ūü¶í Zool√≥gicos e aqu√°rios sem animais vivos s√£o plenamente poss√≠veis

Zoológico de Lujan, na Argentina

Primeiro as lembranças

Antes de adentrarmos na quest√£o propriamente dita, aquela que ir√° propor estender os preceitos da Nova Museologia tamb√©m aos zool√≥gicos e aqu√°rios, em um brev√≠ssimo pre√Ęmbulo, resgata-se duas lembran√ßas de inf√Ęncia do autor incontornavelmente em primeira pessoa.

Uma delas est√° ligada ao Zool√≥gico de S√£o Paulo, com a presen√ßa de meus pais, na d√©cada de 1980. Recordo-me vivamente de ter acariciado aquele que √© um dos animais mais velozes do mundo: um guepardo (acinonyx jubatus). Ele perambulava de um lado para o outro, impaciente, esfregando-se no gradil verde de seu min√ļsculo habit√°culo. Tive a chance de tocar seus pelos com meus pequenos dedos (apesar do perigo que isso representava; bem, eram os anos 80). Mesmo sendo um grande ca√ßador, ele agia como um gato dom√©stico (felis catus), mas com uma dimens√£o bem maior.

A outra, passada nessa mesma d√©cada, aconteceu quando frequentei assiduamente, ainda na companhia de meus pais, um clube em S√£o Paulo que tinha ele pr√≥prio um minizool√≥gico em suas depend√™ncias (atualmente desativado). Havia, entre tantos outros animais em espa√ßos incompat√≠veis com suas caracter√≠sticas naturais, um grande le√£o (panthera leo) chamado Binho (o nome estava escrito em uma das paredes do seu espa√ßo). Gostava da coincid√™ncia: o mesmo apelido que o meu (uma corruptela do diminutivo Fabinho) batizava tamb√©m um dos animais mais poderosos do mundo, capturado muito provavelmente ainda jovem, e que talvez tivesse passado por tantos outros pequenos zool√≥gicos. Ele estava sempre deitado e n√£o aparentava ter √Ęnimo para rugir ou fazer qualquer outra coisa al√©m de se mostrar entediado…

Os dois felinos seguem vivos em minha mem√≥ria, mas eles j√° n√£o mais ocupam jaula alguma a essa altura. Libertaram-se, enfim, da nossa infinita curiosidade (no zool√≥gico) e dos nossos mais variados caprichos (t√™-los em clube privado). Distantes de suas fam√≠lias e de seus habitats de origem (no continente africano), vieram parar diante de mim e de tantas outras pessoas em uma metr√≥pole antes ocupadas por povos origin√°rios e pela vasta Mata Atl√Ęntica, povoada ela tamb√©m por diversas esp√©cies end√™micas. Lembrar deles, do guepardo e do le√£o em suas jaulas, deixa-me certamente melanc√≥lico por eles terem que performar diante mim daquela forma, mas tamb√©m esperan√ßoso de que podemos fazer diferente nesta nova d√©cada e neste j√° n√£o t√£o novo s√©culo XXI.

Um outro percurso

A Nova Museologia, certamente, bateu √† porta de muitos (mas n√£o todos) museus pelo mundo e vem entusiasmando e engajando um sem-n√ļmero de profissionais da √°rea diretamente ligados √† museologia e √°reas afins, mas, aparentemente, essa vaga n√£o chegou (ainda) aos zool√≥gicos e aqu√°rios, de forma igualmente enf√°tica. Apesar de termos do que nos lamentar nesse caso especificamente, h√° tamb√©m muito espa√ßo para otimismo e entusiasmo, pois h√° no horizonte transforma√ß√Ķes e mudan√ßas que, certamente, interessar√£o a muitos, que colocariam os zool√≥gicos e os aqu√°rios, definitivamente, no s√©culo XXI, distanciando-os de suas origens que envolvem, basicamente, uma vis√£o que enquadra uma enorme gama de animais ‚Äď todos seres vivos sencientes ‚Äď apenas como objetos ou cole√ß√Ķes.

Como s√≠ntese inicial √© poss√≠vel, desse modo, considerar a Nova Museologia como uma mudan√ßa paradigm√°tica estabelecida no campo das Museologias, mas que ainda n√£o obteve a mesma resson√Ęncia no campo dos museus, majoritariamente herdeiros de uma proposta normativa. Portanto, meu argumento √© que, atualmente, do ponto de vista das mudan√ßas na concep√ß√£o de mundo, se observa uma ‚Äėnova revolu√ß√£o‚Äô, marcada pela emerg√™ncia de um novo paradigma nas Museologias, apesar da maioria dos museus ainda n√£o traduzir em seus processos a primeira grande mudan√ßa paradigm√°tica. (BRITTO, 2021, p. 74)

Dentro das GLAMs (Galleries, Libraries, Archives, & Museums), um universo de inova√ß√Ķes institucionais (e resist√™ncias, claro) pode ser observado, mas zool√≥gicos e aqu√°rios, a despeito de modernas a√ß√Ķes de marketing, como √© o caso, por exemplo, do BioParque do Rio de Janeiro, que n√£o representa uma substancial mudan√ßa no que se compreende como uma estrutura b√°sica de zool√≥gico e aqu√°rio, isto √©, animais vivos confinados em simulacros, mas com uma apar√™ncia que disfar√ßa os gradis ou os substitui por vidro, continuam refletindo uma √©poca (o s√©culo XIX e o XX) em que queremos (e certamente desejamos) deixar ainda mais para tr√°s:

Diferente de tudo que voc√™ conhece sobre o antigo zool√≥gico, o BioParque do Rio veio escrever um novo cap√≠tulo na hist√≥ria da conserva√ß√£o de esp√©cies no Brasil e ser o cen√°rio de diversas lembran√ßas inesquec√≠veis que voc√™ vai construir com sua fam√≠lia! (…) O mundo mudou, por isso, n√£o pod√≠amos continuar o mesmo! Deixando de lado toda a antiga concep√ß√£o de zool√≥gicos e cole√ß√Ķes de animais, o BioParque do Rio prioriza o bem-estar e a conserva√ß√£o de esp√©cies! (BioParque do Rio de Janeiro, 2021)

O discurso do BioParque do Rio de Janeiro, pelo que se pode observar atrav√©s de diversos v√≠deos em uma plataforma como o YouTube[1], continua sendo um zool√≥gico tradicional e a fala indicando que o ‚Äúmundo mudou, por isso, n√£o pod√≠amos continuar o mesmo!‚ÄĚ alude √† frase do escritor Giuseppe Tomasi di Lampedusa: ‚ÄúSe quisermos que tudo continue como est√°, √© preciso que tudo mude.‚ÄĚ[2]

O BioParque do Rio de Janeiro segue sendo um zoológico como qualquer outro.

