ūüďļ STREAMING: Professor polvo (2020)

Creig Foster interagem com polvo no fundo do mar em cena do filme Professor Polvo
Cena do document√°rio Professor polvo

Todos sabemos, a esta altura, que os oceanos est√£o severamente amea√ßados pelas atividades humanas: nossas incessantes navega√ß√Ķes comerciais, todo o pl√°stico que produzimos, o esgoto que as cidades lan√ßam, os cabos submarinos que fazem a internet funcionar, as perfura√ß√Ķes em busca de mais e mais petr√≥leo, as pesquisas estapaf√ļrdias que servem apenas para manter o emprego dos pesquisadores e a verba para as universidades ao redor do mundo, a pesca e a ca√ßa intensiva, o material radioativo como no caso da usina nuclear de Fukushima (destru√≠da por um tsunami), testes militares com bombas nucleares (al√©m de submarinos com ogivas e motores tamb√©m nucleares que afundaram e est√£o no fundo do mar podendo explodir a qualquer momento) etc. A diversa vida marinha, da microsc√≥pica √†quela que enche os nossos olhos, est√° praticamente por um fio gra√ßas aos nossos diversos modos de vida modernos.

Em suma, aquilo que não vai parar na panela está morrendo ali mesmo no mar, tendo seu ciclo de vida encurtado ou até com uma espécie inteira sendo extinta (algumas das quais nem chegamos a tomar conhecimento).

A beleza e, principalmente, a delicadeza, do document√°rio Professor polvo (2020), de Pippa Ehrlich e James Reed, talvez um dos melhores dispon√≠veis atualmente na Netflix, e que concorre ao Oscar de melhor document√°rio neste ano, entrela√ßa, a vida de Craig Foster, com a de uma polvo f√™mea, a qual ele descobre meio que ao acaso durante seus mergulhos na √Āfrica do Sul. Essas idas ao mar, para nadar como ele fazia na inf√Ęncia e juventude, restauraram sua energia vital, que estava sendo consumida por um estilo de vida que envolvia muito trabalho e pouca conviv√™ncia com a fam√≠lia, com o lar e, ao que parece, consigo mesmo.

Trailer do filme Professor polvo

Sua hist√≥ria, que nos √© apresentada antes de uma nova miss√£o a qual ele se prop√īs, a de acompanhar diariamente a vida de um polvo, √© singular pelo seu hist√≥rico: Craig seguiu, durante muitos anos, a vida de ca√ßadores de uma tribo, a qual eu presumo ser a dos !Kungs, no Kalahari, que tinham uma grande capacidade de rastrear animais e perceber pequenas e sutis mudan√ßas no ambiente.

Trata-se de uma abertura notável no documentário pelo valor simbólico, porque é como se ele tivesse criado uma máquina do tempo e voltado a uma era que talvez tenha sintetizado uma forma de arranjo social, a das sociedades tribais, que tinham mais equilíbrio com o meio ambiente, sem extrair dele nada além do necessário, geralmente. Os !Kungs vivem hoje basicamente como viviam nossos antepassados há 20 mil anos e, por tal motivo, geram tanto interesse e foram alvo do trabalho de Craig. Isto não quer dizer que o nosso passado ancestral seja de todo glorioso e que devemos abandonar tudo o que temos hoje e voltar a viver como nos primórdios da civilização… Não, pois antes de qualquer arma ou veículo ser inventado, a nossa espécie já tinha levado à extinção, por exemplo, a megafauna que habitava este planeta.

O escritor Jared Diamond diz em seu livro, O mundo at√© ontem: o que podemos aprender com as sociedades tradicionais?, que podemos tentar unir, mesmo com pequenas a√ß√Ķes, o melhor do mundo moderno do qual desfrutamos hoje e do mundo tradicional, que ainda existe apenas de modo localizado como no dos !Kungs e outros com os quais ele teve contato. Mudar a alimenta√ß√£o, a forma como criamos nossos filhos, como tratamos os idosos etc.

