ūüéěÔłŹ CINEMA: Free Willy (1993)

Cena do filme Free Willy com o garoto Jesse acariciando a língua da orca Willy
Cena do filme Free Willy (1993), de Simon Wincer.

Ao terminar de ver o filme The mustang (2019), de  Laure de Clermont-Tonnerre, lembrei-me imediatamente do filme Free Willy (1993), de Simon Wincer, que vi na √©poca de seu lan√ßamento, ou seja, na minha adolesc√™ncia. E n√£o foi √† toa: os dois filmes se parecem demais. √Č como se fosse uma nova edi√ß√£o do filme dos anos noventa trocando s√≥ o recheio da hist√≥ria! Em ambos h√° o desajuste social nos protagonistas (um jovem √≥rf√£o delinquindo pela cidade ‚Äúcondenado‚ÄĚ a viver com pais adotivos / um adulto condenado √† pris√£o por assassinato), h√° animais selvagens sendo capturados e aprisionados (orcas / cavalos mustangue), h√° pessoas apoiando os protagonistas (fam√≠lia, assistentes sociais, ind√≠genas, homens negros) a se tornarem melhores. H√° tamb√©m, por vias tortas, at√© liberta√ß√£o animal.

Trailer do filme Free Willy

√Č relativamente normal que o cinema, seja o do circuito comercial ou aquele mais autoral, use estruturas parecidas para conduzir suas hist√≥rias e o que vemos se parece mais do mesmo: sendo a jornada do her√≥i a receita mais conhecida, talvez.

Pois bem, os animais nos dois filmes, tanto a orca quanto o cavalo, s√£o selvagens e foram tirados, √† for√ßa e com brutalidade, dos seus habitats. Ambos sofrem pela condi√ß√£o de aprisionados e se rendem, na fic√ß√£o evidentemente, tamb√©m ao drama pessoal dos protagonistas para ‚Äúajud√°-los‚ÄĚ a superarem os dilemas que enfrentam como se fossem uma esp√©cie de amigos que nos inspiram a sermos melhores. J√° o dilema dos animais, bem, quem se importa, n√£o √© mesmo? Talvez eles consigam algo no final (√†s vezes a liberdade ou √†s vezes a morte para nos salvar do perigo)‚Ķ Ambos os protagonistas parecem se importar um pouco com seus ‚Äúamigos‚ÄĚ n√£o humanos, mas este n√£o √© o ponto principal de suas jornadas pessoais nos filmes que, por ventura, se cruzaram com as vidas de outras esp√©cies.

Jesse √© um jovem delinquente, abandonado pelos pais, que encontrar√° algo em comum numa orca aprisionada em um parque aqu√°tico. Humano e animal se encontram e se “identificam”.

Porém, em Free Willy (1993), de Simon Wincer, as coisas ganharam uma dimensão estrondosa, principalmente, fora das telas. Falarei disso mais adiante.

OS ANIMAIS ESTÃO NO FILME, MAS GERALMENTE NÃO FAZEM PARTE DO CAST

Na plataforma de dados que cont√©m informa√ß√Ķes sobre praticamente todos os filmes j√° feitos, o IMDB, e da qual lan√ßo m√£o para me referir aos filmes com o m√°ximo de precis√£o poss√≠vel, n√£o h√° muito sobre os animais que participam das diversas produ√ß√Ķes cinematogr√°ficas na se√ß√£o cast (a listagem com todos os atores presentes no filme, independente da import√Ęncia do papel que possuem; h√° at√© diretores de cast na produ√ß√£o cinematogr√°fica tamanha a import√Ęncia de se escolher os atores certos para produ√ß√Ķes cinematogr√°ficas de todo tipo or√ßamento). √Č dif√≠cil, portanto, ter informa√ß√Ķes acuradas sobre eles sendo necess√°rio busc√°-las em entrevistas de todo tipo de ve√≠culo que trata do assunto cinema: de sites s√©rios (a grande imprensa), at√© a alguns que trabalham mais na √°rea de fofocas de estrelas de cinema (TMZ, por exemplo).