Este texto, vale deixar explicitado, n√£o demoniza ou sequer tem a inten√ß√£o de atacar nenhum dos profissionais, ou mesmo institui√ß√Ķes (citadas ou n√£o), que se dedicam seriamente aos seus of√≠cios em zool√≥gicos e aqu√°rios, por mais que a indisfar√ß√°vel posi√ß√£o pessoal do autor seja contr√°ria a da preserva√ß√£o ex situ, isto √©, aquela que acontece fora do habitat dos animais. O que se verdadeiramente almeja √© um sincero convite √† reflex√£o (cr√≠tica) para que zool√≥gicos e aqu√°rios invistam suas energias e recursos em um processo que dispense totalmente a presen√ßa de animais vivos perante os p√ļblicos visitantes para aquelas que, destacadamente, s√£o duas de suas, geralmente declaradas publicamente, principais miss√Ķes: preservar esp√©cies amea√ßadas de extin√ß√£o e educar.

Tomando como base argumentativa partes do texto de refer√™ncia para aqu√°rios e zool√≥gicos, o WAZA (2005): Construindo um Futuro para a Vida Selvagem ‚Äď Estrat√©gia Mundial dos Zoos e Aqu√°rios para a Conserva√ß√£o, busca-se chamar a aten√ß√£o para novos caminhos e perspectivas tendo como base, prioritariamente, a Nova Museologia e a proposi√ß√£o de novas pr√°ticas institucionais que permitiriam transformar zool√≥gicos e aqu√°rios, como o de S√£o Paulo (Brasil) ou o de Santos, para ficarmos restritos em apenas dois exemplos, em locais em que n√£o haveria mais a exibi√ß√£o de animais vivos ao p√ļblico, pois recursos expogr√°ficos supririam totalmente a aus√™ncia deles (end√™micos ou n√£o, em extin√ß√£o ou n√£o), tornando as atividades de educadores e pesquisadores ainda mais relevantes e fundamentais para a difus√£o do conhecimento acumulado sobre os animais e, ao mesmo tempo, permitindo que o esfor√ßo conservacionista (dentro de novas balizas) fosse melhor aplicado e desempenhado removendo o p√ļblico como elemento ao qual os animais, mesmo que distantes, tivessem algum tipo de intera√ß√£o (auditiva, visual e olfativa) evitando o estresse inerente desses encontros entre esp√©cies t√£o distintas que, em habitats, raramente aconteceria sem a contundente interven√ß√£o humana.

A escolha do habitat é, certamente para a maioria dos animais, inclusive traço do seu processo evolutivo:

Ao escolher onde viver, muitos animais selecionam ativamente certos locais em detrimento de outros. Se viver em um determinado local aumenta a aptidão, então indivíduos capazes de ocupar habitats preferidos devem ter maior aptidão do que os outros que vivem fora dali, a menos que sejam forçados a dividir locais mais desejosos com outros rivais de sua espécie. (ALCOCK, 2010, p. 284)

Ao recriarmos ambientes, por melhor que sejam esses simulacros, para al√©m de impedirmos que os animais fa√ßam suas pr√≥prias escolhas naturais, al√©m de tolhermos seus movimentos que poderiam se estender em milhares de quil√īmetros para alguns escassos metros quadrados, impactamos, para os grupos de animais detidos em zool√≥gicos e aqu√°rios, diretamente naquilo que √© fruto de milh√Ķes de anos de intrincados arranjos gen√©ticos e ambientais. Criamos artificialmente outra condi√ß√£o de adapta√ß√£o aos quais, parece-nos evidente √† luz da teoria evolucionista, apenas os mais aptos sobreviver√£o e, assim sendo, estabelecer√≠amos outro ponto evolutivo nessas diversas esp√©cies submetidas ao cativeiro ao longo de v√°rias gera√ß√Ķes. E isso inclui o fato de que no processo de preserva√ß√£o com um n√ļmero limitado de animais surgem problemas:

H√° dois outros temas de ordem gen√©tica que ir√£o tornar-se cada vez mais problem√°ticos para a gest√£o de popula√ß√Ķes no futuro: os problemas de adapta√ß√£o dos animais ao ambiente do Zoo ou Aqu√°rio e o aumento prov√°vel do surgimento de caracter√≠sticas delet√©rias √† medida que as popula√ß√Ķes aumentam o seu n√≠vel de consanguinidade. (…) A selec√ß√£o artificial, consciente ou inconsciente, ir√° tender a algum grau de domestica√ß√£o dos animais, ao longo do tempo. As caracter√≠sticas submetidas √† selec√ß√£o podem ser subtis, mas significativas, tais como, a diminui√ß√£o da resposta de medo ou da agressividade, ou a efic√°cia digestiva das dietas artificiais. (WAZA, 2005, p. 38)

Apesar da aus√™ncia de familiaridade do autor (oriundo das ci√™ncias humanas) com a biologia e sua extrema complexidade, parece minimamente aceit√°vel intuir que animais ex situ ter√£o comportamento diferente de animais in situ ao longo do tempo. Estimando que zool√≥gicos e aqu√°rios, assim como museus, s√£o institui√ß√Ķes que pretendem (e que possuem est√≠mulo e aceita√ß√£o social) existir indefinidamente com, no m√≠nimo, o intuito de preservar mem√≥rias, que tipo de animais, afinal, os zool√≥gicos est√£o conservando e projetando nas pr√≥ximas d√©cadas e nos pr√≥ximos s√©culos?

