ūüéěÔłŹ Cinema: C√£es do Espa√ßo (2019)

Cena do filme Space Dog: cachorro vagando pelas ruas de Moscou passando por uma poça d'água
Cena do filme Cães do Espaço

Foi num fim de tarde apressado de outubro de 2019, antes da pandemia de covid-19 que assola todo o globo terrestre, que conseguimos (eu e Vanice Cestari) assistir a uma sessão do documentário Cães do Espaço (2019), de Elsa Kremser e Levin Peter, na 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Se àquela época não eram necessárias máscaras e nem distanciamento social, hoje uma simples ida ao cinema ainda é impossível aqui no Brasil, porque a despeito das promessas de um futuro melhor que a corrida espacial parecia nos indicar nos anos 60, estamos no início do século XXI um tanto presos ou amedrontados com a possibilidade de contaminação por uma doença que age ainda de maneira não muito previsível.

Trailer do filme Cães do Espaço

E me refiro a sess√£o de cinema n√£o s√≥ por saudosismo, mas mais para falar um pouco do p√ļblico que l√° estava naquele exato dia (31/10/2019, √†s 19h10). Todos desconhecidos nossos e dos quais n√£o t√≠nhamos muita no√ß√£o, se eram homens ou mulheres, jovens ou velhos, por ser, obviamente, uma sala escura, v√≠amos apenas os vultos. Ap√≥s determinadas cenas do document√°rio, algumas pessoas se levantaram e sa√≠ram da sala. Muito provavelmente n√£o suportaram o que viram: c√£es que seriam enviados ao espa√ßo pelos sovi√©ticos na d√©cada de 50 eram submetidos a sofr√≠veis procedimentos que ligavam aos seus pequenos corpos em v√°lvulas, sensores, cabos, fios e a um duro adestramento. As dimens√Ķes do habit√°culo que eles iriam ocupar na c√°psula que os enviaria ao Espa√ßo era diminuto e eles precisavam de intenso condicionamento para caberem e ficarem quietos nelas.

√Č assim que o filme avan√ßa, misturando cenas de arquivo com cenas atuais das ruas de Moscou, depois de uma bela introdu√ß√£o que reproduzo abaixo. A voz em off do ator Aleksey Serebryakov, no idioma russo, o idioma que o primeiro animal no espa√ßo ouviu durante toda sua breve vida, nos conduz a uma extraordin√°ria experi√™ncia f√≠lmica e a uma jornada verdadeiramente filos√≥fica.

“Numa √≥rbita distante do planeta Terra houve uma cadela que flutuava morta numa c√°psula espacial. Chamaram-lhe Laika. Era uma cadela vadia que vivera em Moscou. A Laika foi o primeiro ser vivo a ser enviado ao espa√ßo. Mas passando pouco tempo jazia na c√°psula. Durante meses a fio flutuou inanimada como os destro√ßos c√≥smicos na imensa escurid√£o. Por√©m, parecia que a Terra se recusava entregar a cadela ao infinito cosmos. Com toda a sua for√ßa, ia puxando cada vez mais a cadela para si. Contudo, mal a c√°psula tocou na atmosfera foi atingida por tamanho calor que o corpo da Laika ardeu. E nesse momento, a cadela que outrora vagueara nas ruas de Moscou tornou-se um fantasma. Diz uma lenda que o fantasma da Laika caiu sobre a Terra como um cometa e desde ent√£o, vagueia nas ruas de Moscou.”

Definitivamente uma das aberturas mais impressionantes que j√° vi quando combinadas as imagens com os efeitos sonoros numa tela grande. Nos colocar como se n√≥s estiv√©ssemos a fazer o percurso de Laika at√© sermos novamente agarrados pela for√ßa gravitacional da Terra foi incr√≠vel, algo que talvez apenas o cinema consiga fazer. E ficou, de fato, parecido com a realidade: depois de cinco a sete horas, Laika n√£o suportou as altas temperaturas e morreu de modo extremamente sofr√≠vel. N√£o houve prote√ß√£o t√©rmica necess√°ria para ela aguentar mais do que algumas horas, pois a ideia era que ela morresse ‚Äútranquilamente‚ÄĚ com o esgotamento do oxig√™nio na c√°psula. Na reentrada, ap√≥s cinco meses orbitando a Terra, dando 2.570 voltas, a c√°psula cruzou os c√©us do mar Atl√Ęntico e desintegrou-se totalmente sobre a floresta Amaz√īnica brasileira, j√° n√£o restando mais nada para atingir o solo, conforme indica o autor Kurt Caswell, no seu livro Laika‚Äôs Window: The Legacy of a Soviet Space Dog.

