ūüéôÔłŹ Podcast Saber Animal #003 ‚Äď Not√≠cias

Três crianças brincam com cachorros num petshop.
Tam Tran / Flickr

No episódio de hoje, falaremos sobre o comércio de animais domésticos e silvestres e, na sequência, sobre os animais no catastrófico acidente nuclear em Chernobyl.

Apresentação: Vanice Cestari / Edição de áudio: Fabio Montarroios. Produção: Vanice Cestari / Roteiro: Vanice Cestari e Fabio Montarroios.


A Assembleia Legislativa do Estado de S√£o Paulo (ALESP) instaurou Comiss√£o Parlamentar de Inqu√©rito para apurar irregularidades na venda de animais por canis, pet shops e demais estabelecimentos clandestinos, inclusive por meios eletr√īnicos, no Estado.

√Č sabido entre muitos defensores e ativistas pela causa animal que a comercializa√ß√£o de animais tem um √ļnico prop√≥sito: obten√ß√£o de lucro para quem faz a reprodu√ß√£o e a venda desses animais. Tamb√©m n√£o √© nenhuma novidade que os criadores e empres√°rios desse ramo apelam para o uso de subterf√ļgios na defesa intransigente do seu neg√≥cio com a finalidade de perpetuar essa pr√°tica explorat√≥ria imoral que √© a constante procria√ß√£o para o com√©rcio dessas vidas.

Se já nos aproximamos de algum animal, praticamente todos nós, sabemos de longa data o que neurocientistas declararam em 2012 na Universidade de Cambridge, no Reino Unido e na presença de Stephen Hawking: os animais não são coisas, máquinas, objetos, seres inanimados; todos os mamíferos, aves e muitas outras criaturas do reino animal são dotadas de senciência e consciência assim como nós, humanos.

Senciência é a capacidade que um ser vivo tem de sofrer ou sentir prazer ou felicidade.

Aqui, aproveito pra fazer uma consideração legal.

O C√≥digo Civil em vigor est√° completamente obsoleto no artigo que trata os animais como coisas ou bem semoventes (que andam ou se movem por si pr√≥prio) e ainda que n√£o tenha sido alterado, este tema pode e deve ser interpretado conforme a Constitui√ß√£o (que imp√Ķe a prote√ß√£o da fauna e veda a submiss√£o dos animais √† crueldade). Em alguns casos, o Poder Judici√°rio j√° decidiu que, as Varas de Fam√≠lia, tem compet√™ncia para decidir sobre a guarda compartilhada de animais e regime de visitas quando do t√©rmino de um casamento ou de uni√£o est√°vel, no entanto, a preocupa√ß√£o √© garantir o bem estar emocional dos seus tutores e n√£o o bem-estar animal. Ainda h√° muito a avan√ßar.

Feita esta observa√ß√£o jur√≠dica, retomamos para a quest√£o do com√©rcio de animais. Depois de muitas den√ļncias de ativistas em defesa dos animais a respeito de maus-tratos e crueldade impingida a c√£es e gatos em estabelecimentos que abastecem o mercado pet, a ALESP instaurou CPI para averiguar e debater sobre a venda de animais.

A divulga√ß√£o midi√°tica dos casos de maus-tratos a animais √© de fundamental import√Ęncia, o que n√£o dispensa uma vis√£o mais ampla dessa quest√£o: a crueldade e os maus-tratos n√£o atingem somente a c√£es e gatos e n√£o est√£o restritos a estabelecimentos clandestinos. H√° um sistema perverso de explora√ß√£o em toda e qualquer atividade que envolva a utiliza√ß√£o e instrumentaliza√ß√£o de animais, independentemente de sua esp√©cie.

O comércio de animais, por mais normal e correto que possa parecer aos olhos de quem os vê em vitrines de lojas organizadas e limpinhas, ainda que praticado dentro da legalidade, camufla uma violência sistemática e antiética na medida em que confina seres vivos sencientes e conscientes a fim de reduzi-los a objetos:

  • as f√™meas s√£o tratadas como m√°quinas de reprodu√ß√£o que, depois de muito uso, s√£o descartadas;
  • os criadouros s√£o locais insalubres n√£o havendo nenhum interesse e qui√ß√° possibilidade de fiscaliza√ß√£o do poder p√ļblico.

A sociedade, de modo geral, ainda n√£o v√™ problema algum em se comprar uma vida ao inv√©s de adotar e cuidar de um animal que foi abandonado. Muitas vezes agem sem a menor consci√™ncia sobre o funcionamento e realidade dos criadouros de c√£es de ra√ßa, por exemplo. Al√©m de que as pessoas, na era da sociedade de consumo, se comportam de modo impulsivo e irrefletido, se arrependendo posteriormente da compra ou ainda o fazendo por status. Isto precisa mudar e educa√ß√£o √© papel do Poder P√ļblico.

