ūüõĎ O assassinato e a explora√ß√£o de animais nos colocar√° diante de novas pandemias

Mapa da pandemia Covid-19
Mapa da pandemia Covid-19

A cada nova crise, pesquisadores e estudiosos geralmente apresentam seus pontos de vista em suas respectivas √°reas de atua√ß√£o, no entanto, dificilmente investigam todas as variantes quando esbarram em quest√Ķes ou temas que exigem maior radicalidade no seu enfrentamento. Esse pode ser o papel das defensoras e defensores dos Direitos Animais, tamb√©m conhecidos como veganas(os) ou animalistas abolicionistas.

Desde o in√≠cio deste s√©culo estamos nos expondo, com maior frequ√™ncia, a surtos de doen√ßas zoon√≥ticas, isto √©, doen√ßas que podem ser transmitidas entre os animais. As zoonoses advindas da explora√ß√£o de animais n√£o humanos para o consumo humano parecem ser um dos grandes perigos para a sa√ļde do s√©culo XXI, a exemplo da fam√≠lia dos coronav√≠rus, isto se n√£o fizermos o que devemos fazer se quisermos, de verdade, nos livrar de situa√ß√Ķes semelhantes em um futuro pr√≥ximo.

UM FUTURO SEM OUTRA ‚ÄúCOVID-19‚ÄĚ: CONSTRUA VOC√ä MESMO A PARTIR DE HOJE

Estamos em 2020. O v√≠rus SARS-CoV-2 (que causa a doen√ßa chamada Covid-19 e veio a se alastrar como pandemia) j√° √© a s√©tima cepa ou linhagem do coronav√≠rus (√© o novo coronav√≠rus), tendo antes passado pela SARS (S√≠ndrome Respirat√≥ria Aguda Grave ‚Äď SARS-CoV) em 2002-2003 e pelo MERS-CoV (Coronav√≠rus da S√≠ndrome Respirat√≥ria do Oriente M√©dio) em 2012. Se as causas origin√°rias dessas doen√ßas se perpetuarem como pr√°ticas ‚Äúnormais‚ÄĚ e socialmente aceitas, num cen√°rio onde a humanidade ocupa-se demasiadamente do que diz e faz o l√≠der da vez (se √© que existir√£o l√≠deres como conhecemos hoje), o que nos aguarda para o ano de 2030 por exemplo?

Voltando um pouco no tempo, na d√©cada de 90, a encefalopatia espongiforme bovina virou uma epidemia afetando fatalmente os seres humanos. Popularmente conhecida como ‚Äúdoen√ßa da vaca louca‚ÄĚ, essa doen√ßa neurodegenerativa surgiu em meados dos anos 80 na Inglaterra entre os animais bovinos, causando uma doen√ßa igualmente mortal e incur√°vel nos seres humanos (uma variante da doen√ßa de Creutzfeldt-Jakob) que consiste em uma desordem cerebral degenerativa como resultado do contato ou consumo de carne e leite dos animais portadores da doen√ßa.

A gan√Ęncia pelo lucro, √ļnica raz√£o de exist√™ncia da pecu√°ria intensiva, faz com que a ind√ļstria moa os corpos de animais em estado ag√īnico, j√° mortos ou doentes que n√£o ser√£o destinados aos a√ßougues, restaurantes e supermercados por terem ficado absolutamente incapacitados para sobreviverem at√© o dia ‚Äúcerto‚ÄĚ de sua morte, incapacitados de se reproduzirem, incapacitados de suas necessidades vitais como se manter em p√© ou se alimentar, vindo a ser descartados no lixo (literalmente falando), mas n√£o sem antes tirar proveito financeiro de suas carca√ßas putrefatas transformando-os em farinha para destinos variados, sendo um deles na produ√ß√£o de ra√ß√Ķes prontas para uso adquiridas no com√©rcio e tamb√©m usadas para constituir ra√ß√Ķes que alimentam animais da mesma esp√©cie, os bovinos que, ali√°s, s√£o herb√≠voros. Da√≠ se originou a doen√ßa zoon√≥tica da ‚Äúvaca louca‚ÄĚ, isto √©, uma vaca se alimenta de restos mortais de outra vaca infectada e depois ser√° servida de alimento para um ser humano.