Os animais não humanos, mesmo tendo um papel extremamente relevante nas histórias que os filmes contam, não são reconhecidos como atores de fato Рe ainda bem, porque eles não são mesmo. Até aí nenhuma novidade, pois os animais são apenas um artifício dentre vários para preencher histórias ficcionais criadas por humanos para humanos se entreterem. Se algo assim ocorre na literatura ou em outras artes nas quais não há a interpretação ou atuação, isto evidentemente não é um problema (falar de um cavalo ou mesmo uma baleia num livro no gênero romance, por exemplo). Mas os filmes The mustang, Megan Leave e Les crin blanc, para citar apenas alguns que abordei até aqui na seção Críticas, seriam totalmente inviáveis ou bem diferentes sem a presença dos animais neles.

H√° filmes que criam animais com efeitos especiais (e isto √© o ideal para qualquer produ√ß√£o criativa, pois n√£o envolve animais vivos ou mortos) ou esses animais s√£o totalmente recriados em computador para apenas algumas cenas em que nenhum treinamento os habilitaria para fazer o que espera o diretor de um ‚Äúator‚ÄĚ n√£o humano que n√£o atua. Os animais, como sempre frisamos aqui no Saber Animal, n√£o s√£o oper√°rios de qualquer atividade que lhes damos. Eles, invariavelmente, est√£o em determinados pap√©is contra suas vontades naturais. E mesmo quando parecem estar agindo espontaneamente, na verdade, eles est√£o sendo ludibriados de alguma forma ao serem atra√≠dos com comida ou mesmo afeto interesseiro da nossa parte. √Č pelo efeito e ardil do adestramento (sempre penoso para o animal n√£o humano) que vemos outras esp√©cies em cena na condi√ß√£o de ‚Äúatores‚ÄĚ e n√£o objetos de observa√ß√£o como em document√°rios que apenas os veem a uma dist√Ęncia que n√£o os perturbe ou atrapalhe suas vidas.

Em duas cenas diferentes, temos a visão de Jesse no observatório do aquário e a visão de Willy fazendo seu primeiro contato. Ambos enfrentam dilemas parecidos: estão longe de suas famílias, possuem temperamento difícil e querem encontrar a liberdade.

√Č, como disse Laure de Clermont-Tonnerre, diretora do filme The mustang, amedrontando um cavalo por atr√°s da cena para que ele reagisse de um determinado jeito que vemos no filme. O custo da ilus√£o que o cinema nos proporciona, para o animal, √© extremamente sofr√≠vel e num n√≠vel em que n√£o podemos imaginar com precis√£o. Se em diversas vezes gravar uma cena √© um trauma para um ator humano, quem dir√° para um n√£o humano, que n√£o v√™ significado naqueles arranjos feitos para vender um produto e lucrar num ciclo sem fim? A morte de um dubl√™ ou o comportamento inadequado de um ator, ou diretor, j√° s√£o suficientes para parar a produ√ß√£o de um filme por causar verdadeira como√ß√£o em toda a equipe (e temor dos produtores com os arranjos que viabilizam o filme serem financeiramente atingidos por um processo judicial), mas a morte de um animal tende a ser irrelevante, pois ele √© facilmente substitu√≠vel.

O filme Babe, o porquinho atrapalhado (1995), de Chris Noonan, por exemplo, usou dezenas de porquinhos em cena, porque conforme as grava√ß√Ķes seguiam ao longo do tempo, o porquinho ‚Äúator‚ÄĚ crescia e j√° n√£o servia para o papel de porco jovem aspirante a c√£o de pastoreio. Qual era o destino dos porquinhos que eram substitu√≠dos? Pode ser que alguns tenham virado pet de algu√©m, como foi o caso de um dos cavalos usado em cena que acabou sendo comprado pela diretora de The mustang, mas pode ser que uma parte dos porquinhos tenham ido simplesmente parar numa panela (e at√© sido comido pela produ√ß√£o do filme!) como √© o destino da quase totalidade dos porcos vivos neste planeta.

E voc√™ pode imaginar um ator ou um dubl√™ indo parar na ceia de algum antrop√≥fago e todo mundo ver isso com extrema naturalidade? Ou seria conceb√≠vel que para gravar um filme como O senhor das moscas (1963), de Peter Brook, crian√ßas fossem realmente sequestradas de seus pais e deixadas numa ilha para atuarem de modo selvagem como se fossem ‚Äúcrian√ßas selvagens‚ÄĚ? Acho que n√£o‚Ķ Mas √© exatamente isso o que fazem com animais n√£o humanos para a grava√ß√£o de toda sorte de filmes!

