ūüźē Festival de Yulin e uma perspectiva sobre direitos animais e humanos

gatos engaiolados para serem mortos e consumidos no festival anual de Yulin na China.
Festival anual de Yulin, onde milhares de gatos e c√£es s√£o assassinados para consumo humano.

A cada ano, só no festival de carne de cachorro, também conhecido como festival de Yulin, milhares de cães e gatos são cruelmente assassinados para consumo humano. Relata uma ativista chinesa que, no ano de 2013, mais de 50.000 cães e 10.000 gatos foram mortos.

Se a China recentemente “reclassificou” os c√£es como animais “de estima√ß√£o” (e os gatos?), por que estaria acontecendo nestes dias (de 21 a 30 de junho) uma nova edi√ß√£o do festival anual de Yulin na prov√≠ncia chinesa de Guangxi?

Por que s√≥ os c√£es passariam a ser “legalmente estimados” (?), sendo que os gatos tamb√©m s√£o v√≠timas desse festival? E fora desse festival, c√£es e gatos continuar√£o a serem assassinados para consumo humano com essa suposta medida regulat√≥ria?

Estas são algumas perguntas contraditórias que podemos fazer e talvez sem respostas, ou pelo menos, sem respostas convincentes.

E, ainda, qual a l√≥gica ou com que direito seres humanos indicam ou estabelecem, legalmente, classes ou categorias “√ļteis” para outros seres vivos que tamb√©m possuem interesses pr√≥prios inerentes √† sua condi√ß√£o de ser vivo? Interesse √† vida, interesse √† liberdade, interesse em dispor de sua pr√≥pria vida livre de sofrimentos, de medo, de dor, interesse em ter sua integridade f√≠sica e ps√≠quica respeitada por serem sencientes, conscientes de si e do mundo √† sua volta, interesse em construir la√ßos de amizade e buscar parceiros, enfim, interesses que se materializam em direitos.

Somos animais ditos racionais e assim podemos perceber que temos muitos interesses fundamentais em comum com os animais “irracionais” que subjugamos. No topo de nossa arrog√Ęncia, achamo-nos as √ļnicas criaturas merecedoras da vida, da liberdade e da dignidade e ent√£o passamos a usar esses outros seres incr√≠veis e companheiros como melhor nos conv√™m, para prop√≥sitos menores que podem facilmente serem alcan√ßados sem a explora√ß√£o de vidas alheias.

Transformamos vidas sencientes e conscientes em objetos, produtos e mercadorias: esses animais nos servem para entretenimento, aqueles nos servem para transporte, esses aqui nos servem para esporte, esses outros para testes de itens produzidos, parte daqueles para meus sapatos e roupas, esses outros para consumo… Mas achamo-nos benevolentes e ent√£o elegemos uma ou duas esp√©cies para uma certa considera√ß√£o, desde que possam nos preencher de algum modo, ent√£o “classificamos” alguns animais para nossa estima. Alguns ocidentais estimam c√£es, alguns orientais consomem c√£es. Algumas vidas n√≥s estimamos, outras nos odiamos; ou n√£o chegamos a esse extremo porque in√ļmeras vezes at√© dizemos que amamos quando essas vidas j√° foram reduzidas a assados, cozidos em nossos pratos.

Que psicopatia é essa que toma conta da nossa humanidade? Segundo o dicionário Houaiss, uma acepção para psicopatia é a seguinte: incapacidade para amar e se relacionar com outras pessoas com laços afetivos profundos, egocentrismo extremo e incapacidade de aprender com a experiência.

Embora nem sempre de forma consciente, repetimos padr√Ķes culturais herdados sem questionamentos e assim nos comportamos com outras vidas que tamb√©m possuem valor para elas mesmas, aquelas vidas mais vulner√°veis e indefesas, o que diz muito sobre essa nossa esp√©cie que se autointitulou de homo sapiens, do latim “homem s√°bio” que tantas vezes privilegia o egocentrismo em preju√≠zo da capacidade de amar.

DIREITOS ANIMAIS E DIREITOS HUMANOS

Mesmo após essa suposta nova reclassificação dos cães na China, além do mais completo absurdo e descabimento desse tipo de definição e previsão em uma lei ou norma jurídica, o festival de Yulin está ocorrendo novamente nestes dias enquanto escrevo. Que sentido tem isso? Seria uma nova tentativa de ludibriar os incautos?

