ūüíö Sobre o Veganismo

A palavra "vegan" escrita com flores e plantas em uma calçada de cimento
Foto de Helen Alfvegren

A verdade sobre a vida e a morte dos animais nas sociedades humanas ditas civilizadas, os destinos que tra√ßamos a eles, s√£o fatos que geralmente n√£o nos dispomos √† profunda aten√ß√£o por conta pr√≥pria, a menos que em algum momento sintamos um sentimento de compaix√£o e ent√£o a injusti√ßa que praticamos contra os animais n√£o humanos comece a emergir em nossa consci√™ncia, da√≠ a import√Ęncia de estarmos perceptivos √† essas maravilhosas sensa√ß√Ķes em nosso cotidiano.

Quando alimentamos bons sentimentos, eles reverberam e naturalmente nos vem mais sentimentos e pensamentos harmoniosos. O contr√°rio tamb√©m acontece, ou seja, se sentimos raiva, irrita√ß√£o e at√© mesmo √≥dio, mais reverbera√ß√Ķes dessas categorias nos encontrar√£o. Em decorr√™ncia disto, como temos nos tratado? E o que estamos emitindo ou despejando no mundo? O que temos adicionado a este mundo atrav√©s de nossa exist√™ncia? A liberta√ß√£o dos animais n√£o humanos depende da liberta√ß√£o humana, pois n√£o √© este o objetivo do veganismo em uma vis√£o macro?

Se quisermos um mundo de paz para os animais e para todos ao nosso redor, devemos ser a pr√≥pria manifesta√ß√£o da paz atrav√©s de nossos sentimentos, pensamentos e a√ß√Ķes, simplesmente procurando viver nessa atmosfera, vivenciando a paz nos pequenos detalhes do nosso dia, praticando a paz, at√© que ela prevale√ßa em n√≥s e se estenda naturalmente aos demais.

Não existe um veganismo viável que liberte os animais e que jogue os seres humanos que os exploram, consciente ou inconscientemente, na zona do esquecimento, da vingança, do cárcere, do ódio. Jamais haverá libertação alguma se permanecermos excluindo seres humanos que ainda não despertaram para o fato de que a vida e a integridade dos animais não humanos também é preciosa, assim como as nossas. Toda vida é preciosa e tem valor por si só.

N√£o existem seres humanos essencialmente perversos, mas com diferentes n√≠veis de consci√™ncia, o que difere de uma maldade inata como muitos acreditam. A natureza humana n√£o √© ego√≠sta, √© altru√≠sta e isso podemos observar quando nos conectamos com a pureza do cora√ß√£o. Para os mais incr√©dulos, indico o document√°rio The Altruism Revolution (2015) que trabalha bem essas quest√Ķes, onde podemos acompanhar experimentos realizados com crian√ßas de diferentes idades acerca da propens√£o humana √† coopera√ß√£o com os pr√≥ximos, ou seja, √†s naturais manifesta√ß√Ķes de amor.

Trailer do filme A Revolução Altruísta, dirigido por Sylvie Gilman e Thierry de Lestrade

Muitos são os motivos que podem nos levar ao respeito ao próximo, à toda vida que existe, mas para qualquer ativismo, não há argumento mais potente que possa superar o sentir do nosso coração, o que fatalmente implicará na abstenção, tanto quanto possível, de nossa participação nas mais diversas formas de violência, exploração e opressão que dirigimos uns contra os outros.

Nesse processo de gradativa conscientiza√ß√£o, tamb√©m podemos nos deparar com alguma mensagem que nos toca e assim vamos nos inspirando em pessoas e em circunst√Ęncias da vida, se assim permitirmos, dando menos import√Ęncia ao que aparentemente nos separa, o que pode acabar por permitir a desestrutura√ß√£o de nossas certezas absolutas acerca de cren√ßas, costumes, tradi√ß√Ķes e at√© pr√°ticas culturais ou familiares mais arraigadas que n√£o representam verdadeiramente aquilo que somos, mas que mesmo assim perpetuamos em nosso cotidiano de modo inconsciente. Tudo isso pode ser bem simples, pois todo processo evolutivo demanda uma predisposi√ß√£o consciente que parte de um desejo sincero do cora√ß√£o.