A crueldade praticada contra as vacas escravizadas para a satisfa√ß√£o humana (e n√£o s√≥ as vacas e demais bovinos, mas outras tantas esp√©cies de animais) √© um tema que merece aten√ß√£o especial e para n√£o desviar o foco do que me traz aqui neste texto, tratarei em tempo oportuno. √Č importante sabermos que as doen√ßas humanas provocadas pela ingest√£o da chamada prote√≠na animal (e outros ‚Äúprodutos‚ÄĚ comercializados pela ind√ļstria pecu√°ria – as secre√ß√Ķes derivadas dos animais) n√£o s√£o apenas virais. Por ora, deixo um convite para reflex√£o: com uma vastid√£o de alimentos vindos da terra, incapazes de nos causar doen√ßas vir√≥ticas e outros males mortais, devidamente higienizados e preferencialmente org√Ęnicos, que nos d√£o infinitas possibilidades de prepara√ß√£o de pratos saboros√≠ssimos e al√©m de tantos benef√≠cios previnem in√ļmeras doen√ßas, por que n√£o adotar o vegetarianismo?

O vegetarianismo √© o caminho para nos libertarmos das ind√ļstrias que nos vendem doen√ßas, sofrimento, mentiras, futuros coronav√≠rus e superbact√©rias, c√Ęnceres e diversas outras doen√ßas, ao mesmo tempo em que libertamos os outros animais das atrocidades que impomos √† eles. Mudar h√°bitos √© simples.

Organiza√ß√Ķes mundiais e governamentais reconhecem que o aumento na demanda do consumo de carne e derivados de origem animal √© um dos principais fatores de risco do surgimento de doen√ßas e sua dissemina√ß√£o.

Muitos lucram com essa intrincada cadeia produtiva, logo a responsabilidade sobre a nossa sa√ļde est√° em nossas m√£os se abolirmos as causas desses males deixando de consumir os corpos dos animais e o que prov√™m deles.

A recente epidemia ligada ao vírus Ebola (2014) que traz intenso sofrimento aos pacientes e possui altos índices de mortalidade também é proveniente da exploração animal, sobretudo do consumo da carne de animais silvestres: morcegos, gorilas e chimpanzés. Tanto os animais silvestres quanto os animais domesticados desenvolvem doenças zoonóticas quando são explorados e utilizados para consumo humano.

As gripes avi√°ria (em 2005) e su√≠na (2009-2010) tamb√©m s√£o produtos da explora√ß√£o animal, mais uma vez a atividade pecu√°ria que, literalmente, comercializa a morte e o sofrimento (h√° quem compre, certo?), inclusive com a produ√ß√£o de doen√ßas carcinog√™nicas, cardiovasculares etc e, claro, doen√ßas zoon√≥ticas cada vez mais virulentas, facilitando a prolifera√ß√£o de microorganismos que ‚Äúsaltam de esp√©cie‚ÄĚ, haja vista a natureza de sua atividade econ√īmica completamente perniciosa, degradante do meio ambiente e cruel que n√£o respeita absolutamente nenhum ser vivo, inclusive o seu consumidor (alguma d√ļvida?) e que ainda potencializa a propaga√ß√£o de doen√ßas infectocontagiosas e novas pandemias.

Os fatos falam por si: existe um vínculo direto entre a exploração animal e a produção de epidemias.

A luta pela liberta√ß√£o animal e a luta contra as doen√ßas e eventuais pandemias da√≠ origin√°rias est√£o, portanto, inextricavelmente ligadas. E j√° que o assunto √© sa√ļde… n√£o podemos esquecer do uso corriqueiro de antibi√≥ticos que viabilizam a explora√ß√£o animal, haja vista a promo√ß√£o e acelera√ß√£o do crescimento de animais e ganho de peso (pr√°ticas antinaturais), al√©m da enorme quantia de doen√ßas que padecem esses animais em sistemas escravagistas sob tortura e confinamento, cujas bact√©rias presentes nos corpos dos animais acabam desenvolvendo resist√™ncia aos efeitos desses medicamentos, originando assim as superbact√©rias, uma das principais amea√ßas √† sa√ļde p√ļblica mundial (para al√©m das doen√ßas zoon√≥ticas). Sim, a Covid-19 n√£o √© o nosso √ļnico problema!