Mas antes de prosseguirmos vale uma ressalva. √Č preciso tomar cuidado em n√£o confundir o document√°rio C√£es do Espa√ßo com a anima√ß√£o russa Belka i Strelka. Zvyozdnye sobaki (2010), de Inna Evlannikova, Svyatoslav Ushakov, ou Space dogs em ingl√™s, ou ainda C√£estronautas na vers√£o brasileira‚Ķ A anima√ß√£o, voltada para crian√ßas, √© uma esp√©cie de propaganda dos feitos da ent√£o Uni√£o Sovi√©tica, mas bem ao estilo dos estadunidenses de contar hist√≥rias, diga-se, com a ida real de dois c√£es batizados de Belka e Strelka que orbitaram a Terra e voltaram vivos na Sputnik 5. Tanto que ao final, na subida dos cr√©ditos da anima√ß√£o, s√£o exibidas imagens reais de arquivo daquele per√≠odo. Evidentemente, para o p√ļblico familiar, nenhuma quest√£o √©tica √© trazida √† baila quanto ao uso de animais nesses experimentos. Apenas dilemas morais, muitos deles vinculados ao amor √† p√°tria e ao militarismo, s√£o elencados. Aliar a anima√ß√£o ficcional com as imagens reais de arquivo d√£o a impress√£o, pelo menos para o p√ļblico jovem e, infelizmente, para parte do p√ļblico jovem adulto, que tudo correu bem no ‚Äútreinamento‚ÄĚ que levava os c√£es de rua ao espa√ßo, al√©m de coelhos, camundongos, p√°ssaros e ratos que tamb√©m foram a bordo da Sputnik 5 e dos quais ningu√©m parece se importar tanto como no caso dos cachorros. Na anima√ß√£o, Belka e Strelka s√£o c√£es em um circo e parecem trabalhar nele de bom grado‚Ķ √Č uma f√°bula para crian√ßas.

√Č curioso, ent√£o, que os diretores do document√°rio tenham optado por este nome, em ingl√™s mesmo, para ser o nome original do filme. Talvez tenha sido uma pequena provoca√ß√£o, vai saber. Afinal, eles fizeram uma f√°bula para adultos.

PRIMEIRO ELES, DEPOIS N√ďS

A ideia de mandar um c√£o ao Espa√ßo se deu justamente para abrir caminho para a ida do homem ao Espa√ßo: os sovi√©ticos, competindo arduamente com os Estados Unidos da Am√©rica durante a Guerra Fria, que tamb√©m era uma guerra ideol√≥gica (comunistas contra capitalistas), precisariam verificar se era poss√≠vel sobreviver √†s duras condi√ß√Ķes fora do nosso Planeta. Antes de mais nada, os sovi√©ticos conseguiram enviar o Sputnik 1, o primeiro sat√©lite artificial para orbitar a Terra em 1957; depois enviaram o primeiro ser vivo, a Laika, no mesmo ano; e, finalmente, o primeiro homem foi ao Espa√ßo em 1961, Iuri Gagarin, a bordo da Vostok 1. Laika foi a prova viva, ou melhor, morta, de que, sim, era poss√≠vel sobreviver no Espa√ßo. Outros tantos animais foram enviados para testar cada vez mais os limites dos organismos vivos fora da nossa atmosfera.

O ser humano, h√° mil√™nios, √© capaz de grandes feitos, apesar de sua absoluta fragilidade corporal e sua organiza√ß√£o social ‚Äúcivilizada‚ÄĚ quase sempre tendendo ao desastre. N√£o temos nada natural em n√≥s mesmos que nos permita viver fora da Terra – e nem mesmo em certos lugares in√≥spitos do nosso pr√≥prio Planeta. Precisamos de roupas especiais, prote√ß√£o contra a radia√ß√£o solar, m√°quinas, foguetes e toda uma sorte de artif√≠cios para apenas orbitar a Terra, quem dir√° ir √† Lua, feito j√° atingido em 1969 pelos estadunidenses com a Apollo 11 e seus tr√™s astronautas (Neil Armstrong, Michael Collins e Buzz Aldrin), ou, quem sabe agora, chegar at√© Marte n√£o apenas com sondas e rob√īs, mas para coloniz√°-lo.

Durante o document√°rio, al√©m de um grupo de c√£es que os diretores e equipe seguem continuamente, tamb√©m vemos um outro animal, um chimpanz√© sendo preparado para ‚Äúanimar uma festa‚ÄĚ. Ele, por algumas horas, ser√° uma fonte de divers√£o para pessoas que pagaram para v√™-lo fazer truques aos quais chamamos de macaquices – que s√£o justamente coisas que os primatas naturalmente n√£o fariam. A ida do animal at√© um apartamento em Moscou, acompanhando de fora da edifica√ß√£o pelo cinegrafista, alude a um foguete indo ao Espa√ßo, pois ouvimos apenas o som do elevador saindo do t√©rreo e chegando num andar alto com a voz em off do narrador oculto‚Ķ A met√°fora √© perfeita! Os estadunidenses insistiram, no seu programa espacial, em enviar chimpanz√©s ao Espa√ßo, mas eles simplesmente n√£o se adaptavam √†s dimens√Ķes ex√≠guas das c√°psulas e a todo o estresse envolvido na opera√ß√£o de prepara√ß√£o/treinamento e de decolagem. Dos 15 chimpanz√©s usados no programa espacial dos norte-americanos, apenas 7 voltaram vivos…

Para o animal, ter sido tirado de seu habitat, provavelmente ainda filhote, para ir parar num apartamento em Moscou cercado de pessoas equivaleria a mandar um ser humano para um outro planeta e se deparar com uma festa alienígena em andamento. Qual a razão disso?

