ūüźĶ Provoca√ß√Ķes animalistas

pássaro voando no céu azul
Foto: Amanda Letícia / Flickr

O REFORMISMO LEGITIMA O APRISIONAMENTO ANIMAL

Reformismo:

“Doutrina pol√≠tica segundo a qual a transforma√ß√£o da sociedade, com vistas a aperfei√ßoar todos os seus aspectos, pode efetuar-se no quadro das institui√ß√Ķes existentes, por meio de reformas gradativas, sem necessidade de mudan√ßas bruscas, ou de m√©todos revolucion√°rios‚ÄĚ.

Dicion√°rio Houaiss

Por vezes nos deparamos com pessoas que se apresentam como abolicionistas animalistas ou veganas, ao mesmo tempo em que defendem pol√≠ticas reformistas que visam o (inexistente) bem-estar de animais aprisionados para explora√ß√£o, como se fosse poss√≠vel separar a ideologia ou cren√ßa de um √ļnico indiv√≠duo em duas totalmente antag√īnicas, a pretexto de que ‚Äúa sociedade n√£o est√° preparada‚ÄĚ para mudan√ßas radicais ou de que ‚Äún√£o podemos mudar o mundo‚ÄĚ.

Ora, se defendem o bem-estar das ind√ļstrias e do mercado porque a sociedade atual √© especista, n√£o s√£o abolicionistas. Se defendem a regulamenta√ß√£o de formas de sofrimento ou objetifica√ß√£o animal, n√£o s√£o praticantes do veganismo. √Č f√°cil nos autodeclararmos √©ticos, conscientes e compassivos. Pois comove, impressiona e, na atual sociedade, traz at√© uma vantagem moral maior a depender de quem o faz, sobretudo se goza de alguma notoriedade em seu meio. Dif√≠cil √© praticar a √©tica e sustentar a possibilidade e a necessidade de pr√°ticas abolicionistas para os animais aqui e agora, isto √©, no momento hist√≥rico presente.

√Č como se, em tempos idos, tais pessoas se apresentassem como pioneiras defensoras dos Direitos da Mulher, mas na condi√ß√£o de propriedade da figura masculina, do pai, do marido. Ou at√© mesmo defensoras das liberdades femininas, desde que dentro do ide√°rio ocidental das mulheres no liberalismo, as quais reivindicavam a igualdade de direitos em rela√ß√Ķes aos homens sem propor uma mudan√ßa abrupta nos padr√Ķes sociais, ou seja, sem finalidade libert√°ria ou emancipat√≥ria. Assim se apresenta o ideal bem-estarista ou reformista na suposta defesa dos Direitos Animais.

A ativista e fil√≥sofa americana Angela Davis, conhecida defensora das liberdades humanas devido sua trajet√≥ria na milit√Ęncia contra a discrimina√ß√£o racial e pelos Direitos das Mulheres, tamb√©m vegana e defensora do abolicionismo penal, declarou na sua recente vinda ao Brasil:

Nós não reivindicamos uma reforma carcerária, nós queremos que o sistema carcerário seja extinto, abolido. A abolição ao sistema carcerário, não à forma do sistema carcerário.

Da mesma forma, também no abolicionismo animal, repetimos à exaustão a famosa frase do filósofo e ativista americano Tom Regan:

N√£o queremos jaulas maiores, queremos jaulas vazias.

Ante um flagrante sistema de injustiça que promove o aprisionamento, não há sentido em trabalhar pela continuidade do sofrimento do encarcerado por meio de melhorias no estabelecimento prisional ao invés de buscarmos restabelecer a justiça para a vítima na sua retirada do cárcere.

Em todo e qualquer movimento libertário, a primeira libertação a ser concretizada certamente é a da nossa própria mente. Já a liberdade física é um bem precioso demais para se abrir mão quando falamos de vítimas de um sistema brutal, de injustiça e de seres inocentes.

QUEM √Č A ‚ÄúSOCIEDADE?‚ÄĚ

Quando √© que a tal sociedade esteve ‚Äúpronta‚ÄĚ para alguma revolu√ß√£o?