N√£o existe uma forma em que n√≥s humanos n√£o causemos algum efeito sobre a natureza, da qual tamb√©m fazemos parte, mas em nenhuma outra Era fomos t√£o destrutivos quanto essa de um capitalismo cada vez mais globalizado – um herdeiro direto dos novos arranjos da Idade Moderna. Esse tipo de vida tribal e bem alinhada ao ambiente tamb√©m era visto por aqui na Am√©rica do Sul, claro, nas popula√ß√Ķes ind√≠genas, massacradas pelos europeus e seus descendentes (basta ver a quantidade de bairros e ruas com nomes ind√≠genas habitados por n√£o ind√≠genas nas diversas cidades brasileiras), que se integravam √†s florestas de forma equilibrada. Elas geravam algum impacto, evidentemente, mas nada comparado ao que temos hoje.

Jacques Cousteau, o terrível

Vale dizer que para quem j√° assistiu a qualquer um dos document√°rios sobre vida animal, especialmente aqueles sobre a vida marinha, deve ter notado que, especialmente depois de Jacques Cousteau, houve uma sofistica√ß√£o dos recursos para filmagem e mesmo da pr√≥pria abordagem do que se observava evitando intera√ß√£o excessiva com animais ou capturas. √Č assim em produ√ß√Ķes como Planet Earth e Blue planet, ambos da BBC.

Assistir ao ganhador do pr√™mio Palma de ouro, O mundo silencioso (1956), dirigido pelo mergulhador e pelo c√©lebre diretor Louis Malle, dois franceses, nos dias de hoje, √© ver, sempre tentando manter um olhar animalista, um espet√°culo de absoluta preda√ß√£o humana e n√£o de uma pretensa ‚Äúpesquisa cient√≠fica‚ÄĚ ao qual se propunham os tripulantes do famoso navio Calypso.

Em uma das cenas, por exemplo, os ‚Äúpesquisadores‚ÄĚ usam dinamite(!) para conseguir pegar o maior n√ļmero de esp√©cimes poss√≠vel e indicam que esse era o √ļnico m√©todo dispon√≠vel‚Ķ Eles dizem que para a pesca tal pr√°tica era proibida, mas para pesquisa tudo bem explodir centenas ou milhares de peixes. A barb√°rie sobre a terra, claro, tamb√©m foi levada ao fundo do mar com esse vi√©s de ‚Äúpesquisa‚ÄĚ. Ver a pequena explos√£o me lembrou imediatamente dos testes com bombas nucleares no Atol de Bikini, uma agress√£o numa escala mil vezes maior, mas que n√£o deixa de ter semelhan√ßas simb√≥licas.

Jean-Michel e Jacques Cousteau, filho e pai em atividade de mergulho, 1948

Quando crian√ßa e adolescente, ao assistir muitas dessas ‚Äúaventuras‚ÄĚ pelo canal p√ļblico de televis√£o, n√£o me dava conta, claro, dos danos que eles estavam causando √† fauna por onde passavam. Confesso que tamb√©m n√£o me recordo de ter visto nada t√£o horrendo quanto este filme que uso aqui a t√≠tulo de compara√ß√£o, pois Jacques Cousteau fez 70 filmes s√≥ para a televis√£o e pode ter mudado sua vis√£o em rela√ß√£o aos animais e passado a nutrir preocupa√ß√Ķes ecol√≥gicas. Mas neste caso de O mundo silencioso, tudo era mal disfar√ßado por uma edi√ß√£o √°gil e uma trilha sonora triunfante. Seria quase como se tivessem filmado as invas√Ķes dos europeus nas Am√©ricas no s√©culo XV e depois nos vendessem os registros como produtos ‚Äúeducativos‚ÄĚ. Bom, na verdade, fizeram isso, n√£o com filmes, claro, mas com uma vasta iconografia que tende a ser tirada de contexto quando fora das boas aulas de hist√≥ria e fazendo crer, entre outras coisas, que a escravid√£o era algo justific√°vel dentro do sistema econ√īmico colonial. As imagens s√£o muito poderosas e n√£o √† toa s√£o t√£o usadas e possuem tanto valor.