Atenção senhoras e senhores legisladores! Vida não é mercadoria por simples questão ética, seja comércio legal ou clandestino. Os criadores, para obtenção de lucro máximo em seus negócios, não querem abrir mão desse filão exploratório e devastador de vidas vulneráveis.

Para expressiva parcela da sociedade, apenas os cães e/ou os gatos (espécies escolhidas para alguma estima e consideração) são merecedores de direitos, alguns, como o de não serem espancados ou fisicamente agredidos, o de receberem alimentação e abrigo. Por outro lado, há quem acredite, por ingenuidade ou interesse escuso, que é possível a regulamentação ou credenciamento de criadouros visando atender o bem-estar animal.

Para entender o qu√£o irracional e anti√©tico √© comercializar vidas animais, √© preciso desapegar dos conceitos antropoc√™ntricos (isto √©, o ser humano ocupando uma posi√ß√£o de centralidade em rela√ß√£o a todo o universo, em rela√ß√£o a todos os outros seres vivos de outras esp√©cies e em rela√ß√£o a natureza). √Č preciso tirar o foco do ser humano, tirar o foco no desejo ou qualquer motivo pessoal que possa levar algu√©m a querer comprar um animal no sentido de ter a posse, a sujei√ß√£o, o dom√≠nio de um animal dom√©stico ou silvestre, sem se preocupar com o contexto e implica√ß√Ķes dessa transa√ß√£o comercial.

Mudando esse padrão cultural antropocêntrico, podemos ampliar o nosso horizonte, nosso olhar a respeito das necessidades individuais, sociais e comportamentais dos animais não-humanos, seja lá de qual espécie ele for. Podemos olhar para o animal não-humano, ser vulnerável e frágil, e nos colocarmos por uns instantes no lugar de sua vida, senciente e consciente como a vida da gente, nos afastando do pensamento dominante antropocêntrico que privilegia injustamente a humanidade em seus gostos pessoais, individuais e egoísticos em detrimento dos interesses animais mais fundamentais: vida com dignidade e liberdade.

E assim podemos começar a perceber que, se temos a capacidade de sofrer, os animais de outras espécies também a possui. Tão logo, veremos o sofrimento e crueldade intrínsecos às atividades que envolvem a exploração de animais. Se não queremos ser exploradas ou explorados, devemos ser os primeiros a não explorar. Nosso corpo X corpo deles. Nossa vida X vida deles. O respeito ao próximo inclui o animal não-humano. O comércio de animais (que, a propósito, ocorre após uma reprodução forçada) é exploração, portanto, é atividade imoral e antiética.

No caso de cães e gatos em canis ou gatis os fatos se repetem: animais confinados em espaços muito pequenos, encarcerados muitas vezes em grades ou gaiolas, fêmeas exploradas sexualmente de modo a se manterem em contínua e constante procriação (afinal, quanto mais crias, maior o lucro). E aqui um paralelo necessário (atenção feministas!): a exploração de fêmeas animais guarda um estreito vínculo com a objetificação socialmente dispensada às mulheres dentro de uma cultura patriarcal.

Os filhotes s√£o desmamados prematuramente, e assim, privados do contato com as suas m√£es, ocasionando-lhes defici√™ncias e traumas psicol√≥gicos desde cedo. A sa√ļde das f√™meas escravizadas e compelidas a reprodu√ß√£o n√£o √© levada em considera√ß√£o, sendo comum o desenvolvimento de doen√ßas sem que recebam assist√™ncia veterin√°ria simplesmente porque isto significaria queda nos lucros, al√©m de serem tratadas como como coisas. Por essas e outras, quem ama c√£es e/ou gatos ou outro animal dom√©stico n√£o os compra se adquirir consci√™ncia, n√£o fomenta um com√©rcio degradante e cruel.

Ante tais constata√ß√Ķes, parece claro que n√£o existe a menor possibilidade da exist√™ncia de criadores ‚Äú√©ticos, s√©rios ou conscientes‚ÄĚ que mercantilizam vidas animais.