De modo geral, quando o assunto √© legisla√ß√£o, h√° sempre diversos interesses envolvidos, seja na China, no Brasil ou em outro pa√≠s (e imagine s√≥ quando h√° animais n√£o humanos envolvidos em um pa√≠s como a China, tamb√©m violador de direitos humanos). Muitos desconhecem o quanto pode haver de semelhan√ßas nessas composi√ß√Ķes pol√≠ticas ou falsas transforma√ß√Ķes da realidade para aqueles que mais precisam. De certa forma isso me lembra o projeto de lei federal brasileiro apelidado de ‚Äúanimal n√£o √© coisa‚ÄĚ, o t√≠pico PL que ‚Äúparece mas n√£o √©‚ÄĚ.

Saiba mais: CARTA ABERTA, por Vanice Cestari

Apesar de certas similitudes entre pa√≠ses de economia capitalista, sobretudo quando falamos em tentar garantir, legalmente, os direitos dos animais, todo ativista animalista ou vegano(a) que deseja entender melhor dada situa√ß√£o, a exemplo dessas not√≠cias desconexas do festival de Yulin, deve procurar entend√™-las a partir de um contexto mais amplo dos acontecimentos. √Č que a China √© um pa√≠s bem diferente do Brasil no que se refere √†s liberdades.

Na China n√£o h√° liberdade de imprensa, da√≠ a dificuldade de se confirmar se a√ß√Ķes do governo s√£o ver√≠dicas ou n√£o. A imprensa √© um √≥rg√£o oficial do Estado, tudo comandado pelo autorit√°rio Partido Comunista da China. N√£o h√° partido de oposi√ß√£o, n√£o h√° imprensa independente como no Brasil, portanto, √© dif√≠cil a apura√ß√£o dos fatos. A liberdade de express√£o do povo chin√™s √© tolhida, ativistas s√£o perseguidos, n√£o h√° direito de protesto, h√° censura at√© mesmo de conte√ļdos digitais, ou seja, a popula√ß√£o chinesa sequer tem acesso livre √† internet.

Sendo a defesa dos direitos animais um movimento mais ou menos dif√≠cil de se levar adiante, a depender do pa√≠s (e/ou estado, munic√≠pio) de atua√ß√£o e a sua pouca compreens√£o pol√≠tica da perspectiva abolicionista entre os cidad√£os locais, que tamb√©m possuem seus interesses pr√≥prios e geralmente pouca propens√£o a enxergar os animais n√£o humanos como sujeitos ou indiv√≠duos igualmente portadores de interesses pr√≥prios fundamentais, como a vida e a liberdade, h√° uma maior dificuldade de ades√£o ou obten√ß√£o de apoio social, que pode impulsionar as transforma√ß√Ķes necess√°rias, sobretudo em um pa√≠s controlador e autorit√°rio como a China, onde o governo n√£o hesita em prender ativistas pela simples tentativa de manifesta√ß√£o ou protesto.

Isso faz a gente pensar o qu√£o fundamental √© a garantia das liberdades humanas tamb√©m como forma de avan√ßar a garantia dos direitos animais. A invers√£o dessa premissa √© igualmente verdadeira, j√° que a ideia preconcebida / preconceituosa de diferen√ßas culturais, √©tnicas, de cor da pele, de g√™nero… e de esp√©cie, tem sido usada como justificativa para os piores crimes da humanidade, isto √©, quando formos capazes de garantir o direito √† vida, √† liberdade, √† dignidade e integridade (os direitos animais fundamentais) daqueles aparentemente mais diferentes e distantes de n√≥s (indiv√≠duos ou pessoas n√£o humanas), possivelmente estaremos mais inclinados √† verdadeira inclus√£o de todos os humanos em nossa esfera de considera√ß√£o moral porque teremos finalmente compreendido que j√° n√£o faz mais sentido algum o estabelecimento de quaisquer barreiras discriminat√≥rias entre n√≥s, uma vez que partiremos de outro patamar de compreens√£o acerca daquilo que somos, vidas interdependentes umas das outras, tendo cada vida o seu valor nessa grande teia.