O tal ‚Äúmundo silencioso‚ÄĚ que d√° nome ao filme √© totalmente equivocado, portanto, pois o caos que aqueles marujos paspalh√Ķes (praticamente uns piratas da natureza) sob os ausp√≠cios de Cousteau causavam era puro terror para os animais que tiveram o azar de se deparar com eles. As lagostas capturadas foram parar no almo√ßo da tripula√ß√£o, uma tartaruga marinha foi agarrada e ‚Äúgalopada‚ÄĚ na √°gua (depois fizeram isso tamb√©m em terra com outras tartarugas), atropelaram um filhote de baleia em alto mar o ferindo gravemente e arrancaram tubar√Ķes (que atacaram o filhote morto) do mar violentamente e os matavam a pauladas ou os deixavam simplesmente sufocar na embarca√ß√£o para coletar mais indiv√≠duos. Muitas outras cenas mostram os peixes morrendo lentamente fora da √°gua com uma narrativa em off explicando e justificando a matan√ßa de maneira muito polida.

Colocar O mundo silencioso ao lado de Professor polvo beira o surreal, pois as posturas de Jacques Cousteau (naquela época) e Craig Foster (agora) são de níveis absolutamente distintos. Um registrou, destruiu e interferiu, o outro registra, não interfere e tenta preservar.

A National Geographic e a sua maldita crittercam

Ainda vislumbrando um pouco o que nos deixa atordoados ao ver um document√°rio como este de Pippa Ehrlich e James Reed, o n√≠vel da barb√°rie apenas diminuiu nos registros que continuei vendo ao longo da minha vida com uma inven√ß√£o de Greg Marshall, o criador da famigerada crittercam, um aparato que, acoplado a um animal selvagem, registra a sua vida por longos dias. O aparelho, claro, √© um estorvo e fonte de grande perturba√ß√£o para qualquer animal que, sem oportunidades de defesa ou rea√ß√£o, n√£o consegue se desvencilhar daquilo que lhe penduram ou grudam ao corpo. O objetivo do aparelho, al√©m de produzir imagens estonteantes e vend√™-las pelo mundo em gordos contratos de televis√£o, √© ‚Äúreunir dados‚ÄĚ para ‚Äúpesquisas cient√≠ficas‚ÄĚ.

Com certeza essas imagens me impressionaram e quando as vi n√£o pensei nos animais, pois sob o efeito do que via, do espet√°culo que s√≥ os humanos s√£o capazes de compor numa tela, esse show de horrores para ser exibido para toda a fam√≠lia, ansiava por ver mais e mais. Muitas outras produtoras se especializaram nisso e lembro que n√£o s√≥ na televis√£o p√ļblica, mas em uma emissora como a Rede Globo, no programa Fant√°stico, t√≠nhamos acesso a conte√ļdos que exploravam a vida selvagem. E explorar, me parece a palavra certa nesse contexto. E sem saber dos bastidores dessas produ√ß√Ķes √© sempre muito dif√≠cil mensurar o impacto que elas causaram.

Greg Marshall mostra a crianças, no National Geographic Explorers Camp, como funciona a sua invenção, a crittercam, 2009

Apesar do grande prest√≠gio da publica√ß√£o americana, a National Geographic, a qual n√≥s inclusive j√° recorremos a algumas reportagens para produ√ß√£o do nosso conte√ļdo aqui no Saber Animal, ela tamb√©m n√£o deixa de ser especista ao interferir de tal modo na vida de outro ser vivo apenas pelo √≠mpeto da curiosidade e de finalidades enganosas como as da ‚Äúpreserva√ß√£o‚ÄĚ atrav√©s do conhecimento. Professor polvo, nesse sentido, serve quase como um manifesto contra essa abordagem f√≠lmica t√£o invasiva e perigosa para os animais. A sensibilidade deles e sua intera√ß√£o com mundo √© delicada e apenas uma abordagem igualmente delicada √© a mais adequada para incomodar o m√≠nimo poss√≠vel.