Logo, a regulamenta√ß√£o da venda de c√£es e gatos √© descabida em sua origem, de modo que inexiste a possibilidade de se evitar o sofrimento ou a crueldade intr√≠nseca a essa atividade lucrativa. Proibir a comercializa√ß√£o de animais dom√©sticos e promover massivas campanhas de conscientiza√ß√£o p√ļblica, promover e incentivar a ado√ß√£o de animais que foram resgatados em situa√ß√£o de abandono, s√£o tarefas do poder p√ļblico, al√©m da formula√ß√£o de pol√≠ticas p√ļblicas para se evitar o abandono e os maus-tratos a animais, programas eficientes de controle populacional de animais por meio √©tico como a cirurgia de castra√ß√£o etc.

Vale esclarecer que, por parte de quem compra um animal, propiciar abrigo, √°gua e alimento √© insuficiente, n√£o √© necessariamente fazer o bem para o animal, que requer uma s√©rie de cuidados espec√≠ficos a depender de sua esp√©cie, de suas necessidades sociais e comportamentais, de seus eventuais traumas psicol√≥gicos, al√©m de refor√ßar a continuidade da explora√ß√£o ininterrupta das f√™meas e demais animais que permanecem em sofrimento nos criadouros. N√£o h√° respeito a vida animal e tampouco amor em tais circunst√Ęncias.

Por outro lado, o argumento geralmente usado por pessoas que tem dificuldade em vislumbrar uma mudan√ßa social efetiva por falta de vontade pol√≠tica ou outro interesse escuso de que “sempre vai ter quem queira comprar um animal” n√£o se justifica para se permitir a perpetua√ß√£o do com√©rcio de animais. Do contr√°rio, seria o mesmo que afirmar ‚Äún√£o se pode proibir a explora√ß√£o porque sempre haver√° quem queira abusar de um vulner√°vel‚ÄĚ, ‚Äún√£o se pode reprovar o estupro porque sempre haver√° quem queira estuprar‚ÄĚ, ‚Äún√£o se pode reprovar o assassinato porque sempre haver√° quem queira matar‚ÄĚ e assim por adiante.

Ao que se sabe, a proibição da reprodução comercial de cães e gatos já foi adotada na Austrália*, apesar do país ser um grande explorador de animais de outras espécies como já falamos em episódio anterior.

Os animalistas abolicionistas que se conscientizaram sobre as m√ļltiplas facetas da explora√ß√£o animal lutam pelo fim da objetifica√ß√£o de todas as esp√©cies de animais, sem exce√ß√£o, onde logicamente tamb√©m √© reconhecida e inclu√≠da a necessidade do fim do com√©rcio de c√£es e gatos e demais animais domesticados, ampliando o debate em defesa da vida animal senciente e consciente.

*(Obs.: a proibição da reprodução comercial de cães e gatos foi adotada apenas no estado de Victoria e não em toda a Austrália).

Comércio de Silvestres

O com√©rcio de animais silvestres √© outro tema que merece absoluta aten√ß√£o. Muito do que falamos at√© aqui sobre com√©rcio de animais dom√©sticos (como os c√£es e os gatos) pode ser estendido e aplicado aos animais silvestres, guardadas as devidas adapta√ß√Ķes.

Tanto na questão do comércio de cães e gatos quanto na questão do comércio de animais silvestres, o problema principal não está na clandestinidade, mas na sua origem: a atividade mercantil. Novamente, há ausência de ética e também há presença de graves prejuízos ambientais quando falamos em comercialização de animais silvestres.

O com√©rcio de animais silvestres, ainda que efetuado dentro de todos os par√Ęmetros legais e administrativos, √© uma quest√£o grav√≠ssima que ultrapassa o sofrimento do indiv√≠duo selvagem. Os p√°ssaros, por exemplo, nascem chocados em incubadeiras em f√°bricas de ovos para depois serem comercializados e mantidos em cativeiro domiciliar (um sofrimento ininterrupto e humanamente inconceb√≠vel dada a viol√™ncia antinatural de seu nascimento, assim como a natureza n√£o domestic√°vel do silvestre, o que j√° seria o bastante para qualquer pessoa sensata se opor a essa nefasta pr√°tica comercial).

O habitat natural desse indivíduo animal fica comprometido já que o silvestre não pode exercer a sua função ecológica proveniente do seu estado de liberdade, ou seja, a retirada de um animal silvestre da natureza para comercialização acarreta num desequilíbrio ambiental incalculável, um prejuízo que se alastra em efeito dominó, já que muitos deles vivem em bandos, além de desequilibrar a cadeia alimentar e ainda fomentar o tráfico desses silvestres como já explicitado por especialistas e profissionais que estão a frente dessa situação caótica no seu dia a dia.

