ūüôä Sem voz e sem vez: a causa animal √© interdisciplinar

V√°rios camelos na Austr√°lia juntos: animais adultos e jovens est√£o na mesma imagem
Camelos na Austr√°lia

PARTE I

A MÚTUA INCLUSÃO: DIREITOS ANIMAIS NÃO-HUMANOS E HUMANOS

Nascemos humanos. Defender direitos animais pode ser, para alguns, uma forma ego√≠stica por n√£o se enxergar os direitos de forma mais abrangente e inclusiva porque supostamente estar√≠amos desprezando a garantia dos nossos pr√≥prios direitos humanos fundamentais durante nossa exist√™ncia neste mundo. Ocorre que a nossa viv√™ncia neste mundo n√£o implica a necessidade de violentar e exercer o dom√≠nio de alguma forma sobre o outro ser vivo, ser humano ou n√£o-humano, sobre outras tantas esp√©cies que aqui j√° estavam quando nascemos e que tamb√©m disp√Ķem de sua senci√™ncia, de suas percep√ß√Ķes sensoriais e de graus de consci√™ncia similares ou n√£o √†s nossas ou at√© mesmo de outras formas de intelig√™ncia.

N√£o existe nenhum c√≥digo de conduta humana que expresse, taxativamente, a obrigatoriedade em se extrair benef√≠cio qualquer de corpos e vidas alheias, no entanto, o modo de vida antropoc√™ntrico aliado ao sistema patriarcal trouxe consigo um nefasto poder tir√Ęnico que tratou de sabotar o desenvolvimento do respeito genu√≠no pelos demais seres vivos, pela natureza e pelo feminino.

Nos √ļltimos anos, temos sido crescentemente confrontadas com os mesmos aspectos fundamentais que dizem respeito √† sobreviv√™ncia e √† conserva√ß√£o da vida neste planeta, n√£o s√≥ das mulheres, das crian√ßas e da humanidade em geral, mas tamb√©m da vasta diversidade da fauna e da flora. [Ecofeminismo, de Maria Mies e Vandana Shiva]

A dignidade humana ser√° capenga enquanto n√£o encararmos um ju√≠zo de alteridade animal que coloque de lado nossos v√≠cios explorat√≥rios e abusivos de modo a considerarmos atitudes √©ticas em nossas rela√ß√Ķes com os demais indiv√≠duos e com o nosso planeta para uma coexist√™ncia harmoniosa, ao inv√©s de pilharmos os seus recursos biol√≥gicos em desprezo √† natureza e ao feminino.

√Č disso que o veganismo trata: um posicionamento constante e pr√°tico em oposi√ß√£o √† viol√™ncia, ao sofrimento desnecess√°rio e √† matan√ßa dos nossos semelhantes animais; a luta pelo fim de todas as formas de explora√ß√£o animal por meio da absten√ß√£o de suas pr√°ticas; o entendimento de que n√£o h√° paz e justi√ßa social poss√≠veis de serem alcan√ßadas t√£o somente para a fam√≠lia humana, devendo ser inclu√≠da toda a diversidade e imensid√£o do reino animal, no qual a humanidade √© representada por apenas uma esp√©cie ‚Äď a homo sapiens; o reconhecimento de que todos n√≥s estamos inseridos em uma rela√ß√£o de interdepend√™ncia com a conserva√ß√£o do meio ambiente natural.

Tanto a animalidade quanto a vida constituem e excedem tudo aquilo que chamamos de humano. O ponto n√£o √© encontrar a tipologia certa, mas entender onde o pensamento tipol√≥gico desmorona. (Judith Butler apud Brian Massumi). Onde o pensamento tipol√≥gico de separa√ß√Ķes categoriais desmorona ser√° encontrada a necessidade ‚Äď e a oportunidade ‚Äď de empreender o projeto positivo de construir uma l√≥gica de m√ļtua inclus√£o diferencial dos modos de exist√™ncia, e das eras da natureza, ou seja, mais para o escopo do animal-pol√≠tico. [O que os animais nos ensinam sobre pol√≠tica, de Brian Massumi]

O movimento pela libertação animal é inclusivo, não violento, não discriminatório que passa pela transformação humana individual de cada pessoa que até então participava ativamente da exploração animal em seus hábitos pessoais e políticos de consumo, diversão, sistema de crenças etc, para valores morais elevados de justiça, compaixão, verdade, igualdade, solidariedade, fraternidade, cooperação.