A Organiza√ß√£o Mundial de Sa√ļde estima que, se nada for feito para controlar essas superbact√©rias, at√© 2050 elas ser√£o respons√°veis por cerca de 10 milh√Ķes de mortes por ano no mundo, tornando-se mais letais que o c√Ęncer.

A destrui√ß√£o do habitat natural de animais silvestres para o consumo ou uso desses animais, a transforma√ß√£o de florestas em √°reas de pastagem para rebanhos bovinos ou ainda o tr√°fico de animais silvestres est√£o inexoravelmente ligados √† ind√ļstria da explora√ß√£o animal, n√£o havendo, portanto, uma simples quest√£o ecol√≥gica a ser melhor administrada. √Č preciso cortar o mal pela raiz abandonando o confinamento, a explora√ß√£o e aut√™ntica escravid√£o dos animais que subjazem esse colossal desequil√≠brio ambiental e sanit√°rio que v√™m √† superf√≠cie como meras consequ√™ncias da insustentabilidade dessas atividades.

Tampouco as doen√ßas zoon√≥ticas devem ser vistas como acidentes de percurso devido √† falta de assepsia adequada na zona urbana ou rural, √† falta do controle de produ√ß√£o no sistema industrial, √† falta de fiscaliza√ß√£o da cadeia de consumo, √† falta de consci√™ncia ambiental, √† falta de transpar√™ncia, √† falta de sustentabilidade de etapas da cadeia produtiva, √† falta de ajustes para melhor controle e efic√°cia da ‚Äúprodu√ß√£o de prote√≠na animal‚ÄĚ… N√£o! Nessas horas s√£o muitos os pretextos ao estilo ‚Äúalgo deve mudar para que tudo continue como est√°‚ÄĚ.

N√£o nos interessam reformas ‚Äúpra ingl√™s ver‚ÄĚ, n√£o aceitamos a explora√ß√£o e morte de seres indefesos, a destrui√ß√£o da natureza, a mercantiliza√ß√£o de doen√ßas e sofrimentos! Queremos a liberta√ß√£o desse sistema mort√≠fero que escraviza os animais n√£o humanos e extermina pessoas com doen√ßas da√≠ advindas, queremos a liberta√ß√£o de todos os seres que sofrem nas m√£os dos mercadores da morte. Com a vida n√£o se negocia!

Ainda dentro do aspecto da sa√ļde, tamb√©m precisamos falar da epidemia global de obesidade que tamb√©m √© incentivada pela ind√ļstria pecu√°ria, desencadeadora de tantos outros males. Comida de verdade, alimentos naturais e realmente saud√°veis s√£o aqueles que brotam da terra, n√£o geram doen√ßas e nem obesidade, mas as previnem. Seguran√ßa alimentar e ind√ļstria pecu√°ria s√£o sistemas totalmente incompat√≠veis entre si.

‚ÄúEm 2014, mais de 2,1 bilh√Ķes de pessoas apresentavam excesso de peso em compara√ß√£o com 850 milh√Ķes que sofriam de subnutri√ß√£o. Prev√™-se que metade da humanidade estar√° com excesso de peso em 2030. Em 2010, fome e subnutri√ß√£o combinadas mataram cerca de 1 milh√£o de pessoas, enquanto a obesidade matou 3 milh√Ķes‚ÄĚ. (Homo Deus, por Yuval Noah Harari).

Para aprofundar no tema, sugiro o documentário What The Health, disponível na Netflix.

Saiba mais: O VEGANISMO PODE NOS AJUDAR CONTRA O CORONAV√ćRUS?, por Vanice Cestari

O QUE OS CANAIS “NORMAIS” N√ÉO V√ÉO TE CONTAR

Segundo Peter Li para o canal Vox, a maioria dos chineses não consome animais silvestres, mas sim uma pequena parcela, rica e poderosa, da sociedade chinesa. A existência de mercados que comercializam animais como o de Wuhan, dentre outros, deve-se por conta de uma escolha política do governo chinês para favorecer esses grupos minoritários em detrimento da segurança alimentar da população no geral.

