DCNT, o que pode ser atribu√≠do √† expans√£o da Aten√ß√£o B√°sica [um programa do governo da √©poca], melhoria da assist√™ncia e redu√ß√£o do consumo do tabaco desde os anos 1990, mostrando importante avan√ßo na sa√ļde dos brasileiros‚ÄĚ.

Ora, observei justamente o contr√°rio quando optei por levar em conta todas as DCNT listadas no servi√ßo de vigil√Ęncia citado mais acima e n√£o apenas algumas delas. E aqui vai um aviso importante: por n√£o ser da √°rea da sa√ļde (minha gradua√ß√£o √© em Hist√≥ria) e poder estar incorrendo numa avalia√ß√£o equivocada analisando o todo, creio mesmo assim que os dados oficiais nos indicam, sim, uma piora no quadro geral e n√£o uma melhora na vida dos brasileiros‚Ķ

A √ļltima d√©cada a qual o ministro se referia, de 2000 a 2010, registrou a morte de 2.672.662 milh√Ķes de brasileiros por DCNT. A cada ano daquele per√≠odo houve um aumento m√©dio de 1,77% desse tipo de morte! Se escolhermos apenas algumas delas √© bem prov√°vel mesmo identificar quedas isoladas por doen√ßa, mas as pol√≠ticas p√ļblicas devem, ou deveriam, ser orientadas para a preven√ß√£o de todas as doen√ßas que forem poss√≠veis de preven√ß√£o em algum grau e n√£o para apenas algumas – mesmo que apenas para as principais e as que atingem mais gente. Afinal, todos os cidad√£os brasileiros t√™m direito √† tratamento igualit√°rio dado pelo Estado – est√° na nossa Constitui√ß√£o. Que sentido faz, ent√£o, atacar um tipo de c√Ęncer e um outro n√£o, por exemplo? √Č, n√£o faz sentido‚Ķ Especialmente para quem tem o outro tipo de c√Ęncer e pode morrer por isso por falta de a√ß√£o do Estado.

Nem todas as DCNT, claro, tem rela√ß√£o direta e imediata com a alimenta√ß√£o, mas a alimenta√ß√£o √© um fator determinante para a nossa qualidade de vida e, consequentemente, tem impacto nas doen√ßas que podemos desenvolver a depender das nossas op√ß√Ķes e escolhas (ou falta delas). Outros fatores tamb√©m contam como a polui√ß√£o das √°guas e atmosf√©rica, o estresse, qualidade do sono, gen√©tica, etc. Mas √© essa, em grande parte, a principal raz√£o para dar √™nfase ao desservi√ßo √† sociedade que √© um festival como o Festival do Bacon. O bacon, repito, √© um alimento cancer√≠geno!

Observado numa faixa de tempo ainda maior, de 1996 a 2019 (infelizmente não havia os dados de 1995, o primeiro ano do governo FHC, disponíveis), saltamos de 200 mil mortos nos anos noventa para 300 mil na década passada a cada ano! Foram raros os anos que demostraram alguma diminuição (bem pequena) das mortes como é possível ver no gráfico abaixo.

Fonte: Painel de Monitoramento da Mortalidade Prematura (30 a 69 anos) por DCNT, da Secretaria de Vigil√Ęncia em Sa√ļde

Agora, n√£o me parece mera coincid√™ncia que justamente no ano do golpe, 2016, o Brasil atingiu a horrenda marca de 300 mil mortos por DCNT. Foi um ano traum√°tico para o pa√≠s que viveu o √°pice de sua crise pol√≠tica e de representatividade, com o √≥dio e a polariza√ß√£o sendo estimulada nas redes sociais (e na imprensa) a cada nova postagem – al√©m da crise econ√īmica que apenas se agravava desde a √ļltima d√©cada. Com uma popula√ß√£o (majoritariamente pobre e dependente de aux√≠lios governamentais) apreensiva com os joguetes pol√≠ticos de for√ßas declaradas e de for√ßas obscuras, me parece bastante razo√°vel inferir tamb√©m que esse contexto n√£o fez bem √† sa√ļde de ningu√©m, exceto, claro, dos que se beneficiaram daquele ca√≥tico ano e conseguiram mais poder e, talvez at√©, mais dinheiro.

