ūüĎÄ Viol√™ncia com animais, m√≠dias sociais e emo√ß√Ķes

Slow loris é macaco de hábito noturno que se sente ameaçado e com medo e por isso levanta os braços (mecanismo de defesa) ao receber "cócegas".
Slow loris é macaco de hábito noturno que se sente ameaçado e com medo e por isso levanta os braços (mecanismo de defesa) ao receber "cócegas".

A motivação principal deste artigo está na nossa contribuição com a divulgação de um tema bastante sensível aos defensores dos animais que é o uso ou exploração deles para produção de vídeos nas mídias sociais. Para gravar esses vídeos, animais de diferentes espécies são maltratados e submetidos a diferentes formas de abuso e ao que podemos entender por tortura, embora nem todos os vídeos possuam necessariamente uma violência explícita.

Dentro desse assunto, o nosso foco √© levar informa√ß√£o para o p√ļblico em geral, onde muitas pessoas, por terem simpatia pelos animais, podem ser induzidas ao erro e assim acabarem contribuindo ou incentivando a propaga√ß√£o desses v√≠deos, aumentando a circula√ß√£o destes atrav√©s de qualquer tipo de intera√ß√£o como curtidas, coment√°rios, compartilhamentos etc.

Esse assunto n√£o √© uma novidade quando se sabe que h√° diversos tipos de conte√ļdos violentos expostos na internet, seja com animais ou com outros seres t√£o vulner√°veis quanto como crian√ßas, idosos, enfim, pessoas de todas as idades que, por alguma condi√ß√£o, n√£o podem oferecer resist√™ncia aos maus tratos sofridos.

Quando temos empatia ou nos sentimos parte de algum grupo √© comum acharmos que a maldade acontece de forma muito pior contra membros desse grupo, afinal, o nosso foco de aten√ß√£o √© que est√° direcionado ou delimitado para determinado grupo. Como tudo que existe neste mundo, as m√≠dias sociais possuem os mais diferentes tipos de conte√ļdo para todos os tipos de interesses. Alguns ser√£o atra√≠dos para conte√ļdos violentos enquanto outros n√£o. Enquanto uns se interessam por um tipo de conte√ļdo midi√°tico, muitos repudiam, logo, isso est√° fora do nosso controle. Mas √© claro que uma das a√ß√Ķes que podemos adotar √© buscar mais esclarecimento para essas quest√Ķes.

Embora no meio ativista geralmente temos algum conhecimento da exist√™ncia de v√≠deos produzidos com animais que algumas pessoas s√£o capazes de realizar em circunst√Ęncias cru√©is, eis a oportunidade de trazer esse assunto por aqui, sem resvalar no velho e datado discurso de √≥dio que ainda √© t√£o comum na sociedade.

Chegamos até esse tema por meio de Silvana Sita, Mestre em Psicobiologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, com experiência na área de primatologia e integrante da organização International Animal Rescue.

Silvana Sita, que tamb√©m milita na causa animal, nos procurou trazendo o tema sobre epis√≥dios de tortura de animais (de diferentes esp√©cies) nas m√≠dias sociais e, a nosso pedido, gentilmente nos enviou um artigo de sua autoria com conte√ļdo informativo que nos introduz √† este tema, prestando importantes esclarecimentos sobre a problem√°tica que est√° presente em todas essas pr√°ticas e chamando a aten√ß√£o para a nossa responsabilidade enquanto usu√°rios dessas m√≠dias (Youtube, Facebook, Instagram e TikTok, dentre outras poss√≠veis) as quais permitem e mant√™m esse tipo de conte√ļdo nas suas plataformas.

Clique no seguinte t√≠tulo para ler o artigo de autoria de Silvana Sita: “Tortura como lucro e divertimento nas redes sociais”.

A referida profissional nos conta que a International Animal Rescue faz parte de uma coaliz√£o de organiza√ß√Ķes internacionais chamada SMACC (Social Media Animal Cruelty Coalition) que est√° denunciando os diversos casos de tortura animal nas redes sociais e, n√£o obstante diversas den√ļncias, muitos v√≠deos e canais se mant√™m no ar e, inclusive, s√£o monetizados.

Silvana Sita nos relata que ‚Äúembora os casos de v√≠deos de tortura sendo filmados aqui no Brasil sejam pequenos, atrav√©s de uma pesquisa nas redes eu percebi que tem um p√ļblico muito grande de brasileiros que assistem a esses v√≠deos, muitos deles por desinforma√ß√£o‚ÄĚ.