Na quest√£o feminista podemos tomar como exemplo hist√≥rico o pioneirismo das russas e sovi√©ticas no que se refere √† luta das mulheres por suas conquistas e pela sua liberta√ß√£o, sendo de fundamental import√Ęncia a organiza√ß√£o dessas mulheres em diversos processos revolucion√°rios ao longo da hist√≥ria.

‚ÄúEst√° na hora, finalmente, de compreender que o movimento feminista n√£o tem como objetivo a luta contra o sexo masculino, mas sim est√° direcionado √† organiza√ß√£o das mulheres, √† mobiliza√ß√£o daquela metade da popula√ß√£o que est√° inerte para o combate dos preconceitos, independentemente de quem seja o agente deles: homem ou mulher. (…) √Č por isso que as mulheres batalham tanto em favor dos interesses pr√≥prios, assim como em favor dos interesses de seus filhos e irm√£os ‚Äď cuja vida e felicidade consideram sua obriga√ß√£o defender, como o fazem tamb√©m os melhores dos homens.‚ÄĚ (Anna Andr√©ievna Kalm√°novitch, Algumas palavras sobre o feminismo – 1907, em A Revolu√ß√£o das Mulheres).

A cita√ß√£o aqui transcrita pode ser considerada uma boa analogia na luta pela liberta√ß√£o animal, pois o objetivo do ativismo em defesa dos Direitos Animais n√£o deve ser o do exerc√≠cio da vingan√ßa, do mero punitivismo e, tampouco, colide com os Direitos Humanos mas, sim, como a√ß√Ķes voltadas a um combate radical (que vai na raiz) da viol√™ncia humana dirigida contra os animais n√£o-humanos – ainda solidificada na tirania do antropocentrismo.

Refletindo, ainda, sobre as palavras de Anna Andr√©ievna, o movimento abolicionista animalista ou vegano traz a √©tica para o centro das rela√ß√Ķes humanas, com vistas a mobilizar grande parcela da popula√ß√£o que est√° inerte acerca da injusti√ßa hist√≥rica e social para com os animais n√£o-humanos por meio da conscientiza√ß√£o, da (re)educa√ß√£o, da aboli√ß√£o de pr√°ticas explorat√≥rias de consumo, entretenimento, tra√ß√£o, experimenta√ß√£o, vestu√°rio, esporte, com√©rcio, do fim da objetifica√ß√£o animal em todos os setores sociais, da inclus√£o e do reconhecimento dos animais n√£o-humanos como titulares de direitos fundamentais, tais como o direito √† vida, √† liberdade, √† dignidade, √† integridade, ao exerc√≠cio da maternidade, √† fun√ß√£o ecol√≥gica, √† perpetua√ß√£o da esp√©cie, ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, dentre outros poss√≠veis.

Os direitos dos animais n√£o-humanos s√£o deveres humanos.

A sociedade n√£o √© uma entidade inalcan√ß√°vel, n√≥s compomos a sociedade, n√≥s somos a sociedade. Cada pessoa que se coloca na vanguarda de sua √©poca √© correspons√°vel para fazer acontecer imediatamente a mudan√ßa necess√°ria, atrav√©s da mobiliza√ß√£o de possibilidades de liberta√ß√£o existentes e, assim, abrir caminhos que servir√£o a quem tamb√©m se dispuser a caminhar nessas dire√ß√Ķes. √Č preciso pr√°tica e engajamento constantes na constru√ß√£o de narrativas abolicionistas consistentes e que ultrapassem a aspira√ß√£o e apenas o discurso.

Para a conquista ou reconhecimento de direitos n√£o h√° ‚Äúsociedade pronta‚ÄĚ ou “ideal” e n√£o h√° d√ļvida de que estamos em uma era de transi√ß√£o. Que saibamos, ent√£o, aproveit√°-la para a revolu√ß√£o libert√°ria!