Craig Foster, no document√°rio da Netflix, anuncia que mergulhar√° diariamente sem cilindros ou qualquer outro aparato al√©m da c√Ęmera para n√£o perturbar um habitat que n√£o √© o seu. Tanto √© que ele opta deliberadamente em n√£o interferir quando sua amiga polvo f√™mea √© atacada por um predador natural, um tubar√£o, algo que nos gera grande afli√ß√£o, pois at√© n√≥s, a audi√™ncia, j√° temos afei√ß√£o pelo animal que ele, √†quela altura, depois de tantos mergulhos di√°rios, estima e, sem medo de errar, podemos dizer que at√© ama. Depois, em novas investidas do predador, gra√ßas a n√£o interfer√™ncia do mergulhador, conseguimos vislumbrar o qu√£o inteligente ela √© em conseguir se esquivar, enganar e sobreviver a mais um ataque que poderia ser, desta vez, fatal. √Č como se estiv√©ssemos assistindo a algo imaginado por um roteirista de uma anima√ß√£o de t√£o engenhosa que √© a polvo f√™mea em ludibriar seu poderoso perseguidor.

Diferente de um animal do qual somos tutores, aos quais chamamos de ‚Äúanimais de estima√ß√£o‚ÄĚ, a aproxima√ß√£o com um animal selvagem deve ser evitada e n√£o estimulada (dando comida, por exemplo), pois isso gera um desequil√≠brio num ambiente j√° resolvido gra√ßas a milh√Ķes e milh√Ķes de anos de evolu√ß√£o natural. Querer saber mais sobre outras esp√©cies n√£o √© um problema, muito pelo contr√°rio, quanto mais sabemos, mais podemos aprender a sermos melhores e vivermos com algum equil√≠brio, por mais desvantajoso que seja para os animais que n√£o podem escapar da nossa voracidade por seus corpos e conhecimento. Agora, o problema √© transformar isso numa outra coisa, que vai al√©m da curiosidade e passa a ser um empreendimento como a manuten√ß√£o de uma revista como a National Geographic ou mesmo a fama de Cousteau e suas dezenas de filmes.

O polvo fêmea sonha com os humanos?

Durante o filme, Craig Foster, pergunta se os polvos sonham. √Č uma pergunta que podemos responder sim ou n√£o a depender da nossa imagina√ß√£o. Eu creio que sonhem, sim, e isso me basta. √Č bem prov√°vel que sonhem, pensando bem. Porque s√£o nitidamente muito inteligentes e apesar de serem moluscos e n√£o mam√≠feros, podemos ao menos presumir que outras formas de vida bem diferentes da nossa conseguem fazer coisas parecidas como sonhar. Polvos s√£o seres sencientes, ora‚Ķ Mas a pergunta que deveria ficar no exclusivo campo da especula√ß√£o filos√≥fica √© posta √† prova por aqueles que, conforme j√° disse em outros momentos, possuem o mesmo sentimento que Joseph Mengele tinha em seu cora√ß√£o quando direcionava sua curiosidade √† crian√ßas judias g√™meas. Mengele talvez possa ele pr√≥prio ter se perguntado em algum momento se crian√ßas g√™meas t√™m o mesmo sonho e, para desvendar sua curiosidade, poderia ter aberto o cr√Ęnio de algumas delas, ainda vivas, para ver o que poderia tentar descobrir com sua ‚Äúpesquisa‚ÄĚ. N√£o consigo pensar em nada mais abjeto que isso, mas muitos pesquisadores levam algo assim adiante com animais, todos os dias, em suas ‚Äúpesquisas‚ÄĚ.

Recolher esses animais de seu habitat natural j√° √© uma tremenda agress√£o a eles. Quando Craig derruba acidentalmente a lente de seu equipamento de filmagem e assusta sua amiga polvo, ela foge desesperada e, inclusive, muda de esconderijo ficando fora de vista por uma semana inteira. Sua sensibilidade √© tanta que ela interpreta o brusco movimento como uma amea√ßa √† sua breve vida (dois anos) e √† sua integridade. O ser humano ali √©, para o polvo, um ser estranho, ao qual ele n√£o sabe identificar como sendo um predador, uma presa ou nenhuma das duas coisas. Da√≠ que remover os polvos de seu habitat representa o que a eles? Certamente √© uma viol√™ncia equivalente a que n√≥s humanos experimentamos quando somos expulsos ou temos que fugir de nossas casas ou pa√≠ses quando alguma amea√ßa surge no horizonte – a ascens√£o do nazismo, por exemplo.