Ainda h√° o especismo de grande parte (sen√£o da maioria daqueles que se aproximam pedindo o fim de um festival como o de Yulin, n√£o porque se importam, de fato, com o tr√°gico destino dos animais, mas porque se trata do massacre do “seu” estimado animal, ou ainda, por pura xenofobia), que n√£o se importa com a matan√ßa de qualquer animal para consumo (e portanto, resiste √† aboli√ß√£o animal), desde que a viol√™ncia permane√ßa escondida atr√°s de muros onde os olhos n√£o podem alcan√ßar, seja no festival de Yulin ou fora dele.

Quando não encontramos compaixão pelos indivíduos não humanos ou pela parte do povo chinês que mata e consome cães, pelas pessoas humanas e todos aqueles povos que ainda sofrem diversas formas de opressão, que tem seus direitos humanos vilipendiados (note-se: o consumo de animais não deve ser considerado um direito humano) podemos afirmar que somos tomados por uma incapacidade de amar os nossos semelhantes. Uma psicopatia?

REGULAÇÃO DO QUÊ?

A suposta proibição da matança e comércio de cães para consumo humano teria ocorrido em 2017 e, notem, apenas uma semana antes do início do festival de carne de cachorro, por iniciativa de Mo Gong Ming, secretário do partido (comunista) de Yulin.

Segundo investiga√ß√£o da National Geographic, esse an√ļncio teria se dado pelo fato dos holofotes estarem voltados para Yulin (√† espera do famoso evento) e assim manchando a reputa√ß√£o internacional do pa√≠s, expondo as problem√°ticas condi√ß√Ķes sanit√°rias e uma extrema crueldade contra os c√£es (n√£o h√° men√ß√£o de igual proibi√ß√£o para os gatos que tamb√©m s√£o v√≠timas da mesma crueldade).

Em primeiro lugar, precisamos entender que h√°, supostamente, duas situa√ß√Ķes distintas: a suposta proibi√ß√£o do festival de Yulin em 2017 e a suposta reclassifica√ß√£o de meses atr√°s sobre a ‚Äúnatureza jur√≠dica‚ÄĚ dos c√£es na China.

Tentando juntar as pe√ßas das informa√ß√Ķes contradit√≥rias sobre a suposta lei de 2017 da China (a que teria colocado fim no festival de Yulin – e sabemos que n√£o colocou – talvez porque inexiste essa lei), e sobre a suposta regula√ß√£o da ‚Äúnova serventia de c√£es” neste ano de 2020, o que vem sendo divulgado e o que √© reproduzido entre ativistas, essa confus√£o come√ßa a fazer mais sentido.

Em uma reportagem da Vice de 2013, uma ativista chinesa em defesa dos animais informa que o festival de carne de cachorro acontece em meio à ilegalidade.

Se o festival de Yulin já transcorre na ilegalidade há anos, significa que não há permissão para acontecer, não havendo necessidade de nenhuma outra medida governamental proibitiva para se encerrar definitivamente o massacre de cães e gatos nesse evento, a não ser fiscalização das autoridades e aplicação das medidas legais cabíveis aos infratores.

Portanto, se essas informa√ß√Ķes procedem, o an√ļncio da suposta proibi√ß√£o do festival de Yulin pelo governo chin√™s em 2017 n√£o passou de uma grande farsa. Usando essas mesmas fontes de informa√ß√£o e contextualizando a defesa pol√≠tica dos direitos animais na China, bem como a repercuss√£o negativa em pa√≠ses ocidentais sobre o consumo de carne de cachorro e, mais recentemente, a preocupa√ß√£o oriunda da pandemia que tomou conta da humanidade, √© muito prov√°vel que essa nova regulamenta√ß√£o anunciada recentemente tamb√©m n√£o passa de mais um ardil, um expediente para enganar os cr√≠ticos do festival de carne de cachorro. Ou pior, talvez a regulamenta√ß√£o tenha vindo exatamente para n√£o se abolir o consumo da carne dos c√£es.

Fazendo aqui um ju√≠zo meramente especulativo, o que pode ter ocorrido agora em 2020 √© uma determina√ß√£o de que os c√£es que possuem tutores (aqueles que, via de regra, s√£o estimados) n√£o possam mais ser consumidos, ou seja, n√£o se descarta a hip√≥tese de ter havido um tipo de regulamenta√ß√£o para a continuidade do consumo de c√£es e/ou legaliza√ß√£o do festival de Yulin, esperando assim que os √Ęnimos se acalmem, j√° que muitos n√£o se op√Ķem ao assassinato desses animais para consumo, especialmente na China, mas sim o modo como √© feito, com toda viol√™ncia exposta e totalmente √† margem da lei.