No caso de Free Willy, Keiko at√© aparece na plataforma IMDB, mas numa parte indicada como “resto do cast”, junto com outros atores que s√£o praticamente figurantes…

UMA BIZARRA LIBERTAÇÃO ANIMAL

A cena em que Willy est√° sendo levada do parque aqu√°tico para uma √°rea em que poder√° finalmente voltar para a sua fam√≠lia √© um pren√ļncio do que ela passaria depois fora das telas.

A orca que vemos na tela é um animal de verdade e não uma máquina ou animação que a simule. E ela tem uma história digna ela própria de um filme, pois seu percurso e seu desfecho, trágicos do início ao fim, extrapolam o sofrimento animal das mais variadas formas.

A orca, que ‚Äúintegrou o cast‚ÄĚ do filme, pertencia inicialmente a um parque aqu√°tico no Canad√° e, depois, foi vendida a um outro parque, desta vez localizado no M√©xico: ela foi ca√ßada e capturada, tirada de sua fam√≠lia na Isl√Ęndia e levada, de avi√£o, at√© os parques para servir de divers√£o √†s pessoas nos anos 1970 (em especial como atra√ß√£o para crian√ßas!). Os produtores de Free Willy buscavam um animal d√≥cil o bastante para atuar com os atores (sendo destinada a uma crian√ßa o papel principal de atuar com uma orca!) e encontraram Keiko, que no filme foi rebatizada para Willy, como sendo o animal perfeito para a empreitada. Depois do filme, ou melhor, dos filmes, sim, pois existem mais duas continua√ß√Ķes com a orca, um em 1995 e outro em 1997, que continuam a hist√≥ria e aproveitaram o sucesso do primeiro com basicamente o mesmo enredo, mas exibindo o amadurecimento do protagonista que sempre est√° vigilante para proteger sua “amiga” ao mesmo tempo em que ele pr√≥prio deixa de ser uma crian√ßa. Houve uma enorme press√£o mundial para libertar o animal de verdade e n√£o apenas na fic√ß√£o.

Gastaram 20 milh√Ķes de d√≥lares para concretizar a epopeia: a orca foi transportada primeiro para Oregon, nos EUA, e depois at√© a Noruega. Mas ela simplesmente n√£o conseguia voltar √† natureza selvagem, pois as orcas vivem em sociedade desde o nascimento e ela era sempre uma estranha para os grupos j√° formados com os quais pesquisadores tentavam integr√°-la‚Ķ Keiko acabava voltando e buscando o conv√≠vio humano ao qual estava t√£o acostumada ap√≥s tanto tempo vivendo num parque aqu√°tico de explora√ß√£o animal, praticamente o √ļnico que ela conheceu durante a vida.

Não demorou para que morresse em 2003. Se tivesse sido deixada em paz em seu habitat, a orca poderia ter vivido uns belos 100 anos, mas ela não chegou nem aos 30…

BLACKFISH MUDOU TUDO

Aqui vale lembrar que o document√°rio Blackfish (2013), de Gabriela Cowperthwaite, √© revelador e exp√Ķe a crueldade dos parques aqu√°ticos no mundo todo. Tanto que me coube rev√™-lo para poder escrever esta cr√≠tica e melhor me situar quanto aos horrores praticados por n√≥s, humanos, com estes animais marinhos. No document√°rio de Gabriela, que tamb√©m dirigiu o filme Megan Leavey, (2017), temos diversas entrevistas com treinadores de orcas atordoados com a rotina dos parques que os levava, ainda muito jovens (parecido com o protagonista de Free Willy) e com grande entusiasmo, a um grande √™xtase ao serem colocados em constante perigo ao nadarem com animais confinados h√° d√©cadas, que definhavam e acumulavam problemas por viverem fora de seu habitat. O comportamento das orcas, aparentemente controlado com recompensas (peixes), n√£o era previs√≠vel o bastante e pessoas morreram ou se feriram gravemente em v√°rias ocasi√Ķes sendo muitas delas propositalmente mal explicadas pelos dirigentes dos parques, para que seus lucros n√£o fossem atingidos com a interrup√ß√£o, seja total ou parcial, das atividades que envolviam a intera√ß√£o dos tratadores em shows.

Jesse se prepara para atuar como treinador no parque aqu√°tico do filme Free Willy.

