ūüĒ¨ At√© um hamb√ļrguer √© mais inteligente que voc√™

Hamb√ļrguer da empresa Impossibel Burger.
(Foto: divulgação)

Os jovens v√£o salvar o mundo? Hum… Se dependermos de jovens como Greta Thunberg (uma jovem ativista ambiental), sim, mas se apostarmos todas nossas fichas em jovens (ou inspirados por empreendedores) do Vale do Sil√≠cio, provavelmente a resposta ser√° n√£o (n√£o mesmo, cara). Mas como n√£o!? Ora, √© algo simples de constatar, t√£o simples que talvez voc√™ possa at√© comer a descoberta.

Imagine que você quer uma empresa. Ela tem que ser moderna, quase como se fosse um laboratório. Haveria jovens muito inteligentes nela vestindo roupas divertidas. Para viabilizá-la você precisaria contar com largos investimentos (não se preocupe com a origem da grana, apenas acredite que eles serão vultosos e a fundo perdido). E, a essa altura, você já desenvolveu um super algoritmo muito eficiente. As pessoas não podem saber muito sobre ele, pois provavelmente não entenderiam e é estratégico não dizer nada Рalguém pode ir lá e copiar. O seu produto poderia ser vendido, tudo indica, para o mundo todo! Por que se contentar com pouco, não é mesmo?

Continue com a abstração (não solte a minha mão): veja-se numa disputa com muitos outros jovens tão ou até mais inteligentes que você (eles só não sabem interagir e parecerem descolados como você faz quando sorri e dispara piadas machistas). Como se destacar e se mostrar merecedor da atenção de algum investidor anjo(!?)? Bom, que tal se apresentar, então, como uma não-empresa? Não consigo ver nada mais inovador que isso. Você tem uma empresa, tem empregados, paga impostos, tem equipamentos, tem até cadastro de pessoa jurídica, mas diz que não é uma empresa! Por que diabos alguém faria isso? Mas, por que não? Ou, na língua correta, why not?

O roteiro √© basicamente o mesmo de muitas empresas do setor de tecnologia. Algu√©m ou um grupo de pessoas monta uma startup e tudo come√ßa a fluir se voc√™ souber vender a sua ideia. O objetivo desses empreendedores nunca √© claro ou tang√≠vel, porque eles pensam longe e voc√™ n√£o √© t√£o sagaz quanto eles (lamento, mas a maioria med√≠ocre est√° limitada a consumir e, no m√°ximo, dar sua opini√£o em algum lugar que ningu√©m vai ler ou se importar). O marketing tem o incr√≠vel poder de nos colocar diante de uma simples garrafa de √°gua e dizer que o que estamos vendo, na verdade, n√£o √© s√≥ uma garrafa de √°gua, mas, alto l√°, toda uma experi√™ncia tecnol√≥gica e um jeito novo de beber √°gua! Afinal, n√£o √© uma garrafa de √°gua qualquer, trata-se de bottle-tech ou smartwaterwhatever. Poderia fazer isso at√© morrer. Digo que algo deixa de ser o que √© e acrescento ‘tech’ no fim ou ‘smart’ no come√ßo.

(…) na realidade, a gente deseja que a mudan√ßa aconte√ßa: lutamos por direitos igualit√°rios, queremos um mundo melhor para as pr√≥ximas gera√ß√Ķes, uma ind√ļstria aliment√≠cia sustent√°vel, oceanos limpos, menos pl√°sticos, bem-estar animal‚Ķ [NotCo]

A cita√ß√£o acima, pasmem, est√° no site empresa NotCo. Sua maionese, ops n√£o-maionese, pode ser encontrada, em S√£o Paulo, no supermercado P√£o de A√ß√ļcar (conhecido pelo seu elitismo em fazer o que qualquer mercado faz: vender de tudo que os outros tamb√©m vendem, mas mais caro e com alguns produtos mais diversificados e melhores ao som de jazz – ou Clarice Falc√£o). A embalagem da NotMayo continua sendo embalagem mesmo: de pl√°stico (e bem grosso, desses que ser√£o encontrados daqui a d√©cadas intactos numa praia qualquer) e seu produto √© dif√≠cil de tirar de l√° quando est√° no fim. Diferentemente de sua principal concorrente, a maionese Hellmann’s “Vegana” ou mesmo a maionese da Superbom (ambas tamb√©m vendidas em embalagens de pl√°stico), a NotMayo, apesar de s√™-lo, n√£o se apresenta como um produto vegano. E nisso reside um fato interessante.