Destaco essa observa√ß√£o feita por Silvana porque tamb√©m observo a ignor√Ęncia (desconhecimento) das pessoas que possuem algum grau de afeto ou empatia pelos animais enquanto muitas vezes s√£o contribuintes para a crueldade com esses seres. N√≥s, humanos, podemos ser bastante incoerentes e contradit√≥rios em nossos pensamentos, sentimentos e a√ß√Ķes. Fato √© que, havendo ou n√£o uma inconsci√™ncia, de forma alguma qualquer tipo de puni√ß√£o ou castigo servir√° de incentivo para alguma mudan√ßa positiva.

Ante essa situa√ß√£o, se desejamos colaborar construtivamente com algum tema que nos sensibiliza, podemos criar maneiras diversas que buscam maior conscientiza√ß√£o, seja atrav√©s da divulga√ß√£o de informa√ß√Ķes e material educativo, seja atrav√©s de campanhas, den√ļncias ou protestos criativos a fim de buscar sensibilizar usu√°rios e a sociedade em geral para que se questione sobre o tipo de tratamento dispensado aos animais nas mais variadas atividades (aqui, especialmente, para produ√ß√£o de v√≠deos na internet).

√Č claro que, do ponto de vista das pessoas mais conscientes, o ideal seria que n√£o houvesse conte√ļdos de viol√™ncia ou de est√≠mulo √† viol√™ncia a quem quer que seja espalhados pela internet e m√≠dias sociais, mas para chegarmos a este ponto, a sociedade √© que precisaria reduzir a viol√™ncia que pratica, ou seja, as pessoas se tornarem cada vez menos violentas e consequentemente menos desejosas ou menos interessadas no consumo de conte√ļdos violentos.

Quando falamos de v√≠deos produzidos com animais para serem expostos nessas m√≠dias em busca de curtidas, ‚Äúdivers√£o‚ÄĚ ou algum tipo de lucro ou benef√≠cio humano, podemos verificar que nem sempre a viol√™ncia se mostra expl√≠cita nesse material. Ent√£o muitos podem assistir a esses v√≠deos e n√£o verem nenhuma maldade ou n√£o enxergarem algumas daquelas situa√ß√Ķes como tortura ou crueldade contra os animais e esse √© um dos pontos que julgo muito importante destacar aqui no Saber Animal.

Especialmente nas m√≠dias sociais, mas n√£o s√≥, precisamos buscar compreender o que pode estar por tr√°s daquilo que √© visto ou superficialmente percebido atrav√©s de nossos sentidos, de nossa vis√£o e audi√ß√£o, se intencionamos colaborar para a concretiza√ß√£o de um mundo mais harm√īnico e justo.

√Č muito comum pessoas acharem que est√£o ajudando em alguma situa√ß√£o quando na realidade n√£o est√£o, por simplesmente n√£o terem compreendido de uma forma mais ampliada ou complexa alguma quest√£o. Se for de nosso interesse ou verdadeiro prop√≥sito, sempre podemos fazer algo a respeito do que acreditamos ser o melhor, mas antes de pensarmos no que fazer, vamos entender que o melhor para um pode n√£o ser o melhor para outro.

√Äs vezes n√£o fazemos a nossa parte porque achamos que n√£o somos capazes ou n√£o somos respons√°veis por nada, mas nos empenhamos na cobran√ßa dos outros. Todo ativismo carrega consigo um vi√©s pol√≠tico e a mudan√ßa de um s√≥ indiv√≠duo ou melhor ainda, de alguns indiv√≠duos, j√° √© algo significativamente relevante e digno de esperan√ßa, mas √© muito comum as pessoas acharem que precisam salvar o mundo ou todo o grupo com o qual se identificam e, como isso n√£o √© poss√≠vel, passam a acreditar que nada acontece porque “ningu√©m quer mudar”, sem perceber que a mudan√ßa j√° est√° em curso.

Cada questão dessas daria um livro, mas vamos nos aprofundar um pouco mais nesse tema da tortura dos animais nas mídias sociais que é o tema central que me traz aqui.

Esse √© um bom exemplo de como n√£o temos o menor controle sobre o que outros fazem, sobretudo megaempresas como google / youtube, facebook… √Č claro que den√ļncias nas pr√≥prias redes pelos usu√°rios inconformados ou at√© mesmo a√ß√Ķes judiciais promovidas por √≥rg√£os p√ļblicos ou organiza√ß√Ķes da sociedade civil s√£o absolutamente v√°lidas e leg√≠timas, importantes como forma de tentar por algum limite nessas empresas podendo coibir ou ao menos reduzir esse tipo de conte√ļdo, mas a realidade √© que nem sempre s√£o eficazes ou de dura√ß√£o mais prolongada, principalmente onde √©tica e respeito ao ser humano, por exemplo, costumam n√£o fazer parte do vocabul√°rio corporativo.