O carnismo √© o sistema de cren√ßas que nos condiciona a comer certos animais. Muitas vezes definimos as pessoas que comem carne como carn√≠voras. Mas, carn√≠voros s√£o, por defini√ß√£o, animais que dependem da carne para sobreviver. (…). Em grande parte do mundo de hoje as pessoas comem carne n√£o porque precisem, mas porque optaram por com√™-la, e as op√ß√Ķes derivam sempre das cren√ßas. (Por Que Amamos Cachorros, Comemos Porcos e Vestimos Vacas, por Melanie Joy).

Nossas cren√ßas, hobbies, h√°bitos e padr√Ķes podem refletir a repeti√ß√£o de cren√ßas, hobbies, h√°bitos e padr√Ķes de nossos pais ou respons√°veis desde muito cedo, os quais tamb√©m os repetem de nossos antepassados e assim sucessivamente, para tr√°s e para frente, dentre outros repetecos e fatores extrafamiliares. Logo, com a alimenta√ß√£o e outras quest√Ķes relacionadas √† explora√ß√£o dos animais n√£o seria diferente… Somos seres complexos e √© assim com a nossa fam√≠lia e com a fam√≠lia dos “outros”, ricos e pobres, brancos e pretos, nacionais e estrangeiros etc, logo, por uma quest√£o de justi√ßa e compaix√£o, n√£o necessitamos paralisar em sentimentos de culpa por ainda estarmos (alguns mais, outros menos) inconscientes, o que n√£o significa a isen√ß√£o de responsabilidades.

Com a consci√™ncia mais expandida de que somos todos seres compartilhando da vida no √Ęmbito familiar e social, nos bairros e cidades… no planeta, podemos nos sentir, enquanto seres humanos, como correspons√°veis pela transforma√ß√£o que agora imprimimos no mundo presente atrav√©s de nossas atuais escolhas individuais, partindo de um patamar mais elevado de compreens√£o, de compaix√£o, √©tica, justi√ßa e verdade.

Não é com a crítica pessoalizada-excludente que promovemos mudanças no mundo, pois só podemos transformar a nós mesmos e eis o maior dos desafios. Já o nosso trabalho no mundo externo pode ser o de conscientizar outros seres humanos até aonde nos é permitido conforme o nível consciencial de cada um. Como ativistas de um mundo melhor, o nosso trabalho questionador pode ser mais promissor se o fizermos a partir da indignação do coração que não aceita qualquer ordem de injustiças. O nosso trabalho ou servir pode ser mais leve e ao mesmo tempo mais profundo, como espalhar sementes que certamente frutificarão em solos férteis e se multiplicarão sem maiores esforços porque a natureza dos seres sabe bem fazer o resto.

Podemos usar da nossa criatividade e nossos talentos para convencer e sensibilizar pessoas sobre a secular e completa opress√£o dos animais na sociedade e no amplo sentido da justi√ßa, sem excluir seres humanos, mas tamb√©m sem preservar ou privilegiar grupos sociais com os quais nos identificamos ou trocamos afeto na tentativa de isent√°-los de justas cr√≠ticas, do contr√°rio estaremos incidindo, em ambos os casos, em exclus√Ķes discriminat√≥rias.

A cura dos males do mundo que inclui a liberta√ß√£o dos animais da opress√£o humana n√£o est√° na rejei√ß√£o, separa√ß√£o ou exclus√£o de outros seres humanos atrav√©s de nosso julgamento, pois a restaura√ß√£o do prop√≥sito original dos seres vivos s√≥ pode vir do amor. 

Fred Rogers, que tamb√©m era vegetariano, foi uma importante refer√™ncia na televis√£o estadunidense, onde acolhia e ensinava a todos sobre o amor incondicional atrav√©s de seu exemplo. O filme biogr√°fico intitulado A Beautiful Day in the Neighborhood (2019), mostra a inova√ß√£o de seu trabalho como apresentador de programa infantil simplesmente pela genu√≠na demonstra√ß√£o de seu amor ao tocar o cora√ß√£o de cada ser humano para que compreendesse o qu√£o especial era t√£o somente por existir. 