Esse fato n√£o √© uma exclusividade da China, por aqui n√£o √© diferente com a bancada ruralista / pecuarista que comanda as casas legislativas, cuja influ√™ncia pol√≠tica se espraia pelos demais poderes do Estado. A atividade econ√īmica que explora animais se comporta de modo semelhante nos diversos pa√≠ses que se faz presente.

Peter Li explica que, em 1988, o governo chin√™s sancionou a ‚Äúlei de prote√ß√£o‚ÄĚ aos animais silvestres passando a design√°-los como ‚Äúrecursos naturais‚ÄĚ do estado chin√™s e encorajando a sua domestica√ß√£o e reprodu√ß√£o, nascendo assim essa poderosa ind√ļstria paralelamente √† ind√ļstria que explora os animais j√° domesticados, facilitando o conv√≠vio de todas essas esp√©cies de animais.

Tratar os animais como “recursos naturais ou ambientais” significa alterar a natureza dos fatos (o que √© factualmente imposs√≠vel) para possibilitar, legalmente, a retirada desses indiv√≠duos da natureza, permitindo a sua explora√ß√£o em benef√≠cio humano para qualquer fim, pr√°tica sabidamente perigosa, predat√≥ria e cruel, o que tamb√©m encontramos na nossa legisla√ß√£o brasileira em desacordo com a norma protetiva constitucional.

A comunidade cient√≠fica e jur√≠dica, ao menos a sua grande parte, trabalha arduamente para o nosso sistema “normal” continuar funcionando e eis que da√≠ decorre toda a “normalidade” que experienciamos no mundo que incluem crises epid√™micas, pand√™micas, desequil√≠brios, desordens de toda sorte com o suporte da legalidade, tal como o tr√°fico de animais silvestres.

N√£o √© incomum os mesmos animais silvestres que est√£o em risco de extin√ß√£o serem, antes, v√≠timas do tr√°fico para, depois, serem comercializados nesses mercados legalizados. √Č o que acontece com os pangolins, tigres e rinocerontes na China. √Č o que acontece no Brasil.

Em 2003, com o surto da SARS, o governo chin√™s fechou o mercado de animais e proibiu a cria√ß√£o de animais silvestres. Meses depois foi reaberto. J√° circulam pelas redes sociais peti√ß√Ķes p√ļblicas pedindo o fim definitivo do com√©rcio de animais silvestres na China, resta saber se a mesma hist√≥ria se repetir√°: a li√ß√£o ser√° aprendida? E no resto do mundo? Intencionamos que, na hip√≥tese de reabertura, que tornem a fechar por car√™ncia de p√ļblico! Por enquanto nenhum sinal positivo para as primeiras v√≠timas dessa confus√£o: os animais n√£o humanos; a China segue com as suas teorias medicinais estapaf√ļrdias em nome de bizarras tradi√ß√Ķes √† procura de um suposto medicamento para tratar a Covid-19 √† base de bile de urso!

CORONAV√ćRUS NOS ANIMAIS EXPLORADOS PELA PECU√ĀRIA

O primeiro caso de coronav√≠rus come√ßou com as galinhas em 1930, segundo pesquisador da USP Sr. Paulo Brand√£o, causando nelas a doen√ßa chamada bronquite infecciosa avi√°ria. O v√≠rus causador dessa doen√ßa tamb√©m √© do g√™nero coronav√≠rus (que n√£o se confunde com o SARS-CoV-2 que agora afetou humanos). Trata-se de uma doen√ßa respirat√≥ria viral aguda, altamente contagiosa, isto √©, de r√°pida dissemina√ß√£o, entre as aves de diferentes idades que, al√©m de afetar o trato respirat√≥rio, tamb√©m causa queda na “produ√ß√£o” de ovos.

Após o ano de 1960 (provavelmente com a criação intensiva de animais) a família dos coronavírus se desenvolveu e com isso as pesquisas também se intensificaram, motivadas pelos vultosos prejuízos financeiros do agronegócio, pois não só as galinhas, mas os bois, as vacas, os bezerros, os porcos, animais que são tratados como comódites, também adquirem coronavírus (cada espécie animal tem o seu, segundo o pesquisador da USP) e a doença leva milhares à morte. Nas vacas, por exemplo, a doença causada pelo coronavírus também impede a produção do leite.