Aproveite a n√£o-palestra para melhorar seu espanhol, afinal, o Mercosul deixou de ser uma iniciativa bolivariana este ano.

Apresentar-se como empresa de tecnologia √© mais atraente (a √ļnica op√ß√£o, na verdade) no Vale do Sil√≠cio do que como uma empresa que vende produtos veganos para veganos de carteirinha. Na verdade, uma outra empresa do ramo da foodtech, a Hampton Creek (que h√° n√£o muito tempo alterou seu nome para Just Inc ap√≥s se envolver em alguns esc√Ęndalos e ver toda sua diretoria pedir demiss√£o) , identificou atrav√©s de pesquisas que atrelar seus produtos ao veganismo era um problema a ser superado. Veganos s√£o vistos como pessoas que se sentem moralmente superiores e isso poderia travar as vendas. Como esses jovens s√£o muito atentos, eles sacaram que √© melhor ser neutro: vende-se para o vegano hipster da Vila Madalena (bairro de S√£o Paulo) e para o tio do churrasco gourmet querendo impressionar os sobrinhos para al√©m do ‘pav√™ ou pr√° com√™’. Deve ser a parte do igualitarismo ao qual eles se referiam…

Falando por mim, posso indicar que veganos animalistas (eu incluso) n√£o se sentem moralmente superiores √† toa. Na verdade h√° uma boa raz√£o para se sentir superior a um especista: temos uma preocupa√ß√£o sincera com a vida dos animais quando se escolhe comprar ou usar algo que n√£o envolva a matan√ßa ou a explora√ß√£o animal. Tanto a Hellmann’s quanto a NotCo n√£o se preocupam com os animais (ou com o meio ambiente, com as criancinhas, com a turma do asilo, com trabalhadores rurais, com a persegui√ß√£o pol√≠tica na China etc) quando vendem seus produtos. Eles agem dentro do sistema: sempre miram o consumidor e nunca o cidad√£o. O marketing, claro, vai variar bastante de uma para outra (talvez toda a nossa incr√≠vel e √ļnica criatividade, de fato, esteja sendo sugada pelas escolas de marketing e pelo setor financeiro), fora isso, o que temos √© firula e mais firula.

Sim… sou de esquerda (al√©m de vegano animalista abolicionista). Apesar de, nos dias de hoje, n√£o me ver representado em lideran√ßas ou partidos… √Č, talvez s√≥ mesmo algu√©m como a jovem Greta seja uma das poucas esperan√ßas nas quais algu√©m que vive no pa√≠s do agroneg√≥cio possa se agarrar. Mas antes de me perguntar sobre o Lula, tenha calma, leitor. Veja a seguinte cita√ß√£o da qual extraio de um contumaz esquerdista igualmente desiludido (isso j√° em 1966, quando voc√™ provavelmente nem era nascido ainda), o Darcy Ribeiro, com as suas pr√≥prias refer√™ncias:

A R√ļssia conseguiu, como sua fa√ßanha maior, infundir em multid√Ķes um corpo de ideais generosos em nome dos quais as mobiliza para o combate ao atraso e √† pobreza. Isso √© muito melhor do que o empanturramento material e pr√≥spero, sem mensagem de que se alimenta a juventude alem√£ ocidental ou a yankee. Mas √© tamb√©m uma nova Idade M√©dia, homog√™nea em suas cren√ßas e disciplinada por guardi√£es da tradi√ß√£o.

Respondo a isto e √† perplexidade em que poderia cair, com a cren√ßa de que nos cabe a n√≥s, a intelectualidade dos povos morenos e pobres, a fun√ß√£o de nos fazermos o novo sal da Terra. Tendo tarefas espec√≠ficas de luta contra o atraso e a mis√©ria que nos aquecer√£o o peito por d√©cadas, n√≥s, os deserdados e discriminados que n√£o possu√≠mos bombas, temos uma autoridade moral de import√Ęncia decisiva neste mundo em crise de valores. E precisamos us√°-la. Podemos entrar no di√°logo do homem com uma postura mais s√≥lida, com autoridade para exigir o internamento dos loucos-donos-da-bomba; de exigir dos chinos e dos sovi√©ticos fidelidade √†s lealdades human√≠sticas de que se dizem herdeiros. [Uma carta amarga, em Correio IMS]

Darcy Ribeiro morreria outra vez se pudesse retornar e ver em que p√© estamos (com uma esquerda delirante e uma extrema-direita tomando de assalto cora√ß√Ķes e mentes). A nossa superioridade moral, a de n√£o termos uma bomba at√īmica (que √© capaz de destruir toda a vida que conhecemos) est√°, at√© ela, amea√ßada. Aventou-se, h√° n√£o muito tempo, ter uma para “pacificar” a regi√£o (!?). √Č uma ideia rid√≠cula vinda de algu√©m, ao qual, todos aqueles que n√£o defendem algo do tipo, podem se sentir tranquila, intelectual e moralmente superiores.