Essas empresas ainda n√£o incorporam as leis vigentes que resguardam direitos humanos fundamentais nas pol√≠ticas da empresa (como a pol√≠tica de privacidade e uso de dados, por exemplo) e o mesmo se aplica aos direitos fundamentais dos animais. Concordemos ou n√£o com as pol√≠ticas e m√©todos dessas institui√ß√Ķes, sabemos que ainda possuem muita influ√™ncia pol√≠tica e perante a sociedade, no cotidiano das pessoas.

Claro que, diferentemente do que essas empresas possam alegar quando são questionadas pelos poderes constituídos (principalmente Poder Judiciário), suas políticas devem se submeter à legislação e fiscalização brasileira uma vez que possuem sede no Brasil, devendo fazer cumprir a legislação nacional que protege os direitos humanos e, da mesma forma, os direitos dos animais (onde se inclui a proteção da fauna silvestre).

Onde h√° valores distorcidos na base, n√£o h√° como esperarmos uma postura justa, digna, respeitosa ou √©tica. Onde ainda se prioriza a obten√ß√£o de vantagens econ√īmicas, e at√© mesmo pol√≠ticas, que possam beneficiar o mercado a qualquer custo em preju√≠zo de toda a coletividade ou de vidas envolvidas (desvios √©ticos), podemos compreender que h√° um longo caminho de “retorno” √† justi√ßa por percorrer.

E nesse mar de conte√ļdo, a mesma l√≥gica mercantil tamb√©m est√° na base do youtube, que n√£o s√≥ permite v√≠deos de conte√ļdo violento em sua plataforma, como ainda os monetiza.

Fato √© que a escolha sobre o que visualizar, comentar, compartilhar compete ao usu√°rio do servi√ßo, logo, uma das formas de diminuir esse tipo de conte√ļdo, se √© que isto √© poss√≠vel, est√° na conscientiza√ß√£o das pessoas de boa-f√© acerca de que nem tudo o que est√° sendo visto est√° sendo corretamente interpretado, ou seja, determinado conte√ļdo pode n√£o parecer violento porque talvez essa viol√™ncia se iniciou nos bastidores. E essa informa√ß√£o √© um dos pontos principais sobre os v√≠deos que cont√™m conte√ļdo de crueldade com os animais.

Alguns acontecimentos quando envolvem animais não são facilmente compreensíveis pela grande maioria das pessoas que costumam projetar comportamentos e sentimentos humanos nos animais tornando tudo uma só forma de experimentar e sentir o mundo, suprimindo toda a riqueza e diversidade da vida com a distorcida lente humana.

Os animais, principalmente os silvestres, possuem particularidades e necessidades absolutamente diferentes do ser humano. Um macaco, por exemplo, n√£o sente prazer ou conforto em tomar banho ou usar roupas.

O mesmo v√≠deo onde existem humanos interagindo com animais pode ser ‚Äúfofo‚ÄĚ e engra√ßado para alguns (que nutrem verdadeira simpatia pelos animais) e angustiante ou horr√≠vel para outros.

O que muitas pessoas desconhecem √© que existe muita dor e sofrimento para os animais envolvidos nesse tipo de conte√ļdo, ainda que nem sempre estejam expl√≠citos.

Os animais s√£o seres vulner√°veis assim como crian√ßas de pouca idade, logo, n√£o possuem a capacidade de escolha ou a possibilidade de se defenderem de investidas humanas que ferem a sua integridade. S√£o in√ļmeras as formas de viol√™ncia a que s√£o submetidos para grava√ß√Ķes de v√≠deos, os quais despertam emo√ß√Ķes das mais variadas em quem consome esse tipo de conte√ļdo.

Dentre muitas outras situa√ß√Ķes apavorantes para animais de diferentes esp√©cies, macacos usando roupas e recebendo banho s√£o bastante populares nas m√≠dias, mas muitas pessoas desconhecem que isto s√£o comportamentos antinaturais (ao contr√°rio do que muitos pensam, n√£o s√£o como beb√™s humanos), causando muito estresse a eles, o que parece n√£o ser do conhecimento das pessoas quando lemos seus coment√°rios incentivando e curtindo este tipo de conte√ļdo ao usarem palavras como ‚Äúque fofo, ‚Äúque lindo‚ÄĚ, ‚Äúeu quero um‚ÄĚ (o que tamb√©m incentiva o com√©rcio e tr√°fico da fauna silvestre).

Geralmente, o p√ļblico que tem mais sensibilidade, ou at√© conhecimento da realidade, logo percebe que h√° algo de errado em uma cena montada com animais que “performam” ou simplesmente quando observam com mais aten√ß√£o o comportamento de um animal.