O document√°rio de Cowperthwaite se concentra no famoso parque SeaWorld, na orca Tilikum e na morte da experiente treinadora Dawn Brancheau. Tilikum, uma orca macho, foi capturada logo aos dois anos e nele vemos tamb√©m um percurso de grande sofrimento, pois ele al√©m de explorado para entretenimento e viver num espa√ßo ex√≠guo para sua esp√©cie, enfrentava agress√Ķes de outras orcas mantidas no parque e servia como macho reprodutor (seus filhotes, todos separados de suas m√£es, foram vendidos para muitos outros parques no mundo). Vale ressaltar que esses animais s√£o soci√°veis e formam seus la√ßos desde muito jovens com grupos consolidados. E n√£o s√£o assassinas como elas parecem ser no imagin√°rio de quem viu o filme Orca, a baleia-assassina (1977), de Michael Anderson. A inser√ß√£o artificial deles equivaleria a nossa pr√≥pria inadequa√ß√£o se, de repente, acord√°ssemos numa na√ß√£o estrangeira, com h√°bitos muito distintos dos nossos, com uma l√≠ngua incompreens√≠vel e por a√≠ vai. Nosso trauma, enquanto humanos, seria tremendo e, sem sombra de d√ļvidas, vale o mesmo para as orcas (e todos os outros animais, diga-se). Mistur√°-los resulta geralmente em viol√™ncia, pois se trata de autodefesa.

Tamb√©m houve uma tentativa de se libertar os animais do parque SeaWorld, que n√£o teve o mesmo efeito e apelo do filme Free Willy. Ali√°s, apesar do baque que o document√°rio representou ao parque √† √©poca de seu lan√ßamento e consequente repercuss√£o pelo mundo, suas atividades n√£o encerraram e eles seguem recebendo turistas do mundo todo at√© hoje e continuam com a explora√ß√£o animal. O que mudou √© que os treinadores n√£o podem mais nadar com as orcas e o parque ganhou ares ‚Äúeducacionais‚ÄĚ e ‚Äúpreservacionista‚ÄĚ. Puro marketing! Felizmente o p√ļblico diminuiu, mas n√£o o bastante a ponto do parque n√£o ter que fechar as portas. Campanhas para boicote, neste caso, s√£o fundamentais e quanto mais ativistas e pessoas envolvidas melhor.

A pequena v√≠deo-reportagem do The New York Times logo abaixo, em ingl√™s, faz todo o percurso de Keiko e vale muito ser vista. √Č algo que beira o surreal e o qual s√≥ me dei conta na pesquisa para escrever sobre o filme Free Willy.

FAZER ORCAS VOAREM √Č MAIS F√ĀCIL QUE TIRAR DOCE DE CRIAN√áA

Um outro document√°rio exibe essa mesma trajet√≥ria de Keiko, mas como uma forma de propaganda das a√ß√Ķes voltadas √† sua liberta√ß√£o. The Free Willy Story – Keiko’s Journey Home (1999), de Raymond Chavez, feito para o canal de TV Discovery Channel, transformou em um ato de puro amor a “liberta√ß√£o” de um animal que foi explorado praticamente a sua breve vida inteira.

Nele é possível ver a intrincada logística para tirar um animal aquático de grande porte do México, num parque aquático, até Oregon Coast Aquarium, nos EUA (Oregon), enquanto uma enorme piscina era construída para, segundo os envolvidos, melhor adequá-la em um aquário.

E, de fato, nota-se uma substancial melhora na sa√ļde do animal que servia apenas como atra√ß√£o no parque aqu√°tico, pois al√©m de mais espa√ßo (apenas uma pequena fra√ß√£o do que seria seu verdadeiro habitat com quil√īmetros de mar aberto), a orca teve tratamento veterin√°rio constante, alimenta√ß√£o balanceada, √°gua salgada na temperatura certa etc… Ou seja, vemos que muito dinheiro foi gasto para manter apenas uma das tantas orcas que foram tiradas do mar, ao longo da hist√≥ria dos parques aqu√°ticos (que depois passaram a usar apenas orcas nascidas em cativeiro num outro lado extremamente lucrativo desse neg√≥cio: a reprodu√ß√£o for√ßada para venda de filhotes), sem contar as que foram v√≠timas da ca√ßa (como conta toscamente a hist√≥ria do terceiro filme da franquia), para aplacar o apelo mundial por sua liberta√ß√£o.