Nessa toada, √© at√© compreens√≠vel que a postura defensiva dos autores do documento da World Association of Zoos and Aquariums (WAZA) mencione diretamente o enfrentamento que zool√≥gicos e aqu√°rios devam fazer a ativistas da causa animal (grupo no qual o autor deste trabalho de algum modo se insere e tem afinidade) que veem nos zool√≥gicos e aqu√°rios fonte de sofrimento ao removerem de seus habitats diversas esp√©cies de animais para exposi√ß√£o ao p√ļblico com sentido educativo, mas tamb√©m com o √≠mpeto de entreter (divertir):

Um sector frequentemente hostil para os Zoos √© o dos grupos de influ√™ncia crescente dos direitos e bem-estar dos animais, que d√£o √™nfase aos interesses dos animais como indiv√≠duos em detrimento da conserva√ß√£o de esp√©cies ou de ecossistemas; a oposi√ß√£o vem tamb√©m da parte do movimento de conserva√ß√£o que duvida da justifica√ß√£o para retirar animais do meio selvagem. Se os Zoos e Aqu√°rios v√£o desempenhar um papel activo na conserva√ß√£o, dever√£o enfrentar a oposi√ß√£o de modo frontal, compreendendo as cr√≠ticas, adaptando-se onde necess√°rio e explicando as suas ac√ß√Ķes de forma a ganhar o apoio do p√ļblico. (WAZA, 2005, p. 9)

Mas ativistas, para al√©m do engajamento combativo e persuasivo, possuem mem√≥rias de eventos que, por si s√≥, ensejam cautela e lhes d√£o argumentos minimamente v√°lidos em suas atividades (comumente traduzidas em a√ß√Ķes pac√≠ficas e educativas).

Antes de grandes mudan√ßas administrativas, o Zool√≥gico de S√£o Paulo foi alvo de investiga√ß√£o policial, em 2004, que teve in√≠cio quando uma s√©rie de animais sob sua tutela foram envenenados por um grupo de criminosos que atuava de maneira fraudulenta. Funcion√°rios e ex-funcion√°rios abusaram da confian√ßa da qual gozavam e perpetraram toda sorte de a√ß√Ķes que visavam aferir lucro atrav√©s de negociatas envolvendo animais e desvio de itens destinados √† manuten√ß√£o das atividades do zool√≥gico. Ap√≥s terem suas a√ß√Ķes dificultadas por uma nova organiza√ß√£o institucional, tal grupo p√īs em curso um plano de vingan√ßa que envolveu eliminar, inclusive, animais que tinham estima especial do p√ļblico visitante daquela √©poca. Foram posteriormente descobertos e desbaratados por uma investiga√ß√£o policial:

Os assassinos agiram em grupo, n√£o h√° d√ļvida. Com um veneno incolor, inodoro, ins√≠pido e hidrossol√ļvel, aparentemente n√£o queriam deixar rastros, mas foram atropelados pela ousadia: despertaram a suspeita de crime ao atacar, em s√©rie, exatamente as maiores atra√ß√Ķes do parque. (CORR√äA e LEITE, 2004)

Tal evento n√£o se repetiu ao longo dos anos, mas exp√īs de maneira evidente o risco que os animais correm dentro de um espa√ßo, gerido por pessoas em sua maioria bem-intencionadas, que, a princ√≠pio, existe com a miss√£o primeva de proteg√™-los.

Ainda na lógica de uma sincera preocupação com o bem-estar animal, ou até mesmo com uma forma mais rigorosa de encarar o envolvimento entre as diversas espécies, para além das pesquisas científicas (tema que não será abordado aqui, mas que poderia seguir na mesma linha, isto é, dispensar animais dessas atividades), observa-se com cautela o espaço que zoológicos e aquários ocupam nos tempos de hoje remontando suas origens:

Desde o seu surgimento, os zool√≥gicos gozam de uma amb√≠gua voca√ß√£o, sendo lugares de entretenimento saud√°vel e instrutivo para os cidad√£os, de estudos cient√≠ficos e s√≠mbolos de grandeza nacional ‚Äď n√£o se pode esquecer o contexto colonialista de seu desenvolvimento. Por todo o s√©culo XIX, s√£o os ‚Äúempreendedores da coloniza√ß√£o‚ÄĚ que fornecem animais selvagens e ex√≥ticos aos jardins emergentes (…) Durante este mesmo per√≠odo, exibi√ß√Ķes itinerantes de animais e pessoas considerados ex√≥ticos se instauram em zool√≥gicos europeus: ‚Äúmilh√Ķes de espectadores irrompem diante desses homens e bichos estranhos, todos confundidos pela denomina√ß√£o de ‚Äėselvagens‚Äô‚ÄĚ. Nos empreendimentos coloniais, o n√ļmero de animais mortos para a captura de um vivo, em geral filhote, era enorme, j√° que era preciso matar as f√™meas cuidadoras e muitas vezes o chefe do bando para se ganhar acesso ao pequeno. Carl Hagenbeck, comerciante alem√£o de animais ex√≥ticos celebrado como o criador do zool√≥gico moderno (al√©m de famoso por suas exibi√ß√Ķes de humanos), afirmava-se ‚Äú‚Äėmuitas vezes obrigado a matar‚Äô os elefantes que protegiam seus descendentes com a muralha de seus corpos‚ÄĚ. O transporte at√© o destino, longo e prec√°rio, com os animais alojados em p√©ssimas condi√ß√Ķes, era causa de muitas outras baixas. Considerados ‚Äúmercadoria colonial‚ÄĚ, animais feridos e desidratados eram abandonados pelo caminho com membros gangrenados, outros eram embalados, e o mesmo Hagenbeck conta sobre um elefante de quase uma tonelada e meia que passou os 40 dias de viagem at√© a Europa ‚Äúsem banho nem nutri√ß√£o‚ÄĚ. Apesar disso, e embora comerciantes calculassem que metade dos animais perecesse durante o transporte, a quantidade de exemplares que chegava ao destino √© impressionante. (FAUSTO, 2020, p. 125)

Ménagerie de Versailles (França), 1740. Os predecessores dos zoológicos modernos lembram muito um panóptico, não?