Chimpanzé levado para festas em Moscou no documentário Cães do Espaço
Chimpanzé levado para festas em Moscou no documentário Cães do Espaço
Edificação serve como metáfora para lançamento de macacos ao Espaço no documentário Cães do Espaço

Tentar enviar um primata ao Espa√ßo foi uma ideia louca que apenas ‚Äúcientistas‚ÄĚ muito perversos poderiam conceber, assim como a de enviar qualquer outro animal (coelhos, ratos, p√°ssaros etc). O que, por exemplo, aquele chimpanz√© do filme pensa quando anda de carro e v√™ as luzes da cidade, veste roupas e √© pego no colo para fotos? O que n√≥s pensamos disso na condi√ß√£o de audi√™ncia? Quando os documentaristas nos colocam no ponto de vista de um observador externo ao daquelas pessoas envolvidas nas situa√ß√Ķes registradas tomamos consci√™ncia do que fazemos e permitimos que seja feito √†s outras esp√©cies? Conseguimos fazer o paralelo que o sofrimento que o animal sente ao fazer parte de um programa espacial ou para nos entreter √© da mesma ordem do absurdo? Especialmente se vermos os programas espaciais tamb√©m como forma de entretenimento.

Os c√£es de rua, vagando em dupla ou matilha pela cidade russa dos dias de hoje, em busca de comida, √°gua, reprodu√ß√£o e algum conforto √© tamb√©m uma met√°fora para explora√ß√£o espacial na qual gastamos tanta energia e recursos. A curiosidade que move os c√£es se parece um pouco com a nossa se repararmos bem. Se c√£es pegam coisas que acham e levam para perto de si, em nossas explora√ß√Ķes espaciais, a primeira coisa que queremos fazer √© trazer amostras de todo tipo para an√°lises. Mil√™nios se passam e seguimos como nossos ancestrais coletores, mas talvez diferentemente deles, ficamos sem saber o que fazer ante o vazio existencial no qual nos metemos tentando explorar a famigerada ‚Äúfronteira final‚ÄĚ (express√£o que podemos ouvir em todo in√≠cio de um epis√≥dio de Star Trek dos anos 60, que tamb√©m √© uma alus√£o para a pr√≥pria expans√£o territorial na forma√ß√£o dos EUA), o espa√ßo, mesmo com tanto o que ver e fazer por aqui na Terra.

Como há milhares de anos, o homem coletor (no caso vasculhando lixeiras de Moscou) e o cão seguem juntos em cena de Cães do Espaço

Colocar sat√©lites na √≥rbita do Planeta se mostrou crucial para o dom√≠nio militar, para as comunica√ß√Ķes, para o transporte e monitoramento de vastas √°reas, para o controle social e, claro, para o mercado financeiro. Creio que o sat√©lite, a despeito de tudo que est√° aqui na Terra, √© uma inven√ß√£o chave, quando combinada com a teoria da informa√ß√£o de codifica√ß√£o, de Claude Shannon, para a revolu√ß√£o da informa√ß√£o que se deu – e se d√° – depois da revolu√ß√£o industrial. Os sat√©lites artificiais j√° s√£o eles pr√≥prios um grande feito, mas isso n√£o bastou e colocar o homem no Espa√ßo, outra ideia louca que atravessa diversas civiliza√ß√Ķes ao longo do tempo, quando colocada em pr√°tica deixando o reino da imagina√ß√£o, do desejo e das aspira√ß√Ķes, trazem implic√Ęncias sobre as quais perdemos o controle e n√£o podemos prever os desdobramentos apesar dos alegados ganhos que essas investidas trazem. Gra√ßas a essa fortuna incalcul√°vel gasta nesses projetos que envolvem seres vivos e todas as vidas perdidas (de humanos e de pessoas n√£o humanas), temos o famigerado travesseiro da NASA. Legal, n√£o?

√Č, ent√£o, cada vez mais prov√°vel, tendo em vista esse hist√≥rico de uso que os animais tiveram na corrida espacial do s√©culo XX, que eles continuar√£o sendo usados em experimentos para atender as ambi√ß√Ķes de bilion√°rios como Elon Musk em colonizar Marte por interm√©dio de sua empresa, a SpaceX. O empres√°rio j√° vem testando e investindo na explora√ß√£o animal com sua outra empresa, a Neuralink. N√£o √© de todo improv√°vel que os primeiros seres vivos a serem enviados a outro planeta sejam novamente pessoas n√£o humanas, mas desta vez com implantes cerebrais que possam receber comandos aqui da Terra ou que se organizem socialmente (sim, pois animais s√£o seres soci√°veis como n√≥s) atrav√©s de alguma intelig√™ncia artificial os controlando e indicando o que eles devem fazer primeiro.

O que pode parecer um pesadelo bizarro imaginado numa fic√ß√£o barata com certeza habita a mente e o cora√ß√£o de muitos ‚Äúcientistas‚ÄĚ ao redor do mundo, pois eles tamb√©m anseiam por prest√≠gio, dinheiro e poder sem limites. Tal evento seria um espet√°culo aqui na Terra, bem ao estilo da s√©rie Black mirror (2011), de Charlie Brooker.