Uma parte do document√°rio de Rymanond Chavez chama a aten√ß√£o para a import√Ęncia das crian√ßas nessa grande “aventura”. Apesar dos milh√Ķes envolvidos na super complexa opera√ß√£o pagos por uma entidade filantr√≥pica e pela pr√≥pria Warner Brothers, o est√ļdio dono do filme e dos seus direitos de uso, at√© dinheiro arrecadado de crian√ßas foi usado, sabe-se l√° como, nesse mega espet√°culo.

Um rol de “especialistas” desfila pelo filme indicando o passo a passo de cada parte do processo e um deles, um “especialista” em vocaliza√ß√£o de baleias, sempre se refere a orca Keiko como “baleia assassina”. Belo especialista que usa uma terminologia errada para se referir a um cet√°ceo da fam√≠lia dos golfinhos.

Temos apenas uma esp√©cie de continua√ß√£o, ruim, de um espet√°culo grotesco. Em nenhum momento o document√°rio destaca a milion√°ria cifra arrecadada enquanto Keiko serviu ao prop√≥sito dos produtores da franquia, que no document√°rio interpretam o papel de figuras benevolentes e solid√°rias com o apelo das criancinhas do mundo todo que choraram ao som de Michel Jackson e com a sa√ļde da orca que lhes rendeu muito dinheiro.

Free Willy (1993) arrecadou internacionalmente U$ 153.698.625; Free Willy 2: A Aventura Continua (1995) rendeu menos: U$ 30.077.111; e Free Willy 3: O Resgate (1997), para os padr√Ķes estadunidenses, foi um fiasco: U$ 3.446.539. Considerando apenas os tr√™s filmes, e sem contar outra parte da fortuna que se arrecada com licenciamento de marca, os est√ļdios Warner Brothers faturaram U$ 187.222.275… Grana suficiente para ajudar muitos outros animais pelo mundo – o que obviamente eles n√£o fizeram. E vale dizer novamente: apesar desse montante, eles ainda pegaram o dinheiro das criancinhas!

Tirar a mesada das crian√ßas, que realmente se importavam com a orca, foi uma das atividades dos respons√°veis pelo projeto de “salvar” Keiko depois de explor√°-la em tr√™s filmes. No gal√£o √© poss√≠vel ler algo como “dinheirinho para Keiko”.

Keiko seguiu aprisionada sendo explorada no aqu√°rio em Oregon, seu novo lar. Ela n√£o teve mais que fazer apresenta√ß√Ķes como no parque aqu√°tico, o que tamb√©m influenciou na melhora de sua sa√ļde dada a diminui√ß√£o do estresse que √© fazer coisas que totalmente n√£o s√£o naturais, mas o aqu√°rio tamb√©m se beneficiou da presen√ßa da c√©lebre orca em suas instala√ß√Ķes (que n√£o √© gratuito). Com certeza um dos maiores cases de sucesso do mundo marketing museal. Tamb√©m nada se diz sobre a cria de orcas em cativeiro. Ou seja, se um dia o famoso canal pago Discovery Channel posou de entretenimento voltado √† ci√™ncia e ao conhecimento, isso n√£o passou de uma grande balela.

√Č nesse aqu√°rio que vemos os “especialistas” ensinando Keiko a ser uma baleia, j√° que se tratava de um lar tempor√°rio e que depois seria utilizado para recep√ß√£o de animais resgatados…

A IND√öSTRIA DO CINEMA PRECISA MUDAR

Isto poderia ser apenas uma anedota bizarra na vast√≠ssima hist√≥ria do cinema (uma orca sendo libertada por conta de um evento midi√°tico) √©, na realidade, um cap√≠tulo inteiro de um dos seus lados mais perversos: o poder que o cinema exerce em nosso imagin√°rio √© tamanho que quando tamb√©m envolve animais n√£o humanos, que simplesmente n√£o entendem a incr√≠vel magia da express√£o ‚Äúluz, c√Ęmera, a√ß√£o‚ÄĚ, pode ser potencializado numa escala que foge a qualquer princ√≠pio de razoabilidade.

Voar com orcas por aí, como foi feito no descolamento de Keiko, parece tão irreal que só seria possível em um filme desses muito loucos dos anos oitenta ou noventa (ou numa animação fantasiosa), mas foi justamente o inverso que aconteceu com uma orca transformada em cativa de um parque para depois ser cativa da sua imagem imaginada em roteiros ardilosos. Sem falar que o ator mirim, Jason James Richter, ele próprio um vulnerável ali no meio daquilo tudo em 1993, quando tinha apenas 13 anos, foi exposto a essa situação grotesca de ter que interagir, ainda jovem e em formação do seu caráter e personalidade, com um animal privado de liberdade e do seu habitat.