Notadamente, a tend√™ncia era e √© de alta e, sinceramente, n√£o vejo, n√£o neste governo, a menor possibilidade deste m√≥rbido placar se alterar para baixo. Estamos em uma era (a dita nova era) de verdadeira adora√ß√£o da morte. Apesar dos governantes da vez falarem e agirem o tempo todo em nome de uma suposta bondosa deidade, eles cultuam, na verdade, o deus do caos. Libera√ß√£o de armas, incentivo √†s queimadas, mais agrot√≥xicos nas planta√ß√Ķes e mais explora√ß√£o animal, desmonte de pol√≠ticas p√ļblicas, os milicianos, a apologia √† tortura, o autoritarismo, o cerceamento √† liberdade de express√£o, o militarismo, a minera√ß√£o (at√© em terras ind√≠genas!), a persegui√ß√£o a funcion√°rios p√ļblicos com fun√ß√Ķes de fiscaliza√ß√£o (no IBAMA, por exemplo), o afrouxamento das leis de tr√Ęnsito etc etc etc n√£o saem nunca da pauta desse governo de extrema-direta personificado na figura de Jair Bolsonaro e sua fam√≠lia encrustada no poder h√° tr√™s d√©cadas.

Por√©m, aqui cabe uma ressalva em rela√ß√£o ao que acabei de dizer: pode at√© ser que as DCNT tenham uma diminui√ß√£o em 2020, porque as pessoas que morreriam por elas tiveram suas vidas ainda mais abreviadas pela Covid-19 (que tem seus efeitos potencializados quando combinada com uma m√° alimenta√ß√£o), que os governos estaduais de um modo geral n√£o souberam lidar muito bem, apesar da maioria dos governadores terem feito alguma coisa m√≠nima para combat√™-la, e que foi sistematicamente negada (a ‚Äúgripezinha‚ÄĚ) e sabotada pelo governo federal de mar√ßo at√© o momento atual. O quadro, portanto, n√£o deixar de ser triste, afinal, o resultado √© o mesmo: s√£o brasileiros que poderiam viver mais que est√£o indo antecipadamente para as covas abertas √†s pressas nos cemit√©rios de todo pa√≠s.

E, com efeito, todo governante, como poderemos ver mais abaixo, entregou ao pr√≥ximo governo um n√ļmero cada vez maior de mortos por DCNT ao seu sucessor. Foi o caso de governos de centro-direita, como o de FHC e de centro-esquerda, como o de Lula e Dilma. √Č de se lastimar que assim seja, pois a popula√ß√£o brasileira, sem pol√≠ticas p√ļblicas de est√≠mulo a uma verdadeira alimenta√ß√£o saud√°vel, e ela, acreditamos no Saber Animal, passa necessariamente pelo vegetarianismo estrito, ou seja, uma dieta sem carnes, ovos, leite e seus derivados, fica √† merc√™ das ind√ļstrias que exploram os animais n√£o humanos, os humanos com subempregos e toda a natureza. O apelo publicit√°rio desses produtos e o lobby das empresas √© t√£o poderoso que a popula√ß√£o brasileira embarca e compra cada vez mais itens de baix√≠ssima qualidade que a faz apenas aumentar as estat√≠sticas de mortos a cada ano.

Fonte: Painel de Monitoramento da Mortalidade Prematura (30 a 69 anos) por DCNT, da Secretaria de Vigil√Ęncia em Sa√ļde
Fonte: Painel de Monitoramento da Mortalidade Prematura (30 a 69 anos) por DCNT, da Secretaria de Vigil√Ęncia em Sa√ļde
Fonte: Painel de Monitoramento da Mortalidade Prematura (30 a 69 anos) por DCNT, da Secretaria de Vigil√Ęncia em Sa√ļde
Fonte: Painel de Monitoramento da Mortalidade Prematura (30 a 69 anos) por DCNT, da Secretaria de Vigil√Ęncia em Sa√ļde
Fonte: Painel de Monitoramento da Mortalidade Prematura (30 a 69 anos) por DCNT, da Secretaria de Vigil√Ęncia em Sa√ļde

OS GRINGOS TAMB√ČM CANTARAM A JOGADA EM 2017

Ainda nos idos dos anos de 2017 (ainda sob os efeitos da ressaca p√≥s-golpe), um longo artigo do The New York Times foi publicado, com tradu√ß√£o para o portugu√™s, alertando dos problemas do consumo de alimentos que apenas deixam as pessoas mais e mais doentes no Brasil: Como a Grande Ind√ļstria Viciou o Brasil em Junk Food, de Andrew Jacobs e Matt Richtel.