Muitas pessoas at√© repudiam qualquer tipo de viol√™ncia contra os animais, mas como nem sempre a crueldade est√° expl√≠cita (como o v√≠deo de um banho ou de um movimento aparentemente comum como a coceira, por exemplo), √© comum que muitas dessas situa√ß√Ķes que envolvam animais em v√≠deos sejam mal interpretadas.

Quando uma arraia aparentemente ‚Äúsorri‚ÄĚ na realidade ela est√° demonstrando a sua dificuldade respirat√≥ria, segundo nos relatou Silvana Sita.

O sorriso √© uma express√£o humana, logo, nesse exemplo dado, a arraia n√£o est√° demonstrando alegria ou felicidade como possa parecer, mas est√° em estado de sofrimento, qui√ß√° em risco de vida (imaginando a intensidade de uma dificuldade respirat√≥ria). Nesse caso n√£o h√° sorriso algum, √© um ‚Äúfalso sorriso‚ÄĚ porque inexistente (e note como pode ser complexa essa quest√£o da interpreta√ß√£o: quando falamos ‚Äúfalso sorriso‚ÄĚ h√°, inclusive, outra conota√ß√£o para o sentido que n√≥s, seres humanos, interpretamos: falso sorriso como resultado de uma emo√ß√£o dissimulada).

Invi√°vel interpretar o mundo animal de forma generalizada ou fazendo analogias certeiras com o comportamento humano, al√©m de que n√≥s, humanos, geralmente fazemos proje√ß√Ķes mentais e emocionais que nos levam √† percep√ß√Ķes distorcidas do outro. Muitas vezes sequer conseguimos compreender uns aos outros, n√£o √© mesmo? Perceber os animais √†s vezes requer ainda mais sensibilidade ou conhecimento de nossa parte. √Č preciso enxergar al√©m das apar√™ncias e esses v√≠deos geralmente confundem a maior parte das pessoas. E assim acontecem muitos equ√≠vocos de percep√ß√£o ou compreens√£o com muitas e diferentes esp√©cies de animais.

Um gesto ou movimento humanamente reconhec√≠vel como agrad√°vel, confort√°vel ou prazeroso pode causar sofrimento e at√© mesmo ser cruel ou torturante para um animal, j√° que equivocadamente interpretado, sobretudo quando h√° intera√ß√£o humana com um animal (notadamente o silvestre). Nem todo animal pode “ser transformado em pet” e isto deve ser considerado para que os animais possam ser respeitados em sua natureza.

√Č o caso dos primatas loris, macacos de h√°bitos noturnos e olhos grandes que tamb√©m ganharam popularidade nas redes sociais por levantarem os bra√ßos quando recebiam ‚Äúc√≥cegas‚ÄĚ de humanos, como nos contou Silvana.

Em suas palavras: ‚Äúisso era visto como um comportamento muito fofo pelo p√ļblico, que em sua maioria acreditava genuinamente que o animal estava gostando das c√≥cegas, mas na verdade esse comportamento √© um mecanismo de defesa dos slow loris. Sendo o √ļnico g√™nero de primatas venenosos, os slow loris tem uma gl√Ęndula embaixo dos bra√ßos que libera toxinas. Ent√£o, na verdade quando eles est√£o levantando os bra√ßos, eles est√£o se sentido amea√ßados e com medo‚ÄĚ.

Não apenas no youtube mas em sites de notícias também existe muita desinformação a respeito do comportamento animal, geralmente há tendência para zombaria, escárnio ou ridicularização.

Muitas vezes o mal se perpetua porque somos inconscientes da verdade. Quando queremos entender o que se passa na mente do outro s√≥ estamos fazendo especula√ß√Ķes, suposi√ß√Ķes e julgamentos. Alguns ir√£o se identificar com esse tipo de conte√ļdo mesmo sem saber, conscientemente, os porqu√™s. Outros podem inclusive gostar de animais de alguma forma distorcida, que nada tem a ver com respeito e amor, j√° outros podem imaginar que eles est√£o sendo bem tratados e cuidados, podem n√£o enxergar a exist√™ncia de viol√™ncia ou desrespeito na integridade dos animais, podem n√£o ter a consci√™ncia de que aquela realidade muitas vezes est√° causando dor, grave sofrimento e danos na sa√ļde f√≠sica e mental dos animais.

A CA√áA TAMB√ČM SE MOSTRA COMO UMA FORMA DE TORTURA

A viol√™ncia com os animais tamb√©m pode ser mais expl√≠cita, como por exemplo nos v√≠deos de ca√ßa de animais silvestres (outra forma de tortura animal exibida e mantida nas m√≠dias sociais) e de apologia √† ca√ßa, que tamb√©m s√£o muito comuns no Youtube, por exemplo. Ainda assim, essas quest√Ķes geralmente s√£o mais complexas do que aparentam, ent√£o colocar tudo no r√≥tulo do “sadismo humano” √© muito simplista e pode ser enganoso.