(A ind√ļstria do cinema e do entretenimento em geral, e isso merece um texto √† parte, tamb√©m sempre foi muito voraz por atores mirins.)

Aparentemente, o adolescente tamb√©m n√£o teve escolha e fez as vontades dos pais que, claro, ganharam muito dinheiro com as habilidades do filho‚Ķ Os dois seres vulner√°veis (a orca e o jovem garoto), na trama ficcional, se reconhecem, mas, olhando de fora, vendo-os como parte de uma trama maior, podemos dizer que ambos foram v√≠timas de uma situa√ß√£o a qual, ainda hoje, j√° caminhando para a terceira d√©cada de um novo s√©culo, parece n√£o ter possibilitado que animais, especialmente os selvagens, devam ser protegidos e n√£o usados como fonte de divers√£o, seja em parques ou mesmo no cinema, que apesar de, talvez, menos relevante hoje em dia, ainda √© uma ind√ļstria poderosa e sua linguagem em transforma√ß√£o ou renova√ß√£o em plataformas de streaming, tentando saciar uma voracidade crescente por entretenimento, pode potencializar um antigo problema de compreens√£o que a nossa esp√©cie nutre mesmo antes dos primeiros passos dessa incr√≠vel arte.

O salto, que √© uma tosca anima√ß√£o, de Willy para sua liberdade √©, na verdade, um retorno ao cativeiro que ela viver√° nas duas continua√ß√Ķes seguintes em 1995 e 1997.

Quando Eadweard Muybridge, um pseudocientista, torturando animais para que eles pudessem se encaixar nos registros que ele pretendia fazer pela primeira vez na hist√≥ria humana com seu zoopraxisc√≥pio, j√° t√≠nhamos um importante sinal de que os animais n√£o passariam inc√≥lumes, infelizmente, pelo nosso infinito interesse e curiosidade saciadas numa sala escura. Tanto que ao fim do filme Free Willy a orca finalmente consegue a liberdade e a cena de sua fuga torna-se ic√īnica no ocidente para uma d√©cada, os anos 1990, ainda sem a internet, em que as m√≠dias mais influentes ainda eram o cinema, a televis√£o e o r√°dio com o consumo se dando de forma relativamente homog√™nea (todos viam e ouviam basicamente as mesmas coisas). Era quase como o cavalo de Muybridge redivivo numa orca que teve seu movimento imaginado de um salto, visto em c√Ęmera lenta e de v√°rios √Ęngulos diferentes gra√ßas aos truques que s√≥ os profissionais do cinema conseguem fazer.

Lo que tienen en com√ļn todos los espect√°culos que implican el amaestramiento del animal es la humillaci√≥n. Ning√ļn tigre saltar√≠a a trav√©s de un c√≠rculo de fuego si no lo hubieran obligado durante largas sesiones para que reprimiera sus instintos y obedeciera a un amo que a cambio le dar√° comida o un latigazo para anular su voluntad. Durante la doma en cautividad no siempre se golpea a los animales, y en Francia, por lo general, reciben una alimentaci√≥n correcta, pero las frustraciones y la obligaci√≥n de exhibirse en n√ļmeros que, a veces, los ridiculizan, son un ultraje a su dignidad. La doma de animales de circo y la cautividad son contrarias al respeto a la dignidad del animal. La doma es violencia tambi√©n por otro motivo: revela el deseo humano de apropiarse de la fuerza salvaje, reduciendo a la fiera a la esclavitud. Esta violencia es compartida por el espectador que acude a admirar la belleza apresada, la fuerza domada, el animal vencido por el humano que ha sabido dominarle. Ir al circo para ver espect√°culos con animales es consagrar la dominaci√≥n, hacer de ella un arte. Los animales, aunque se diga que ¬ętrabajan¬Ľ, est√°n ah√≠ para poner en evidencia el poder humano. El precio que pagan estos animales carism√°ticos es una vida de privaciones, de aburrimiento, a veces de golpes, y la sensaci√≥n constante de estar desnaturalizados, de deber su supervivencia y su comida a la voluntad de unos humanos que vulneran el derecho natural de todo ser sintiente: la libertad. [Manifiesto animalista, de Corine Pelluchon]