Vejam, palavras do The New York Times: a grande ind√ļstria viciou o pa√≠s em junk food. Percebem a abrang√™ncia da manchete? V√≠cio em todo o pa√≠s! Sinceramente, √© at√© dif√≠cil pensar em um t√≠tulo mais acachapante que este. Talvez um compatriota nosso, ciente desta situa√ß√£o terr√≠vel de uma das principais causas das DCNT, hesitasse e medisse as palavras ao falar em v√≠cio e com tamanha abrang√™ncia! E quando a mat√©ria fala da grande ind√ļstria ela n√£o deixa de falar da poderosa ind√ļstria estadunidense (√© o caso da Pepsico e da General Mills, por exemplo, ambas citadas no artigo). Afinal, s√£o essas multinacionais da alimenta√ß√£o que passaram a explorar, em movimento similar √† ind√ļstria automobil√≠stica, os pa√≠ses em desenvolvimento para aumentarem suas margens de lucro: ‚ÄúEnquanto suas vendas caem nos pa√≠ses mais ricos, as multinacionais do g√™nero aliment√≠cio, como Nestl√©, PepsiCo e General Mills, aumentam sua presen√ßa de forma acintosa nos pa√≠ses em desenvolvimento, comercializando seus produtos t√£o ostensivamente que chegam a transtornar os h√°bitos alimentares tradicionais do Brasil, Gana e √ćndia‚ÄĚ, dizem os autores da mat√©ria.

O problema √© que isso n√£o √© exatamente um problema de agora e sempre que nos deparamos com algum conte√ļdo que apela √† nostalgia da audi√™ncia nascida nos anos 80 (meu caso) ou 90, s√£o os produtos dessas multinacionais que preenchem as nossas lembran√ßas afetivas. Eu, por exemplo, me recordo, infelizmente com carinho, do chocolate Surpresa que acompanhavam cards com informa√ß√Ķes sobre animais de diferentes biomas (todos eles ainda mais amea√ßados hoje), ou da bolacha Passatempo, que eu mergulhava no caf√© em muitas das minhas manh√£s e tardes‚Ķ Sem falar no achocolatado Nescau, no Leite Ninho, no chocolate Lollo‚Ķ ‚ÄúDoce, doce, doce / A vida √© um doce‚ÄĚ, cantava a jovem mo√ßa com trajes de cabar√©, voz estridente e cercada de crian√ßas na TV de op√ß√Ķes t√£o limitadas daquele tempo amplificando o canto de sereia da ind√ļstria.

Com a chegada da TV √† cabo nos anos 90 para a classe m√©dia em ascens√£o, as op√ß√Ķes de entretenimento infantil aumentaram na mesma propor√ß√£o que as propagandas direcionadas √†s crian√ßas.

Indiretamente, atrav√©s dos meus desejos infantis influenciados pela grande ind√ļstria e seus artif√≠cios ainda um tanto toscos na conquista do p√ļblico infantojuvenil, contribu√≠, juntamente com a minha gera√ß√£o, para o enriquecimento de conglomerados como o da Nestl√©, que ganhou destaque na publica√ß√£o estadunidense exibindo as t√°ticas nas a√ß√Ķes de venda porta √† porta nos rinc√Ķes perif√©ricos do Brasil. E mesmo que agora contemos com mais produtos nas prateleiras dos supermercados, vemos apenas a chegada de algumas novas marcas oferecendo ainda mais junk food aos consumidores. O chocolate Twix, os docinhos M&M‚Äôs, as bolachas Oreo, e tantos outros ficando apenas no universo dos a√ßucarados, v√£o preencher a lembran√ßa nost√°lgica de muita gente daqui a alguns anos tamb√©m e, da mesma forma, fazendo a todos adoecer e perpetuar a explora√ß√£o das vacas das quais roubamos seus filhos e seu leite. Vale a pena todo esse sofrimento pra momentos como a chuva de chocolate Twix na Avenida Paulista, em S√£o Paulo? N√£o…

Saiba mais: A CRESCENTE MERCANTILIZAÇÃO DO VEGANISMO SEM ABOLIÇÃO ANIMAL, por Vanice Cestari.