Nem mesmo uma organiza√ß√£o como a WAZA, com diversas instru√ß√Ķes que visam um bom desempenho por parte dos zool√≥gicos e aqu√°rios, colocando o bem-estar animal sempre em primeiro lugar, consegue assegurar que seus associados a sigam suas instru√ß√Ķes √† risca. N√£o √© o caso do Zool√≥gico de S√£o Paulo, mas √©, por exemplo, o que indica o Instituto Butantan, em S√£o Paulo acerca de seu macac√°rio e demais ambientes que exp√Ķem animais vivos.

Uma reportagem do peri√≥dico estadunidense National Geographic exp√īs den√ļncia de um relat√≥rio da ONG World Animal Protection (WAP) indicando que centenas de zool√≥gicos e aqu√°rios permitiam pr√°ticas que feriam diversas diretrizes de bem-estar animal[3]. As acusa√ß√Ķes foram recha√ßadas, mas a despeito da pol√™mica que poderia se formar ante aos posicionamentos contr√°rios da WAP e da WAZA, como seria poss√≠vel fiscalizar de maneira eficiente zool√≥gicos e aqu√°rios globalmente de modo seguro e transparente se a associa√ß√£o faz, basicamente, recomenda√ß√Ķes e n√£o pode, al√©m de descredenciar zool√≥gicos e aqu√°rios associados, impor nenhum tipo de san√ß√£o ou interferir na administra√ß√£o dessas institui√ß√Ķes? Mesmo quando zool√≥gicos e aqu√°rios declaram publicamente que seguem os preceitos da WAZA, n√£o h√° como ter garantias de que eles realmente cumprem as diversas recomenda√ß√Ķes como as que est√£o presentes no documento de 2005.

Um novo olhar

Se n√£o desviamos mais os olhos das origens dos acervos dos grandes museus nascidos no s√©culo XIX e XX, por que ainda fazemos isso quando pensamos na origem das ‚Äúcole√ß√Ķes de animais‚ÄĚ em zool√≥gicos e aqu√°rios? Elas fazem parte do mesmo gesto colonialista de arrancar, deslocar e tirar do contexto objetos e seres vivos (humanos, inclusive). Essa pilhagem (com verniz civilizat√≥rio) formam as bases de um vistoso castelo de cristal constru√≠do sobre um p√Ęntano lodacento. Mas n√£o se trata, vale refor√ßar mais uma vez, de lan√ßar todos os envolvidos com esses objetos e animais na contemporaneidade numa esp√©cie de julgamento da hist√≥ria, condenando a todos sumariamente, porque sabemos da import√Ęncia que esses acervos, em especial os de objetos, t√™m para contar hist√≥rias, inclusive a hist√≥ria de seus sombrios percursos at√© n√≥s.

Mas os animais, que t√™m um tempo de vida finito, s√≥ s√£o perpetuados como cole√ß√Ķes gra√ßas aos avan√ßos de t√©cnicas reprodutivas e de uma compreens√£o cada vez mais elevada sobre processos gen√īmicos. N√£o faz sentido, portanto, manter esse gesto colonialista se temos tamb√©m uma maior compreens√£o, ainda mais no s√©culo XXI, da import√Ęncia da preserva√ß√£o dos biomas e dos efeitos nefastos que a destrui√ß√£o sistem√°tica deles representa para todo o planeta.

Biomas s√£o compostos por um complexo conjunto de ecossistemas que possuem flora e fauna espec√≠ficas. Tirar deles seres vivos sob o pretexto de preservar faz tanto sentido quanto tirar de povos origin√°rios suas tradi√ß√Ķes e suas l√≠nguas para salv√°-las da destrui√ß√£o iminente ante o avan√ßo, entre outros fatores, do agroneg√≥cio e das empresas mineradoras…

As discuss√Ķes que chegaram aos museus com for√ßa, e com forte desejo de renova√ß√£o e mudan√ßa, n√£o deveriam, por conseguinte, tangenciar zool√≥gicos e aqu√°rios como se estes fossem espa√ßos operat√≥rios exclusivos de bi√≥logos, zo√≥logos, geneticistas, veterin√°rios e demais profissionais ligados a essa atividade t√£o espec√≠fica ‚Äď a de manter diversos tipos de esp√©cies vivas em seu confinamento ex situ. A Nova Museologia, em especial no seu √≠mpeto decolonial, cabe, pode-se dizer at√© com grande possibilidade de acerto, nesses dois espa√ßos que tiveram uma origem (e consequente cristaliza√ß√£o em nossos imagin√°rios) t√£o pr√≥xima quanto as dos museus. N√£o se trataria, portanto, de anacronismo ou imprecis√£o inserir zool√≥gicos e aqu√°rios no mesmo espectro de interesse e na necessidade de traz√™-los, de fato, ao s√©culo XXI. A desconstru√ß√£o dos museus do s√©culo XIX e XX tamb√©m pode ser estendida aos zool√≥gicos e aqu√°rios, de modo que para todos os envolvidos, mas em especial os animais que s√£o o seu principal atrativo e raz√£o de serem, pode trazer ganhos reais em termos de bem-estar animal e aprendizado.