A mudan√ßa social tamb√©m √© o reflexo do convencimento individual que promove transforma√ß√£o interna em cada indiv√≠duo (sentir, pensar) e este, por sua vez, passa a se reorientar de modo diverso no seu cotidiano e nos ambientes em que se coloca (agir conforme suas convic√ß√Ķes), tornando-se, assim, um revolucion√°rio e potencial influenciador para que outros indiv√≠duos sigam o processo dessa evolu√ß√£o na constru√ß√£o de um coletivo libert√°rio e engajado. Essa √© uma forma “invis√≠vel” do movimento por liberta√ß√£o animal em andamento e que precisa se organizar para viabilizar a aboli√ß√£o animal nos mais diversos espa√ßos – agora mesmo.

ATIVISMO EM DEFESA DOS ANIMAIS NÃO-HUMANOS? ONDE?

Ao contr√°rio do que muitos pensam, a prote√ß√£o animal √© um movimento de longa data no Brasil, no entanto, nos √ļltimos anos vem perdendo a sua for√ßa pol√≠tica. Entidades pulverizadas pelo pa√≠s com pouca ou nenhuma expressividade, falta de profissionalismo ou corpo t√©cnico especializado, ado√ß√£o de estrat√©gias n√£o libert√°rias ou ainda propagadoras da cultura especista e at√© mesmo as famosas fake news assombram a causa dos animais.

Quem √© abolicionista constr√≥i narrativas para a liberta√ß√£o e batalha para a concretiza√ß√£o de discursos libert√°rios que obviamente incluam os animais. Exemplo: necessidade de pol√≠ticas p√ļblicas (com mobiliza√ß√£o da sociedade civil, governos, institui√ß√Ķes e empresas) para implementa√ß√£o de dieta vegetariana estrita nas escolas e hospitais todos os dias da semana, em benef√≠cio da sa√ļde, do meio ambiente, de uma cultura de paz e educa√ß√£o humanit√°ria nas escolas (que inclui o respeito a todos os seres vivos), no ensino de rela√ß√Ķes √©ticas, bioc√™ntricas e socialmente justas, dentre outras tantas possibilidades.

Há a necessidade de constantes engajamentos que, efetivamente, libertem vítimas e não reformas de sistemas opressores. Enquanto a disputa pela abolição não acontece em um nível organizado e significativo, parte do ativismo em defesa dos Direitos Animais vem sendo aliciado por interesses outros que não a emancipação dos animais.

“O oportunismo √© uma planta que cresce no p√Ęntano, multiplicando-se de modo luxuriante nas √°guas estagnadas do movimento. Se a √°gua correr forte e r√°pida, a planta morrer√° sozinha”. [Fala de Rosa Luxemburgo, em Rosa Vermelha, de Kate Evan]

Além de um ativismo desarticulado, falta de compreensão e divergências ideológicas acerca de temas que se relacionam com a defesa animal também acabam por influenciar o movimento abolicionista, e consequentemente, o desdobramento do ativismo entre os mais diversos grupos militantes.

Enquanto alguns pol√≠ticos oportunistas usam a bandeira leg√≠tima da causa animal para adentrarem, ou se perpetuarem, nos espa√ßos de poder encontrando apoio em uma base militante ‚Äúanimalista‚ÄĚ politicamente fraca em preju√≠zo dos interesses animais, outros ativistas aplaudem o discurso do mercado (discurso liberal) ao apostarem que o fim da explora√ß√£o dos animais n√£o-humanos vir√° com a ades√£o das grandes empresas escravagistas na fabrica√ß√£o de produtos sem v√≠nculo com a explora√ß√£o animal, isto √©, de produtos que n√£o contenham insumos de origem animal e que n√£o sejam testados em animais. Alguns ignoram o fato de que quando h√° muito poder envolvido e investimentos de bilion√°rios para que tudo permane√ßa como est√°, falar em √©tica √© sempre mais complicado, afinal a roda da fortuna do capital precisa se manter girando para lucrar de todos os lados poss√≠veis e inimagin√°veis.

Onde está o ativismo pela libertação animal?

Em termos pr√°ticos, alienados, iludidos e oportunistas de todos os cantos usam ou contribuem com o uso dos mais vulner√°veis, trabalhando em sintonia com os grandes capitalistas para legitimar ainda mais a explora√ß√£o dos animais e, no m√°ximo, se engajam em assuntos ou campanhas que visam pequenas (ou aparentes) reformas dentro das engrenagens explorat√≥rias do sistema. Est√° claro que estas a√ß√Ķes n√£o servem ao abolicionismo animalista.