A MORTE MATADA E A MORTE MORRIDA NAS PERIFERIAS

O imagin√°rio coletivo associa imediatamente as periferias brasileiras √† lugares de viol√™ncia: roubos, furtos, assassinatos, estupros, tr√°fico de drogas s√£o a t√īnica dominante nas √°reas que n√£o s√£o tidas como ‚Äúnobres‚ÄĚ nas cidades brasileiras‚Ķ Toda sorte de perigo de uma cidade emana basicamente das periferias, j√° repararam? A imprensa sensacionalista refor√ßa essa vis√£o h√° d√©cadas nos tabloides e nos programas de televis√£o. √Č tamb√©m por isso que a classe m√©dia, ao longo dos anos 80 e 90 (d√©cadas muito simb√≥licas para o nosso momento atual), subiu os muros de suas casas, muitas delas financiadas ou herdadas, para, ao mesmo tempo que almejava preservar seu patrim√īnio (carros, eletr√īnicos e uns trocados separados para ir √† Disney), tentava ficar longe da viol√™ncia que se manifestava apenas e t√£o somente nas ruas.

Outra consequ√™ncia desse encastelamento √© que as crian√ßas pararam de brincar fora de casa e ficaram mais tempo sentadas no sof√° com seus jogos eletr√īnicos e muito t√©dio no conv√≠vio com pais que n√£o sabem ser pais, que apelam para programas sensacionalistas como Supernanny e similares para conseguir uma forma de conv√≠vio. O mesmo fen√īmeno se deu tamb√©m nas periferias, mas com menos espa√ßo nos lares e mais improviso arquitet√īnico, as crian√ßas al√©m de terem sua inf√Ęncia limitada pelo medo da viol√™ncia de seus pais, chegam a habitar √°reas de risco e locais totalmente desprovidos de equipamentos seguros para o desenvolvimento delas.

Carrinho de compras infantil, que era empurrado por uma criança, repleto de junk food em supermercado de classe-média da capital paulista, 2017. Foto de Fabio Montarroios

A viol√™ncia da classe m√©dia, ah, essa parece que nem existe, n√©? Da√≠ que os milhares de brasileiros mortos no tr√Ęnsito das cidades devem ser obra de algum fantasma que se apossa de seus carros‚Ķ A viol√™ncia contra mulheres e crian√ßas tamb√©m deve ser obra de monstros que saem dos seus arm√°rios‚Ķ A falta de reconhecimento de direitos trabalhistas de milh√Ķes de empregadas dom√©sticas, ora, isso nem de viol√™ncia podemos chamar, afinal, o que √© negar registro em carteira comparado com o furto de seus celulares topo de linha, n√£o √© mesmo? N√£o tem nem compara√ß√£o‚Ķ

Mas no reino m√°gico da classe m√©dia brasileira h√°, sim, muita viol√™ncia. Essa compara√ß√£o, com recorte de classe, geralmente n√£o ganha l√° muito destaque na grande imprensa, mas pelo que eu saiba, possuir um carro requer recursos (conta banc√°ria, acesso a financiamento, ter habilita√ß√£o, dinheiro para manuten√ß√£o etc) e a maioria deles est√° na m√£o justamente da classe m√©dia. Recolher as crian√ßas √© uma op√ß√£o que os pais tomam deliberadamente: ao inv√©s de exigirem espa√ßos seguros para elas brincarem (parques e pra√ßas), os adultos √†s levam aos shoppings da cidade (assim sendo √© preciso transportar a fam√≠lia, ter dinheiro para alimenta√ß√£o, saciar o consumismo etc) e ‚Äúresolvem‚ÄĚ tudo em espa√ßos privados e naturalmente excludentes. E explorar m√£o-de-obra alheia s√≥ faz quem tem algum dinheiro para contratar algu√©m (negar direitos se d√° quando voc√™ sabe da exist√™ncia deles e esse conhecimento requer estudo, informa√ß√£o e no√ß√£o das consequ√™ncias que √© neg√°-los etc).

A classe m√©dia brasileira √©, sim, violenta, ou melhor, violent√≠ssima, pois ela tamb√©m faz outra coisa igualmente conden√°vel: d√° corda para a viol√™ncia policial que corre solta nas periferias‚Ķ A classe m√©dia s√≥ n√£o √© mais violenta que as nossas elites, porque enquanto uma adere e amplifica discursos violentos, a outra os cria e os mant√©m sempre vivos! Mas para n√£o parecer que estou perdendo o foco da quest√£o central deste texto, as DCNT, destaco a seguinte manchete da Ag√™ncia P√ļblica: “Na periferia de S√£o Paulo, morte chega 20 anos mais cedo que em bairros ricos“.