Muitas vezes, a violência exposta nas redes sociais é um reflexo ou sintoma de muitas outras violências que acontecem fora do mundo virtual ou fora do nosso alcance. O que não podemos alcançar não podemos compreender. Mais do que não haver vídeos de caça de animais circulando por aí, melhor seria não realizar caça que não fosse excepcionalmente para a própria sobrevivência como ocorre em algumas tribos.

Sob a ótica da proteção animal, não existe sustentação lógica em se permitir a caça de alguns animais (como o javali, por exemplo), pois é proibida a caça de animais silvestres, assim como não há a menor coerência em querer acabar com o tráfico de silvestres enquanto ainda se permite o comércio desses animais que jamais deveriam ser objetificados para ornar domicílios e para servir outros fins nada justos. Aliás, na esfera legislativa podemos observar a aglutinação de muitas e muitas incoerências.

Muitos ambientalistas e at√© mesmo o senso comum apenas v√™ problemas quando ficam sabendo sobre ca√ßa “ilegal”, com√©rcio “ilegal” de silvestres, acontecendo em algum lugar… Segundo esse racioc√≠nio, pode ca√ßar, pode vender e comprar animais silvestres √† vontade (n√£o sei como se faz isso em nome da defesa da natureza ou meio ambiente). Qui√ß√° possa at√© extermin√°-los, contanto que… a lei autorize! Esse tipo de pensamento meramente legalista (mais do que especista) nunca funcionar√° para proteger o meio ambiente, tampouco os animais silvestres. O sentido da palavra justi√ßa sempre √© distorcido, ora para pedir puni√ß√£o aos infratores da lei, ora para discriminar e separar vidas animais da natureza segundo crit√©rios de nossa desumana conveni√™ncia.

O javali n√£o √© animal nativo do Brasil e, como era conveniente, foi completamente ignorado que isto poderia trazer problemas ambientais (at√© hoje essa conduta n√£o mudou com rela√ß√£o √† introdu√ß√£o de esp√©cies n√£o nativas) pois priorizam o interesse comercial e econ√īmico. Mas como as escolhas erradas n√£o tardam a aparecer, agora alegam preocupa√ß√£o com o meio ambiente para justificar a matan√ßa (ca√ßa) desses animais que n√£o est√£o em territ√≥rio brasileiro porque “gostam de destruir” lavouras e propriedades de ‚Äúpobres pecuaristas e agricultores”.

Enquanto os problemas criados pela inconsci√™ncia humana n√£o forem enfrentados em sua raiz, n√£o adianta passar uma maquiagem (criando leis que protegem a economia) e depois viver retocando (altera√ß√Ķes jur√≠dicas aqui e ali) como se os problemas estivessem sendo enfrentados e resolvidos, porque assim n√£o est√£o. 

Sejam v√≠deos de ca√ßa ou de outros tipos de tortura animal nas m√≠dias sociais, al√©m de eventuais den√ļncias por meio da plataforma ou ainda para √≥rg√£os governamentais competentes, temos uma forma muito mais eficaz para contribuir com o fim de toda viol√™ncia: autocomprometimento a nos tornarmos menos violentos em nosso cotidiano, observando nossas a√ß√Ķes e incoer√™ncias, renunciando nossas hipocrisias, discrimina√ß√Ķes, sentimentos carregados com desejos de vingan√ßa e puni√ß√£o que diuturnamente despejamos no mundo.

N√£o tenho a menor d√ļvida de que isso √© muito mais eficaz do que ficar pleiteando novas leis para “novos e velhos” pol√≠ticos, maior rigor punitivo para as atividades ilegais. Que pregui√ßa desse discurso, dessas cren√ßas que nada transformam para melhor.

O RESPONS√ĀVEL √Č SEMPRE O OUTRO?