Elon Musk, sempre ele, est√° construindo tamb√©m uma incr√≠vel rede de sat√©lites pelo mundo com mais uma de suas empresas, a Starlink. S√≥ que s√£o tantos os aparelhos que eles chegar√£o a dificultar a observa√ß√£o astron√īmica com eles interferindo no alcance dos instrumentos – os telesc√≥pios, por exemplo. O exc√™ntrico empres√°rio √© celebrado e odiado ao mesmo tempo pelos entusiastas da tem√°tica espacial. Ele j√° √© parte da nossa cultura pop sendo at√© citado no seriado Star Trek: Discovery (2017), de Bryan Fuller e Alex Kurtzman, que se passa num long√≠nquo futuro, como um grande inventor do passado. Esse amalgama criado em torno dele (e de suas empresas), torna nosso imagin√°rio permissivo √†s suas investidas sem √©tica para al√©m dos carros el√©tricos (com a Tesla) ou sistemas de pagamento online (a Paypal), segmentos no qual ele tamb√©m se sobressai.

Não à toa, ele almeja logo poder testar os produtos da Neuralink em humanos. Alguém aí se candidata a ter um implante no cérebro ou colonizar Marte com passagem só de ida?

A NOSSA CAR√äNCIA √Č S√ď NOSSA

No Brasil, e talvez em outras partes do mundo, existe a express√£o especista ‚Äúc√£o sem dono‚ÄĚ. Nos colocamos nessa situa√ß√£o quando nos sentimos abandonados e em busca de afei√ß√£o. Os “c√£es sem dono” das ruas de Moscou, ou de qualquer cidade do mundo, n√£o parecem se encaixar exatamente nessa condi√ß√£o, pois eles s√£o curiosos, brincam, ca√ßam ferozmente, agem como animais que s√£o e gozam, nos limites que impusemos a eles por conta de tantas interfer√™ncias na natureza, como os pr√©dios, as ruas e os carros, de certa liberdade. Uma liberdade que desejamos, mas que j√° n√£o temos quando optamos por esses arranjos sociais t√£o complexos. Sem falar que eles n√£o precisam de donos, pois n√£o s√£o coisas.

As c√©lebres √ļltimas linhas do romance tcheco, O processo, de Franz Kafka, terminam com o personagem K. dizendo: ‚ÄúComo um c√£o‚ÄĚ. O personagem K. √© morto por uma facada e o narrador de Kafka, o autor, ressalta: ‚Äú√Č como se a vergonha devesse sobreviver a ele‚ÄĚ quando K. profere que morrer como um c√£o √© vergonhoso, indigno. Quando mandamos animais ao espa√ßo, eles n√£o podem dizer n√£o a essa insana aventura que alguns aqui na Terra acham o m√°ximo das nossas conquistas. Dizer que o homem foi √† Lua significa que este homem tudo pode? Quando mandamos seres humanos ao espa√ßo, que talvez tamb√©m n√£o possam dizer n√£o, especialmente se forem militares, tudo ser√° permitido? Mas os animais, como sempre lembramos no Saber Animal, n√£o possuem nem mesmo a chance m√≠nima que n√≥s temos de escapar. A deser√ß√£o das For√ßas Armadas √©, creio, punida com morte ou grave san√ß√£o na maioria dos pa√≠ses, especialmente em √©poca de guerra ou em regimes totalit√°rios – como era o caso dos sovi√©ticos que enviaram Laika e outros animais ao Espa√ßo. Resta somente a n√≥s a vergonha por fazer de outras esp√©cies experimentos, al√©m de v√™-los em tantas outras situa√ß√Ķes degradantes e de profundo sofrimento.

De modo conflitante, cães também são vistos como heróis em nossas sociedades, especialmente aqueles que servem ao Estado na condição de cão farejador ou de resgate, além dos cães que atuam com policiais e militares em conflitos armados. Laika foi alçada a essa condição ela própria e como reforçam os documentaristas, depois dela, os cães de rua de Moscou foram vistos eles também como fortes e corajosos, ou seja, não precisam de ajuda ou amparo.

Os c√£es usados em experimentos “cient√≠ficos” raramente s√£o mencionados – exceto pelos ativistas abolicionistas -, pois sabemos que, como aquelas pessoas que se levantaram na sess√£o de cinema que exibiu C√£es do Espa√ßo, talvez n√£o suportando ver os procedimentos cir√ļrgicos com c√£es que poderiam ser enviados ao Espa√ßo pelos sovi√©ticos, tantas outras n√£o suportam, apesar de usufru√≠rem dos frutos dessa explora√ß√£o especialmente atrav√©s do consumo, saber que um c√£o √© torturado por pesquisadores, pelas universidades e seus ‚Äúcientistas‚ÄĚ, por criadores de c√£es de ra√ßa, por petshops etc.