Voc√™ provavelmente vai achar que as pessoas morrem jovens por conta dos assassinatos que acontecem nessas regi√Ķes da cidade que voc√™ s√≥ vai por engano do seu GPS: morre-se mais cedo nas periferias, porque l√° ocorrem mais assassinatos, claro! Mas n√£o √© bem assim que funciona. O maior n√ļmero de mortes nas periferias ocorrem justamente por conda das‚Ķ DCNT! Sim, no caso abordado pela mat√©ria de Bruno Fonseca: ‚ÄúA principal causa de morte na Cidade Tiradentes [bairro da cidade de S√£o Paulo], segundo os dados mais atuais da pr√≥pria Secretaria [de Sa√ļde] (2017), foram doen√ßas do aparelho circulat√≥rio, que representam quase um ter√ßo do total de √≥bitos (32%). J√° em Moema [outro bairro da mesma cidade], o principal motivo foram tumores (28% das mortes). Al√©m disso, entre os dois bairros h√° uma diferen√ßa significativa entre as mortes por causas externas, que incluem acidentes e mortes violentas: na Cidade Tiradentes, 11% das mortes ocorreram nessa categoria; j√° em Moema, essas mortes n√£o chegam a 5% dos casos.‚ÄĚ

Momentos no Festival do Bacon, Memorial da América Latina, São Paulo. Fotos de Fabio Montarroios
Festival do Bacon, Memorial da América Latina, São Paulo. Foto de Fabio Montarroios

As mortes por ‚Äúcausas externas‚ÄĚ n√£o devem nunca estar fora de perspectiva, claro, mas vejam que nas periferias vive-se menos por uma conjun√ß√£o de fatores que inclui uma m√° alimenta√ß√£o, acesso prec√°rio a um sistema de sa√ļde capaz de prevenir e tratar doen√ßas e quase nenhum espa√ßo para atividade f√≠sica de uma popula√ß√£o precarizada que, al√©m de tudo isso, tem pouco tempo para cuidar de si mesma por conta das longas jornadas de trabalho e deslocamento pela cidade. Nos bairros mais ricos, os moradores possuem naturalmente uma ampla rede hospitalar √† disposi√ß√£o via plano de sa√ļde privado e mais informa√ß√£o para a compra de produtos saud√°veis igualmente mais dispon√≠veis nesses locais, al√©m de infraestrutura urbana eficiente.

Apesar que mesmo as classes mais ricas s√£o atingidas por h√°bitos pouco saud√°veis: os emp√≥rios frequentados pelos mais ricos vendem queijo Camembert, presunto de Parma, bebidas com alto teor alco√≥lico e toda sorte de produtos importados que, apesar de terem mais qualidade que seus equivalentes nacionais, pelo rigor das leis Europeias, por exemplo, n√£o deixam de figurar como parte de uma m√° alimenta√ß√£o no c√īmputo geral. As elites torcem o nariz para a alimenta√ß√£o das classes que oprimem, mas elas tamb√©m se esbaldam em junk food, mas uma junk food gourmetizada. O artigo da Ag√™ncia P√ļblica traz um gr√°fico que indica que nos bairros ricos tamb√©m se morre pelos mesmos problemas de sa√ļde que nas periferias: Consola√ß√£o, Alto de Pinheiros, Itaim Bibi e Santo Amaro.

Na antessala do al√©m, os riquinhos, a classe m√©dia e os pobret√Ķes se confraternizam sabendo que l√° chegaram pelos mesmos motivos.

Saiba mais: AT√Č UM HAMB√öRGUER √Č MAIS INTELIGENTE QUE VOC√ä, por Fabio Montarroios.

As referidas doen√ßas circulat√≥rias incluem as doen√ßas do sangue e as doen√ßas cardiovasculares (a principal causa de morte no pa√≠s). V√°rios fatores, evidentemente, levam a essas doen√ßas, mas os principais destacados pelos m√©dicos s√£o a m√° alimenta√ß√£o e a falta de atividade f√≠sica. Sendo assim, voltamos √† tal da sindemia, porque as periferias n√£o escapam das emerg√™ncias clim√°ticas, claro, mas s√£o justamente as popula√ß√Ķes das periferias que sempre sofrem e sofrer√£o mais, porque al√©m de n√£o entrarem no mapa das a√ß√Ķes dos governos que n√£o envolvam controle desses territ√≥rios atrav√©s apenas de policiamento violento, essas √°reas sofrem escassez de quase tudo que poderia confluir para uma vida mais saud√°vel.