Painel informativo no Zoológico de São Paulo com animal de origem de outro continente / Foto de Carlos Varela

Um simulacro ‚Äúde verdade‚ÄĚ

Tecnologias, as mais distintas, mas dentre elas a virtual reality (VR) e a augmented reality (AR), poderiam despontar como sendo as mais atrativas ao p√ļblico (incluindo os jovens familiarizados com as linguagens digitais, especialmente por interm√©dio de jogos eletr√īnicos), mas sem deixar de lado solu√ß√Ķes j√° amplamente utilizadas por museus, e mesmo zool√≥gicos e aqu√°rios, como os v√≠deos (mini document√°rios), websites, os pain√©is expositivos, os jogos (digitais ou anal√≥gicos) e, claro, a a√ß√£o fundamental de educadores atuando in loco. √Č o caso da obra Inside Tumucumaque[4], apresentada no Festival Internacional de Linguagem Eletr√īnica (FILE), em 2019 na FIESP, servindo como exemplo do potencial do VR, algo do tipo poderia ser estendido para todo o zool√≥gico ou aqu√°rio de forma a propiciar uma experi√™ncia sem animais vivos e de modo extremamente imersivo recriando o ambiente e os animais:

A √°rea de preserva√ß√£o ambiental Tumucumaque, localizada no norte do Brasil, est√° amea√ßada. A experi√™ncia interativa em VR (realidade virtual), Inside Tumucumaque, nos coloca em uma clareira dentro da floresta amaz√īnica, onde podemos descobrir e explorar diferentes aspectos da regi√£o. √Č poss√≠vel mergulhar no ecossistema da floresta e entrar na vida de morcegos-vampiro, jacar√©sa√ßus, harpias, aranhas-golias devoradoras-de-p√°ssaros ou dos sapos venenosos dendrobatidae. Vivenciamos os sentidos dessas criaturas atrav√©s da vis√£o e do tato, sendo a investiga√ß√£o cient√≠fica interpretada e transmitida ao p√ļblico de forma divertida e interessante. A experi√™ncia nos faz entender a beleza e vulnerabilidade do inigual√°vel ecossistema da floresta Amaz√īnica, al√©m de nos proporcionar um encontro com as habilidades extraordin√°rias das criaturas que ali habitam. (FILE, 2019)

Trailer da obra Inside Tumucumaque

A preservação in situ, isto é, aquela que ocorre no habitat das diversas espécies de animais, parece-nos a forma ideal de profissionais de zoológicos e aquários continuarem atuando nessa área que requer a mão humana para minimizar e mitigar os impactos de nossas próprias atividades que atingem o meio ambiente (em especial a agropecuária, a pesca, as diversas formas de poluição, a atividade industrial, a mineração, o desmatamento e o crescimento das cidades). Animais resgatados do tráfico ou, por exemplo, de desastres ou crimes ambientais, que tiverem condição de retornarem aos seus habitats poderiam fazer parte de programas de recuperação e reintegração e os que não puderem poderiam ser encaminhados para reservas especialmente projetadas para eles, novamente contando com a imprescindível atuação dos profissionais de zoológicos e aquários. Reforço pela terceira vez: o conhecimento e experiência desses profissionais, de modo algum, deveria ser descartada. Ela só precisaria ser reencaminhada para outra forma de realização institucional.

Profissionais habilitados para desenhar espaços simulacros reais para os animais poderiam ir muito além em ambientes virtualizados com sua quase ausência de limites! A experiência acumulada em design de zoológicos (e aquários) também não seria dispensada, muito pelo contrário, pois ela é inerentemente interdisciplinar:

O pensamento da relação homem/animal pelo espaço está contido em uma área de estudo e atuação denominada Design de Zoológicos (Zoo Design), na qual há o envolvimento de biólogos, arquitetos, paisagistas, engenheiros, artistas, designers e veterinários, os quais criam ambientes que deem conta de aspectos relativos ao bem-estar animal, ao manejo técnico seguro e eficiente, e, sobretudo, buscam dialogar com o visitante. (VENTURINI, 2013, p. 46).

Este movimento permitiria, tamb√©m, eliminar a necessidade de reproduzir os animais apenas com o sentido de sustentar cole√ß√Ķes para exibi√ß√£o (al√©m de permitirem troca de animais entre zool√≥gicos e aqu√°rios), pois essa atividade, a depender da esp√©cie, pode gerar animais excedentes em programas de reprodu√ß√£o bem sucedidos excedendo a capacidade de um zool√≥gico ou aqu√°rio e, nesse caso, √© recomend√°vel, em √ļltimo caso (mas n√£o deixando de ser uma possibilidade, justamente a pior para os animais), a eutan√°sia dos animais (criados com o fim primevo da preserva√ß√£o, vale lembrar):

Nos Zoos e Aqu√°rios, onde estes factores [doen√ßa, escassez de alimento etc] est√£o ausentes ou s√£o controlados, os programas de reprodu√ß√£o bem-sucedidos t√™m o potencial de produzir excedentes. (…) Podem existir raz√Ķes objectivas de bem-estar a favor da reprodu√ß√£o e podem existir raz√Ķes objectivas a favor da eutan√°sia ou do abate selectivo com vista √† regula√ß√£o da dimens√£o populacional (culling), sob determinadas circunst√Ęncias. (WAZA, 2005, p. 88)

Promovendo essa imers√£o ao inv√©s de oferecer vislumbres (numa esp√©cie de pan√≥ptico[5]) dos animais em simulacros (espa√ßos desenhados para simular seus habitats), o impacto pode ser maior quanto mais apuro houver no conte√ļdo digital. Nesse sentido, a obra Inside Tumucumaque √© exemplar. Certamente n√£o seria poss√≠vel estender esse recurso a todos os zool√≥gicos, mas ao mesmo tempo que em que h√° uma cultura de troca de animais entre institui√ß√Ķes, pode haver tamb√©m uma f√©rtil troca de solu√ß√Ķes que melhor exibem os conte√ļdos que ir√£o entreter e divertir os visitantes.