Retomando o tema central deste artigo, de esc√Ęndalo em esc√Ęndalo, as m√≠dias sociais a√≠ est√£o com suas pol√≠ticas abusivas, censurando o que n√£o √© violento e monetizando o que √© violento a depender da lucratividade, quer gostemos ou n√£o. E concordemos ou n√£o com os seus termos, fato √© que continuamos a usar desses servi√ßos. Utilizamos as redes sociais, n√£o importa o quanto seus executivos aprontem. Na vida contempor√Ęnea √© praticamente impens√°vel n√£o as utilizar, o que muitos de n√≥s fazemos √© abandonar algumas ou reduzir bastante o uso pelo estritamente necess√°rio, pois no cotidiano nos ‚Äúesquecemos‚ÄĚ ou simplesmente ignoramos esses abusos porque delas tamb√©m nos beneficiamos, seja para o trabalho, para a vida privada, para o entretenimento…

Ent√£o tamb√©m seria incoerente e injusto de nossa parte atribuir toda a responsabilidade para as m√≠dias sociais sobre a perman√™ncia de conte√ļdos violentos com os animais. N√£o somos totalmente respons√°veis por tudo o que acontece no mundo, mas certamente temos nossa parcela de responsabilidade, pessoas conscientes se sentem correspons√°veis em algum n√≠vel. Por isso estamos aqui nos solidarizando com o coletivo atrav√©s da partilha deste conte√ļdo no Saber Animal.

H√° complexidade em quest√Ķes que n√£o s√£o nada simples, sejamos redundantes mesmo para fugir da paranoia ou hipnose social que se limita ao reducionismo controlador e punitivista como faz a maioria quando se depara com a face mais perversa das m√≠dias sociais. Em tudo h√° aspectos positivos e negativos neste mundo e portanto as m√≠dias sociais tamb√©m est√£o nessa din√Ęmica.

Fato √© que quando usamos as redes sociais desenfreadamente, sem estabelecermos limites de tempo e uso (e, propositadamente, elas s√£o feitas para isso, o que se sabe atrav√©s de den√ļncias de ex-funcion√°rios e tamb√©m de estudos acerca de indu√ß√Ķes no comportamento humano que causam maior preju√≠zo em crian√ßas e adolescentes), al√©m de outras viola√ß√Ķes de seguran√ßa, privacidade e dados dos usu√°rios, ficamos praticamente absortos e perdidos com tanta informa√ß√£o (ou desinforma√ß√£o), onde praticamente mergulhamos em um automatismo que beira o patol√≥gico.

Nessas circunst√Ęncias, um conte√ļdo leva ao outro que leva ao outro e assim muitos passam a maior parte do seu dia. Esse tamb√©m √© um dos lados perversos das redes sociais, estamos todos sendo afetados e muitas vezes n√£o percebemos.

Mas temos as nossas escolhas (ao contr√°rio dos animais que s√£o usados em mais essa engrenagem). Podemos transformar tudo em a√ß√Ķes construtivas e mais criativas. Quando nos propomos a contribuir para alguma mudan√ßa, o primeiro passo pode ser uma melhor avalia√ß√£o de outro √Ęngulo para depois haver um engajamento mais saud√°vel onde possamos superar o impulso de simplesmente reclamar ou propagar conte√ļdos violentos, os quais raramente possuem qualquer prop√≥sito construtivo ou educativo, eis que alimentam o desprezo ao ser humano, gerando mais √≥dio nas m√≠dias e na sociedade.

Essa √© a din√Ęmica aprisionante das m√≠dias sociais, quanto mais engajados em combatermos aquilo que nos incomoda, mais curtidas, mais coment√°rios, mais compartilhamentos, mais audi√™ncia, mais monetiza√ß√£o. Quem deseja diminuir a viol√™ncia com os animais primeiramente deve ser a n√£o viol√™ncia atrav√©s de suas a√ß√Ķes (as quais refletem pensamentos e sentimentos), sendo assim um contribuinte para a diminui√ß√£o da viol√™ncia humana a partir de si mesmo.

ABORDAGEM VIOLENTA PARA COMBATER OUTRA VIOLÊNCIA?

Den√ļncias de crueldade com animais nas m√≠dias sociais e em notici√°rios em ‚Äúdefesa dos animais‚ÄĚ ao estilo policialesco muito eventualmente possuem algum prop√≥sito informativo e quando isto se torna a principal ou mais importante ‚Äúestrat√©gia‚ÄĚ para abordar o tema da prote√ß√£o animal, toda a complexidade que envolve determinado acontecimento est√° sendo deliberadamente descartada, o que empobrece e dificulta qualquer possibilidade de se enxergar um pouco mais al√©m (e com mais seriedade) algum fato ou alguma pr√°tica que mere√ßa aten√ß√£o.

Se queremos denunciar abusos ou crueldades contra os animais, por exemplo, geralmente temos √† disposi√ß√£o diferentes possibilidades, tanto dentro quanto fora das redes sociais. Podemos encaminhar esse material diretamente para autoridades p√ļblicas ou √≥rg√£os competentes do governo, podemos cobrar diretamente de mandat√°rios ou representantes pol√≠ticos eleitos (n√£o precisa ser eleito pela causa animal), podemos eventualmente compartilhar a not√≠cia com uma observa√ß√£o interessante sobre algum aspecto que observamos, podemos destacar a inefic√°cia ou completa falta de pol√≠ticas p√ļblicas ou at√© mesmo cobrar publicamente a ado√ß√£o de provid√™ncias mais simples das autoridades competentes que poderiam resolver uma situa√ß√£o espec√≠fica com medida simples bastando boa vontade, enfim, temos muitas possibilidades n√£o violentas ao nosso alcance.