Vale reiterar que nas periferias faltam √°rvores, hospitais, parques, escolas, creches, saneamento b√°sico, feiras livres, bons empregos, boas moradias, policiamento comunit√°rio, (pr√©-)escolas e universidades, transporte etc etc etc‚Ķ A realidade das pessoas que habitam as periferias √© notadamente de baixa escolaridade, empregos precarizados, grandes dificuldades nos deslocamentos pela cidade, falta de op√ß√Ķes de lazer, ass√©dio de criminosos e persegui√ß√£o policial, entre outras desvantagens que tornariam a vida de qualquer um mais dif√≠cil ou at√© imposs√≠vel.

N√£o √† toa, as periferias tamb√©m concentram a maior parte da popula√ß√£o preta que √©, historicamente, perseguida pelo Estado (al√©m de discriminada por parte da sociedade) ao ser constantemente criminalizada mesmo quando n√£o comete crimes e carente de pol√≠ticas p√ļblicas que, de algum modo, lhes permitam a busca por estabilidade social num pa√≠s que tem em sua identidade, de modo indissoci√°vel, √† escravid√£o humana que se deu h√° at√© o final do s√©culo XIX.

A popula√ß√£o preta, vale dizer, seria extremamente beneficiada por uma alimenta√ß√£o verdadeiramente saud√°vel, como √© o caso do vegetarianismo estrito, pois “A ra√ßa negra apresenta maiores preval√™ncias de obesidade em v√°rios estudos realizados nos Estados Unidos e tamb√©m no Brasil“, conforme indica o livro Epidemiologia nutricional, de Gilberto Kac.

UM, DOIS: FEIJÃO COM ARROZ; SETE, OITO: COMER BISCOITO

Em setembro deste ano, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, indicou que o Guia Alimentar Para a Popula√ß√£o Brasileira n√£o deveria condenar o consumo de alimentos ultraprocessados como o faz atualmente. A gritaria foi grande e ela recuou, por ora. Como representante do agroneg√≥cio no governo, ela n√£o poderia deixar que o governo n√£o recomendasse os produtos da ind√ļstria que ela defende ferozmente. Governos deveriam, na verdade, defender os interesses dos seus representados e n√£o apenas o dos empres√°rios, mas n√£o √© assim que vem funcionando h√° d√©cadas‚Ķ

Foi o caso not√≥rio de invers√£o do que deveria acontecer, retomando a j√° citada mat√©ria do The New York Times, que constatou que o Advogado Geral da Uni√£o, Lu√≠s In√°cio Adams, nomeado pela presidenta Dilma Rousseff, quando ele ficou do lado da ind√ļstria na tentativa, por parte da Anvisa, em limitar o alcance das junk food no Brasil. As empresas entraram com v√°rias a√ß√Ķes contra o governo e ao inv√©s de Adams se posicionar ao lado do povo, optou por acatar o lobby das empresas. E mais: ‚ÄúRousseff venceu a elei√ß√£o [de 2010] e, logo que tomou posse, substituiu [o diretor da Anvisa] Raposo de Mello por Jaime C√©sar de Moura Oliveira, um aliado politico de longa data e ex-advogado da subsidi√°ria brasileira da Unilever‚ÄĚ numa clara pol√≠tica de desmonte da ag√™ncia reguladora. Logo depois o governo veio com uma a√ß√£o que passava a bola para a sociedade: ‚ÄúIntitulada ‚ÄėEmagrece, Brasil‚Äô, a exibi√ß√£o exaltava o exerc√≠cio f√≠sico e a modera√ß√£o como chaves para combater a obesidade, mas minimizava a evid√™ncia cient√≠fica dominante sobre os riscos de consumir muito a√ß√ļcar, refrigerantes e alimentos processados. O patrocinador da exposi√ß√£o? A Coca-Cola.‚ÄĚ

Fatores de risco no Brasil [para as DCNT]: os n√≠veis de atividade f√≠sica no lazer na popula√ß√£o adulta s√£o baixos (15%) e apenas 18,2% consomem cinco por√ß√Ķes de frutas e hortali√ßas em cinco ou mais dias por semana. 34% consomem alimentos com elevado teor de gordura e 28% consomem refrigerantes cinco ou mais dias por semana, o que contribui para o aumento da preval√™ncia de excesso de peso e obesidade, que atingem 48% e 14% dos adultos, respectivamente (BRASIL, 2011). [Plano de A√ß√Ķes Estrat√©gicas para o Enfrentamento das Doen√ßas Cr√īnicas N√£o Transmiss√≠veis (DCNT) no Brasil, 2011-2022,]