Em certo ponto deste v√≠deo da Vice, um senhor afirma que acha desnecess√°rio comer ‚Äúc√£es de estima√ß√£o” ou pet, sendo favor√°vel √† regulamenta√ß√£o do uso de “c√£es comuns” para comida (criados com esse prop√≥sito, abandonados etc), n√£o vendo nada de extraordin√°rio nisso. Sempre esperamos que n√£o, mas essa ideia pode facilmente se transformar em um consenso no festival de Yulin, j√° que em outras regi√Ķes da China tamb√©m se consomem esses animais conforme as tradi√ß√Ķes locais. O que √© ilegal se tornaria legal desde que devidamente regulamentado. E aqui sem d√ļvida pesa a quest√£o cultural prevalente: outros povos consomem outros animais e contra este fato incontest√°vel, nada h√° a ser feito, sen√£o o que veganos j√° vem fazendo.

Fato √© que, para as sociedades especistas, toda essa exposi√ß√£o em si (e n√£o a realidade propriamente dita) n√£o pega bem, o inc√īmodo √© grande porque ainda n√£o somos capazes de nos responsabilizar por nossos atos. Agora tamb√©m h√° maior press√£o pelas quest√Ķes sanit√°rias (especialmente depois da Covid-19), √© comercializado um grande n√ļmero de animais mortos, dentre os quais h√° relatos de c√£es doentes, idosos e n√£o se sabe a proced√™ncia dos animais, n√£o existe nenhum controle, ou seja, o festival de Yulin √© um mercado tipicamente “clandestino”. Por isso, toda essa situa√ß√£o lamentavelmente pode ser explorada por aqueles que desejam a regulamenta√ß√£o do com√©rcio e n√£o a sua imediata proibi√ß√£o, a exemplo de grupos que atuam na defesa do chamado bem-estar animal. Algu√©m duvida?

PORQUE S√ď C√ÉES E/OU GATOS MERECEM LIBERDADE?

Nas reportagens sobre o festival de Yulin, na imprensa brasileira que, a cada ano, repercute o assunto e, sobretudo, nas supostas medidas governamentais chinesas, n√£o vemos not√≠cias sobre os gatos, embora ativistas locais relatam que milhares deles tamb√©m s√£o capturados e assassinados nas mesmas condi√ß√Ķes para consumo. E desde quando a liberdade de um animal e/ou esp√©cie passou a ser importante para organiza√ß√Ķes bem-estaristas? Aqueles a quem estimamos, nos inclinamos para ajudar. Aqueles que n√£o estimamos, n√£o concedemos direitos. Se essa mesma l√≥gica fosse transposta para humanos, o que seria da nossa sociedade?

Como se pode problematizar quase tudo nessa vida, eu não deixo de observar a presença de uma organização bem-estarista nessa conversa entre suposta proibição e/ou regulação do consumo de cães na China, a Humane Society International.

Fazendo uma pequena observa√ß√£o para quem n√£o √© animalista / vegano e n√£o est√° familiarizado com os termos abolicionismo e bem-estarismo mas √© minimamente politizado, basta dar uma olhada nesta recente not√≠cia ou nesta outra mais antiga para entender o motivo pelo qual abolicionistas veganos se insurgem e denunciam essa aproxima√ß√£o de supostos defensores de animais com certas institui√ß√Ķes do sistema explorat√≥rio, bem como o engodo desse discurso “vegano estrat√©gico” que descaradamente beneficia o agroneg√≥cio no mundo inteiro (j√° que as organiza√ß√Ķes bem-estaristas, n√£o √† toa, est√£o estabelecidas em diversos pa√≠ses) e assim v√£o eternizando a perversa escraviza√ß√£o dos animais (daqueles ‚Äúclassificados‚ÄĚ como animais ‚Äúde produ√ß√£o”) por esses grandes conglomerados industriais, travestida de respeito e defesa de direitos! Direitos para quem? Para os bilion√°rios e respectivos consumidores das dores dos outros. Aqueles outros n√£o estimados.