Grupos e ativistas “pelos animais” que possuem ideologia liberal e defendem o chamado ‚Äúveganismo estrat√©gico‚ÄĚ ou ‚Äúpragm√°tico‚ÄĚ estariam praticando a defesa, propriamente dita, dos (direitos) animais? A estrat√©gia e o pragmatismo que desenvolvem atendem satisfatoriamente √†s demandas dos mercados da explora√ß√£o animal, afinal a consci√™ncia do p√ļblico consumidor vem se “ampliando” no tocante √† situa√ß√£o dos animais explorados (especialmente os “de produ√ß√£o” intensiva) e, claro, os capitalistas n√£o perderiam a chance de explorar mais esse fil√£o. Ah, mas eles s√£o muito bondosos e √©ticos com os animais (√© bom esclarecer que aqui estou sendo ir√īnica) e prestativos com seu p√ļblico consumidor (que, por sinal, tamb√©m se acha super √©tico ao consumir um “ovo org√Ęnico” – e n√£o √© mera coincid√™ncia).

Tirar galinhas (que j√° sofrem extrema crueldade desde o nascimento) da gaiola para que permane√ßam confinadas em galp√Ķes botando ovos at√© √† exaust√£o e morte para continuar atendendo ‚Äúmelhor‚ÄĚ o acomodado mercado consumidor (que ignora os riscos √† pr√≥pria sa√ļde) √© um exemplo do tal ‚Äúveganismo estrat√©gico‚ÄĚ. √Č estrat√©gico para o mercado que n√£o abole a explora√ß√£o, logo n√£o h√° veganismo algum nisso.

Ali√°s, uma massa popular forte e cr√≠tica, ainda que de forma√ß√£o vagarosa, fatalmente se voltaria contra os mais diversos mercados da explora√ß√£o, o que n√£o seria nada estrat√©gico para os mercadores da morte, mas absolutamente desej√°vel pelos veganos e abolicionistas que boicotam (na medida do poss√≠vel e pratic√°vel) e incentivam o boicote de empresas exploradoras de vidas animais (e n√£o s√≥) por um √ļnico motivo: a defesa das v√≠timas, indefesas e subjugadas.

O ‚Äúveganismo de mercado‚ÄĚ ou ‚Äúveganismo estrat√©gico‚ÄĚ est√° presente nas institui√ß√Ķes que defendem o bem-estarismo industrial (j√° que bem-estar animal n√£o √© poss√≠vel por quest√Ķes intr√≠nsecas ao confinamento) e estas, por sua vez, promovem campanhas nitidamente contr√°rias ao fim da explora√ß√£o animal (a exemplo das galinhas fora de gaiolas) ao mesmo tempo em que afirmam, em v√£o, estarem lutando pela aboli√ß√£o de modo ‚Äúmais r√°pido e eficiente‚ÄĚ. Com argumentos capciosos e bastante embroma√ß√£o ret√≥rica tamb√©m s√£o eficientes em ludibriar e confundir o p√ļblico que se importa, de fato, com os animais.

Uma dessas organiza√ß√Ķes “em defesa animal” (que na realidade defende medidas para o bem-estar dos empres√°rios da morte) foi desvendada pelo ativista estadunidense Gary Francione. O ativista, professor de direito e autor de obras publicadas sobre abolicionismo animal mostrou que a Mercy For Animals, em 2016, abandonou o discurso abolicionista que at√© ent√£o fazia (em 2014 promovia campanhas p√ļblicas sobre a crueldade da cria√ß√£o de galinhas tamb√©m fora de gaiolas ‚Äď sistema ‚Äúcage-free‚ÄĚ) depois que recebeu um milh√£o de d√≥lares de um fundo de investimento bilion√°rio para ‚Äúexecutar campanhas corporativas de ovos sem gaiolas‚ÄĚ.