Se estamos buscando uma mudança social, se queremos realmente uma sociedade mais compassiva, podemos inovar com a nossa criatividade ao invés de simplesmente despejarmos imagens chocantes com palavras de revolta em um viés sensacionalista que estimulará o anseio por cadeia, punição (o que todo político desvirtuado do bem comum mais adora, registre-se).

A seção Notícias aqui do Saber Animal, por exemplo, tem abordagem crítica mas com proposta completamente diferente da ordinária. Sempre podemos inovar para apresentar fatos ou acontecimentos que classificamos como negativos. Para que copiar as mesmas ideias ruins ou ainda seguir um padrão rígido, acrítico, sensacionalista e injusto conforme o atual padrão social e jornalístico (vingativo-punitivista)? Todos podemos ser surpreendentemente criativos. Não precisamos usar de uma linguagem violenta para falar de violência.

Exposição à violência pela violência gera mais violência. Violência com a gente e violência com os demais por não compreendermos determinadas atitudes cruéis que algumas pessoas são capazes de realizar. E tudo bem se não entendemos, mas podemos compreender que há fatores complexos, diversos, quando alguma violência mais terrível é manifestada. Aceitar que não sabemos tudo pode ser tranquilizador.

Se queremos menos viol√™ncia, ent√£o que sejamos a n√£o viol√™ncia em a√ß√£o. Quando n√£o enfatizamos a viol√™ncia praticada contra os animais, j√° estamos contribuindo com a paz, √© simples assim. N√£o se trata de negar, esconder ou fugir da realidade, mas tamb√©m de oferecer ao p√ļblico uma outra perspectiva, uma perspectiva menos violenta, uma abordagem mais compassiva. Esse √© um treinamento e aprendizado que podemos praticar na nossa vida.

Muitos falam que s√£o pac√≠ficos, que seguem uma filosofia de vida n√£o violenta quando isso n√£o se sustenta na pr√°tica. N√£o participar da explora√ß√£o dos animais, n√£o consumir animais ou produtos de origem animal s√£o formas de praticar a n√£o viol√™ncia, n√£o h√° d√ļvida, mas existem muitos outros h√°bitos e pr√°ticas que est√£o al√©m destas. Em primeiro lugar a n√£o viol√™ncia come√ßa na nossa rela√ß√£o com a gente mesmo. E quem n√£o se respeita n√£o saber√° respeitar verdadeiramente os outros.

√Č comum os chamados protetores de animais ou ativistas que resgatam animais se violentarem para proteger aos outros, passando por cima de suas capacidades materiais e psicol√≥gicas para “prover assist√™ncia” a outros. Isso n√£o √© compaix√£o, n√£o √© justi√ßa, n√£o √© paz. Compaix√£o n√£o √© retirar de si para dar ao outro e o outro ainda permanecer√° na falta porque n√£o poder√° receber o que o ser humano n√£o tem a oferecer.

Para quem pratica o veganismo através de seus hábitos alimentares e de consumo de um modo geral, não ser violento com os animais é bem fácil, mas se queremos sustentar o pilar da não violência na sociedade precisamos ir além na nossa vida cotidiana, precisamos ir além do discurso ético.

Se fazemos aquilo que condiz com o que está pedindo a nossa consciência ou, melhor ainda, o nosso coração, já abrimos um campo de possibilidades para que outros também possam seguir por esse caminho se assim desejarem. Se o mal pode contagiar porque quase sempre nos esquecemos de que o bem também contagia e muito mais?

Se quisermos combater o mal apenas devemos ressaltar o bem e “aceitar” o mal. Como? Sendo o bem, fazendo e sustentando o bem (come√ßando em si mesmo). Essa √© uma possibilidade para real e duradoura transforma√ß√£o social (em alguns momentos √© necess√°rio que esque√ßamos da classe pol√≠tica!). N√£o h√° como exterminar o mal, ele existe e nessa de “lutar e combater” aquilo que n√£o aceitamos √© que o fortalecemos ainda mais. O mal cresce cada vez que se coloca energia em propag√°-lo e essa din√Ęmica √© absolutamente comum na nossa sociedade e em todos os diferentes ativismos, seja pelos direitos animais, direitos humanos etc.