A NotCo e a Hampton Creek n√£o se reconhecem como empresa de alimentos, mas de tecnologia. Voc√™, por acaso, j√° ouviu uma certa empresa que diz algo parecido? √ȂĶ o Facebook n√£o se v√™ como uma empresa de comunica√ß√£o / m√≠dia, mas de tecnologia. Al√©m de ter alavancado um populismo antes s√≥ visto em becos escuros da internet, eles agora v√£o criar uma moeda pr√≥pria e interferir no sistema financeiro mundial e, ainda assim, quando forem novamente chamados para darem esclarecimentos, dir√£o que n√£o s√£o como um banco com moeda pr√≥pria, mas uma empresa de tecnologia. Eu, n√£o sou eu, eu sou a fada do dente! √Č o que direi quando algum cobrador (ou a pol√≠cia do pensamento) bater √† porta.

We really view [NotCo] as a fast-prototyping platform for new foods. [An Algorithm Is Coming for Your Food]

Gabando-se de um algoritmo poderoso, batizado de Giuseppe (em refer√™ncia ao pintor italiano Giuseppe Arcimboldo), a turma da NotCo avalia combina√ß√Ķes poss√≠veis das mol√©culas de vegetais para chegar ao sabor, textura e cor correta do alimento. Potencialmente, assim, eles podem criar r√©plicas vegetais de qualquer coisa. Very clever, boys! O clube do bolinha n√£o conta como a feiti√ßaria √© feita. E n√£o √© feiti√ßaria, √© tecnologia, como diria a pupila de Luciano Huck, este uma estrela patrocinadora da nova pol√≠tica brazuca.

A Uber tamb√©m n√£o se v√™ como uma empresa de transporte, veja s√≥! Adivinhe: eles s√£o uma empresa de… ? Claro, de tecnologia. Como poderia ser diferente, afinal, eles fizeram um app que conecta um motorista e um passageiro para eles dividirem uma carona, n√£o √©? Como diriam os velhos Cassetas: “impressionante”! Em um pa√≠s fr√°gil como o nosso, os lucros poss√≠veis com tal fa√ßanha tecnol√≥gica faria picadinho das nossas ‚Äúantiquadas‚ÄĚ leis trabalhistas. Dito e feito! E o modelo de neg√≥cio (esqueci de comentar no in√≠cio, mas sem um modelo de neg√≥cios, voc√™ n√£o √© ningu√©m, n√£o adianta mais dizer que viu Fellini, ou que leu Sartre, o lance para impressionar qualquer um √© ter um plano de neg√≥cios poss√≠vel de ser explicado em 2 minutos num animado pitch) √© t√£o incrivelmente adapt√°vel que funciona para o Arbnb, para o iFoods etc. Mas assim como os jumentos (os animais) foram substitu√≠dos por motocicletas no nordeste (e descartados / abandonados por parte das pessoas que os escravizaram por s√©culos – e que empres√°rios chineses e governo querem abat√™-los para lucrar com suas mortes), um outro animal ser√° substitu√≠do, daqui a algumas d√©cadas, pela automa√ß√£o de tudo o que puder ser automatizado. A Uber, a empresa de transporte de pessoas que n√£o √© empresa de transporte de pessoas, diz que s√≥ se tornar√° verdadeiramente lucrativa quando se livrar de seus “parceiros” humanos. Somos os jumentos da vez! E vale dizer que n√£o uso a palavra jumento no sentido de ofensa, porque eles, os jumentos, s√£o mam√≠feros ador√°veis e t√£o incr√≠veis quanto cachorros e gatos, por exemplo. Como j√° cantou Luiz Gonzaga, eles s√£o nossos irm√£os. Bois e vacas, porcos, cabras tamb√©m s√£o incr√≠veis. Possuem personalidade, gostam de brincar (√©!), mas os colocamos em nossos pratos, j√° dissociados de suas formas vivas (procurem pelo termo “referente ausente” usado por Carol J. Adams, no seu c√©lebre livro Pol√≠tica sexual da carne). H√° quem defenda esse s√°dico prazer com unhas e dentes, apesar de nossas unhas e dentes serem in√ļteis se f√īssemos de fato o topo da cadeia alimentar (n√£o somos, s√≥ para lembrar).