Como √© de se imaginar, outras organiza√ß√Ķes similares (bem-estaristas) tamb√©m receberam e recebem investimentos milion√°rios para executarem campanhas eficientes em prol da ind√ļstria pecu√°ria. Percebe de quem √© o bem-estar? N√£o se afasta a crueldade imposta aos animais, mas cria-se um fort√≠ssimo marketing do faz de conta de que acabar√£o com o sofrimento dos animais confinados (a √ļnica forma de parar o sofrimento e a crueldade com esses animais √© a fal√™ncia dessa ind√ļstria) e, se n√£o bastasse, ainda vendem uma imagem de que s√£o √©ticos porque “respeitam” os animais e seus queridos consumidores. Tudo isso √© extremamente c√īmodo e conveniente para muitos, menos para os animais n√£o-humanos aprisionados e brutalizados.

De outro lado, a exist√™ncia de um discurso um tanto semelhante no tocante ao estabelecimento das prioridades de alguns “ativistas veganos” que fazem hierarquiza√ß√£o dos interesses animais: seres humanos (ou grupos sociais) em posi√ß√£o de destaque no chamado ‚Äúveganismo interseccional‚ÄĚ ‚Äď n√£o √† toa j√° apelidado de humans first (indicativa da liberta√ß√£o priorit√°ria de seres humanos) – em contraponto ao ‚Äúveganismo estrat√©gico‚ÄĚ que tem exaltado o “mercado vegano” em expans√£o.

E os animais n√£o-humanos?

No ‚Äúveganismo interseccional‚ÄĚ (diferentemente do “estrat√©gico”) logicamente n√£o existe a for√ßa do capital porque s√£o lutas pela garantia de direitos dentro do espectro pol√≠tico da esquerda (e na perspectiva anticapitalista), mas e se existisse um modo de conquistar mais direitos (ou at√© mesmo mais ‚Äúprivil√©gios / poderes‚ÄĚ humanos) √† base da continuidade da explora√ß√£o animal? Aqui n√£o h√° absolutamente nenhuma diferen√ßa com o ‚Äúveganismo estrat√©gico‚ÄĚ. O ativismo animalista abolicionista (ou o ativismo vegano) trata essencialmente sobre o holocausto que praticamos (enquanto humanidade) contra os animais n√£o-humanos e n√£o sobre n√≥s, humanos. Veganismo n√£o √© sobre os nossos conflitos humanistas, embora possa haver uma correspond√™ncia, no campo da √©tica, com os conflitos humanos.

Em ambos espectros pol√≠tico-ideol√≥gicos, h√° um desejo comum presente em determinados ativismos em acrescentar nomes, novas ideias ou novos conceitos ao “veganismo” – termo ainda pouco difundido socialmente e tamb√©m pouco compreendido, ali√°s, sequer praticado por alguns ativistas da “causa animal” -, e assim, todos acabam contribuindo com o refor√ßo de uma cultura antropoc√™ntrica e especista.

A liberdade humana n√£o √© ilimitada. A palavra “veganismo” j√° traz consigo um conceito totalmente inclusivo, sem necessidade de compor com outra palavra que melhor o defina, a meu ver. Al√©m da perspectiva √©tica subjacente ao conceito do veganismo (a luta contra a opress√£o de seres sencientes), todos n√≥s, seres humanos, somos animais, portanto, o veganismo j√° contempla a igual considera√ß√£o dos interesses / direitos humanos! Afinal, qual a relev√Ęncia pr√°tica de segregar ativistas ao estabelecer mais uma nomenclatura (“veganismo interseccional” – e todos os embates infrut√≠feros para a defesa dos animais n√£o-humanos) quando precisamos, efetivamente, de cada pessoa consciente do especismo (e de outras pr√°ticas opressoras) que muda comportamentos e assim promove transforma√ß√Ķes no campo social?

Os diversos movimentos sociais – especialmente os progressistas – “mais do que ningu√©m” (por uma quest√£o de coer√™ncia l√≥gica e for√ßa moral √†s batalhas que travam), s√£o os que devem incluir imediatamente os animais n√£o-humanos nas suas considera√ß√Ķes morais, pois os abolicionistas animalistas (veganos) j√° o fazem. Os direitos humanos fundamentais s√£o, em √ļltima (ou primeira) an√°lise, direitos animais, ante a natureza do ser senciente que somos.