Os diretores disseram em entrevista que São Paulo se parece muito com Moscou do ponto de vista urbanístico, daí que ver os cães abandonados em Moscou não é muito diferente do que acontece por essas bandas. O ser humano acredita mesmo que pode conquistar o Espaço, o Universo, quando o melhor que ele tem feito é só espalhar mais lixo por aí. A órbita do nosso planeta, diga-se, é repleta de lixo espacial. Sair da Terra hoje é até uma operação cada vez mais delicada dada a possibilidade de colisão com objetos que vagam a velocidades estonteantes e podem por fim em qualquer missão espacial. O filme Gravidade (2013), uma ficção de Alfonso Cuarón, explora essa situação de maneira muito inventiva.

SELVA DE PEDRAS E POEIRA C√ďSMICA

Uma parte consider√°vel do document√°rio C√£es do Espa√ßo mimetiza um pouco o acompanhamento de animais em vida selvagem aos quais, em certa medida, nos habituamos ver nos canais p√ļblicos ou nos canais pagos √† cabo – ou por sat√©lite. Ele tamb√©m nos entrega a perspectiva dos c√£es quase sempre com uma c√Ęmera na altura dos olhos deles – em equipamento elaborado exclusivamente para essa situa√ß√£o. Os cachorros, longe dos afetos e caprichos humanos, tornam-se quase totalmente selvagens e os vemos desenvolvendo esse lado atrav√©s do olhar dos diretores Elsa Kremser e Levin Peter que optam por n√£o interferir em nada do que eles fazem pelas ruas. Alguns momentos s√£o at√© bem duros de assistir, como a captura de um gato por um dos cachorros. Outros, por sua vez, j√° parecem engra√ßados, pois evidenciam a personalidade diversa dos c√£es que, inevitavelmente fazem a audi√™ncia rir. N√£o sei bem se a palavra selvagem caberia a eles que, vivendo em √°reas urbanas, n√£o conseguem retomar por completo uma vida em matilha, como seus ancestrais, e podendo exercer controle territorial sobre determinadas √°reas que eles acreditam poder dominar. Na verdade, eles n√£o t√™m controle algum, pois por mais que marquem suas passagens com urina, a vida deles segue a t√™nue linha entre a nossa indiferen√ßa e a rejei√ß√£o – em especial em lugares como o Brasil com governos que n√£o possuem pol√≠ticas p√ļblicas para evitar o abandono e os maus tratos que eles sofrem de modo inerente ao estarem nas ruas.

Dois cães no documentário Cães do Espaço brigam após matarem um gato

O grande fardo que especialmente os c√£es carregam, de serem reconhecidos como os melhores amigos dos homens, faz deles animais ic√īnicos em diversas culturas humanas provavelmente desde a Antiguidade. Seus ancestrais, os lobos, que se aproximaram de n√≥s h√° mais de 100 mil anos em busca de prote√ß√£o e comida, se tornaram o que s√£o (c√£es) gra√ßas a um processo de adapta√ß√£o que nos favoreceu em muito ao estilo de vida que mantemos at√© hoje (basta ver como milh√Ķes de c√£es s√£o usados at√© hoje como “c√£es de guarda” patrimonial), mas, em contrapartida, os condenou para sempre a determinadas fun√ß√Ķes sociais ao limite de serem vistos como comida em algumas sociedades.

Seja na dolorosa morte ao lan√ß√°-los ao infinito do Espa√ßo, seja pelo uso que fazemos deles em experi√™ncias ‚Äúcient√≠ficas‚ÄĚ torturando-os das mais variadas formas aqui na Terra, seja por os colocarmos em situa√ß√Ķes de grande perigo dentro de for√ßas de seguran√ßa ou em equipes de resgate em cat√°strofes de todo tipo, seja para comercializ√°-los dentro de uma ind√ļstria bilion√°ria e torn√°-los presentes para crian√ßas carentes de afetos de seus pais, seja para v√™-los como pragas urbanas que precisam de controle e elimina√ß√£o‚Ķ A grande dana√ß√£o dos c√£es foi justamente ter se tornado ‚Äúamigo‚ÄĚ e se aproximado daquele que tem sido, na maior parte das vezes, o seu principal inimigo.

Talvez esse documentário, Cães do Espaço, para além da triste realidade das ruas de Moscou, com seus milhares de animais abandonados, nos diga algo até mais íntimo. A Sputnik 2 cruzou os céus brasileiros quando estava voltando à Terra. Dá para imaginar, então, que não é só pelas ruas da cidade russa que corre e late o fantasma da Laika como indica a lenda anunciada no filme.

E assim como foi importante notar na crítica que fiz ao documentário Professor polvo, a questão do sonho também aparece aqui. O narrador diz:

“Depois de dias em gravidade zero, os c√£es come√ßavam a cair no sono. Andavam √†s voltas no planeta habitat. O seu batimento card√≠aco era o √ļnico sinal que chegava √† Terra. Mas ningu√©m sabia o que tinham visto l√° em cima. E ningu√©m se questionava sobre o que teriam sonhado nas suas c√°psulas espaciais.”