E deixo claro a todos: a superioridade moral da qual me gabo j√° n√£o √© mais aquela de antes… Estamos numa √©poca estranha. Alguns diriam de transi√ß√£o, mas como observou Jaime Pinsky certa vez numa palestra l√° pelos anos 2000, estamos sempre num per√≠odo de transi√ß√£o. O nosso tempo presente nos torna testemunha de grandes transforma√ß√Ķes, as quais temos pouco ou nenhum poder de revers√£o. Trocar o hamb√ļrguer de carne animal por vegetal pelas vias do mercado n√£o altera verdadeiramente a realidade implacavelmente regida pelo poderoso mercado – vale o mesmo para a maionese (quem acha que as maioneses, para al√©m da met√°fora, poder√£o mudar o mundo, est√° enganado, sinto informar). Pode aliviar um pouco a barra de alguns poucos animais (trilh√Ķes morrem todos os anos pelos mais variados motivos: virar comida √© o principal deles e essa tamb√©m √© uma das principais causas do aquecimento global e por global entenda globo terrestre, a forma do nosso planeta, Terra), mas a explora√ß√£o deles continua, porque suas vidas est√£o embrenhadas na cadeia produtiva de um sem n√ļmero de segmentos das poderosas ind√ļstrias do mundo todo (da moda, da farmac√™utica etc). O fazendeiro orgulhoso de seu gado que se transformar√° em carne org√Ęnica (!?) √© s√≥ mais um dos mercadores da morte… H√° muitos outros ocultos, lucrando alto com o vai e vem das commodities.

A verdadeira superioridade moral da nossa √©poca √© lastreada pela tecnologia ou, melhor dizendo, √© a moral tecnol√≥gica que ir√° prevalecer (e nos transformar em outra coisa, certamente, desprovida de valor quando tirarem todas as informa√ß√Ķes que precisam de n√≥s). Se voc√™ n√£o domina a linguagem das m√°quinas, se voc√™ n√£o √© autor de um algoritmo de prest√≠gio, se sua conta no Github tem poucos seguidores, voc√™ n√£o √© ningu√©m e, portanto, n√£o tem recursos para bater de frente com o que vem por a√≠. Esque√ßa as celebridades que hoje arrastam multid√Ķes aos shoppings para fazerem arremedos de shows que envergonhariam at√© mesmo a mais triste das plateias numa escola de um rinc√£o esquecido sem recursos composta por velhos e cansados agricultores alheios ao Youtube, ao Instagram ou ao App ladr√£o de dados da moda e ao seu prato cheio de alimentos plant-based. Em tempos de um desejo por uma √©tica relativizada, ou seja, num tempo em que √© necess√°rio ceder um pouco de suas rigorosas conclus√Ķes (animais n√£o devem ser mortos), tudo parece se encaixar perfeitamente (como num c√≥digo bem escrito).

Para o melhor ou para o pior – e creio que tenhamos todas as raz√Ķes para estarmos tanto temerosos quanto esperan√ßosos -, a classe realmente nova e potencialmente revolucion√°ria na sociedade consistir√° em intelectuais, e seu poder potencial, ainda que at√© agora desapercebido, √© muito grande, talvez grande demais para o bem da humanidade. Mas isso s√£o especula√ß√Ķes. [Sobre a viol√™ncia, de Hannah Arendt]