Trailer do filme biogr√°fico de Fred Rogers, dirigido por Marielle Heller e interpretado por Tom Hanks, baseado em seu programa de tv Mister Rogers ‘Neighbourhood

Levamos aos outros a compaix√£o pelos animais sentindo e praticando a compaix√£o (o mesmo para pessoas humanas) e essa √© uma das transforma√ß√Ķes mais profundas que podemos fazer por n√≥s e pelos demais. Quando nos levantamos para defender os animais n√£o humanos das injusti√ßas e crueldades humanas tamb√©m devemos incluir esses mesmos seres humanos em nosso olhar compassivo, uma vez que n√£o existe liberta√ß√£o sem inclus√£o.

Essa sociedade egoc√™ntrica e individualista que separa pessoas em classes, cor da pele, religi√Ķes, nacionalidades e outras formas de segrega√ß√£o est√° em decl√≠nio, desde que fa√ßamos a nossa parte, levando abaixo todas as barreiras que colocamos entre n√≥s, a natureza e os seres de outras esp√©cies. A quest√£o √©: quantos de n√≥s seguiremos por esse fluxo de compaix√£o, inclus√£o, corresponsabilidade e unidade e quantos ainda resistir√£o √† pr√≥pria natureza do nosso ser?

A DOR ALHEIA TAMB√ČM √Č A NOSSA DOR

Em geral, quem nasceu at√© a d√©cada de 1990 do s√©culo passado para tr√°s foi criado em uma rela√ß√£o amb√≠gua com os animais e ainda hoje esse mesmo padr√£o √© seguido por muitas pessoas que, imersas em uma cultura exageradamente consumista e um tanto desconectada com o pr√≥prio corpo no que concerne √† falta de cultivo de h√°bitos saud√°veis, quase nada foi ensinado quanto ao respeito √† natureza (que tamb√©m passa pelo respeito ao nosso pr√≥prio corpo) e aos outros seres do reino animal. Todos os seres vivos possuem conex√£o com o mundo natural, essa natureza que n√£o est√° somente “l√° fora” e apartada de n√≥s.

Sem pretensão de tratar sobre as diversas formas de exploração animal, as quais o veganismo enfrenta, abordarei bem brevemente, mais abaixo, sobre a escravização de vacas e galinhas como forma de introduzir uma reflexão prévia que possa abrir espaço para outros aspectos mais sutis que não são compreendidos no plano mental, me aproximando mais do propósito que me trouxe a essa escrita. Especialmente neste caso, mais interessante que o escrever é o sentir, então que eu possa ser instrumento para que você me leia sentindo.

Importante diferenciarmos que n√£o √© a forma de uso, mas o uso de vidas alheias que n√£o podem escolher, n√£o podem consentir, n√£o podem oferecer resist√™ncia. O veganismo abolicionista questiona e por isso se op√Ķe ao uso de todos os animais, independentemente da esp√©cie, de todas as f√™meas que geram outras vidas mediante abuso, tortura, viol√™ncia em um ciclo ininterrupto de dores f√≠sicas e ps√≠quicas at√© a exaust√£o de suas vidas que s√£o marcadas pela falta de compaix√£o de seres humanos inconscientes, entorpecidos com prazeres ef√™meros, iludidos com falsos poderes advindos de uma ambi√ß√£o sem √©tica, sem limites.

Se nenhum animal precisa morrer para vivermos bem, com sa√ļde, com bem-estar, por que financiar ou participar desse ato b√°rbaro? √Č desnecess√°rio (e at√© mesmo n√£o recomend√°vel nos dias atuais, por quest√Ķes ambientais e sanit√°rias) nos alimentarmos de animais, cada vez mais a informa√ß√£o de profissionais atualizados em seus estudos e n√£o financiados pelas ind√ļstrias perniciosas (pecu√°ria e farmac√™utica) vem chegando acerca do mito da ‚Äúprote√≠na animal‚ÄĚ e do consumo de latic√≠nios em qualquer fase da vida e desenvolvimento humano.

Muito al√©m das comprova√ß√Ķes cient√≠ficas e emp√≠ricas que podemos observar, quando o desejo vem do cora√ß√£o, √© f√°cil, √© simples substituir h√°bitos que causam dor e sofrimento aos outros seres. Nenhum prazer sensorial se sobrep√Ķe √† compaix√£o porque o nosso ser n√£o se preenche com ilus√Ķes ou sensa√ß√Ķes transit√≥rias. Uma vez que o cora√ß√£o decide, decidido est√° e ent√£o vamos eliminando de nosso consumo tudo aquilo que fere, tortura, violenta e mata outros seres sencientes, ainda que n√£o fa√ßamos de um dia para o outro, saberemos qual √© o caminho da compaix√£o e por ele seguimos em fidelidade a n√≥s mesmos.