Os gr√°ficos abaixo indicam o qu√£o grave √© a situa√ß√£o. Os brasileiros aumentam de peso a cada nova pesquisa. A obesidade dobra de 2002-2003 para 2019 entre homens (de 9,6 para 22,8) e mulheres (de 14,5 para 30,2)! O excesso de peso segue igualmente em alta entre os dois g√™neros. A Pesquisa Nacional de Sa√ļde 2019 (assim como as pesquisas anteriores) √© um guia para os governantes orientarem as pol√≠ticas p√ļblicas, mas, pelo visto, pouco fazem apesar de saber exatamente o que est√° ocorrendo de maneira at√© bem precisa.

Pesquisa Nacional de Sa√ļde, 2019.

A situação para os jovens segue na mesma toada:

Pesquisa Nacional de Sa√ļde, 2019.

No Saber Animal, n√£o defendemos e nem indicamos o Guia, como ferramenta para quem busca uma melhor alimenta√ß√£o, porque al√©m dele insistir na intensa explora√ß√£o animal, por motivos econ√īmicos obviamente, ele n√£o aponta para a alimenta√ß√£o vegetariana estrita como a alimenta√ß√£o ideal para o brasileiro sair desse atoleiro no qual se meteu. Na verdade, apesar de indicar que n√£o trata do assunto vegetarianismo, os autores da publica√ß√£o fazem o mesmo que a grande maioria dos nutricionistas quando indicam que voc√™ tenha cuidado com a alimenta√ß√£o que envolve restri√ß√Ķes: ‚ÄúEmbora o consumo de carnes ou de outros alimentos de origem animal, como o de qualquer outro grupo de alimentos, n√£o seja absolutamente imprescind√≠vel para uma alimenta√ß√£o saud√°vel, a restri√ß√£o de qualquer alimento obriga que se tenha maior aten√ß√£o na escolha da combina√ß√£o dos demais alimentos que far√£o parte da alimenta√ß√£o. Quanto mais restri√ß√Ķes, maior a necessidade de aten√ß√£o e, eventualmente, do acompanhamento por um nutricionista.‚ÄĚ

Reparem que √© sempre o mesmo rame-rame: se voc√™ √© vegetariano estrito, ‚ÄúCUIDADO!, procure um nutricionista imediatamente‚ÄĚ! Agora se voc√™ √© um viciado em carne, leite e ovos: ‚Äúok, fique tranquilo, s√≥ evite o excesso de ultraprocessados que tudo ficar√° bem‚ÄĚ. Perceba que o Guia seria totalmente compat√≠vel com muito do que √© vendido nos referidos festivais que acontecem no Memorial da Am√©rica Latina, como √© o caso do Festival do Bacon, bastaria voc√™ evitar talvez alguns alimentos ultraprocessados ali que tudo certo. O Guia, vale dizer, √© defendido tamb√©m por subcelebridades do mundo gastron√īmico que indicam receitas envolvendo o consumo intenso de gordura animal. Eis um t√≠pico exemplo de desinforma√ß√£o:

Vendo o tweet acima voc√™ nota que os porcos s√£o alimentos que v√™m da natureza ou eles v√™m de  empresas que aceleram as emerg√™ncias clim√°ticas desmatando e lan√ßando dejetos por toda parte; que se envolvem com corrup√ß√£o em n√≠vel presidencial e t√™m acesso a gordos financiamentos para aumentar seu poder; que n√£o se envergonham em vender produtos podres conforme apurou a investiga√ß√£o policial denominada Carne Fraca em 2017 (que ano!); e que produz uma quantidade incr√≠vel de alimentos ultraprocessados como a carne de milhares de porcos assassinados todos os dias? Essa √© a mentalidade daqueles que dizem defender uma alimenta√ß√£o saud√°vel…

Saiba mais: PARA AL√ČM DA OPERA√á√ÉO CARNE FRACA: ESCRAVID√ÉO ANIMAL E HUMANA NA IND√öSTRIA DA CARNE, por Vanice Cestari

Vale recapitular para n√£o esquecer: as elites s√£o as mais violentas, sempre.