Como as v√≠timas s√£o c√£es (e gatos), nesse caso teria alguma organiza√ß√£o bem-estarista decidido colaborar com a liberta√ß√£o desses animais? Participariam ou n√£o de uma poss√≠vel medida regulat√≥ria para o com√©rcio de “carne de cachorro sustent√°vel”?

Enquanto ONG¬īs bem-estaristas trabalham para regulamentar (e assim perpetuar) a matan√ßa de forma pragm√°tica e bastante estrat√©gica dos animais “de produ√ß√£o”, inclusive para os pobres bilion√°rios que, claro, precisam de uma forcinha extra “vegana” para seus matadouros se tornarem “sustent√°veis”… passaram-se tr√™s anos dos rumores sobre a suposta lei proibitiva do com√©rcio da carne de cachorros em Yulin (2017), sem que o tal festival tivesse deixado de acontecer (assim como a sistem√°tica matan√ßa de c√£es, gatos e tantas outras esp√©cies de animais fora dele, mundo afora), a despeito da mobiliza√ß√£o de ativistas na China e em diversas outras na√ß√Ķes. E, note-se, tamb√©m n√£o terminou os protestos de “rebeldes sem causa” que seguem comendo animais de outras esp√©cies…

Saiba mais: PORQUE AS PRINCIPAIS “ONG’S VEGANAS” E OS “PRINCIPAIS” ATIVISTAS “VEGANOS” EST√ÉO TODOS ERRADOS?, por Fabio Montarroios

Tamb√©m chama aten√ß√£o a declara√ß√£o da Humane Society Internacional, segundo o portal de not√≠cias Terra, que v√™ as declara√ß√Ķes do Minist√©rio da Agricultura chin√™s como ‚Äúum potencial divisor de √°guas no bem-estar animal‚ÄĚ devido √†s tais novas diretrizes regulat√≥rias (ser√° que algum ativista foi atr√°s – ou pode ir atr√°s – para tentar saber do que realmente se trata?). √Č claro que tamb√©m n√£o se pode descartar a hip√≥tese de uma declara√ß√£o dessas ser fruto de uma eventual persegui√ß√£o pol√≠tica, o que n√£o parece ser o caso da bem-estarista HSI, ainda mais pelo fato do movimento em defesa dos direitos animais ser politicamente inexpressivo na China, tal qual no Brasil e em outros pa√≠ses.

Ser√° que as tais diretrizes, se existentes, preveem alguma regulamenta√ß√£o para que o festival de Yulin seja legalizado, transformado em com√©rcio devidamente reestruturado, “limpo” e ‚Äúhumanit√°rio‚ÄĚ, tirando a imagem negativa e os holofotes da imprensa estrangeira?

Fazendo um paralelo, √© como se alguma dessas ONG¬īs bem-estaristas no Brasil elogiasse uma pol√≠tica do governo Bolsonaro em suposta defesa dos direitos animais que, como todos sabem, n√£o s√≥ √© absolutamente improv√°vel como suas decis√Ķes s√£o exatamente o oposto da defesa animal!

Nesse mesmo sentido, o fim do festival de Yulin n√£o parece estar no radar de preocupa√ß√£o do governo chin√™s (tampouco a suposta extens√£o de uma proibi√ß√£o do consumo de c√£es em outras regi√Ķes da China, onde realmente h√° essa tradi√ß√£o, conforme divulgado).

Uma vez cientes do contexto político da China (onde sequer há partido de oposição), entendemos porque é óbvio que o governo local de Yulin também nada faz para impedir esse (ilegal?) festival.

Voltando √† primeira pergunta deste artigo, a not√≠cia sobre uma eventual “reclassifica√ß√£o legal” dos c√£es ‚Äúde consumo‚ÄĚ para c√£es ‚Äúde estima√ß√£o‚ÄĚ pela China (tal qual a tentativa de ‚Äúatribui√ß√£o de senci√™ncia‚ÄĚ para uns animais e outros n√£o, no surreal PL ‚Äúanimal n√£o √© coisa‚ÄĚ em tr√Ęmite aqui no Brasil) infelizmente n√£o √© uma premissa v√°lida para a proibi√ß√£o do festival de Yulin onde se mata, se comercializa e se consome c√£es (e gatos) e nem para se p√īr fim ao consumo de c√£es em outras cidades, pois de uma situa√ß√£o n√£o decorre a outra. Ativistas precisam lutar com esperan√ßa mas sem perder a no√ß√£o da realidade, ou no m√≠nimo, buscar conhec√™-la sempre que poss√≠vel.