Poder ver animais √© algo que certamente muitas pessoas acreditam ser uma experi√™ncia necess√°ria a ser vivida (assim como a ca√ßa, os rodeios, o hipismo, a pesca, corridas de cavalo, rinhas de galo e cachorro etc) e isso justificaria, aqu√°rios, zool√≥gicos, saf√°ris, a intera√ß√£o como animais selvagens (geralmente dopados) para selfies, mergulhar com tubar√Ķes, golfinhos e baleias entre outras formas de contato com outras esp√©cies. Recriar digitalmente os habitats e os animais poderia, de algum modo, modificar essa necessidade e treinar o nosso olhar, algo que os zool√≥gicos e aqu√°rios j√° fazem com a configura√ß√£o atual, de um outro modo, diluindo as expectativas de ver pessoalmente os animais em uma atividade que n√£o seria positiva dado o seu impacto sobre essas outras esp√©cies:

[O document√°rio] The lord of bird frustra maravilhosamente os espectadores porque √© sobre um animal que podemos n√£o ser capazes de ver, que provavelmente erradicamos da Terra (se n√£o completamente, ent√£o quase). Esperamos ansiosamente v√™-lo durante o filme, e talvez o vejamos numa breve, emba√ßada e controversa tomada, mas certamente n√£o conseguimos ter uma vis√£o clara e satisfat√≥ria do p√°ssaro. Isso nos ensina uma li√ß√£o que considero vital: n√£o somos imperadores onipotentes que podem olhar qualquer animal quando bem entendemos. Apesar da aus√™ncia do animal do t√≠tulo, o filme transmite, intensamente, uma no√ß√£o do p√°ssaro: sua hist√≥ria e ecologia, sua resson√Ęncia lend√°ria. Butler [a diretora do document√°rio] mostra que podemos pensar amplamente sobre um animal sem a necessidade da sua apari√ß√£o literal no nosso campo de vis√£o. O “olhar humano”, como um tropo, √© problematizado e subvertido no filme. (MALAMUDY, 2011, p. 381)

Da√≠ que a parte educativa e expogr√°fica podem acontecer atrav√©s de t√©cnicas (digitais e/ou anal√≥gicas, o que pode variar a depender dos recursos de cada institui√ß√£o) que dispensem tamb√©m animais vivos em suas a√ß√Ķes com o p√ļblico, pois, a exemplo de exposi√ß√Ķes em museus que lan√ßam m√£o desse tipo de artif√≠cio, o p√ļblico visitante comparece em grande n√ļmero, como foi o caso de diversas mostras no Museu da Imagem e do Som de S√£o Paulo[6]. N√£o haveria sentido, ent√£o, em desprezar todo o conhecimento acumulado por pesquisadores e profissionais at√© aqui para dar curso nesta que, acreditamos, seja uma mudan√ßa de paradigma totalmente vi√°vel e desej√°vel diante, principalmente, das emerg√™ncias clim√°ticas e da aus√™ncia de sinais de que haver√° diminui√ß√£o das atividades humanas com fins econ√īmicos e consequente restauro de ambientes naturais.

Indicar que as administra√ß√Ķes de museus (privados ou p√ļblicos) renunciem √†s suas cole√ß√Ķes seria um gesto, evidentemente, ousado (e at√© ilegal no caso dos museus p√ļblicos). Talvez tal atitude soasse at√© como uma desobedi√™ncia epist√™mica para mantermos proximidade com o report√≥rio conceitual que gravita a Nova Museologia… Cremos que mesmo aquelas institui√ß√Ķes que pudessem dificilmente o fariam ‚Äď e n√£o √© necess√°rio, diga-se. E, de fato, quando se trata de objetos, por mais importantes que eles sejam, eles n√£o est√£o acima da vida, a despeito de sua singular import√Ęncia, que seria o caso dos animais em zool√≥gicos e aqu√°rios tratados como itens em cole√ß√Ķes, ou seja, transformados no equivalente aos objetos singulares em museus.

Os zool√≥gicos e aqu√°rios podem, e devem na medida do poss√≠vel, desistir de exibirem suas ‚Äúcole√ß√Ķes‚ÄĚ de animais ao p√ļblico num ato ressignificante, elevando-as a n√£o mais ao status de intoc√°veis (como muitos objetos em museus o s√£o), mas de serem espec√≠ficas a ponto de n√£o poderem ser vistas/visitadas da mesma forma como √© o caso dos objetos nos museus. Na verdade, muitos museus, com objetos rar√≠ssimos e insubstitu√≠veis, criam barreiras at√© mesmo para pesquisadores e, em muitos casos, s√≥ √© poss√≠vel ter acesso a c√≥pias digitais de determinados itens (especialmente documentos, livros, mapas etc).

Considera√ß√Ķes finais

Se hoje achamos abomin√°vel saber que existiram ‚Äúzool√≥gicos humanos‚ÄĚ[7], que relegaram tantas pessoas a uma condi√ß√£o ex√≥tica (selvagem) ou de aberra√ß√£o, por que dever√≠amos continuar achando ben√©fico, em termos de aprendizado e para o pr√≥prio bem-estar animal, manter zool√≥gicos e aqu√°rios no s√©culo XXI exibindo animais vivos? Mesmo passando ao largo das vastas e necess√°rias discuss√Ķes que envolvem os direitos dos animais neste texto, n√£o parece digno que eles habitem espa√ßos com o prop√≥sito de nos entreter quando todos teriam uma vida plena, em seus grupos familiares, a ser vivida em seus ambientes naturais, interrompidas geralmente por nossas a√ß√Ķes.

O Zool√≥gico de Buenos Aires, aparentemente, ruma para um caminho mais harm√īnico nesse sentido. Apesar de ser totalmente necess√°rio conhec√™-lo in loco, e este zool√≥gico ainda contar com a presen√ßa de animais vivos em suas instala√ß√Ķes, diversas de suas √°reas antes destinadas √† exposi√ß√£o de animais foram desativadas. Sua atratividade, agora, se d√°, em grande parte, devido a sua arquitetura remanescente que alude justamente a um tempo que o zool√≥gico parece querer abandonar e o fato dele ser um grande parque para caminhadas. √Č v√°lida, contudo, √™nfase no parece, pois o site da institui√ß√£o ainda demonstra forte conex√£o com o √≠mpeto de conservacionista quando se refere aos animais.