No caminho da paz, por onde acreditamos e queremos trilhar, n√£o existe solu√ß√£o √ļnica, imediatista, para os problemas do mundo, para o sofrimento dos animais, para o sofrimento das pessoas. Esperar que milagres venham de governantes pode ser frustrante, n√£o acha? Ent√£o o que fazer? Podemos contribuir ao iniciarmos o nosso pr√≥prio despertar. Eu come√ßo o meu. Voc√™ come√ßa o seu. E assim caminharemos unidos em prop√≥sito. A separa√ß√£o superficial falar√° cada vez mais baixo porque intimamente saberemos que a compaix√£o nos conecta em uma inst√Ęncia muito mais profunda de n√≥s. O amor que habita em mim, o amor que habita em voc√™, esse mesmo amor que est√° latente em tudo e em todos esperando a oportunidade para extravasar.

LIBERTE-SE E LIBERTAR√ĀS

A vaca n√£o d√° leite para n√≥s, humanos; n√£o brota leite da vaca como a grama que cresce em uma pra√ßa! A princ√≠pio essa frase pode parecer meio sem nexo para alguns e √≥bvia para outros. Mas n√£o √© t√£o √≥bvio assim… se necess√°rio, leia novamente com calma. Sem insemina√ß√Ķes artificiais nas vacas (aut√™nticos estupros) n√£o h√° gesta√ß√£o de uma nova vida, sendo preciso cont√≠nuas e ininterruptas indu√ß√Ķes ao estado de prenhez para dar conta de abastecer a insaci√°vel ‚Äúcadeia alimentar‚ÄĚ humana. Tomamos indevidamente leite de vaca no duplo sentido, seja do ponto de vista moral por essa inerente viol√™ncia do ato, seja do ponto de vista nutricional porque h√° fontes vegetais mais adequadas e realmente saud√°veis para a nutri√ß√£o humana (pesquise voc√™ mesmo se precisar, apenas n√£o se deixe enganar).

No in√≠cio de nossa vida humana, logo depois do per√≠odo de lacta√ß√£o materna, √© introduzida em nossa alimenta√ß√£o o leite dessa outra f√™mea, a vaca, como se fosse um substituto natural ao leite da nossa m√£e humana, pr√°tica que perduramos para o resto da vida como um h√°bito cultural entendido por saud√°vel, a menos que isto acarrete algum problema de sa√ļde, nos levando a abandonar a ingesta do leite animal em algum momento da vida. E ent√£o muito provavelmente passamos a vida como a √ļnica esp√©cie que jamais desmama, mesmo depois de adultos, sem nos darmos conta de que fomos levados a crer que o leite de origem animal √© alimento indispens√°vel √† sa√ļde humana quando na realidade n√£o √©, mesmo porque bezerros e seres humanos, embora mam√≠feros, s√£o fisiologicamente bem diferentes, corpos diferentes, for√ßa diferente etc.

Quando adultos j√° estamos bem adaptados e geralmente n√£o nos questionamos sobre nada que aprendemos na inf√Ęncia e assim segue o baile. A publicidade e a sociedade √† nossa volta encarrega-se de nos manter na ignor√Ęncia, perpetuando-se o eterno ciclo de escraviza√ß√£o de vacas para que tomemos o leite de suas crias, mas n√£o s√≥.