Essas sutilezas n√£o s√£o observadas quando h√° tentativa de imposi√ß√£o, um tanto autorit√°ria, por alguns ativistas de esquerda para ades√£o √†s novas pr√°ticas e r√≥tulos dentro do ativismo vegano. Ali√°s, o que diabos significa para tais ativistas a tal “interseccionalidade” na defesa pr√°tica dos n√£o-humanos √© um enigma. Para os veganos animalistas (abolicionistas pela liberta√ß√£o animal), o “veganismo interseccional” refor√ßa o especismo e o antropocentrismo, j√° que os envolvidos (movimentos sociais progressistas e seus integrantes) n√£o demonstram pretenderem abrir m√£o da explora√ß√£o e subjuga√ß√£o dos animais n√£o-humanos, muito pelo contr√°rio.

Se n√£o podemos exigir milit√Ęncia de ningu√©m, ainda pedem uma nova milit√Ęncia de quem j√° milita na causa que escolheu? √Č a enfadonha patrulha ideol√≥gica que cerceia a liberdade de veganos e de outros ativistas que n√£o integram o “universo bin√°rio”.

E a libertação dos animais não-humanos do especismo humano?

O ‚Äúveganismo” estrat√©gico / pragm√°tico atende ao que dita o mercado (ideologia de direita) e o ‚Äúveganismo” interseccional atende o que ditam os movimentos sociais por liberta√ß√£o humana (ideologia de esquerda). Ambos querendo estabelecer uma grada√ß√£o ou ordem para o que imaginam ser a liberta√ß√£o animal, cada qual com seus interesses especistas e antropoc√™ntricos.

Apesar da import√Ęncia da identifica√ß√£o de conex√Ķes entre as diversas lutas emancipat√≥rias (no campo pol√≠tico progressista), j√° que toda opress√£o √© reprov√°vel, estas tamb√©m n√£o se confundem com o movimento pela liberta√ß√£o dos animais n√£o-humanos quando se faz a sobreposi√ß√£o de causas em uma valora√ß√£o violenta, injusta e nitidamente especista (portanto, discriminat√≥ria) que passa a privilegiar imediatamente um direito humano (a exemplo de minorias historicamente oprimidas) em preju√≠zo de um direito animal igualmente importante, ou at√© mesmo mais importante conforme o caso.

SER RADICAL √Č BOM E TEM POTENCIAL REVOLUCION√ĀRIO!

Se posicionar firmemente contra o racismo, contra o sexismo e contra pr√°ticas discriminat√≥rias e abusivas √© ser radical. O especismo √© tamb√©m uma discrimina√ß√£o violenta. Ser radicalmente contra a subjuga√ß√£o de uma vida senciente e contra toda forma de opress√£o que abusa, violenta, fere e mata pode ser bastante chato e inc√īmodo para quem n√£o respeita o outro ser, mas √© bom e necess√°rio para quem necessita de respeito e acolhimento: a v√≠tima, inclusive a n√£o-humana. Ser radical √© bom!

Uma pessoa vegana √© radical porque, atrav√©s de a√ß√Ķes efetivas e concretas (absten√ß√£o individual da explora√ß√£o dos animais na medida do poss√≠vel e pratic√°vel), ela vai na raiz das opress√Ķes que os seres humanos (das mais diversas etnias, g√™neros, classes sociais etc) dirigem – desde o apogeu das civiliza√ß√Ķes humanas em uma base estruturante para perpetua√ß√£o social, cultural e econ√īmica da explora√ß√£o animal – contra os grandes injusti√ßados: os animais n√£o-humanos. Um vegano deixa de participar dessa barb√°rie, da matan√ßa, da crueldade e da covardia presentes nas mais diversas formas de explora√ß√£o animal atrav√©s de simples atos (pol√≠ticos) do cotidiano que revelam a manifesta√ß√£o de uma consci√™ncia √©tica no sentido de que n√£o h√° o direito humano de oprimir os animais e assim d√° a sua contribui√ß√£o pessoal com o exerc√≠cio da justi√ßa almejada para com estes seres sencientes e indefesos.