Ao mesmo tempo em que este movimento ocorre, ainda na prov√≠ncia de Buenos Aires, a apenas alguns quil√īmetros de dist√Ęncia, havia o Zool√≥gico de Luj√°n, visitado por muitos brasileiros (70% do p√ļblico), que permitia o contato direto das pessoas com os animais selvagens para todo tipo de intera√ß√£o (principalmente selfies). Ap√≥s diversas den√ļncias[8], especialmente de ativistas e de pessoas preocupadas com o bem-estar animal, as mesmas que causam grande preocupa√ß√£o para os respons√°veis pela WAZA, as autoridades argentinas finalmente determinaram o fechamento do estabelecimento que, entre outras pr√°ticas, por conta da queda de movimento durante o per√≠odo pand√™mico de 2020 e 2021, deixou sem alimenta√ß√£o diversos animais para morrerem.

Em um site amplamente utilizado por turistas globalmente, o TripAdvisor[9], que auxilia viajantes a decidir quais locais visitar√° atrav√©s de geolocaliza√ß√£o ou por buscas ativas, n√£o faz nenhuma men√ß√£o ao ocorrido na p√°gina destinada ao Zool√≥gico de Luj√°n. Este servi√ßo online, gratuito, permite um vislumbre da opini√£o dos frequentadores que, al√©m de deixarem suas impress√Ķes registradas e algumas fotos, emite uma nota ao estabelecimento e cria um ranking[10] que tamb√©m ajuda as pessoas a decidirem o que fazer quando buscam destinos.

O Zool√≥gico de Luj√°n recebeu at√© o momento da escrita deste texto 3.985 avalia√ß√Ķes nessa plataforma e, nitidamente, conta com depoimentos celebrando justamente a possibilidade do contato com os animais (seu principal atrativo, na verdade). Por outro lado, o Zool√≥gico de Buenos Aires, transformado em bioparque, tem 2.371 avalia√ß√Ķes e √© poss√≠vel notar desapontamento em relatos que indicam aus√™ncia ou a impossibilidade de observar os animais de perto.

Após navegar pelo site TripAdvisor e ver diversos vídeos no YouTube, fica-se com impressão de que o percurso de ressignificar o papel dos zoológicos e aquários não será curto e muito menos simples, mas ele parece plenamente possível se respeitarmos os animais e seus habitats:

18. Todas as pessoas t√™m o dever e a obriga√ß√£o de respeitar e exigir o respeito pelo habitat, formas e condi√ß√Ķes de vida dos animais n√£o humanos, assim como de abster-se de qualquer forma de crueldade na produ√ß√£o de alimentos. (Declara√ß√£o Universal de Deveres Humanos, 2017)


Notas:

[1] Nenhum v√≠deo espec√≠fico est√° sendo elencado, pois s√£o, de fato, muitos os que podem exibir, pelos registros dos visitantes na plataforma YouTube, o fato do BioParque do Rio de Janeiro continuar sendo um zool√≥gico tradicional. De todo modo, uma visita t√©cnica in loco seria o mais apropriado para uma melhor avalia√ß√£o e pondera√ß√Ķes.

[2] A frase, do livro O Leopardo (coincidentemente outro felino, mesmo que metafórico, em cena), é tão célebre que, talvez, seja mais famosa que a própria obra e seu autor, que morreu sem conhecer o sucesso que o seu livro faria por sua grande qualidade literária. Neste caso, fez-se uso da tradução de Maurício Santana Dias, na publicação da editora Companhia das Letras.

[3] FOBAR, Rachel. Centenas de zoológicos e aquários acusados de maus-tratos a animais. National Geographic, 15 out. 2019. Disponível em: https://www.nationalgeographicbrasil.com/animais/2019/10/zoologicos-aquarios-acusados-maus-tratos-animais-zoo-selfie-waza. Acesso em: 13 dez. 2021.

[4] Infelizmente n√£o houve a chance de vestir o equipamento de VR por conta da enorme fila de espera no dia da visita √† exposi√ß√£o FILE 2019. Mas j√° existiu a oportunidade de utilizar equipamento similar em jogos eletr√īnicos e o entusiasmo com a tecnologia se justifica totalmente, apesar dela ainda ser bastante restrita devido, principalmente, ao seu elevado custo para consumidores finais. De todo modo, trata-se de um servi√ßo que poderia ser disponibilizado e mantido por institui√ß√Ķes em parcerias com empresas de tecnologia.

[5] A autora Juliana Fausto, numa extensa e interessante nota de rodap√© de seu livro, A cosmopol√≠tica dos animais, indica o seguinte para esse termo, o pan√≥ptico, que elencado aqui pode parecer um tanto sem sentido: ‚ÄúBaratay e Hardouin-Fugier comentam que, por uma ‚Äėespecificidade intelectual francesa‚Äô, a quest√£o encontrou pouco eco no pa√≠s e que mesmo ‚Äėum Michel Foucault, fil√≥sofo das pris√Ķes, da cl√≠nica e da loucura, n√£o se interroga sobre o zool√≥gico‚Äô. Na verdade, embora n√£o participe da cr√≠tica aos zool√≥gicos, Foucault faz uma men√ß√£o, em Vigiar e punir, que, apesar de breve, √© poderosa, ao insinuar uma rela√ß√£o entre o pan√≥ptico e as cole√ß√Ķes reais de animais: ‚ÄėBentham n√£o diz se foi inspirado, em seu projeto, pela m√©nagerie [o equivalente que os gabinetes de curiosidades foram para os museus, as m√©nageries foram para os zool√≥gicos] que Le Vaux constru√≠ra em Versalhes, primeira m√©nagerie na qual os diferentes elementos n√£o s√£o, como era tradi√ß√£o, disseminados em um parque: no centro, um pavilh√£o octogonal que, no primeiro est√°gio, inclu√≠a apenas uma pe√ßa, o sal√£o do rei; todos os lados se abriam por grandes janelas sobre sete jaulas (o √ļltimo lado era reservado √† entrada) onde estavam presas diferentes esp√©cies de animais. Na √©poca de Bentham, essa m√©nagerie n√£o existia mais. Mas encontramos no programa do Pan√≥ptico o cuidado an√°logo da observa√ß√£o individualizante, da caracteriza√ß√£o e da classifica√ß√£o, do ordenamento anal√≠tico do espa√ßo. O Pan√≥ptico √© uma m√©nagerie real; o animal √© substitu√≠do pelo homem, o agrupamento espec√≠fico pela distribui√ß√£o individual e o rei pelo maquin√°rio de um poder furtivo‚Äô (Foucault, 1975, p. 204-205).‚ÄĚ