Portanto, a citada ‚Äúreclassifica√ß√£o‚ÄĚ chinesa para os c√£es, de animais ‚Äúde consumo‚ÄĚ para animais ‚Äúde estima√ß√£o”, n√£o se deu para garantia de direitos, nem como sinal de uma atitude compassiva ou evolu√ß√£o social, mas talvez como um meio da China seguir ludibriando aqueles que se op√Ķem ao festival de Yulin, ao mesmo tempo que apresenta respostas devido √†s press√Ķes internacionais por conta da pandemia da Covid-19, sendo comum o h√°bito de tomarem medidas emergenciais ‚Äúpara ingl√™s ver‚ÄĚ e logo depois que as cobran√ßas se assentarem, voltarem atr√°s. Assim foi com o mercado de animais silvestres em 2003, o que j√° citei aqui neste outro artigo.

O ativismo animalista requer engajamento constante e aquisi√ß√£o de conhecimento fora da “bolha vegana” para a constru√ß√£o de a√ß√Ķes articuladas e estrat√©gicas (para beneficiar as pessoas n√£o humanas e n√£o o mercado, evidentemente), que pode ser obtido com pesquisas, estudos e diversas maneiras.

Por isso, considerando ainda a torrente mis√©ria e o massacre avassalador de todos os animais que n√£o nasceram humanos, acredito que uma das melhores contribui√ß√Ķes que podemos oferecer no ativismo (para quem vai al√©m da pr√°tica do veganismo) √© n√£o se afastar da lucidez e da prud√™ncia, amigas insepar√°veis de uma luta mais potente que √©, antes de tudo, questionadora, que, preferencialmente, se adianta aos acontecimentos previs√≠veis e n√£o que apenas corre atr√°s deles para tentar minimizar seus funestos impactos, que tenta evitar o tr√°gico destino dos animais n√£o humanos. E isto eu coloco de uma maneira geral porque penso serem dicas √ļteis a se considerar, n√£o me referindo a alguma situa√ß√£o em espec√≠fico, tampouco ao festival de Yulin, j√° que muitos poucos compreendem as quest√Ķes pol√≠tico-jur√≠dicas nacionais, que dir√° as estrangeiras.

REBELDES SEM CAUSA

S√≥ aqui no Brasil, todos os dias e em diversos festivais tamb√©m s√£o servidos retalhos de animais mortos assados, em todos os cantos do pa√≠s. Em 2018 tentou-se aprovar, no Estado de S√£o Paulo, um projeto de lei que institu√≠a a j√° famosa campanha “segunda sem carne”, tendo sido vetado pelo ent√£o governador Geraldo Alckmin. A simples propositura desse PL (Projeto de Lei) foi um esc√Ęndalo! Pretendia-se que o Estado finalmente garantisse √†s pessoas (em restaurantes e refeit√≥rios p√ļblicos, apenas) acesso a uma alimenta√ß√£o realmente saud√°vel e de qualidade em um √ļnico dia da semana e apenas em locais p√ļblicos, ao mesmo tempo que se colaboraria com a redu√ß√£o dos impactos ambientais. Oh! Que perigo! Teve comentarista falando na imprensa que as pessoas seriam impedidas de comprar carne no a√ßougue √†s segundas-feiras… um show de horror. Isso pode abrir um “precedente perigoso”, ou algo do tipo, deixou escapar Geraldo Alckmin em uma de suas declara√ß√Ķes.

Nos festivais brasileiros, vendem e incentivam ainda mais o consumo desses animais (e de doen√ßas, evidentemente), inclusive em espa√ßos p√ļblicos, a exemplo do anual “festival do bacon‚ÄĚ em S√£o Paulo, com a diferen√ßa de que no territ√≥rio brasileiro o assassinato igualmente b√°rbaro de animais para consumo, at√© onde se sabe, n√£o tem plateia, n√£o √© praticado na presen√ßa do consumidor, que terceiriza o ato de matar e assim se v√™ inocente, achando que n√£o pratica nenhum mal. O mal est√° sempre no outro, no estrangeiro. Pura ilus√£o.