Os animais silvestres em seus ambientais naturais √© que fazem a preserva√ß√£o da pr√≥pria esp√©cie por meio de sua natural reprodu√ß√£o, n√£o fosse a destrutiva interven√ß√£o humana! O animal humano, no exerc√≠cio de sua arrog√Ęncia e gan√Ęncia, n√£o respeita a vida, n√£o compreende a sua import√Ęncia e destr√≥i a vida selvagem, os comercializa, tira proveitos da vida e da liberdade alheia por meio do aprisionamento. Uma vez retirados do ambiente natural para viverem confinados em domic√≠lios ou em grades, esses animais perdem a fun√ß√£o que exerciam na natureza, al√©m de viverem uma longa vida em cont√≠nuo sofrimento.

Animais que evolu√≠ram para viver em grupo, a exemplo dos psitac√≠deos (papagaios, araras, maritacas, calopsitas e afins) n√£o tem a menor possibilidade de terem atendidas as Cinco Liberdades conforme preconiza a ci√™ncia do bem-estar animal que tem por pilar fundamental o estabelecimento de alguns par√Ęmetros avaliativos da sua qualidade de vida.

Todo animal, inclusive o silvestre, precisa estar Livre de Fome e Sede (alimentos adequados à espécie); 2. Livre de Desconforto; 3. Livre de Dor, Ferimentos e Doenças; 4. Livre de Medo e Stress; 5. Livre para Expressar seu Comportamento Natural (também de acordo com as necessidades de sua espécie).

Animais silvestres em estado de c√°rcere privado num domic√≠lio qualquer, ainda que fora de uma gaiola, grade ou jaula, s√£o impossibilitados de expressarem seus comportamentos naturais como por exemplo construir ninhos, escolher seu parceiro sexual, percorrer grandes dist√Ęncias em busca de alimentos, dentre outras atividades primordiais que possam garantir a sua qualidade de vida, sempre considerando-se as caracter√≠sticas pr√≥prias e naturais de sua esp√©cie. Muitos acabam sendo destinados para outro final triste: v√£o parar em zool√≥gicos, pois muitas pessoas cansam de cuidar de um animal silvestre, mudam de resid√™ncia os deixando pra tr√°s, falecem antes deles ou simplesmente n√£o conseguem mant√™-los.

Segundo a Ong Renctas, o com√©rcio de animais em petshop¬īs √© a modalidade que mais incentiva o tr√°fico de animais silvestres no Brasil. Mais uma vez, apelamos para a √©tica. Nem tudo o que queremos, podemos ou devemos. A quest√£o √© simples quando se coloca o foco no lugar certo: o verdadeiro bem-estar do animal silvestre e a preserva√ß√£o ambiental, derrubando-se a barreira do especismo e do antropocentrismo. Os animais silvestres pertencem t√£o somente a natureza e √© nela que devem permanecer. Mais uma vez, o Poder P√ļblico necessita de conscientiza√ß√£o para conscientizar. Quem ama um animal silvestre por sua beleza ou exuber√Ęncia, o respeita em sua natureza e liberdade. Vida silvestre tamb√©m n√£o √© mercadoria.

Foi produzido o document√°rio Silvestre N√£o √Č Pet com a participa√ß√£o de organiza√ß√Ķes em defesa animal e especialistas no tema trazendo a conhecimento p√ļblico o sofrimento desses animais mantidos em domic√≠lio como se domestic√°veis fossem, al√©m do inestim√°vel desequil√≠brio ambiental. Conforme afirmam agentes da pol√≠cia federal, a grande maioria dos criadouros legalizados est√£o diretamente ligados ao tr√°fico,motivo pelo qual n√£o h√° uma garantia segura da proced√™ncia legal desses animais, da√≠ porque o com√©rcio de animais silvestres, ainda que atividade legalizada nos dias atuais, deve ser proibida, at√© mesmo como forma de coibi√ß√£o do tr√°fico, j√° que se traduz num preju√≠zo inestim√°vel para os animais, para os ecossistemas e toda a humanidade.

Quem compra financia essa cadeia exploratória e cruel.

No Brasil é permitida por lei federal a comercialização de silvestres e a Lei de Crimes Ambientais pune o comércio de animais silvestres desde que provenientes de criadouros não autorizados ou sem a devida permissão, licença ou autorização da autoridade competente. A atividade comercial é regulamentada.

Abaixo da lei est√° uma Resolu√ß√£o do Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente) de n¬ļ 394/07 que estabelece crit√©rios para a determina√ß√£o de esp√©cies silvestres a serem criadas e comercializadas como animais de estima√ß√£o.

A legalidade é mera questão de poder, logo nem tudo que é legal acompanha o que é ético, justo ou correto. Todavia, precisamos que a lei traga em seu escopo princípios éticos, uma lei que proíbe uma forma de exploração animal por exemplo.