Podemos dizer que o veganismo (que n√£o se confunde com o bem-estarismo) ou movimento abolicionista pelos Direitos Animais, em um contexto pol√≠tico mais amplo, se situa dentro de um segmento progressista ou n√£o conservador e √© um movimento uno porque voltado √† emancipa√ß√£o dos animais n√£o-humanos, ainda que composto por diferentes pessoas humanas, sendo absolutamente salutar e obviamente desej√°vel a diversidade de culturas, de etnias, de g√™nero, de matizes socioecon√īmicas etc. cuja premissa √© a liberta√ß√£o dos animais n√£o-humanos da viol√™ncia e explora√ß√£o humana, ou seja, o fim de toda e qualquer pr√°tica especista.

Veganos não exploram a vida animal e a capacidade reprodutiva das fêmeas, não violentam, não subjugam, não maltratam, não matam, não consomem, não escravizam outros seres, não se divertem e não lucram com o sofrimento dos animais não-humanos.

A cegueira moral fincada nos padr√Ķes antropoc√™ntrico, patriarcal e especista ignora as viol√™ncias contra outro ser vivo, suas implic√Ęncias e desdobramentos em outras formas de opress√£o e viol√™ncias que s√£o pautadas em rela√ß√Ķes de poder e tirania sobre outros sujeitos, sobre tudo o que √© vivo, sobre quem se julga inferior ou indigno de acolhimento moral e de direitos. Onde h√° explora√ß√£o animal e destrui√ß√£o da natureza, h√° a presen√ßa significante da figura humana masculina, da√≠ porque o patriarcado promove a cultura especista.

Para n√≥s, snail darter [caracol existente no Tennessee] deve ser considerado ao mesmo n√≠vel das necessidades h√≠dricas de uma comunidade, a toninha e o apetite de atum e as criaturas em cima de quem o Skylab pode cair. (…). Vemos, com uma preocupa√ß√£o feminista, a devasta√ß√£o da Terra e dos seus habitantes pelos guerreiros empresariais e a amea√ßa do exterm√≠nio nuclear pelos guerreiros militares. √Č a mesma mentalidade machista, que nos negava o direito aos nossos pr√≥prios corpos e √† nossa sexualidade, que depende de m√ļltiplos sistemas de dom√≠nio e do poder de estado para obter o que pretende. [Ecofeminismo, de Maria Mies e Vandana Shiva]

Isso nos leva a pensar que, se √© poss√≠vel observar uma predomin√Ęncia de g√™nero masculino dentro das mais variadas facetas da explora√ß√£o animal (pecuaristas, fazendeiros, carroceiros, charreteiros, cavaleiros, pe√Ķes de rodeios, exploradores ‚Äúrinheiros‚ÄĚ etc), evid√™ncia que tamb√©m √© verific√°vel na sistem√°tica viola√ß√£o dos corpos de f√™meas para a produ√ß√£o leiteira, produ√ß√£o de ovos e cont√≠nua reprodu√ß√£o de vidas na atividade pecu√°ria, o mesmo n√£o se pode afirmar quanto √† quest√£o de classe e de ‚Äúra√ßa‚ÄĚ, j√° que a composi√ß√£o desses √ļltimos grupos sociais √© bastante heterog√™nea e assim participam ativamente da explora√ß√£o / escraviza√ß√£o dos animais n√£o-humanos, em maior ou menor grau, estejam na condi√ß√£o de oprimidos ou opressores dentro das estritas rela√ß√Ķes humanas.

De acordo com uma observação mais cuidadosa, ricos e pobres, nacionais e estrangeiros e toda a diversidade humana que não é praticante do veganismo, explora, violenta e mata sem necessidade outros seres vivos em todos os continentes do planeta, salvo os chamados povos indígenas ou originários (pelo menos a sua maioria), também conhecidos como os povos da floresta, onde vivem e caçam exclusivamente para sua subsistência. Volto a essa questão na parte III.


PARTE II

A VEZ DOS SEM VOZ?