Festivais sanguin√°rios e macabros com uso e morte de animais acontecem em todos os pa√≠ses, in√ļmeras cidades, mas a aliena√ß√£o especista √© tamanha que parece s√≥ existir o festival de Yulin no mundo feliz e perfeito dessa gente que s√≥ enxerga a malfeitoria dos outros.

Rep√ļdio, den√ļncia e combate √† viol√™ncia especista, ao consumo de animais dentro e fora de festivais mundo afora √© o que fazemos diuturnamente, sem compactuar com ataques xenof√≥bicos que partem especialmente daqueles que s√≥ nutrem alguma simpatia ou estima por c√£es, dos especistas eletivos, aqueles que elegem uma √ļnica esp√©cie animal para estima.

Xenofobia e especismo eletivo andam juntos e formam o xenoespecismo. (…). Os outros povos s√£o vituperiados e at√© mesmo amaldi√ßoados por fazerem isso ou aquilo aos c√£es, os √ļnicos animais pelos quais muita gente, aqui no Ocidente, sente algum afeto, porque pelos outros animais, vacas, ovelhas, porcas e galinhas, o √ļnico afeto ou impulso que essa gente sente √© o da gula. (…). A glutonia do estrangeiro √© abomin√°vel. A pr√≥pria, louv√°vel. Usam os animais como arma para atacar outros povos. Xenoespecismo. Como se dois erros fizessem um acerto. [S√īnia T. Felipe, em Acertos Abolicionistas: A Vez dos Animais].

Quem nunca ouviu falar das temporadas anuais de ca√ßa √†s baleias, dos golfinhos encurralados e cruelmente assassinados √† facadas no Jap√£o? Das focas brutalmente massacradas com porretes, martelo e foice no Canad√°, Groenl√Ęndia, Noruega, R√ļssia? Aqui certamente estou cometendo a falha de n√£o lembrar ou desconhecer outros festivais de horror existentes onde abusam e massacram as pessoas n√£o humanas. E o que dizer das in√ļmeras festividades religiosas regadas √† crueldade contra touros, bois, cavalos e tantas outras esp√©cies? Ali√°s, todas as religi√Ķes, nesse particular, s√£o um reduto de muito amor ao pr√≥ximo, n√£o √© mesmo? “Tudo que vive √© teu pr√≥ximo” (Gandhi), “amar ao pr√≥ximo como a ti mesmo‚ÄĚ… parece que muitos n√£o entenderam quem s√£o os nossos pr√≥ximos na amplitude do termo.

E o festival anual da matan√ßa de cobras no Texas? Esse entretenimento b√°rbaro que acaba em refei√ß√£o poucos conhecem porque n√£o h√° a mesma indigna√ß√£o furiosa, n√£o gera repercuss√£o a depender da nossa “particular classifica√ß√£o” do indiv√≠duo n√£o humano subjugado. O massacre das cobras n√£o provoca terror nem compaix√£o, pouca gente se op√Ķe e se escandaliza, mesmo sendo realizado na presen√ßa de crian√ßas e com participa√ß√£o de adolescentes.

Diz-se que comer cachorro, de fato, √© uma tradi√ß√£o chinesa (o que estarrece aqueles que comem porcos, frangos, vacas, carneiros e toda sorte de ser senciente), por√©m, segundo relatos de ativistas locais, a maioria do povo chin√™s n√£o consome c√£es, n√£o fazendo parte da tradi√ß√£o chinesa o festival de Yulin, criado a partir de 2010 para promover esse consumo e que, conforme apurado pela National Geographic, √© organizado por cidad√£os e empresas particulares, n√£o sendo desejado pela maioria dos chineses, ao contr√°rio do que “rebeldes sem causa” propagam por a√≠.

Há relatos de que na China a oposição ao consumo de carne de cachorro vem crescendo particularmente entre os jovens, o que é um ótimo sinal, possivelmente resultado do ativismo em defesa dos direitos animais que também é presente no país, lembrando que o acesso à informação não chega para os chineses do mesmo modo que chega para nós aqui no Brasil.

Como em qualquer pa√≠s, alguns respeitam os direitos fundamentais alheios e reconhecem os animais como sujeitos portadores de interesses pr√≥prios, ao passo que a vasta maioria (ainda) n√£o. At√© hoje muita gente ainda se op√Ķe aos direitos humanos e n√£o precisamos ir longe para essa constata√ß√£o!