Por√©m, nenhuma lei ou ato administrativo tem o cond√£o de alterar os fatos naturais da vida. Por mais que seja permitida mediante lei ou regulamentada a cria√ß√£o e comercializa√ß√£o de animais silvestres como dom√©sticos, a gen√©tica e evolu√ß√£o desses animais tem implic√Ęncias diferentes em seus comportamentos naturais.

A desinforma√ß√£o p√ļblica na quest√£o animalista √© alarmante e geral, nos √≥rg√£os p√ļblicos n√£o seria diferente j√° que nestes est√£o os membros representativos da sociedade. Urge um sistema p√ļblico educacional que contemple o animalismo e o ambientalismo, que considere a √©tica animal. O movimento animalista abolicionista com suas m√ļltiplas frentes de batalha tem muito a contribuir e a conscientizar neste sentido.

Desde já é possível a mudança de paradigmas na sociedade que ainda enxerga o animal silvestre como um objeto de desejo ou, no caso dos comerciantes e traficantes, como fonte de lucro.

Necess√°ria se faz a compreens√£o do consumidor sobre o que est√° por tr√°s das apar√™ncias no quesito bem-estar animal quando um animal silvestre √© retirado da natureza para ser criado e tratado como pet. Aten√ß√£o Poder P√ļblico! Queremos o fim da comercializa√ß√£o dos animais silvestres! Nossas vozes precisam ser ouvidas para o bem do coletivo.

√Č indispens√°vel a conscientiza√ß√£o √©tica em respeito √† fauna silvestre na natureza, e al√©m das quest√Ķes ecol√≥gicas fundamentais e o respeito a vida senciente do animal, que sem d√ļvida alguma, sofre por n√£o estar no seu meio natural, ainda h√° a quest√£o grav√≠ssima do fomento ao tr√°fico desses animais. At√© quando negligenciaremos o respeito a vida em todas as suas formas e manifesta√ß√Ķes?

Referências:

CPI Venda de Animais – Alesp

Document√°rio Silvestre N√£o √Č Pet  ‚Äď Sozed-SP

Tr√°fico de Animais Silvestres – Renctas


As outras vozes de Chernobyl

Talvez voc√™ n√£o saiba, ou n√£o soubesse, mas n√£o s√≥ as pessoas n√£o tiveram muita chance logo ap√≥s o desastre em Chernobyl: os animais tamb√©m n√£o tiveram. Ocorrido em abril de 1986, a explos√£o de um reator nuclear na antiga Uni√£o Sovi√©tica vitimou, de imediato, pessoas que trabalhavam na usina naquele fat√≠dico momento e, em seguida, com uma imensa onda de part√≠culas radioativas lan√ßadas ao ar, a vida de animais selvagens e dom√©sticos foi destro√ßada em n√≠vel molecular. N√£o se sabe ao certo o n√ļmero de v√≠timas humanas, que pode girar entre 4 mil ou 96 mil segundo diversas estimativas, em contraposi√ß√£o aos, pasmem, 31 mortos indicados pelos dados oficiais. A vida animal perdida n√£o parece ter sido quantificada, mas √© poss√≠vel deduzir que ela tamb√©m ocorreu aos milhares ou milh√Ķes, a depender da escala que se escolher. Para os animais esses n√ļmeros pouco importam, porque eles foram mais uma vez v√≠timas da nossa ambi√ß√£o.

Na esteira do sucesso mundial da miniss√©rie da HBO, Chernobyl (2019), de Craig Mazain, √© extremamente oportuno lembrar que independente do tipo de evento que provocamos no planeta, a vida animal √© igualmente ou at√© mais impactada. Nessa hist√≥ria, e em especial no quarto epis√≥dio, The happiness of all mankind, acompanhamos o destino dos milhares de animais dom√©sticos da cidade de Pripyat (um local quase ut√≥pico para trabalhadores da usina nuclear gozarem do melhor que o comunismo podia oferecer √† √©poca: uma vida organizada, abastecida, tranquila, sem sobressaltos e totalmente previs√≠vel). Diferentemente das pessoas que deixaram a cidade, tr√™s dias ap√≥s a explos√£o, os animais ficaram. E ficaram porque o governo n√£o informava √†s pessoas sobre a gravidade do ocorrido. A promessa aos cidad√£os era de que tudo voltaria ao normal em apenas tr√™s dias. A sa√≠da da cidade, sem relut√Ęncia a princ√≠pio, parecia at√© razo√°vel, mas n√£o foi o que ocorreu. A cidade, at√© os dias hoje, n√£o tem permiss√£o para ser reabitada dado os ainda altos √≠ndices radiativos que se encontram por l√°, mesmo ap√≥s a conten√ß√£o e a limpeza de √°reas gigantescas. E talvez fique assim para todo o sempre.