Not√≠cias policialescas oferecem um retrato muito prec√°rio do fato em si, √© uma fotografia min√ļscula extra√≠da de uma grande paisagem cheia de detalhes e nuances. A vida √© bem mais complexa do que uma simples foto, v√≠deo ou imagem. O julgamento da maioria das pessoas √© assim: A matou ou feriu B, portanto A deve ser punido para resolvermos essa quest√£o e ponto final. Podemos e devemos ir al√©m deste racioc√≠nio linear. As regras e leis foram e ainda s√£o importantes para o conv√≠vio social, para a manuten√ß√£o da chamada ‚Äúpaz social‚ÄĚ, mas a paz verdadeira (que muitos confundem com aus√™ncia de conflito) est√° bem distante de uma sociedade julgadora, punitivista, vingativa e um tanto hip√≥crita.

Se intencionamos a paz para os animais, tamb√©m √© preciso ir praticando a paz nos detalhes da nossa vida cotidiana. N√£o apenas com os animais, mas com os humanos, come√ßando a sentir-se em paz consigo mesmo e, quando nos darmos conta, j√° estaremos incluindo aos demais. Cada um fazendo o seu, comprometido que est√° com a parte que lhe cabe, deixando que os outros sigam com as suas pr√≥prias escolhas e responsabilidades. Isso √© verdadeiramente libertador… experimente (experi√™ncia pr√≥pria).

Muitas vezes a quest√£o n√£o √© sobre o que fazemos ou n√£o fazemos, mas sobre como fazemos. √Äs vezes o melhor mesmo √© n√£o fazer nada, pois se j√° sabemos que o nosso fazer vai acrescentar mais caos, mais intoler√Ęncia, mais incompreens√£o, mais julgamento, mais dor, talvez o melhor seja o n√£o fazer, lembrando aquela s√°bia ora√ß√£o sobre ‚Äúaceitar o que n√£o posso mudar‚ÄĚ. Vamos ser a paz ao inv√©s de fazer guerra querendo encontrar a paz no mundo, pois isto √© imposs√≠vel.

Muitas vezes nos falta sermos compassivos conosco em primeiro lugar, nos falta consideração e respeito com a nossa própria jornada. Quando fazemos esse movimento, também vamos permitindo aos outros esse novo olhar que substitui o julgamento acerca de uma situação que arrogantemente acreditamos já ter compreendido. Dar uma chance à humanidade é dar uma chance a si mesmo.

Quando nos propomos a fazer qualquer ativismo, seja em defesa dos animais, do meio ambiente, de grupos humanos etc, n√£o precisamos enfatizar o mal pelo mal, simplesmente isso. O desprezo aos animais n√£o vem s√≥ do especismo, tamb√©m est√° relacionado com o desprezo ao ser que √© diferente, ao desconhecido, √†quele que eu temo, que n√£o compreendo, que n√£o tolero, seja humano ou n√£o humano…

Somente pessoas comprometidas com o seu autoconhecimento e autodesenvolvimento podem verdadeiramente contribuir com a transforma√ß√£o social, do contr√°rio √© mais uma ades√£o √† velha hipocrisia humana ao estilo ‚Äúfa√ßa o que eu falo mas n√£o fa√ßa o que eu fa√ßo‚ÄĚ ou ainda o uso de uma m√°scara de pessoa evolu√≠da pelo √ļnico fato de se considerar a vida dos animais.

Para serem libertados da viol√™ncia, os animais precisam da nossa capacidade de compreens√£o, compaix√£o, amor, criatividade, inclus√£o (sem menosprezo ao ser humano devido suas falhas), solidariedade…, enfim, de tudo aquilo que nos torna humanos inteiros, √≠ntegros. Os animais tamb√©m precisam da nossa liberta√ß√£o, pois enquanto estivermos agindo com novas roupagens que apenas servem de enfeite para os velhos desejos vingativos (egoc√™ntricos), n√£o alcan√ßaremos mudan√ßas.

A libertação humana está muito além daquela que é defendida em movimentos, pautas sociais ou marketing político e isso também está fora do interesse ou alcance de muitos. Então um bom começo pode ser o ajuste para aquilo que nos compete mudar (a nós mesmos), aceitando o que não podemos mudar (os demais).

Em outras palavras, cada um pode fazer o seu, compondo a sua parte na sinfonia da vida, nem mais e nem menos de suas possibilidades, percebendo as suas reais necessidades e os pr√≥prios limites atuais, liberando a opress√£o em si mesmo e nos demais. Estou nessa caminhada. Certamente que esse √© um caminho da n√£o viol√™ncia, de sustenta√ß√£o da paz. Os animais ter√£o paz quando a humanidade (maior n√ļmero poss√≠vel de pessoas) sustentar a paz, abrindo m√£o da cria√ß√£o de tantas falsas necessidades.