Parece totalmente natural pensarmos nisso: no que os animais sonharam quando adormecem aqui ou mesmo no Espa√ßo. O sonho nos interessa sempre, pois √© do inconsciente que tiramos boa parte da nossa imagina√ß√£o e muitas das nossas a√ß√Ķes t√™m origem nesse mesmo lugar. Os surrealistas nos mostraram algo do tipo atrav√©s da sua arte, nas mais diversas linguagens (pintura, escultura, cinema etc) e n√£o deixa de ser surreal imaginar a concretude desses feitos que o document√°rio analisa – a ida ao Espa√ßo, o treinamento dos c√£es, as jogadas pol√≠ticas‚Ķ E n√£o parece despropositado que uma foto de Philippe Halsman de Salvador Dali tenha imaginado uma cena, infelizmente usando animais de verdade, em que todos parecem estar em gravidade zero. Pequenas cordas suspendem alguns objetos no ar enquanto a √°gua e os gatos eram arremessados (foram 26 vezes) at√© o resultado pretendido ser alcan√ßado. A ideia anterior de Salvador Dali era a de explodir patos com dinamite. Pensando bem, “cientistas” e surrealistas poderiam dar as m√£os e irem juntos ao Espa√ßo…

Um cão adormecido em cápsula espacial na órbita da Terra. Imagem de arquivo no documentário Cães do Espaço
Um cão de rua dormindo e sonhando nas ruas de Moscou no documentário Cães do Espaço
Salvador Dalí em Dali Atomicus. Foto de Philippe Halsman, 1948 / Library of Congress, Washington D.C

Um dos cientistas respons√°veis pelos animais, Oleg Gazenko, afirmou que usar os c√£es era fonte de grande sofrimento para parte dos envolvidos e que n√£o se aprendeu nada com os dados obtidos por t√™-los enviando-os ao Espa√ßo. Ele se arrependeu por ter feito o que fez no projeto espacial sovi√©tico, mas n√£o tinha l√° muitas op√ß√Ķes dentro de uma ditadura comunista (um regime totalit√°rio) na qual a quest√£o √©tica que envolve animais n√£o era sequer discutida. Algo pr√≥ximo do que ocorre atualmente em outra ditadura comunista, a chinesa, com experimentos envolvendo animais e seres humanos, e com os EUA capitalista e suas parcerias entre governos e poderosas empresas (NASA e SpaceX, por exemplo).

O document√°rio n√£o √© apenas sobre a Laika, claro, apesar de se concentrar um tanto sobre ela, que foi o c√£o mais c√©lebre de todos nesses experimentos. Trata-se mais sobre de cachorros lan√ßados ao Espa√ßo e outros animais e lendas que os cercam como a da tartaruga gigante que nos carrega pelo Cosmos em seu casco. Mas √© tamb√©m sobre as pessoas envolvidas naqueles projetos. Os filmes mudos dos arquivos sovi√©ticos receberem tratamento sonoro e ganharem uma esp√©cie de outra vida. Os registros de arquivo usados no document√°rio desprovidos de som ou com uma trilha qualquer teria outro efeito na audi√™ncia. Arquivo cheio de imagens in√©ditas, vale refor√ßar, com uma sonoplastia aplicada pelos documentaristas de C√£es do Espa√ßo, ganhou outros contornos no nosso imagin√°rio. Sem as vozes dos agentes daquela √©poca ou mesmo o som ambiente original, mantendo apenas a voz em off do narrador que nos acompanha desde o in√≠cio do filme, tudo parece ter vindo mesmo de outra era e de uma civiliza√ß√£o perdida e n√£o s√≥ de algumas d√©cadas atr√°s de uma corrida que segue sendo reproduzida hoje com novos e velhos atores.

Os diretores optaram deliberadamente, ent√£o, por n√£o usar o material mais famoso e conhecido sobre Laika, que √© surpreendentemente bem escasso segundo eles. Ao se depararem com um raro material da cadelinha saindo da atmosfera terrestre, optaram por uma trilha abstrata, quase silenciosa. √Č uma imagem com pouca defini√ß√£o e, coincidentemente ou n√£o, de aspecto fantasm√°tico.

O documentário Cães do Espaço exibe trecho inédito de vídeo com a cadela Laika na cápsula em direção ao Espaço em 1957

Mas h√° um pequeno mal entendido conforme podemos ver nesta fala de Elsa Kremser e Levin Peterfala em uma entrevista a Leonardo Sanchez, da Folha de S√£o Paulo: “N√≥s quer√≠amos fugir dos contos de fadas e filmes da Disney, em que os animais s√£o bons ou ruins. Quer√≠amos retrat√°-los como humanos, com temperamentos diferentes.‚ÄĚ C√£es devem ser retratados como o que eles s√£o, c√£es, e, a meu ver, os diretores mesmo mirando em outra coisa acertaram em outra muito melhor: se sa√≠ram, talvez sem querer, com um olhar animalista para aqueles c√£es de rua e para os c√£es e demais animais usados como experimento na corrida espacial.