Se o capitalismo nos trouxe a um estado lastimável de destruição levando a exploração animal, humana e ambiental a níveis alarmantes, parece intuitivo afirmar que o veganismo, por si só, é uma luta anticapitalista ou antissistêmica, o que não significa afirmar que o movimento abolicionista pelos direitos animais só pode caminhar se estiver de mãos dadas com outros setores progressistas, haja vista nenhum deles estar aberto, ainda, à causa dos animais, isto é, a consideração dos animais como sujeitos de direitos na esfera moral.

A construção de alianças só pode ser boa para os animais não-humanos quando eles passarem a integrar a lista prioritária e emergencial das pessoas humanas que estão nas lideranças dos mais diversos movimentos sociais a fim de que haja o fortalecimento e crescimento dos movimentos que são complementares entre si. E aqui não há nada a perder para quem defende outros direitos (humanos), muito pelo contrário! Direitos animais e humanos não são excludentes, haja vista os humanos possuírem direitos fundamentais consolidados exatamente porque são (somos) animais, somos seres animados. Os movimentos sociais que lutam por respeito aos direitos humanos (já consolidados) serão oxigenados com uma luta genuinamente revolucionária, vigorosa e potente: o movimento de emancipação dos animais não-humanos.

Integrantes de outros movimentos só tem a ganhar em vários aspectos, do ponto de vista individual, social e político, mesmo porque não se constroem alicerces em areia movediça e se a ética prática não for um pilar no combate de toda opressão, a luta por qualquer libertação se esvazia de sentido e propósito porque perde a sua força e coesão política, portanto, a sua essência revolucionária.

Quem j√° √© adepta(o) do veganismo, ou a ele adere, tamb√©m ganha com a efetiva√ß√£o e renova√ß√£o de seus pr√≥prios direitos humanos, pelo exerc√≠cio da autonomia, da cidadania, da maior consci√™ncia pol√≠tica e muito provavelmente o desdobramento ser√° uma maior compreens√£o sobre as outras formas de opress√Ķes. O fortalecimento dos movimentos que lutam pra fazer valer os direitos humanos √© rec√≠proco, os grupos oprimidos e seus militantes j√° possuem uma natural empatia uns com os outros, o que n√£o acontece automaticamente com a defesa dos direitos animais, que precisa, necessariamente, do reconhecimento, da considera√ß√£o e da inclus√£o humana para ganhar maior pot√™ncia e for√ßa coletiva.

Os animais n√£o-humanos precisam da gente, devemos a eles repara√ß√£o hist√≥rica e secular. A nossa luta pela liberta√ß√£o animal √© nada mais nada menos do que a luta por justi√ßa, pelo que √© √©tico, pelo correto a n√≠vel individual e coletivo. O veganismo √© uma luta pol√≠tica onde dispomos do nosso corpo para personificar a resist√™ncia pelo outro ser que sofre, pela considera√ß√£o moral dos demais animais enquanto sujeitos de uma vida, e n√£o um movimento por ‚Äúdireitos aos veganos‚ÄĚ.

Por outro lado, a transi√ß√£o de uma sociedade capitalista para outro sistema socioecon√īmico n√£o √© garantia alguma de liberdade para todos os seres, especialmente para os animais n√£o-humanos. At√© o ecossocialismo quando √© propagandeado entre militantes de esquerda no meio vegano n√£o convence, j√° que o foco de preocupa√ß√£o √© a sobreviv√™ncia da vida humana no planeta ecologicamente equilibrado, com o fim do sistema industrial e intensivo de produ√ß√£o e n√£o o da explora√ß√£o praticada pelo homem do campo ou pelo pequeno produtor, por exemplo. Desse jeito, os pretensos revolucion√°rios tamb√©m apoiariam √≠ndios ruralistas? (Retomo a quest√£o na parte III).