Segundo informa√ß√Ķes obtidas em literatura cient√≠fica revisada em 2018, “diversos surtos tem ocorrido no Brasil e isso fez com que a bronquite infecciosa avi√°ria tenha se tornado a principal doen√ßa av√≠cola em territ√≥rio nacional”. A venda das vacinas que combatem os coronav√≠rus em animais movimenta algo em torno de R$ 184 milh√Ķes por ano no Brasil. Existem vacinas para os coronav√≠rus que infectam animais que interessam √† economia, inclusive os c√£es (n√£o h√° vacinas para o coronav√≠rus dos gatos, dos cavalos, das cabras e ovelhas). N√£o h√° d√ļvida de que o aumento da (re)produ√ß√£o e cria√ß√£o desses animais em nome da economia torna dificultoso o trabalho da conten√ß√£o dessas doen√ßas.

Tendo em vista as caracter√≠sticas mutantes do coronav√≠rus, j√° evidenciado inclusive nesse tipo que infecta as aves, seguir√£o financiando essa ind√ļstria mort√≠fera atrav√©s do consumo, literalmente, pagando pra ver? Colocando todos n√≥s em risco para descobrirmos qual e quando ser√° a “pr√≥xima Covid-19”?

PANDEMIA QUE N√ÉO AFETA O LUCRO DA PECU√ĀRIA

Esc√Ęndalo por venda de “carne estragada” e com papel√£o, maquiada, carcinog√™nica, abcessos, corrup√ß√£o, mais abcessos, meio ambiente contaminado, Amaz√īnia devastada… nada afeta (ainda) a solidez da atividade pecu√°ria e quando afeta √© para melhor, pro bolso deles, claro. N√≥s, veganas(os), estamos tentando.

Saiba mais: PARA AL√ČM DA “OPERA√á√ÉO CARNE FRACA”: ESCRAVID√ÉO ANIMAL E HUMANA NA IND√öSTRIA DA CARNE, por Vanice Cestari

Se a Covid-19 fez com que restaurantes, bares, hot√©is e outros locais p√ļblicos fechassem, diminuindo assim o consumo dos animais e seus derivados nesses espa√ßos por todo o pa√≠s e, consequentemente, o ritmo de trabalho nos matadouros, essa queda no mercado interno n√£o significa absolutamente nada para os pecuaristas, setor econ√īmico inabal√°vel que j√° deu seu jeito de sair por cima em meio √† desordem global e a alta hist√≥rica do d√≥lar, por isso n√£o √© improv√°vel que estejam matando mais animais nesse per√≠odo de coronav√≠rus em humanos, j√° que tamb√©m est√£o mandando mais animais para a morte excruciante no exterior.

Conforme divulgado nas m√≠dias que se ocupam da manuten√ß√£o do agroneg√≥cio, nem mesmo a pandemia da Covid-19 impediu o “espetacular” faturamento dos pecuaristas nas exporta√ß√Ķes para‚Ķ a China!, com aumento das exporta√ß√Ķes de carne bovina (43.5%) e de carnes de aves e su√≠na (78.0%). No √ļltimo s√°bado do m√™s de mar√ßo, tamb√©m houve o maior embarque de animais vivos do ano, 20 mil bois (geralmente bezerros) vivos, foram despachados em navio para o alto mar saindo do porto do estado do Rio Grande do Sul para a Jord√Ęnia e dois dias antes foram mais 4 mil animais, tudo em meio √† crise sanit√°ria global que teve origem exatamente pelo com√©rcio de animais.

O V√ćRUS √Č A IGNOR√āNCIA HUMANA, A DOEN√áA √Č O ANTROPOCENTRISMO E A CURA… PARADOXALMENTE, SOMOS N√ďS. O que escolheremos?

O historiador e escritor israelense Yuval Noah Harari fala sobre o mundo p√≥s-coronav√≠rus para a revista Financial Times e nos prop√Ķe reflex√Ķes, afirmando que, quando essa crise global passar, habitaremos um mundo diferente. De fato, o mundo j√° est√° diferente n√£o s√≥ porque vemos mudan√ßas no externo pelas janelas de nossas casas ou pelo notici√°rio, mas porque muitos de n√≥s j√° n√£o somos (ou n√£o seremos) mais os mesmos.