ANIMAIS IMAGINADOS (NO CATIVEIRO)

Da nossa parte, no Saber Animal, sempre desejamos ver os animais fora de cena ou, no m√°ximo, serem observados de muito longe. N√£o se trata de querer acabar com a gra√ßa e a magia do cinema, n√£o, na verdade, √© bem o contr√°rio: acreditamos no potencial criador das pessoas e na sua incr√≠vel capacidade de imagina√ß√£o. Tanto quem em diversos filmes, apesar de ser bem dif√≠cil notar, n√£o vemos animais de verdade e, sim, cria√ß√Ķes em computador. Hoje, mais do que nunca, temos a possibilidade de n√£o incluir animais em casts de qualquer tipo de filme. E isso, com certeza, tornaria os filmes ainda mais poderosos.

Cartazes dos filmes Free Willy (1993), Free Willy 2: A Aventura Continua (1995) e Free Willy 3: O Resgate (1997). A barbatana dorsal decaída, sinal de sua inadaptação ao cativeiro, quase não aparece nos dois primeiros cartazes. No primeiro filme, a personagem da tratadora trata do assunto de modo superficial.

Atualmente os filmes 1 e 2 dessa triste franquia seguem dispon√≠veis em plataformas de streaming. Tamb√©m n√£o √© dif√≠cil ach√°-los em DVDs por pre√ßo m√≥dico. E n√£o parece uma boa ideia utiliz√°-lo como entretenimento para crian√ßas sem as devidas explica√ß√Ķes sobre o qu√£o errado √© aprisionar orcas (e qualquer outro animal) para que elas nos entretenham (algo explicitado em document√°rios que n√£o s√£o voltados para crian√ßas, como √© o caso de Blackfish). Porque as mensagens que esses filmes passam s√£o, no m√≠nimo, amb√≠guas: o protagonista (Jesse, interpretado pelo ator Jason James Richter) sempre segue tendo uma rela√ß√£o especial com uma das orcas (Willy, “interpretada” por Keiko contra sua vontade…), montando sobre ela, fazendo truques no mar nos filmes 2 e 3… Parece que para a orca √© totalmente poss√≠vel viver em dois mundos: no nosso e no dela. Como se ela fosse um ser fant√°stico de uma f√°bula qualquer. N√£o √© assim e n√£o seria necess√°ria a fracassada tentativa de devolv√™-la √† vida selvagem, no mundo real, para que isso fosse constatado agora.

Os tr√™s filmes carregam, ent√£o, os mesmos problemas: formam no nosso imagin√°rio (mesmo em adultos) ideias do que poderia ser uma harmoniosa intera√ß√£o com animais selvagens: no primeiro filme o garoto e a orca se encontram; no segundo filme eles se reencontram e ele a salva e √© salvo por ela; e, finalmente, no terceiro filme eles se reencontram novamente, mas dessa vez numa miss√£o cient√≠fica em que ela √© salva por um garotinho com uma espetacular maturidade para a sua idade (fazendo pondera√ß√Ķes √©ticas que nem os adultos parecem ser capazes de fazer)… Nos dizer que devemos libert√°-las, n√£o voltar a aprision√°-las e apenas estud√°-las e n√£o ca√ß√°-las para virarem comida (algo tratado como ilegal), mas envolvendo sempre as t√©cnicas de adestramento utilizadas no primeiro filme sustentam o equ√≠voco de origem.

Colocar a orca Willy como um animal que compreende os nossos dilemas tornando-as até mais humana do que nós humanos, como diz um dos personagens no terceiro filme, quando há uma discussão sobre como ela foi benevolente com um caçador salvando-o ao invés de matá-lo, é ainda mantê-las em cativeiro para o nosso deleite seja no cinema, seja fora dele.

ūüéěÔłŹ CINEMA: Free Willy (1993)
Relação entre humano e animal
2
Libertação animal
2
Personagem infantil
2
Quest√Ķes sociais de fundo
2
Pontos positivos
Sua existência levanta um debate
As pessoas se comoveram com a situação da orca fora das telas
Fez sucesso nos anos noventa
Pontos negativos
Trata dilemas humanos e animais como uma coisa só
Destinado a um p√ļblico infantil
A orca é explorada em três filmes da franquia
2