Se nos EUA temos as √°reas que especialistas chamam de p√Ęntanos alimentares, no Brasil fazemos igual movimento: note a expans√£o das redes de junk food que est√° se dando por v√°rias cidades brasileiras. A prop√≥sito, √© sempre muito triste que aqui se reflita o estilo de vida dos do norte do Continente Americano. Por que nos sujeitamos a viver como eles vivem sendo que se vive t√£o mal por aquelas bandas? A popula√ß√£o estadunidense est√° cada vez mais e mais obesa‚Ķ Ent√£o, por que importar esses h√°bitos para c√°? Por que n√£o difundir o vegetarianismo estrito como uma fonte segura de alimenta√ß√£o saud√°vel? A gan√Ęncia dos empres√°rios j√° √© esperada, afinal, n√£o existe o tal capitalismo consciente ou √©tico, ent√£o, por que a popula√ß√£o n√£o resiste aos encantos das empresas de junk food?

Ontem, dia 31/10, foi Halloween, ou Dia das Bruxas, uma festividade do calend√°rio estadunidense que se tornou popular por aqui, a rede de fast food estadunidense Burguer King distribuiu lanches gr√°tis para quem fosse fantasiado a algumas de suas milhares de lojas pelo pa√≠s. As filas dobravam os quarteir√Ķes conforme registros de gente indo atr√°s de junk food ou ‚Äúcomida lixo‚ÄĚ conforme a express√£o cunhada pelos‚Ķ estadunidenses.

Globalmente, a dieta e os fatores de risco relacionados com o peso mal se alteraram desde 1990, sendo respons√°veis por 8,8 milh√Ķes de mortes em 2017, o que representa 19% da mortalidade total. As regi√Ķes com a maior propor√ß√£o de mortes relacionadas com a dieta incluem a regi√£o do Mediterr√Ęneo Oriental (28%), Europa (25%) e Am√©ricas (22%). O elevado consumo de carne vermelha foi respons√°vel por 990.000 mortes a n√≠vel mundial em 2017. A maior contribui√ß√£o para este total veio da regi√£o do Pac√≠fico Ocidental, onde o consumo de carne vermelha foi respons√°vel por uma estimativa de 411.500 mortes (3,3% de todas as mortes nesta regi√£o). Embora tenha havido uma melhoria global dos fatores de risco alimentar na Europa, as mortes atribu√≠veis ao consumo de carne vermelha ainda foram respons√°veis por 3,4% de todas as mortes (306.800 mortes).1 [The 2020 report of The Lancet Countdown on health and climate change: responding to converging crises. V√°rios autores]

O poderio das empresas em oferecer comida a pre√ßo baixo e estar presente em v√°rios lugares √© um ponto dif√≠cil de combater, j√° que o estilo de vida dos brasileiros tamb√©m favorece o consumo de fast food, pois como j√° mencionado mais acima, sobra cada vez menos tempo para o cuidado de si numa sociedade voraz em todos os sentidos. N√£o existe, por parte de nenhum governo, o est√≠mulo concreto a uma verdadeira alimenta√ß√£o saud√°vel e n√£o h√° enfrentamento da f√ļria das empresas em lucrar a despeito dos estragos que fazem. O que vemos √© uma ades√£o sem cr√≠ticas a uma forma de viver que nos aproxima de uma morte precoce.

Ao inv√©s do famigerado Guia, portanto, voc√™ pode buscar informa√ß√Ķes seguras, por exemplo, com os M√©dicos Vegetarianos.


Nota:

1 Globally, diet and weight-related risk factors have barely changed since 1990, accounting for 8,8 million deaths in 2017, representing 19% of total mortality. The regions with the largest proportion of diet-related deaths included the Eastern Mediterranean region (28%), the European region (25%), and the region of the Americas (22%). High red meat consumption was responsible for 990.000 deaths globally in 2017. The greatest contribution to this total came from the Western Pacific region, where red meat consumption was responsible for an estimated 411‚Äą500 deaths (3,3% of all deaths in this region). Although there has been an overall improvement in dietary risk factors in Europe, deaths attributable to red meat consumption still accounted for 3¬∑4% of all deaths (306.800 deaths).

Texto atualizado em 06/12/2020 com informa√ß√Ķes do peri√≥dico cient√≠fico The Lancet sobre mortes relacionadas com a alimenta√ß√£o e ao consumo de carne vermelha.