Num ju√≠zo hipot√©tico, entre a vigil√Ęncia totalit√°ria (a exemplo dos governos controlando e monitorando rigorosamente os locais em que estamos, o que fazemos e at√© mesmo o que sentimos, coletando e armazenando, em parceria com empresas, nossas caracter√≠sticas biom√©tricas e o que mais puderem) e o empoderamento dos cidad√£os, ou se nos fosse poss√≠vel escolher entre o isolamento nacionalista ou a solidariedade global, n√≥s do Saber Animal estar√≠amos aqui com as escolhas do empoderamento e da solidariedade.

Isto porque tamb√©m somos defensores das liberdades humanas, acreditamos na possibilidade de transforma√ß√£o e mudan√ßa dos indiv√≠duos por meio da educa√ß√£o e da conscientiza√ß√£o, caso contr√°rio n√£o estar√≠amos militando por abolicionismo animal. Somos defensores da justi√ßa social e ambiental que passa pela liberta√ß√£o do indiv√≠duo (humano e n√£o humano), defendemos os sistemas democr√°ticos e participativos com ressalvas, entendendo que as decis√Ķes devem considerar, necessariamente, o respeito ou a √©tica do cuidado para com o nosso pr√≥ximo que inclui os animais n√£o humanos e o respeito √† ecologia integral da qual somos totalmente dependentes, por mais que muitos de n√≥s prefiramos fugir desta realidade procurando alento na tecnologia e na ci√™ncia como se fossem, por si s√≥, solu√ß√Ķes para todos os desafios humanos.

√Č crucial lembrar que raiva, alegria, t√©dio e amor s√£o fen√īmenos biol√≥gicos, como febre e tosse. A mesma tecnologia que identifica tosse tamb√©m pode identificar risos. Se as empresas e os governos come√ßarem a coletar nossos dados biom√©tricos em massa, eles podem nos conhecer muito melhor do que n√≥s mesmos, e podem n√£o apenas prever nossos sentimentos, mas tamb√©m manipular nossos sentimentos e vender-nos o que quiserem – seja um produto ou um pol√≠tico. (The world after coronavirus, por Yuval Noah Harari)

A pandemia em curso traz consigo potenciais modos de viver alternativos e precisamos ter a clareza de que somos n√≥s que escolhemos qual o caminho trilhar, pois os governos e os capitalistas, ao que tudo indica, seguir√£o o jogo apocal√≠ptico da manipula√ß√£o e do poder como se o novo coronav√≠rus fosse apenas mais um acontecimento inevit√°vel, um fen√īmeno natural cujos culpados s√£o sempre os outros, os de sempre: os menos abastados, os mais vulner√°veis, a na√ß√£o estrangeira, os comunistas, os esquerdistas, o ‚Äúacaso do destino‚ÄĚ, a ‚Äúvingan√ßa da natureza‚ÄĚ, o ‚Äúcastigo divino‚ÄĚ, a ‚Äúvolta de Jesus‚ÄĚ e suas varia√ß√Ķes nada perspicazes.

Refletindo sobre a proposta de Harari, tamb√©m pensamos que as fronteiras (n√£o exclusivamente territoriais, mas todas as outras separa√ß√Ķes discriminat√≥rias que apostamos e incentivamos nas sociedades humanas) j√° s√£o obst√°culos obsoletos que devemos transpor em proveito de uma unicidade pac√≠fica (que n√£o se confunde com perfeita), que acolhe, inclui as diferen√ßas e caminha para a solidariedade global abarcando pessoas humanas, n√£o humanas e ecologia.

A largada foi dada e o destino nunca esteve tanto em nossas m√£os como agora, para construirmos o planeta que queremos para todos. Para que o confinamento humano n√£o seja nosso novo modo de vida (que, ali√°s, n√£o chega nem perto do que fazemos com os outros animais), para que doen√ßas evit√°veis e pandemias n√£o se transformem em nossa vida cotidiana, √© hora de iniciar uma transi√ß√£o para uma nova organiza√ß√£o socioecon√īmica que n√£o explora a vida animal como um princ√≠pio de restaura√ß√£o para o equil√≠brio ambiental.