Ser√° que os polvos capturados sonham em voltar para o mar?

Sinto, ent√£o, cada vez mais desprezo por essas ‚Äúpesquisas‚ÄĚ que servem apenas a saciar a curiosidade humana num n√≠vel extremamente cretino‚Ķ √Č o caso do brasileiro Sidarta Ribeiro, que, conforme ele mesmo diz, desde o fim de seu doutorado, nos anos 2000, queria estudar os polvos. O “pesquisador” √© muito celebrado por estas bandas por “pesquisas” relacionadas ao sono dos humanos. E ele, mesmo n√£o fazendo absolutamente nada inovador, consegue angariar prest√≠gio √† custa da tortura de ratos de laborat√≥rio. Ele insere, como muitos outros ‚Äúpesquisadores‚ÄĚ fazem no mundo todo, eletrodos nos c√©rebros dos pequenos mam√≠feros para saciar uma curiosidade que √© financiada por universidades privadas ou p√ļblicas. “Estudar” t√£o somente o sono e o sonho dos humanos n√£o basta. Eles precisam explorar macacos, ratos e polvos‚Ķ

O ‚Äúpesquisador‚ÄĚ tem a cara de pau de achar engra√ßado o fato de n√£o conseguir usar os mesmos m√©todos que aplica em ratos (e outros mam√≠feros) num molusco:

‚ÄúO problema √© medir isso diretamente. ‘Quando comecei a pesquisa, achei que ia conseguir registrar dados sobre os neur√īnios dos animais com m√©todos parecidos com os que uso nos ratos, mas foi um ledo engano. At√© agora falhamos miseravelmente na hora de tentar estabilizar eletrodos nos bichos, √© tudo mole e escorregadio, e eles n√£o aceitam nenhuma tentativa de imobiliza√ß√£o. Simplesmente n√£o h√° ossos onde se possa firmar um parafuso ou resina. Problema√ßo!‚Äô, lamenta o neurocientista [Sidarta Ribeiro].‚ÄĚ Polvos t√™m diferentes est√°gios de sono, assim como os humanos, e parecem at√© sonhar, por Reinaldo Jos√© Lopes

Quero crer que qualquer pessoa atenta que tenha assistido a Professor polvo ficar√° incomodada com essa curiosidade s√°dica quando tomar conhecimento desse tipo de “pesquisa”. Se ficar, o document√°rio teve algum efeito positivo em demonstrar a individualidade de ser t√£o diferente da gente.

Nem tudo é um mar de rosas

Como preconiza o autor Randy Malamud, no texto Animais no cinema: a √©tica do olhar humano, que, para mim, tem sido uma refer√™ncia quando escrevo sobre o ponto de vista animalista analisando um filme ou document√°rio, o ideal √© que nem consegu√≠ssemos ver o animal objeto de interesse; que n√£o tiv√©ssemos contato com ele e que a nossa curiosidade n√£o fosse saciada. Mas, num mundo imag√©tico e espetacular como o nosso, isso √© bem pouco prov√°vel de sustentar e justificar na mesa de negocia√ß√£o de executivos de grandes publica√ß√Ķes, canais de televis√£o ou mesmo produtores de filmes‚Ķ E alguns animais, mesmo os selvagens, sempre estar√£o ao alcance das nossas vistas j√° que estamos cada vez mais perto de seus habitats. Seja no mar, na terra ou no ar, poderemos v√™-los em seu esplendor diretamente ou por produ√ß√Ķes como Professor polvo. Alguns, aqueles com vida noturna ou mais sorrateiros, talvez nunca sejam vistos, sem contar os milh√Ķes de insetos, e reinem apenas no mundo da fantasia, como j√° foram os mares nunca navegados e que enchiam de medo as tripula√ß√Ķes com as amea√ßas de monstros que poderiam destruir caravelas.