Um exemplo para ilustrar essa situa√ß√£o √© o panfleto vegano-socialista ‚ÄúBestas de Carga‚ÄĚ, cuja autoria √© desconhecida. No citado panfleto, h√° um cap√≠tulo que tenta explicar como seriam tratados os animais em uma sociedade comunista. Eis um trecho que resume a quest√£o: ‚Äúdesacordos podem continuar surgindo mesmo na sociedade que surge com o desenvolvimento do movimento comunista e com a aboli√ß√£o do capitalismo ao redor do mundo. (…) A quest√£o de como viver com outros animais pode ser resolvida de diferentes formas em diferentes lugares e √©pocas. A liberta√ß√£o animal forma um polo desta discuss√£o. Outros podem tomar posi√ß√Ķes diferentes, argumento talvez pela manuten√ß√£o de fazendas ‚Äė√©ticas‚Äô, a n√£o intensiva domestica√ß√£o dos golfinhos (mesmo que isso ainda possa trazer pr√°ticas cru√©is sobre estes animais, como a castra√ß√£o e a separa√ß√£o das m√£es de suas fam√≠lias)‚ÄĚ. O manifesto continua nessa toada, apelando, sem muito sucesso, para a tentativa de convencimento de que, com o fim do capitalismo (e n√£o necessariamente a aboli√ß√£o animal), finalmente haveria o que entendem por uma ‚Äútransforma√ß√£o radical‚ÄĚ na nossa rela√ß√£o com as outras esp√©cies, assim explicado: o fim dos interesses da ‚Äúind√ļstria animal‚ÄĚ, o fim das propagandas para o consumo de carne, haveria transpar√™ncia e conhecimento acerca das origens dos ‚Äúprodutos animais‚ÄĚ e seu ‚Äúprocesso de produ√ß√£o‚ÄĚ, haveria amplo conhecimento sobre os impactos na sa√ļde humana e por a√≠ vai… Os autores an√īnimos acreditam que a absten√ß√£o total da “produ√ß√£o animal” √© imposs√≠vel e que n√£o se deve “condenar” os outros por n√£o irem longe o bastante. Definitivamente, a n√£o liberta√ß√£o animal n√£o tem nada a ver com veganismo, mas √© o entendimento ou a suposta proposta revolucion√°ria desses cr√≠ticos do atual sistema.

Parece importante colocarmos um ponto final em práticas e costumes predatórios e exploratórios que são pilares de tantas mortes e devastação, abandonando de vez esse modo de política humana que, quando decide agir a cada crise emergencial, busca apenas o uso de uma nova roupagem mas não promove revolução alguma porque não alcança as raízes necessárias.

Em conjunto e ao longo do tempo, geramos uma condi√ß√£o planet√°ria que vai muito al√©m das fontes de destrui√ß√£o espec√≠ficas e das formas concretas de organiza√ß√£o pol√≠tico-econ√īmica em que ocorrem. [Expuls√Ķes, de Saskia Sassen]

Seguramente n√£o sou a √ļnica a entender que a maior crise de nossos tempos n√£o √© o sistema capitalista em si, mas sim a nossa civiliza√ß√£o. A humanidade como conhecemos hoje est√° fadada √† extin√ß√£o e fatalmente tudo ser√° transformado a n√≠vel individual e coletivo. Quem viver, ver√°.

As causas que nos trouxeram a esse estado de coisas parecem muito mais complexas de serem enfrentadas do que apenas migrarmos para outros arranjos socioecon√īmicos j√° conhecidos, esperando que assim todos possamos, de fato, viver bem e felizes, como se a desigualdade e a justi√ßa social fossem resolvidas num passe de m√°gica com a queda do capitalismo, como se f√īssemos naturalmente justos, equ√Ęnimes, respeitosos e pac√≠ficos. Parece um tanto ing√™nuo acreditarmos no sucesso dessa suposta empreitada sem antes come√ßarmos, aqui e agora, uma transforma√ß√£o profunda de nossos valores humanistas e sistemas de cren√ßas.

A estrutura da pol√≠tica humana n√£o √© tudo que h√° em vigor. H√° uma sobra de pol√≠tica animal, um excesso residual disso que se move no fundo do po√ßo, na tend√™ncia autotransbordante que preenche o campo do continuum da natureza (…). Como√ß√Ķes vitais microagitam a estrutura. √Č sempre esse o caso. Sempre h√° movimentos de fuga incipientes at√© mesmo na estrutura mais humanamente imperme√°vel, esburacando-a com minifissuras, amea√ßando min√°-la como um dique de vazamentos. [O que os animais nos ensinam sobre pol√≠tica, por Brian Massumi]


PARTE III

VOZ PARA OS SEM VEZ

Ativistas em defesa dos animais atuam cotidianamente em v√°rias frentes e como n√£o poderia ser diferente, tamb√©m aproveitam as brechas nos acontecimentos tr√°gicos que causam certa como√ß√£o p√ļblica para alertar e tentar despertar os demais humanos sobre o holocausto ou massacre dos animais em nossa cultura antropoc√™ntrica e especista, estando, assim, mais para a pol√≠tica animal e menos para a pol√≠tica humana.