Umas das mentes mais brilhantes do s√©culo XX (quase destru√≠da pelos nazistas de extrema-direta, desculpem a redund√Ęncia que se faz necess√°ria) especulava sobre as comunidades cient√≠fica e intelectual de sua √©poca. As da nossa consistem em menos intelectuais e em mais cientistas (cada vez mais de dados?). Ainda temos intelectuais, claro, mas eles, quando provenientes das famigeradas ci√™ncias humanas, recebem destaque relativo ou at√© nulo. Byung-Chul Han, Bruno Latour, Ultrich Beck, Peter Sloterdijk, Evgpeny Morozov ou Yuval Noah Harari (nenhum deles, pelo que consta, autointitulou-se intelectual; eles estudaram de verdade, t√™m diploma na parede e tal). Apenas os dois √ļltimos podem, talvez, ter alcan√ßado as mentes de jovens talentosos que ao se descobrirem como prod√≠gios abandonaram de imediato as universidades mais prestigiosas do mundo para tocarem seus neg√≥cios ou n√£o-neg√≥cios. Para ser justo, alguns concluem os cursos. Mas invariavelmente eles cruzam os bra√ßos, saindo de uma condi√ß√£o em que nunca entraram, a de estagi√°rios ou aprendizes (pela idade) j√° em bosses, posando para aquelas fotos bacanas de revistas de neg√≥cios em que s√≥ os caras de sucesso alcan√ßado ou prometido podem figurar (√†s vezes alguma mulher aparece como forma de concess√£o; negros ou minorias seguem na fila). As universidades s√≥ serviram como um teste: eles s√£o capazes de entrar, mas s√£o t√£o bons que as superaram e seus docentes, laborat√≥rios, prest√≠gios, fraternidades e bibliotecas j√° n√£o conseguem mais gui√°-los para o futuro. As universidades s√£o um trampolim, numa vis√£o otimista, porque de fato elas j√° n√£o valem mais de nada (o Brasil figura como exemplo ao mundo de destrui√ß√£o do conhecimento human√≠stico). Bauman!? Zygmunt Bauman est√° morto… Assim como, por aqui, esperam por n√≥s Antonio Candido, Eclea Bosi, Bento Prado Junior e tantos outros. Por sorte eles n√£o ver√£o a destrui√ß√£o de seus legados.

Desprovidos, do que s√≥ as ci√™ncias humanas podem dar, os intelectuais do futuro tecnol√≥gico constroem nossas realidades morais, orquestradas por Kubernetes ou n√£o, em cadafalsos ao estilo Fortnite: eles montam e desmontam enquanto fugimos para ou de uma realidade artificial. Na fic√ß√£o dist√≥pica de Mad Max (1985), no globo da morte, dois homens entravam e apenas um saia vivo de l√°; uma situa√ß√£o sinistra at√© que n√£o t√£o improv√°vel assim em tempos de guerra por petr√≥leo mundo a fora. Hoje, v√°rios homens mis√≥ginos entram, mas ainda um s√≥ pode sair: Battle Royale n√£o √© um estilo de jogo, √© um n√£o-jogo que todo mundo vai ter que jogar, cedo ou tarde. Met√°fora do individualismo m√°ximo, o simulacro dos nossos fracassos aguarda o in√≠cio da pr√≥xima partida arrematada com uma est√ļpida dancinha.

Mas voltando √† vaca fria, ou seja, aos cad√°veres dos animais que ser√£o poupados pela misericordiosa a√ß√£o dos foodtechers e quejandos, a tradicional Burger King (que voc√™ deve ter visto brilhando como quase um personagem em Stranger Things 3, consumando o poder norte americano de nos fazer chorar e rir com a desventura tola de meninos tolos contra tolos monstrengos), tamb√©m entrou nessa de hamburguer vegetal. Eles continuam sendo fast-food (e matando animais, e adoecendo pessoas, e destruindo o meio ambiente, e oferecendo sub-empregos), apesar do hamb√ļrguer vegetal parecer ter sido inventado ontem (n√£o foi!). Eles n√£o produzem suas refei√ß√Ķes com algoritmos. N√£o: eles s√£o oldschool. Mas ainda assim v√£o vender o Impossible Burger (que foi testado em animais), este sim, tecnologia pura! A Lanchonete da Cidade, infinitamente menor que a concorrente, vai de Futuro Burger! Que como Bento Carneiro, que era um vampiro brasileiro e, como todo vampiro, adorava sangue, a empresa √© fruto do esfor√ßo e trabalho da nossa gente. Vai, Brasil!

E n√£o √© engra√ßado? A Futuro Burger √© do mesmo criador da Do Bem, que hoje pertence a Ambev, que todo mundo sabe, √© Do Mal (eles patrocinam rodeios e os animais, pelo que consta, assim como nos matadouros, n√£o se voluntariam a serem montados, torturados e mortos para o del√≠rio sertanejo). E na NotCo h√° um conselheiro que √© empregado da Nestl√© e para quem quiser ler Expuls√Ķes, de Saskia Sassen, ela reserva algumas p√°ginas √†s traquinagens dessa adocicada empresa que faz o seu querido Kitkat. Rio com as tristes converg√™ncias que o capital nos propicia. Eu poderia dizer at√© que a grande maravilha do capitalismo √© poder unir um nazista e um pacifista numa mesma plataforma. Eu at√© poderia chamar isso de uma nova forma de comunh√£o, as redes sociais, se algo assim j√° n√£o existisse.