No igualmente interessante documentário Homem urso (2005), de Werner Herzog, em que o registro da vida de Timothy Treadwell, um homem que acreditava ser amigo dos ursos, termina de modo trágico com ele e sua namorada sendo atacados e mortos por ursos que não estavam tão habituados assim com a presença deles em uma região um pouco distante da qual ele costumava frequentar no Alaska (EUA). Para os ursos eles não eram amigos, eram apenas presas das quais poderiam se alimentar Рtanto que o fizeram. Herzog nos poupa dos detalhes desse ataque, que ficou registrado, principalmente o áudio, no equipamento que Timothy levava consigo e no qual fazia um diário. Ironicamente, essa quase crittercam, mas pendurada em humano e não em um animal não humano, foi excluída da audiência pelo horror que carregava dentro de si conforme a avaliação de um experiente documentarista, apesar do seu valor documental. Depois de se emocionar, Herzog sugere, inclusive, que o áudio seja destruído.

Também já tivemos muitas notícias de aventureiros experientes, que buscam contato com animais selvagens de maneira bem agressiva, e acabaram mortos. Foi o caso de Steve Irwin, que ficou mundialmente famoso por atormentar répteis e por fazer shows no Crocoseum, uma espécie de SeaWorld, com crocodilos na Austrália… Ele acabou sendo atacado por uma raia enquanto mergulhava e morreu ao ser atingido pelo ferrão do animal diretamente no coração. Seu filho Robert e sua filha Bindi, infelizmente, não aprenderam a ver esse contexto de outra forma e seguem os caminhos do pai. Mas, quase como o avesso dessa história, também vemos uma relação de pai e filho em Professor polvo. O filho de Craig Foster, Tom, aparece nadando com seu pai e tendo seu primeiro contato com um filhote polvo Рque Craig acredita ser de sua amiga querida. Os dois garotos, Robert e Tom, e a garota Bindi são praticamente da mesma geração e possuem influências extremamente distintas. Quem sabe um dia eles não se encontram e convergem para a verdadeira preservação animal, isto é, preservando seus habitats sem incomodá-los e sem explorá-los.

Steve Irwin e seus filhos, Robert e Bindi, ainda pequenos: ambos, atualmente, seguem o caminho do pai, morto em 2006 por uma raia
Tom e Craig Foster, filho e pai com interesses comuns: preservar

O contato com outras esp√©cies √© temer√°rio, para ambas, pois o limiar entre a aceita√ß√£o e a toler√Ęncia, que entre humanos √© calcada na confian√ßa estabelecida pela linguagem, nas regras de cada cultura e em sutis arranjos sociais, √© inventada praticamente do zero com animais que n√£o passaram pelo longo processo de escraviza√ß√£o (como bois, cachorros, cavalos etc). Assim como ursos, os polvos j√° atacaram pessoas no mar. Os casos s√£o raros, assim como ataques de tubar√£o ou de qualquer outra esp√©cie que temos em nosso imagin√°rio como ‚Äúassassinos‚ÄĚ ou ‚Äúmonstros‚ÄĚ. Craig Foster poderia ter sido mordido caso um la√ßo de confian√ßa n√£o tivesse sido estabelecido. E, ainda assim, a tend√™ncia √© projetarmos as nossas emo√ß√Ķes, e a nossa compreens√£o dela, variando de cultura para cultura, para a rea√ß√£o dos animais diante da nossa intera√ß√£o. Esse encontro sempre estar√° numa zona cinzenta de compreens√£o – a nossa e a deles, certamente.

Quando o polvo f√™mea vai em sua dire√ß√£o e o toca ou mesmo quando ela fica em seu peito, talvez demonstrando absoluta confian√ßa em Craig, temos um contato que n√£o parece o ideal apesar de ter toda essa carga de emo√ß√£o que √© importante para nos demover de nossas a√ß√Ķes predat√≥rias. Comer um polvo √© uma divers√£o para muita gente, mesmo o animal sendo t√£o sens√≠vel e inteligente. Talvez algumas pessoas abandonem esse h√°bito ap√≥s ver esse document√°rio, quem sabe? Seus neur√īnios est√£o espalhados pelo corpo ao inv√©s de se concentrarem apenas no c√©rebro, sua habilidade incr√≠vel de mudar de cor, sua grande velocidade e perspic√°cia na ca√ßa de caranguejos‚Ķ Percebemos isso gra√ßas ao registro cotidiano do mergulhador que, aproveitando o embalo, criou uma funda√ß√£o preservacionista para manter aquele habitat seguro, a Sea Change Project.