Com isso, a miniss√©rie que tentar ser fidedigna aos eventos hist√≥ricos e, claro, bebe de muitas fontes, mas principalmente da obra da pr√™mio Nobel, Svetlana Aleksi√©vitch. Na verdade, Svetlana merecia ser at√© creditada na s√©rie, como revelou o jornal El Pa√≠s, n√£o o foi… A Vanice vai ler, ent√£o, um trecho do livro Vozes de Tchern√≥bil: a hist√≥ria oral do desastre nuclear (2016), desta consagrada bielorrussa que ouviu pessoas que tiveram suas vidas diretamente impactadas:

Do capítulo: *Entrevista da autora consigo mesma sobre a história omitida e sobre por que Tchernóbil desafia a nossa visão de mundo.

“Na terra de Tchern√≥bil, sente-se pena do homem. Mas o bicho d√° mais pena ainda‚Ķ N√£o estou denegrindo, vou explicar. O que restou na zona morta depois que as pessoas foram embora? As velhas tumbas e as fossas biol√≥gicas, como chamam os cemit√©rios de animais. O homem s√≥ salvou a sua pele, todo o resto ele atrai√ßoou. Depois que as popula√ß√Ķes partiram das aldeias, pelot√Ķes de soldados e ca√ßadores foram l√° e abateram os animais. E os cachorros acorriam √† voz humana, e tamb√©m os gatos‚Ķ E os cavalos n√£o podiam entender nada. E eles n√£o tinham culpa, nem as feras nem os p√°ssaros, e morriam em sil√™ncio, isso √© ainda mais terr√≠vel. Houve um tempo em que os √≠ndios do M√©xico e mesmo as popula√ß√Ķes russas pr√©-crist√£s pediam perd√£o aos animais e aos p√°ssaros quando os sacrificavam para se alimentar. No Egito antigo, o animal tinha direito a se queixar do homem. Num dos papiros guardados nas pir√Ęmides est√° escrito: ‚ÄėN√£o h√° nenhuma queixa do touro contra N‚Äô. Antes de partir para o reino dos mortos, os eg√≠pcios liam uma prece que dizia: ‚ÄėN√£o ofendi nenhum animal. E n√£o o privei nem de gr√£o nem de erva‚Äô.

O que a experi√™ncia de Tchern√≥bil nos deu? Ter√° nos conduzido a esse mundo secreto e silencioso dos ‚Äėoutros‚Äô?

Certa vez, vi como os soldados entraram numa aldeia j√° evacuada e come√ßaram a atirar. Os gritos impotentes dos animais‚Ķ Eles gritavam nas suas diversas l√≠nguas. Sobre isso j√° se escreveu no Novo Testamento. Jesus Cristo chegou ao templo de Jerusal√©m e l√° viu animais preparados para o ritual de sacrif√≠cio: com o pesco√ßo cortado, esvaindo-se em sangue. Jesus gritou: ‚ÄėHaveis convertido a casa de ora√ß√Ķes em covil de bandidos‚Äô. Poderia ter acrescentado: ‚Äėem matadouro‚Äô. Para mim, as centenas de fossas biol√≥gicas abandonadas na zona s√£o o mesmo que os t√ļmulos funer√°rios da Antiguidade. Mas dedicados a que deuses? Ao deus da ci√™ncia e do conhecimento ou ao deus do fogo? Nesse sentido, Tchern√≥bil foi mais longe que Auschwitz e Kolim√°. Mais longe que o Holocausto. Tchern√≥bil sugere um ponto final. N√£o se apoia em nada.

Observo o mundo ao redor com outros olhos. Uma pequena formiga se arrasta pela terra, e ela agora me é próxima. Um pássaro voa no céu e também me é próximo. Entre mim e eles, o espaço se reduziu. Não há mais o abismo de antes. Tudo é vida.

Lembro-me tamb√©m do que me contou um velho apicultor (e depois ouvi de outras pessoas): ‚ÄėSa√≠ pela manh√£ ao jardim e notei que faltava algo, faltava o som familiar. Nem sequer uma abelha‚Ķ Eu n√£o ouvia nem uma abelha! Nem uma! O que √© isso? O que est√° acontecendo? No segundo dia, elas n√£o voaram. E tamb√©m no terceiro‚Ķ Depois nos informaram que tinha acontecido um acidente na central at√īmica, que era perto. Durante muito tempo n√£o soubemos de nada. As abelhas sabiam, mas n√≥s n√£o. Agora, se noto algo estranho, vou observ√°-las. Nelas est√° a vida‚Äô.