[6] VEIGA, Edison. Museus de SP batem recorde em 2014. O Estado de São Paulo, São Paulo. Disponível em: https://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/edison-veiga/museus-de-sp-batem-recorde-em-2014/. Acesso em: 13 dez. 2021.

[7] A autora Sandra Sofia Machado Koutsoukos trata amplamente do assunto na obra Zoológicos humanos: gente em exibição na era do imperialismo, publicado em 2020 pela editora Unicamp.

[8] ROSA, Luciana. Animais famintos e mortos: o tr√°gico fim do ‚Äúzoo dos tigres‚ÄĚ na Argentina. Nossa UOL. 24 set. 2020. Dispon√≠vel em: https://www.uol.com.br/nossa/noticias/redacao/2020/09/24/zoologico-que-oferecia-contato-direto-com-animais-fecha-portas-na-argentina.htm. Acesso em: 13 dez. 2021.

[9] Zoo Luján. TripAdvisor. Disponível em: https://www.tripadvisor.com.br/Attraction_Review-g1202607-d1635158-Reviews-ZOO_Lujan-Lujan_Province_of_Buenos_Aires_Central_Argentina.html. Acesso em: 14 dez. 2021.

[10] O Zoológico de Luján é a 15ª atividade mais interessante para se fazer em Buenos Aires segundo o site TripAdvisor. Atrás apenas do aquário Mundo Marino e do zoológico Temaiken Biopark, nas 7ª e 13ª posição, respectivamente. Disponível em: https://www.tripadvisor.com.br/Attractions-g312743-Activities-a_allAttractions.true-Province_of_Buenos_Aires_Central_Argentina.html. Acesso em: 16 dez. 2021.


Referência bibliográfica

ALCOCK, John. Comportamento animal: uma abordagem evolutiva. S√£o Paulo: Artmed, 2010.

BRITTO, Clovis Carvalho. ‚ÄúAs palavras continuam com os seus deslimites‚ÄĚ: reflex√Ķes sobre Sociomuseologia e linguagem de especialidade. In: PRIMO, Judite; MOUTINHO, M√°rio C. (ed.). Teoria e pr√°tica da Sociomuseologia. Lisboa: Edi√ß√Ķes Universit√°rias Lus√≥fonas, 2021. E-book.

CORR√äA, S√≠lvia; LEITE, Fabiane. Controle no z√īo de SP motivou matan√ßa de animais, cr√™ pol√≠cia. Folha de S√£o Paulo, S√£o Paulo, 23 abr. 2004. Dispon√≠vel em: https://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u93243.shtml. Acesso em 13 dez. 2021.

FAUSTO, Juliana. A cosmopolítica dos animais. São Paulo, SP: N-1, 2020.

Interactive Media Foundation; Filmtank. Inside Tumucumaque, 2019. Disponível em: https://file.org.br/file_sp_2019/interactive-media-foundation-filmtank-co-created-with-artificial-rome-2/?lang=pt. Acesso em 13 dez. 2021.

FOBAR, Rachel. Centenas de zoológicos e aquários acusados de maus-tratos a animais. National Geographic, 15 out. 2019. Disponível em: https://www.nationalgeographicbrasil.com/animais/2019/10/zoologicos-aquarios-acusados-maus-tratos-animais-zoo-selfie-waza. Acesso em: 13 dez. 2021.

FUNDA√á√ÉO JOS√Č SARAMAGO. Carta Universal de Deveres e Obriga√ß√Ķes dos Seres Humanos, 2017. Dispon√≠vel em: https://www.josesaramago.org/carta-universal-dos-deveres-e-obrigacoes-dos-seres-humanos/. Acesso em: 15 dez. 2021.

MALAMUDY, Randy. Animais no cinema: a ética do olhar humano. In: MACIEL, Maria Esther (Org.).Pensar/escrever o animal: ensaios de zoopoética e biopolítica. Florianópolis, SC: Editora UFSC, 2011.

VENTURINI, Rachel de Castro. O Zool√≥gico entendido como paisagem contempor√Ęnea. 2013. Disserta√ß√£o (Mestrado) – Universidade Estadual de Campinas, Campinas, SP, 2013.

VISITE. Bio Parque do Rio de Janeiro. Disponível em: https://bioparquedorio.com.br/visite. Acesso em: 13 dez.2021.

ROSA, Luciana. Animais famintos e mortos: o tr√°gico fim do ‚Äúzoo dos tigres‚ÄĚ na Argentina. Nossa UOL. 24 set. 2020. Dispon√≠vel em: https://www.uol.com.br/nossa/noticias/redacao/2020/09/24/zoologico-que-oferecia-contato-direto-com-animais-fecha-portas-na-argentina.htm. Acesso em: 13 dez. 2021. WAZA (2005): Construindo um Futuro para a Vida Selvagem ‚Äď Estrat√©gia Mundial dos Zoos e Aqu√°rios para a Conserva√ß√£o. Dispon√≠vel em: https://butantan.gov.br/assets/pdf/WZACS_Portuguese.pdf. Acesso em: 13 dez. 2021.