Essa aproximação é um dilema e faz parte daquilo que podemos problematizar nos filmes dessa categoria sem esgotar o intrínseco valor documental.

Aprendendo com os animais

Diferentemente de outras refer√™ncias que trago comigo, e que j√° tiveram car√°ter ‚Äúeducativo‚ÄĚ, sinto que Professor polvo, este sim, ter√° um papel muito importante n√£o apenas para novas gera√ß√Ķes de documentaristas, mas tamb√©m para muitos outros profissionais que, como Craig Foster, conseguiu enxergar a individualidade de um polvo f√™mea que, diante de seus olhos, se revelou como dificilmente faria ante um ‚Äúpesquisador‚ÄĚ cheio de ‚Äúboas inten√ß√Ķes‚ÄĚ como Sidarta Ribeiro. Ele, muito provavelmente, viu o mesmo em tantos outros seres daquela espetacular fauna da False Bay (na √Āfrica do Sul) e sua floresta de algas submersa repleta de vida e segredos que, sinceramente, podem continuar nessa condi√ß√£o, para que possamos sonhar, √† dist√Ęncia, sob a influ√™ncia dessa obra.

Os polvos, além de irem parar no prato de muitas pessoas, já foram sacaneados de outras maneiras que deixam claro o quão cruéis nós ainda somos.

No mesmo canal educativo em que vi os document√°rios do Jacques Cousteau (os que ele fez especialmente para televis√£o e n√£o para o cinema), busquei a lembran√ßa de um fato que envolveu o inusitado encontro de um polvo e o futebol. Creio que, al√©m das vuvuzelas, todos devem se lembrar que na Copa do Mundo de 2010, realizada na mesma √Āfrica do Sul do document√°rio, um polvo em um aqu√°rio era deixado l√° para adivinhar qual time ia ganhar numa determinada partida. O polvo se agarrava a um objeto com a bandeira de um pa√≠s participante e seus acertos faziam a divers√£o das pessoas que o viam como um ‚Äúpolvo vidente‚ÄĚ. Era como levar um polvo a um circo, mas, desta vez, um circo que √© visto pela televis√£o, no mundo todo. Ningu√©m parece ter cogitado, em momento algum, que o lugar daquele indiv√≠duo, que era chamado de Paul, era o mar, pois, como diz erroneamente a reportagem, ele n√£o se ‚Äúradicou‚ÄĚ em pa√≠s algum, na verdade ele foi extra√≠do e levado de um pa√≠s a outro para terminar sua breve vida confinado num pequeno aqu√°rio.

Temos, de fato, muito o que aprender com os animais não humanos, principalmente educadores, jornalistas, documentaristas e pesquisadores. Respeitar a vida e o direito de viver em seus habitats naturais já seria um bom começo.

Favorito ao Oscar

Al√©m de Professor polvo, que j√° vem recebendo pr√™mios pelo mundo, o document√°rio Gunda (2020), de Viktor Kosakovskiy, tamb√©m esteve na pr√©-lista da premia√ß√£o do Oscar, mas n√£o foi escolhido. √Č uma pena n√£o termos, ent√£o, dois filmes com vi√©s animalista na disputa. Para mim, esta sim, seria uma escolha dif√≠cil. Se ganhar, o filme, que est√° dispon√≠vel em streaming, certamente ser√° ainda mais visto e isso √© muito bom dada a sua proposta. Fico na torcida para que Gunda fique tamb√©m t√£o acess√≠vel quanto, pois os cinemas seguem fechados por conta da pandemia e s√£o bem mais caros.

ūüďļ STREAMING: Professor polvo (2020)
Uma vis√£o preservacionista
9
Extremamente delicado
10
Apresenta o habitat
9
Excelente desfecho
10
Pontos positivos
Mostra a relação de pai e filho
Se desdobra em projeto de preservação
Uma bela fotografia
Pontos negativos
H√° algum contato direto com o animal
Trilha sonora emotiva
Deveria ser gratuito
9.5