Alguns c√£es voltaram vivos do Espa√ßo, vale refor√ßar. Nas imagens dos arquivos os vemos andando e agindo novamente como c√£es, como nunca deixarem de ser, mesmo sendo vistos como her√≥is, desbravadores e outros t√≠tulos tolos que damos a eles diante de uma imprensa sedenta por mais e mais novidades ‚Äúcient√≠ficas‚ÄĚ – naquela √©poca e hoje seguindo a mesma toada. O que os arquivos exibem √© que aqueles c√£es, bastante machucados depois dos procedimentos cir√ļrgicos de adapta√ß√£o √†s c√°psulas espaciais, s√≥ querem prote√ß√£o, comida e conforto. Apesar do que fizemos (e fazemos) com sua esp√©cie, l√° est√£o eles confiantes novamente que receber√£o carinhos e afagos‚Ķ As mulheres que aparecem nas imagens, sempre elas, demonstram afeto com os animais na intera√ß√£o com eles. √Č como se os homens, respons√°veis por aquele terror para os c√£es, n√£o tivessem essa habilidade ou apenas n√£o houvesse lugar pra ela num duro regime como o sovi√©tico. Deles n√£o v√™m afeto, mas apenas ordens.

Mulheres são vistas interagindo com cães do programa espacial soviético em imagens de arquivo no documentário Cães do Espaço
Mulheres são vistas interagindo com cães do programa espacial soviético em imagens de arquivo no documentário Cães do Espaço

A NASA N√ÉO APRENDE AS LI√á√ēES, MAS QUER ENSINAR

No recente document√°rio da Netflix, Challenger, o voo final (2020), de Steven Leckart e Glen Zipper, vemos a tentativa do programa espacial estadunidense, em 1984, para n√£o perder sua relev√Ęncia com um p√ļblico j√° acostumado com homens orbitando a Terra apesar da permanente complexidade das tarefas, enviar uma professora civil ao Espa√ßo. Diferentemente de Laika, claro, Christa McAuliffe quis (ou foi compelida pelo entusiasmo da √©poca) e escolheu participar de um grande processo seletivo que a tornaria, mesmo que por um curto per√≠odo, uma c√©lebre astronauta. A ideia, em termos de publicidade deu certo, e sua presen√ßa, com outros seis experientes astronautas (incluindo outra mulher, um afro-americano e um nipo-americano), chamou a aten√ß√£o do pa√≠s e do mundo todo!

A professora da rede p√ļblica, Christa McAuliffe, morreu na explos√£o do √īnibus espacial Challenger em 1986

Notem a rela√ß√£o: os estadunidenses buscaram, no sistema de ensino do servi√ßo p√ļblico, uma candidata adequada para a empreitada, j√° os sovi√©ticos sa√≠ram as ruas em buscas de c√£es de rua adequados para a empreitada deles. Me parecem que ambos os governos veem c√£es e professores como seres pass√≠veis de experimentos sociais e art√≠fices de seus intuitos de ter mais e mais poder, n√£o? E, claro, ser comparado a um c√£o n√£o √© uma ofensa por si s√≥, afinal, somos animais tamb√©m, mas entendo claramente que, em determinados contextos, a compara√ß√£o com animais tem sentido racista ou preconceituosa. S√£o manifesta√ß√Ķes especistas que ganham outros contornos e camadas em discursos de √≥dio.

Contudo, o terrível desastre que aconteceu no dia 28 de janeiro de 1986, uma grande explosão de um dos dois tanques de combustível sólido, poucos segundos após a decolagem, a deixou novamente numa situação parecida com a de Laika. Ambas (duas fêmeas) tiveram apenas um pequeno relance do Universo. Aquilo que parecia uma boa ideia a princípio, estimular o interesse pela ciência entre os jovens da nação, colocou a vida de uma pessoa que não compreendia exatamente os riscos envolvidos em uma jornada de extrema complexidade ao contrário dos profissionais que viajariam com ela.

O document√°rio demonstra, ao longo de quatro epis√≥dios, o qu√£o negligente a NASA foi ao preferir manter um apertado cronograma ao inv√©s de estudar adequadamente e repensar aquilo que posteriormente descobriram ter sido causa do acidente: anilhas de veda√ß√£o de √°reas de jun√ß√£o dos foguetes de apoio. Fora os alertas dos efeitos das condi√ß√Ķes clim√°ticas naquele dia (frio extremo) do lan√ßamento feito pelos fornecedores dos foguetes terem sido praticamente ignorados. Se √© desse jeito com humanos, n√£o √© dif√≠cil imaginar que a vida dos animais estar√° sempre em jogo quando o assunto for ‚Äúa conquista do Espa√ßo‚ÄĚ. Familiares, amigos e milh√Ķes de pessoas viram, at√īnitas, o desastre riscar o c√©u de forma que aquela imagem espetacular estar bem v√≠vida na mem√≥ria de quem assistiu ou viu os desdobramentos da investiga√ß√£o nos anos 80. Algo t√£o dr√°stico nos EUA, creio, s√≥ viria a acontecer depois, no fat√≠dico 11 de setembro, com a queda das Torres G√™meas em Nova York por obra de atentados terroristas.

Explos√£o do √īnibus espacial Challenger em 1986

A NASA tentou aliviar e abafar o caso o tanto quanto p√īde, mas n√£o deu… Houve muita press√£o para que investiga√ß√Ķes apontassem respons√°veis e trouxessem melhorias. Mas o document√°rio deixa impl√≠cito que isso aconteceu, sim, mas n√£o por muito tempo, j√° que um novo desastre aconteceu em 2003, com o √īnibus espacial Columbia, devido a neglig√™ncias da mesma natureza.