Os inc√™ndios florestais que agora devastam a Austr√°lia em decorr√™ncia do aquecimento da Terra que se intensifica ano a ano, dia ap√≥s dia (cujos inocentes s√£o aqueles que, ao contr√°rio de n√≥s, coexistem equilibradamente com o habitat natural e os demais seres vivos, n√£o fosse a desastrosa e irracional interven√ß√£o humana), tamb√©m trouxeram consigo o an√ļncio da sum√°ria execu√ß√£o de 10.000 (dez mil) camelos, n√£o atingidos pelo fogo e nem pela fuma√ßa, mas com uma chuva de proj√©teis vindos de helic√≥pteros no territ√≥rio de uma comunidade abor√≠gene, em uma quase inacredit√°vel iniciativa do governo local. Ser√° que nem mesmo os abor√≠genes na Austr√°lia guardam o respeito pela vida animal? Como falamos no epis√≥dio #000 do podcast Saber Animal, eles tamb√©m n√£o se importam e n√£o veem problema algum matarem cangurus na Austr√°lia para aux√≠lio √† economia do pa√≠s!

Saiba mais: OS BRASILEIROS MATAM MUITO MAIS ANIMAIS QUE OS INC√äNDIOS NA AUSTR√ĀLIA, por Fabio Montarroios

A Austr√°lia √© um lugar inusitado, ‚Äėo √ļnico pa√≠s que come o seu bras√£o‚Äô, diz Phil Duncan, um corpulento anci√£o do povo Gomeroi, sentado em sua sala na Universidade Macquarie, em Sydney. (…) A solu√ß√£o que ele prop√Ķe √© simples: que o povo original da Austr√°lia tenha a √ļltima palavra no manejo dos cangurus. Afinal, eles fizeram isso muito bem por milhares de anos. ‚ÄėSe voc√™ quer abater cangurus, deve existir um ramo da economia para isso‚Äô, diz. Mas esse ramo deve ser monopolizado pelos abor√≠genes. ‚ÄėN√≥s far√≠amos tudo com compaix√£o. Deem-nos as licen√ßas [para matar cangurus]. Deixem por nossa conta‚Äô. [Um s√≠mbolo amado vira uma praga, reportagem da National Geographic Brasil, fev. 2019]

Teriam os abor√≠genes australianos sido corrompidos pelo funesto contato com o homem branco? O ‚Äúcrime‚ÄĚ cometido pelos camelos, cuja pena √© a morte, √© sentirem sede e buscarem saciar sua necessidade vital em local que n√£o lhes √© permitido. E qual a outra grave acusa√ß√£o dirigida aos cangurus para terem o mesmo destino, a morte implac√°vel? Assim como os camelos, os cangurus tamb√©m tem o azar de se deparar com a esp√©cie homo sapiens.

N√£o √© de hoje que australianos tratam determinados animais como ‚Äúpragas‚ÄĚ, sejam nativos ou n√£o, sejam cangurus, gatos ou camelos. J√° comentamos sobre essa denomina√ß√£o incab√≠vel e especista no referido epis√≥dio do podcast Saber Animal. Em todos os cantos do globo terrestre, os outros animais s√£o tidos ora por pragas, ora por recursos. Humanos n√£o destroem o meio ambiente, n√£o se proliferam demasiadamente. Imagine! Humanos deixam escapar o artif√≠cio de sua racionalidade e superioridade quando se recusam a lidar com quest√Ķes simples e √©ticas, afinal s√≥ o homo sapiens √© capaz de causar tanto estrago ao longo dos s√©culos, escolhendo a carnificina como solu√ß√£o pr√°tica e ‚Äúlimpa‚ÄĚ sempre que lhe conv√™m. Mas at√© os abor√≠genes?! Como visto, se tamb√©m est√£o envolvidos na matan√ßa dos cangurus, agora porque n√£o estariam na dos camelos? Os camelos n√£o viviam na Austr√°lia e ao contr√°rio dos cangurus n√£o s√£o animais nativos. Nenhuma considera√ß√£o com nenhum deles.