Outro exemplo. Eu conversava com pescadores junto ao rio e eles me contaram: ‚ÄėN√≥s esper√°vamos que nos explicassem pela televis√£o, que dissessem como nos salvar. E as minhocas. Minhocas comuns. Elas entravam na terra, desciam fundo, meio metro, talvez um metro. E n√≥s n√£o entend√≠amos. N√≥s cav√°vamos, cav√°vamos. N√£o consegu√≠amos nenhuma minhoca para pescar‚Äô.

Quem de n√≥s √© o primeiro, quem est√° mais s√≥lida e eternamente ligado √† terra, n√≥s ou eles? Dev√≠amos aprender com eles como sobreviver. E como viver.”

No epis√≥dio que nos interessa mais pela tem√°tica, observamos que escolher um jovem, rec√©m alistado como liquidador, ou seja, ser um dos 400 mil indicados com a fun√ß√£o de limpar o estrago do desastre, n√£o √© √† toa. Pavel, como ficaremos sabendo, n√£o sabe nada da vida e da morte – ainda. Sua ingrata miss√£o √© atirar naqueles animais dom√©sticos que foram deixados para tr√°s e que, agora, se tornaram uma amea√ßa por estarem altamente contaminados. Aprendendo a manipular um rifle em companhia de calejados soldados (dois combatentes no Afeganist√£o), ele recebe uma ordem direta: “n√£o os fa√ßa sofrer”. Miss√£o imposs√≠vel, o jovem sofre, mas depois se acostuma um pouco e os animais, da fic√ß√£o televisiva, parecem at√© bem saud√°veis, o que aumenta a nossa ang√ļstia em v√™-los morrer com um tiro certeiro (mesmo que de mentirinha, pois segundo o autor da s√©rie, nenhum animal sofreu maus-tratos durante as filmagens). S√≥ que os animais, assim como as pessoas, j√° estavam condenados pela radia√ß√£o que os atingiu logo ap√≥s a explos√£o do n√ļcleo do reator: permanecer na cidade abandonada pelas pessoas s√≥ estava agravando a situa√ß√£o de todos. O que ocorria ali √© o seguinte: suas vidas estavam sendo abreviadas com intuito exclusivamente sanitarista – diferentemente da dos humanos, as quais, em outros epis√≥dios, vemos morrer lentamente no mais profundo sofrimento f√≠sico e ps√≠quico em √°reas de fr√°gil isolamento hospitalar. De novo, a desgra√ßa, ali, foi completa para todas as formas de vida.

T√£o ou mais perigosa que a devastadora radia√ß√£o, a presen√ßa humana, para os animais, √© um sinal de alerta. Na nossa aus√™ncia, portanto, a vida selvagem retorna √†s cercanias de Chernobyl e parece conviver pacificamente com os √°tomos que fugiram do nosso controle. No texto de √Āngel L. Le√≥n para o jornal El Pa√≠s, podemos ter uma ideia de como quando n√£o estamos presentes, a natureza parece se recuperar bem apesar dos pesares. De acordo com o pesquisador ouvido pelo jornalista, James Beasley, que √© ecologista da Universidade da Ge√≥rgia, e que est√° estudando os animais selvagens na vasta √°rea de exclus√£o de Chernobyl, ressalta-se que os dados que ele anda obtendo s√£o o “testemunho da resist√™ncia da vida selvagem quando √© liberada das press√Ķes humanas diretas”. Uma outra fala no texto, dessa vez com Jim Smith, professor de ci√™ncias ambientais na Universidade de Portsmouth, salta aos olhos: “isso [a recupera√ß√£o da vida animal na zona de exclus√£o] n√£o significa que a radia√ß√£o seja boa para a vida selvagem, mas apenas que os efeitos da vida humana, incluindo a ca√ßa, a agricultura e a silvicultura, s√£o muito piores”.

Mas não podemos ver os efeitos em plenitude, por exemplo, nas fotos de Vasily Fedosenko e Gleb Garanich reunidas também no site do jornal El País, pois os efeitos da radioatividade são de longo prazo. Algumas pesquisas apontam essas anomalias: vendo bem de perto é possível, por exemplo, observar tumores em pássaros e até mesmo alteração na coloração de insetos como podemos ver em um vídeo-reportagem do jornal The New York Times, que acompanha os trabalhos do pesquisador Timothy Mousseau.

E vale lembrar: todas essas referências que citamos no Podcast Saber Animal estão no post desse episódio no site saberanimal.org.