Os adeptos do veganismo não tomam para si essa discriminação brutal e bárbara que um dia haverá de envergonhar toda a humanidade: o especismo. Nenhuma vida vale menos. A vida de quem quer viver importa. Os animais não-humanos, assim como nós, também querem viver. Veganos combatem o especismo, que subjuga e mata seres vivos que querem viver! Por entendermos que não é ético matar quem não quer morrer, somos radicais.

Se somos pertencentes ao reino animal, humanos e n√£o-humanos, n√£o h√° justificativa alguma para violentarmos e brutalizarmos os nossos semelhantes, ou fisicamente n√£o-semelhantes devido a diferen√ßa de esp√©cies. A avers√£o √†s diferen√ßas interesp√©cies √© um dos pilares de uma civiliza√ß√£o humana dormente que aprendeu a justificar qualquer atrocidade e a banalizar o mal, subjugando o pr√≥ximo (ser vivo). Permitir o dom√≠nio e ser conivente com o exterm√≠nio em massa dos animais n√£o-humanos porque eles n√£o s√£o da nossa esp√©cie humana d√° suporte para outras viola√ß√Ķes √©ticas e discriminat√≥rias: de etnia, de g√™nero, de classe social. Se aprendemos a violentar, podemos (re)aprender a amar o pr√≥ximo, a respeitar.

A prática do veganismo é um exemplo vivo revolucionário e multiplicador. Salvamos os animais não-humanos e assim eles também nos salvam do pior de nós, da nossa tirania e egoísmo, uma via de mão dupla. A autotransformação evolutiva é um processo individual e só se torna possível quando nos dispomos a dar o primeiro passo, conscientes das práticas libertárias e da urgência necessária. Mudar o mundo é, antes de mais nada, mudar a nós mesmos a nível individual e coletivo.

Exigimos radicalmente o que é por direito aos animais, a libertação dos animais da opressão humana, o direito de viver, a dignidade e integridade. O veganismo busca a libertação animal na sua ampla acepção, a ética inclui os (animais) humanos. Lutamos para que todos os seres sejam felizes, daí a nossa radicalidade.

A LIBERTA√á√ÉO ANIMAL J√Ā COME√áOU!

O animalismo abolicionista √© um movimento pol√≠tico e nesta condi√ß√£o cada pessoa vegana pode se reconhecer como coautora de um processo emancipat√≥rio, revolucion√°rio em sua ess√™ncia, que sacode as estruturas econ√īmicas e sociais assemelhando-se √†s defesas das liberdades humanas.

Animalistas abolicionistas ou veganos sabem bem que é plenamente possível viver a própria vida sem participar da exploração de animais em atividades diversas (alimentação, vestuário, entretenimento etc) poupando-os da matança e do sofrimento. Esse movimento mundial está em curso.

A liberta√ß√£o animal n√£o √© algo de um futuro distante, j√° se iniciou e est√° acontecendo aqui e agora. Ent√£o podemos observar de longe, com indiferen√ßa e ego√≠smo, sem nos envolver, lutar para que a explora√ß√£o continue (na defesa do bem-estarismo industrial) ou podemos (e devemos) nos sintonizar com o movimento abolicionista fazendo parte dessa revolu√ß√£o ‚Äúsilenciosa‚ÄĚ aderindo ao veganismo, que certamente se funda em uma nova perspectiva √©tica, animalista e bioc√™ntrica (animalismo que em sua amplitude moral abarca os seres humanos e a natureza) na constru√ß√£o de uma massa cr√≠tica potente que pressiona cada vez mais setores da sociedade civil para a aboli√ß√£o da explora√ß√£o animal e ambiental.

Enxergar outros modos de pensar e sentir o mundo √© mais do que poss√≠vel, √© desej√°vel e pratic√°vel. √Č necess√°rio lutar sem tr√©gua por narrativas libert√°rias, despertando a sociedade para o movimento abolicionista em defesa animal, em contraposi√ß√£o √†s crescentes demandas bem-estaristas do mercado e √†s defesas arcaicas quanto a imagin√°ria necessidade de uso, objetifica√ß√£o e explora√ß√£o de animais. A n√£o submiss√£o √† crueldade √© um direito animal constitucional que deve ser considerado e assegurado.