O homo sapiens √© o ser dito racional, que se reproduz descontroladamente, vai se espraiando pelos territ√≥rios e destruindo as fr√°geis vidas que encontrar pelo caminho, tal qual costumamos chamar de… pragas! Pragas s√£o os outros. Como ficamos com decis√Ķes governamentais desse tipo? A popula√ß√£o global de 7,7 bilh√Ķes de humanos continua a crescer vertiginosamente, a despeito de estarmos caminhando para a escassez de servi√ßos ecossist√™micos e colapso ambiental planet√°rio, quem decidir√° quem pode viver e quem pode morrer? Algu√©m ter√° considera√ß√£o conosco?

Saiba mais: QUEM NOS SALVAR√Ā DE N√ďS MESMOS?, por Vanice Cestari

H√° milhares de anos os camelos foram domesticados pelo homem e introduzidos na Austr√°lia em meados do s√©culo XIX para serem explorados como transporte. Findo h√° muito o per√≠odo colonial, a sociedade ‚Äúdesenvolvida e civilizada‚ÄĚ resolve exterminar os novos indesej√°veis ap√≥s iniciativa de abor√≠genes, sem d√≥ nem piedade. A minoria estridente, como alude o rep√≥rter da National Geographic Brasil ao se referir √† parcela da popula√ß√£o que se op√Ķe a esse exterm√≠nio, precisa aumentar, assim como a compreens√£o de que ora s√£o os cangurus, ora os camelos, ora os gatos… e independentemente de qual seja a esp√©cie animal, n√£o temos o direito de matar e explorar outras vidas.

Aqui um ‚Äúpar√™nteses‚ÄĚ para falar dos javalis e dos jumentos no territ√≥rio brasileiro. Por aqui fazem o mesmo com os javalis (foram introduzidos no Brasil, n√£o para serem explorados como meio de transporte, mas para o apetite gastron√īmico que n√£o vingou e tamb√©m passaram a serem taxados de ‚Äúpragas‚ÄĚ pelos ruralistas, propriet√°rios de terras e governos que ora se resumem √†s mesmas pessoas) e com os jumentos nordestinos, que vagueiam √† pr√≥pria sorte depois de terem sido abandonados sem a menor piedade por humanos ingratos que se beneficiaram de seu d√≥cil corpo, escravizados como meio de transporte no desenvolvimento do Nordeste brasileiro. Os jumentos, por√©m, n√£o chamados de ‚Äúpraga‚ÄĚ porque se tornaram recurso econ√īmico. Mais uma vez a gan√Ęncia do homo sapiens entrou em cena; articularam-se possibilidades mais interessantes para o governo brasileiro: resolveram dar fim a vida dos jumentos enviando-os para matadouros com fins de exporta√ß√£o de seus restos cadav√©ricos para o mercado chin√™s.

Para ouvir o episódio #002 do Podcast Saber Animal no qual tratamos da matança dos jumentos, clique aqui.

Os camelos na Austrália também tiveram seus corpos forçados ao trabalho escravo no transporte de pessoas e mercadorias por longa data (assim como os jumentos, os cavalos e tantos outros) e os que não estão nas miras das armas de helicópteros na Austrália, assim continuam sendo explorados e sofrendo em algum canto por aí, escravizados por turistas, sob a mira de caçadores, sob a guarda de todo tipo de gente alheia e insensível ao seu sofrimento.

Segundo o portal de not√≠cias DW, nos territ√≥rios abor√≠genes da Austr√°lia se domam e vendem camelos, no entanto essa atividade econ√īmica tornou-se insustent√°vel devido ao grande n√ļmero de camelos que se agrupam em escassas fontes de √°gua. Essa revela√ß√£o √© bem curiosa porque, justamente por ocasi√£o desses terr√≠veis inc√™ndios, agora √© oportuno se livrar desses inocentes sedentos… o plano perfeito, n√£o fosse j√° terem feito isso antes, em 2009. Parece que n√£o √© novidade por l√° o massacre de camelos por helic√≥ptero e, por mais que tentem justificar o injustific√°vel, j√° √© tarde demais.