B√ļfalas, cabras (camelas etc) s√£o escravizadas para que nos sirvamos das secre√ß√Ķes mam√°rias que produzem, que originalmente existem para amamentar seus filhos – √ļnicos destinat√°rios de direito desses fluidos ‚Äď e ‚Äúsubprodutos‚ÄĚ. No caso das vacas, cuja produ√ß√£o de leite √© maior, tamb√©m entra em a√ß√£o o rapto e posterior assassinato de seus bezerros nascidos machos pelo valor de sua ‚Äúcarne macia‚ÄĚ, em um ciclo de sofrimento sem fim dessas m√£es constantemente abusadas em seus direitos b√°sicos enquanto seres vivos sencientes (integridade de seus corpos, maternidade etc). S√£o transformadas em ‚Äúm√°quinas‚ÄĚ parideiras e reprodutoras, adquirem mastite (inflama√ß√£o) nas gl√Ęndulas mam√°rias por viverem atadas √†s m√°quinas sugadoras, violentam seus corpos com uma aberra√ß√£o chamada fistula√ß√£o. Bezerros, lacta√ß√£o, abandono, abuso, tortura, mais partos, mais sofrimento, mais crueldade at√© ca√≠rem desfalecidas e qui√ß√° serem reaproveitadas como hamb√ļrgueres, salsichas (e outras ma√ßarocas que sobram de cad√°veres de animais que chamamos de alimento). N√≥s podemos fazer diferente adquirindo novos valores e fazendo novas escolhas.

Por que continuar consumindo? Enquanto houver procura, haver√° oferta e a√≠ est√° a nossa responsabilidade acerca do destino dos animais. Se queremos paz para os animais, se queremos preservar os recursos do planeta Terra, a √°gua, o solo, o ar, os rios… se acreditamos em uma justi√ßa socioambiental mas nada fazemos de concreto, de efetivo, de transformador em nossa vida para criarmos esse outro mundo perfeitamente poss√≠vel, considerando que √© a pecu√°ria uma das maiores e mais poderosas ind√ļstrias que tem arrasado todas as formas de vida no planeta Terra com seus matadouros e tratores, n√£o conhe√ßo outra revolu√ß√£o mais potente e silenciosa do que o nosso empoderamento atrav√©s de uma consci√™ncia adquirida no sentido de que temos em nossas m√£os, literalmente, os instrumentos para a paz ou para a guerra contra os outros seres vivos e contra a nossa pr√≥pria casa.

O nosso planeta Terra também representa o feminino (a geração e a sustentação da vida) portanto, violentar e matar os animais é também violar a nossa casa, o corpo feminino e também o masculino que habita todos os seres, pois somos interdependentes enquanto seres vivos. Ao consumir a vida dos animais estamos destruindo não só a vida e a jornada individual de cada um deles, mas perpetuando um grande desequilíbrio em nossas próprias vidas.

Devasta√ß√£o de florestas para pastagens e monoculturas de soja e milho para ra√ß√£o animal enquanto milh√Ķes de seres humanos passam fome, objetifica√ß√£o de seres vivos, destrui√ß√£o de rela√ß√Ķes afetivas entre m√£es e filhos, invalida√ß√£o do feminino, opress√£o do feminino e masculino, manuten√ß√£o de matadouros, manuten√ß√£o de pris√Ķes onde despejamos os indesej√°veis da sociedade e jogamos a chave fora, enfim, todas essas viol√™ncias se conectam em uma s√≥ forma distorcida de enxergamos o mundo ao optarmos pela lente m√≠ope quando n√£o nos permitimos usar o discernimento e a s√°bia vis√£o do cora√ß√£o.

Falei um pouco sobre o sofrimento das vacas, mas similar crueldade se faz presente na explora√ß√£o da capacidade reprodutiva de f√™meas de outras esp√©cies como as galinhas, por exemplo, que s√£o instrumentalizadas at√© a morte para servirem, igualmente, √† uma desnecessidade nutricional humana. Assim como os bezerros machos s√£o enviados ao matadouro, os pintinhos machos t√™m seus corpos triturados ainda vivos ou s√£o jogados no lixo com o que resta de vida e sofrimento, morrendo asfixiados por desinteresse comercial, j√° que n√£o ter√£o utilidade para a postura de ovos e sua vida n√£o interessa ser mantida para explora√ß√£o da ind√ļstria pecu√°ria.

Se quisermos consumir produtos derivados do leite como queijos, iogurtes, manteiga, margarina e outros industrializados como sorvetes, biscoitos, p√£es, bolachas, massas, doces em geral, saibamos que todos esses itens j√° s√£o produzidos a partir de plantas ou sem ingredientes de origem animal, o que pode ser uma boa alternativa. Tamb√©m podemos optar em levar uma vida ainda mais saud√°vel e colaborativa com o planeta consumindo mais frutas, legumes, verduras e evitando embalagens desnecess√°rias, conservantes e outros componentes qu√≠micos prejudiciais √† nossa sa√ļde, fazendo em casa algumas dessas prepara√ß√Ķes, afinal, a internet √© riqu√≠ssima em deliciosas e surpreendentes receitas.