A discuss√£o contempor√Ęnea sobre o desmatamento da Amaz√īnia e da emerg√™ncia clim√°tica, do devido respeito √†s terras dos povos origin√°rios que est√£o demarcadas e por demarcar, s√£o algumas das pautas que se relacionam diretamente com o movimento vegano / abolicionista animalista, o que refor√ßa o entendimento da necessidade de ado√ß√£o de uma dieta vegetariana estrita (vegana) para minar uma das maiores engrenagens que mais devasta a vida humana e planet√°ria (abertura de pastos, monoculturas para alimenta√ß√£o desses animais, genoc√≠dio dos povos origin√°rios, destrui√ß√£o da flora e fauna silvestre, emiss√Ķes de gases nocivos de efeito estufa, impactos nocivos √† sa√ļde humana): a ‚Äúind√ļstria da carne‚ÄĚ e seus derivados.

SOMOS TODOS ANIMAIS: UM FATO INESCAP√ĀVEL

Se as pr√°ticas explorat√≥rias e predat√≥rias persistem e nos parecem cada vez mais crescentes, seja em escala individual (preda√ß√£o do valor intr√≠nseco da vida), seja a n√≠vel global, os movimentos libert√°rios e anti-opress√Ķes tamb√©m crescem vertiginosamente, talvez n√£o na mesma velocidade que gostar√≠amos, mas o fato √© que n√≥s existimos e resistimos, e assim, parece que outro caminho n√£o h√° sen√£o o da inclus√£o inexor√°vel do respeito √† vida animal e ambiental, aliados ao respeito √† vida humana.

√Č preciso colaborar ativamente na constru√ß√£o de um mundo novo que inclua valores √©ticos e fraternos que nos s√£o humanamente essenciais na constru√ß√£o de uma sociedade realmente justa, solid√°ria e fraterna, sendo tais valores imprescind√≠veis para avan√ßarmos daqui por diante, at√© mesmo como quest√£o de sobreviv√™ncia em um futuro pr√≥ximo que se vislumbra.

Que fa√ßamos acontecer a justi√ßa socioambiental de modo a n√£o deixarmos nenhum ser senciente vitimado para tr√°s. √Č preciso que cada indiv√≠duo coopere e se importe, sinceramente, com cada vida. Se n√£o nos importamos com a vida alheia, quem se importar√° com a nossa? 

Precisamos nos empoderar daquilo que minimamente nos cabe: vivermos a pr√≥pria vida sem a explora√ß√£o de outras vidas, na constru√ß√£o coletiva de uma justi√ßa animalista, humana e ambiental, uma justi√ßa universal inclusiva. O movimento animalista abolicionista ou vegano pode ‚Äúsalvar o mundo‚ÄĚ se lembrarmos que tamb√©m precisamos salvar a n√≥s mesmos.

Na defesa dos direitos animais, temos a certeza da plausibilidade da constru√ß√£o de caminhos para a liberta√ß√£o. √Č preciso libertar aqui e agora. Se n√£o n√≥s (veganos / animalistas abolicionistas), quem? Se n√£o agora, quando?

A humanidade passar√° a enfrentar cada vez maiores desafios devido √† emerg√™ncia clim√°tica em curso. Tal mudan√ßa veio para ficar, portanto nossas adapta√ß√Ķes e transi√ß√Ķes, sobretudo as mais simples, precisam acontecer j√°. √Č absolutamente urgente. A vida √© um movimento cont√≠nuo. Mudar h√°bitos ultrapassados que violentam outras vidas criando e expandindo a consci√™ncia √©tica √© simples demais, basta disposi√ß√£o e iniciativa.

Cada vez mais, vem sendo desnudada a barbárie humana contra os animais não-humanos; o antropocentrismo já é decadente e o veganismo chegou para iniciar essa revolução até que o velho mundo calcado em bases predatórias e egoísticas se desmorone por completo cedendo espaço para o novo, para a concretização da consciência biocêntrica em respeito a todos os seres vivos.