Ativistas locais contr√°rios ao festival de Yulin alegam que muitos desses animais foram abandonados nas ruas e outros tantos c√£es parecem ser roubados (na verdade, furtados) de casas e fazendas, vindo a ser enjaulados dentro de caminh√Ķes para serem transportados e posteriormente executados nas regi√Ķes onde o seu consumo √© mais popular.

N√£o √© “s√≥” o suposto furto (sequestro?) de c√£es e gatos que possuem tutores, o seu transporte em gaiolas ex√≠guas e a brutalidade do modus operandi que ceifa a vida dos animais que deveria nos incomodar, o que sem d√ļvida s√£o adicionais de crueldade, mas dever√≠amos nos incomodar pela matan√ßa mundial sistem√°tica de animais para comilan√ßa humana para al√©m de um espec√≠fico festival anual na China, pela redu√ß√£o de seres vivos sencientes, d√≥ceis, inteligentes √† retalhos consum√≠veis, pois n√£o h√° mais tempo de tergiversar sobre a liberta√ß√£o dos animais de toda explora√ß√£o humana.

A humanidade precisa aprender com os seus erros no que diz respeito à nossa relação com os indivíduos de outras espécies. A situação ambiental e sanitária em que agora nos encontramos é um sinal evidente dessa urgência de novos modos de viver.

Veganos, ativistas animalistas que lutam pela libertação de todos os animais (e não só de cães!) desse consumo insano e abjeta violência no Brasil, na China, nos Estados Unidos e no mundo todo são coerentes em seu discurso ético e por isso não aceitam (não aceitamos) de bom grado a forma como é feita essa oposição pela grande maioria das pessoas ao festival de Yulin. Além dos festivais horrendos que exemplifiquei há pouco, a pesca e preparativos de consumo de peixes e crustáceos, por exemplo, é regada da mesma covardia. Pense na lagosta! Quantos desses furiosos críticos estão dispostos a parar de matar seres vivos igualmente portadores de interesses próprios, sencientes e conscientes?

E os porcos!? Paradoxalmente considerados at√© mais inteligentes do que os c√£es e crian√ßas humanas jovens, s√£o vorazmente consumidos com o nome de bacon, bisteca, salame, presunto, lingui√ßa, paleta, costela, lombo, pernil, tender, torresmo e os ditos pertences (!), orelha, rabo, focinho, joelho de porco… Eles s√£o atirados em tanques de √°gua nos matadouros industriais para serem escaldados, fervidos vivos, at√© o esvair de suas brutalizadas vidas, dentre outras etapas brutais que superam de longe o pior filme de terror. A mesma barb√°rie pode ser dita com rela√ß√£o √†s vacas, bezerros, ovelhas, galinhas, b√ļfalas, cavalos, pintinhos e tantos outros indiv√≠duos n√£o humanos que s√£o degolados, esfaqueados, picotados, desmembrados, triturados vivos, executados ‚Äúhumanitariamente‚ÄĚ ou n√£o… O que √© humanit√°rio? Matar quem tem desejo de viver? Assassinar com um tiro certeiro quem implora pela sua vida?

Em um primeiro momento, podemos olhar as cenas de viol√™ncia expl√≠cita de um festival de carne de cachorro e ficarmos chocados, perplexos com tamanha ‚Äúmaldade‚ÄĚ daqueles comerciantes e consumidores. Por outro lado, apesar da evidente brutalidade com aqueles c√£es (e gatos), podemos interromper nosso pensamento julgador por alguns segundos para tentar entender o ponto de vista daquelas pessoas e ent√£o, veremos que c√£es e gatos representam para elas o que bois, vacas, porcos, galinhas, aves, cavalos e tantos outros animais representam para brasileiros, americanos, ingleses, su√≠√ßos, franceses e outros povos que consomem outros animais n√£o humanos. Comida. Nada al√©m de comida. Animais ‚Äúde consumo‚ÄĚ, n√£o ‚Äúde estima√ß√£o‚ÄĚ. Culturas diferentes, a mesma crueldade, a mesma barb√°rie, a mesma injusti√ßa. Ser√° que Paul McCartney tem raz√£o?

O vídeo da Vox (com legendas em português), de março de 2020, trata do consumo de animais silvestres na China e sua relação com o espalhamento de vírus de um ponto de vista histórico, inclusive.