Este hamb√ļrguer n√£o √© para veganos, mas para converter, diz a empresa, comedores de carne em vegetarianos ou veganos. Ser√°? E, sinceramente, vejam a parafern√°lia necess√°ria para criar o Impossible Burger. T√° com cara de salsicha… E nem d√° pra saber se √© um alimento seguro. At√© a poderosa FDA parece ter d√ļvidas.

A Fazenda Futuro acabou de conseguir US$ 8.5 milh√Ķes em investimentos. Que legal, n√£o? Me parece que investidores est√£o muito preocupados com o futuro, mas n√£o com o futuro dos animais: eles est√£o mesmo √© preocupados com o futuro do hamb√ļrguer – e de quanto isso poder√° render no futuro mais pr√≥ximo poss√≠vel. A rodada de investimentos que beneficiou a Fazenda do Futuro foi capitaneada pela Monashees (empresa de capital de risco), a mesma que ajudou neg√≥cios como 99, Rappi e Yellow florescerem. Ao entrarem nessa ciranda do capital, os donos das empresas tornam-se cada vez menos donos de suas pr√≥prias empresas (e, consequentemente, ideais). A contrapartida pelo investimento √© uma participa√ß√£o fracion√°ria no neg√≥cio. Da√≠ que o idealismo que quer salvar o mundo atrav√©s da tecnologia, pedra de toque no imagin√°rio do Vale do Sil√≠cio, ter√° que, depois do aporte, passar pelo crivo tamb√©m dos investidores. A Seara, da JBS (campe√£ em abate de animais e piv√ī de esc√Ęndalo de corrup√ß√£o envolvendo grandes lideran√ßas pol√≠ticas de todos os espectros ideol√≥gicos), por exemplo, n√£o poderia ficar fora dessa (de salvar o mundo, os animais, as flores etc) e tamb√©m j√° tem seu produto com base vegetal. Para quem cr√™ que os animais est√£o na pauta deve ficar atento, pois √© ing√™nuo achar que a verdadeira motiva√ß√£o dessa turma √© impedir nossas iminentes cat√°strofes ambientais. Nesse sentido, voc√™ deve tirar a sua bike dobr√°vel da chuva, jovem.

Da minha parte, acho √≥timo quando algu√©m deixa de comer um hamb√ļrguer com partes de animais mortos para comer algo que definitivamente pode ser at√© mais saud√°vel como um hamb√ļrguer de gr√£o-de-bico que pode ser feito em casa ou comprado no supermercado como os da marca Ger√īnimo Foods ou at√© mesmo comer em hamburgueria exclusivamente vegana. A carne vermelha √© potencialmente cancer√≠gena e carne processada, como o bacon, √© cancer√≠gena, conforme pesquisas de ag√™ncias da ONU apontam. N√£o cooperar com a explora√ß√£o animal (essa que √© a mais longeva escraviza√ß√£o da qual se tem not√≠cia e que ainda ocorre em todos os cantos do mundo, sem exce√ß√£o, praticada por ricos e pobres, informados e desinformados) √© algo salutar.

Se o Burger King (ou a Futuro Burger, a Impossible Foods, a NotCo, a Lanchonete da Cidade etc) vender apenas produtos com base vegetal, o passado n√£o ser√° reparado, mas com isso se deixa de contribuir para que mais animais sejam mortos (o impacto dessa a√ß√£o no mundo todo seria grande demais no sentido positivo, talvez uma das poucas coisas boas que poderiam acontecer de modo t√£o amplo na hist√≥ria da humanidade: o fim da escravid√£o animal). Vale o mesmo para empresas que deixarem de usar leite (a explora√ß√£o das vacas √©, provavelmente, a mais cruel da ind√ļstria de “alimentos”) e ovos (o destino de galinhas, frangos e pintinhos √© igualmente terr√≠vel). S√≥ n√£o √© preciso esperar que um algoritmo resolva isso por voc√™, camarada. Eu mesmo (ou algu√©m que voc√™ possa ter ignorado em algum momento), em carne e osso, por interm√©dio dessas m√°quinas que j√° n√£o compreendo bem como funcionam, posso te assegurar: √© melhor viver sem esse sentimento de que est√° a√≠ algo que eu poderia fazer j√°, de pronto; algo que eu posso mudar agora mesmo, mas s√≥ ainda n√£o fiz nenhum movimento nesse sentido por uma justificativa qualquer que eu queira dar. Parar de contribuir com a explora√ß√£o animal foi o melhor life hack que me aconteceu.