Assim como os sovi√©ticos, que esconderam por d√©cadas o verdadeiro destino de Laika: uma morte terr√≠vel h√° poucas horas do lan√ßamento foi revelada apenas em 2002. S√≥ que em 1958 houve, sim, protestos quando souberam da morte dela – a not√≠cia era propositalmente postergada para fazer com que as pessoas acreditassem que ela poderia voltar viva quando as autoridades sovi√©ticas j√° sabiam que ela estava morta. Cartas foram enviadas a Moscou e √†s Na√ß√Ķes Unidas e algumas sugeriam que tivessem mandado o l√≠der sovi√©tico Nikita Khrushchev ao inv√©s de Laika quando indicaram que a cadelinha havia sido sacrificada por “quest√Ķes humanit√°rias”. Certamente houve quem tamb√©m pensou que teria sido melhor terem enviado Ronald Reagan, presidente estadunidense, naquele mesmo voo fat√≠dico que tirou a vida de Christa.

N√£o √† toa, assim como Laika, a professora (sempre com os outros colegas de voo) teve a oportunidade de passar alguns momentos com sua fam√≠lia: todos ficaram hospedados numa casa de praia pr√≥ximo ao local da decolagem. Pelo que conta o document√°rio estadunidense, era at√© uma tradi√ß√£o essa situa√ß√£o. A cadelinha Laika, os sovi√©ticos sabiam, n√£o sobreviveria de modo algum e Vladimir Yazdovsky, chefe da miss√£o, resolveu lev√°-la at√© sua casa para que ela pudesse brincar com seus filhos e ter o seu √ļltimo dia vivendo como um c√£o normal viveria, isto √©, recebendo afeto e aten√ß√£o de seus tutores.

Os estadunidenses, claro, esperavam que seus astronautas voltassem vivos, como em muitas das outras vezes que foram ao Espa√ßo, mas era sempre uma viagem arriscada, da√≠ esse grande encontro com a fam√≠lia ser tamb√©m a possibilidade de ter alguns ‚Äú√ļltimos momentos‚ÄĚ se algo desse errado. Afinal, voar no √īnibus espacial n√£o era como pegar um simples voo comercial seguro no qual, todos os dias em todos os lugares do mundo, os avi√Ķes decolam e pousam em seguran√ßa sem sobressaltos.

Tamb√©m me parecem situa√ß√Ķes muito parecidas as decis√Ķes governamentais em busca de apelo para poder e verbas, pois Laika seria uma grande atra√ß√£o ao ser o primeiro ser vivo no espa√ßo mesmo n√£o havendo tempo h√°bil para desenvolver uma c√°psula capaz de mant√™-la segura, assim como termos a primeira professora civil no espa√ßo, custe o que custar. E mesmo demonstrando grandes avan√ßos nas d√©cadas seguintes ao in√≠cio da corrida espacial, ela simplesmente n√£o parece ter linha de chegada. Se ontem o competidor era a antiga Uni√£o Sovi√©tica, agora √© a poderosa China. E o que o pa√≠s asi√°tico, que tem permitido medonhos cruzamentos gen√©ticos entre homens e macacos, far√° para se destacar com seus planos de tamb√©m ir √† Marte ou fazer a sua base na Lua?

ELES APENAS SOBREVIVEM

O final do documentário é incrível. Sempre sendo levados pela narrativa em off, vemos uma situação de maus tratos ao mesmo tempo em que corrobora, em parte, o mito da resistência dos cães de Moscou. O triste destino que grande parte daqueles, que elegemos serem os nossos melhores amigos, é algo que deve nos assombrar como um fantasma, ainda por muito tempo. Por isso Cães do Espaço, de Elsa Kremser e Levin Peter, se encaixa na ideia de um filme animalista (mesmo não sendo o propósito original dos diretores), que coloca as pessoas não humanas no centro (ou quase) da reflexão, ética e filosófica, dos nossos feitos e conquistas do passado e o custo que eles representam para todos os envolvidos.

Filhotes em local abandonado na cidade Moscou no documentário Cães do Espaço

Uma obra rara e necess√°ria dentro de uma larga tradi√ß√£o da linguagem audiovisual de confrontar aquilo que √© dado, por tantos, como certo: o tal do progresso, os ditos avan√ßos cient√≠ficos e as ambi√ß√Ķes sem limites da nossa esp√©cie.

ūüéěÔłŹ Cinema: C√£es do Espa√ßo (2019)
Mostra uso de animais sem filtros
9
Aborda uma quest√£o global: c√£es de rua
9
Questiona indiretamente feitos ditos científicos
8
Tenta colocar a audiência no lugar dos cães
8
Pontos positivos
Mesmo sem querer, aborda quest√Ķes animalistas
Narrativa em off e montagem
Explora material histórico ainda inédito
Pontos negativos
Usa animais fora de seu habitat (tartarugas)
Ausência de legendas no material de arquivo
Determinar contexto fica para a audiência
8.5