Mesmo que algu√©m pudesse provar que a carne tenha um efeito altamente ben√©fico no corpo, continuaria inaceit√°vel. Tenho a mesma opini√£o sobre o leite. √Č apenas outra forma de carne e o homem n√£o tem o direito de tom√°-lo. Argumentar que porque um beb√™ suga o leite da m√£e, o homem deveria tomar o leite de vaca √© o limite da ignor√Ęncia. (Carta de Gandhi para Jamnadas em 2 de julho de 1913, em Sobre o Vegetarianismo, Mahatma Gandhi).

A objeção (vegana) a esse mundo mecanizado e exploratório não advém apenas da violência que é praticada pelas grandes empresas ou conglomerados industriais, mas de toda e qualquer violência ou exploração que seja praticada sob a mesma ótica utilitarista, de como, enquanto seres humanos, nos arrogamos no direito de tirar proveito ou de lucrar com a vida e o corpo alheio de quem não pode consentir com tais práticas.

Sistema industrial ou n√£o, se estiv√©ssemos tratando de pessoas humanas incapazes, por exemplo, e n√£o das vacas que tamb√©m s√£o indiv√≠duos sencientes com n√≠veis desenvolvidos de consci√™ncia, estar√≠amos falando de estupro de vulner√°vel, abusos, maus-tratos, tortura, assassinatos… enfim, diversos crimes cometidos continuamente ao longo do tempo em ininterrupto estado de flagr√Ęncia.

Da√≠ porque a odiosa afirma√ß√£o ‚Äúcadeia para maus-tratos‚ÄĚ que sempre √© ventilada e propagandeada entre ativistas e celebridades de redes sociais n√£o passa de pura demagogia eleitoreira e que tamb√©m pode ser uma conveniente tentativa de punir o pobre para proteger o rico.

Manifesta√ß√Ķes compassivas e amorosas sempre est√£o presentes na humanidade e circulam entre n√≥s cada vez que criamos esse espa√ßo ao nos afastarmos da viol√™ncia contra todos, a come√ßar por n√≥s mesmos. N√£o participar da opress√£o de outros seres √© uma oportunidade que tem se mostrado com bastante const√Ęncia na sociedade atual e parece que nunca foi t√£o simples e oportuno para finalmente deixarmos os animais em paz. E ent√£o estendermos esses sentimentos t√£o importantes simplesmente para todos aqueles que necessitarem, sem exclus√Ķes, sem julgamentos.

Amar é uma questão de escolha. Basta darmos os primeiros passos internos nessa direção e, para quem já deu, vamos prosseguindo nessa jornada que só pode beneficiar a todos nós, nos desidentificando com todas as formas de violência para relembrarmos nossa natural identificação com o que temos de mais profundo em nós que é a nossa conexão com todos os seres através do sentimento de compaixão, passando a nos expressar no mundo de acordo com essa consciência.

MUITO AL√ČM DA ALIMENTA√á√ÉO

Como indicado acima, o prop√≥sito desse artigo √© despertar algum sentir que vai al√©m do processo mental da leitura. Quando nos permitimos abrir o nosso centro card√≠aco em uma diferente perspectiva, considerando novas possibilidades de perceber e sentir os outros e o nosso entorno a partir desse local sagrado, podemos facilmente ir compreendendo as diretrizes essenciais (compaix√£o e n√£o viol√™ncia) que sustentam o veganismo e ent√£o esse processo de transforma√ß√£o vai acontecendo naturalmente. No mais, com acesso √† internet, tamb√©m encontramos document√°rios, filmes, receitas, informa√ß√Ķes variadas para quem quer saber mais sobre o respeito aos animais na pr√°tica.

A op√ß√£o √©tica ou a amplia√ß√£o da consci√™ncia individual, isto √©, a maior percep√ß√£o de nossas pr√°ticas cotidianas (consumo geral, trabalho, lazer, esporte… e seres envolvidos nessas din√Ęmicas – animais e/ou pessoas) √© mera decorr√™ncia dessa radicalidade ou raiz amorosa que vamos aprendendo a colocar no mundo. S√≥ o amor pode libertar e ir curando as feridas do mundo interno e externo.