Bom, voltando √† miniss√©rie Chernobyl, o autor Craig Mazain, no podcast especial que eles preparam pra falar apenas dessa nova produ√ß√£o da HBO, diz que n√£o se tentou passar uma mensagem antinuclear com a hist√≥ria que contaram. O interesse estava mais concentrado nas quest√Ķes pol√≠ticas e humanas do regime comunista que colocaram a vida de milh√Ķes de pessoas e de animais em risco com a nega√ß√£o constante da realidade e da tentativa de n√£o serem humilhados com o fracasso de tamanha propor√ß√£o atrav√©s da manuten√ß√£o da propaganda de uma na√ß√£o perfeita (novamente, gra√ßas ao comunismo). Os animais, curiosamente dentre tantas outras cenas que foram cortadas por falta de tempo, ganharam destaque especial e nas palavras da colunista Luciana Coelho, da Folha de S. Paulo, eles foram “protagonistas de alguns dos momentos mais tensos da s√©rie”. E foram mesmo! E n√£o s√≥ no quarto epis√≥dio. Mas toda hist√≥ria ficcional, felizmente, permite v√°rias interpreta√ß√Ķes. E com essa n√£o seria diferente. Vale, sim, o alerta para os perigos da energia nuclear que, independente do regime pol√≠tico ou dos padr√Ķes √©ticos que possam conduzir uma atividade desse tipo, podem atingir at√© mesmo o mais perfeito dos projetos. Foi o caso na que talvez seja a mais organizada sociedade do mundo, a japonesa. Em mar√ßo de 2011, a usina nuclear de Fukushima (que funciona com tecnologia americana e n√£o a russa e seus problemas, digamos, peculiares) foi atingida por um tsunami. E mesmo l√°, num Jap√£o livre de qualquer tra√ßo do comunismo, houve desinforma√ß√£o e improvisa√ß√£o ao momento seguinte de um acidente que envolveu √≠ndices de contamina√ß√£o similares ao de Chernobyl (sem falar que a empresa respons√°vel pela usina demorou a admitir que n√£o conseguiu conter o vazamento de √°gua radioativa para o oceano Pac√≠fico em 2013, afinal, o capitalismo tamb√©m apronta das suas).

E eis algo para nos questionarmos: o ser humano pode, de fato, construir um sistema capaz de funcionar sem erros? A resposta √© bem simples: n√£o pode, porque simplesmente n√£o consegue prever tudo. Erros humanos e mesmo cat√°strofes naturais (cada vez mais recorrentes) podem acometer uma usina nuclear (ou mesmo silos com armas nucleares em locais secretos pelo mundo) a qualquer momento e a depender do estrago pode n√£o haver nenhuma chance de conten√ß√£o… Por que n√£o, ent√£o, investir em energia limpa e que n√£o traga consigo esse potencial devastador? Precisamos mesmo de tanta energia? E o que estamos fazendo com toda energia que temos dispon√≠vel para nos arriscarmos tanto assim? Que tipo de vida realmente queremos? Podemos fazer uma lista ainda maior de perguntas para vermos o qu√£o nocivos s√£o esses nossos esfor√ßos, mas n√£o √© mais necess√°rio. Os dados da realidade, e tamb√©m a fic√ß√£o, j√° nos d√£o todas as respostas que precisamos.

Referências:

A vida abre caminho no ecossistema radioativo de Chernobyl, de √Āngel L. L√©on – El Pa√≠s

O ecossistema de Chernobyl 30 anos depoisEl País

Podcast sobre o seriado com a participação do Craig Mazain (em inglês)HBO

Chernobyl’ chega ao fim na HBO com alerta para o futuro, por Luciana Coelho – Folha de S. Paulo

Vozes de Tchernóbil: A história oral do desastre nuclear, de Svetlana Aleksiévitch Edição digital / Edição impressa

The Animals of Chernobyl (em inglês)The New York Times

Chernobyl Legacy, fotos de Paul Fusco РMagmum Photos / Chernobyl Legacy, Paul Fusco fala sobre as suas fotos (em inglês).

Returning to FukushimaNational Geographic


M√ļsicas:

Despicable Dog, Whashed Out

Cats and dogs, Gorilla Biscuits

The black market (Brandon Barnes, Joseph Principe, Tim Mcllrath, Zach Blair), Rise Against

The door (Hildur Gu√įnad√≥ttir), Hildur Gu√įnad√≥ttir

L√≠√įur – Chernobyl Version (Hildur Gu√įnad√≥ttir), Hildur Gu√įnad√≥ttir

Farawell to Pripchat (Tim Dennehy), Christy Moore