E por falar em abor√≠genes australianos indiferentes com a matan√ßa de animais, por aqui j√° temos at√© √≠ndios ruralistas! Ou √≠ndios pecuaristas, como preferir! Infelizmente n√£o se trata de fake news e nem foi determina√ß√£o (ainda) do governo Bolsonaro! E olha que ele tamb√©m quer! Sei n√£o… N√£o √© f√°cil defender os direitos animais, tampouco √© f√°cil manter a solidez na defesa dos direitos humanos com uma esquerda pra l√° de conivente com saqueadores de direitos, discriminat√≥ria, exploradora e especista. A ambi√ß√£o dos ruralistas e seus asseclas pol√≠ticos, todos exploradores da vida alheia, parece tamb√©m ter convencido ind√≠genas em territ√≥rio brasileiro a uma temer√°ria alian√ßa!

Esse acontecimento surreal s√≥ se deu com o apoio de setores da esquerda – cada vez mais acossada politicamente – e merece um estudo √† parte, porque isso certamente n√£o foi ideia dos povos ind√≠genas, mas h√° lideran√ßas e lideran√ßas… Por ora, destaque-se a seguinte frase dita pela tuxaua (cacique) Leidimar Silva, segundo reportagem: “Os irm√£os falam que √© pacto com satan√°s”. E n√£o √© que os outros ind√≠genas talvez estejam certos, mesmo? E sobre a proposta de emenda constitucional que libera o arrendamento de terras ind√≠genas (PEC 215, vista como amea√ßa pela comunidade), ela diz: “Querem exterminar nossas terras. Onde j√° se viu? Onde n√≥s vamos botar nossos gados?‚ÄĚ

A essa altura nada j√° parece t√£o surreal assim. Direita e esquerda, h√° muito, falam a mesma l√≠ngua: a linguagem da explora√ß√£o, pilhagem e destrui√ß√£o. Como n√£o se indignar com essa turma toda? N√£o √† toa contribu√≠ram, mesmo que indiretamente, para a ascens√£o de um governo de extrema-direita enquanto sugeriam ‚Äúresist√™ncia‚ÄĚ com infind√°veis memes ou celebra√ß√Ķes festivas.

Aproveito para emprestar um pouco mais da minha escrita para falar mais um pouco sobre a vida infernal dos camelos, aqueles que sobrevivem aos atiradores dos helicópteros ao serem condenados por sentirem sede. Falo dos camelos, mas você que me lê pode substituir por outro animal de sua preferência que, por ventura, nutra mais simpatia. Quase todos os animais não-humanos possuem uma vida desgraçada neste planeta, o que muda é a variação e intensidade do grau de sofrimento.

Segundo mat√©ria da Vice Brasil, de 2013, turcos se comprazem com uma luta de camelos em nome de uma alegada tradi√ß√£o de quase tr√™s mil anos. Al√©m da barb√°rie e da evidente crueldade e maus-tratos narrada na mat√©ria, o jornalista acha tudo muito engra√ßado e, para uma mulher que l√™ as suas peculiares interpreta√ß√Ķes do que seria o comportamento dos animais durante a luta, as suas coloca√ß√Ķes s√£o enojantes e at√© um pouco assustadoras ‚Äúos machos se babam, sexualmente frustrados‚ÄĚ. S√≥ no topo da arrog√Ęncia especista e machista para se chegar a uma conclus√£o dessas…

S√≥ homens s√£o capazes dessa tara sexual desmedida quando se envolve animais n√£o-humanos e mulheres. A luta de camelos √© uma divers√£o de homens e apreciada por homens e o churrasco n√£o falta. Basta darmos uma olhada nas fotos e observarmos a narrativa do jornalista, acr√≠tica, que destoa do jornalismo de den√ļncia, em uma demonstra√ß√£o de gozo pelo bizarro, pela subjuga√ß√£o de quem est√° dominado e n√£o disp√Ķe de meios de defesa, pela viol√™ncia banalizada.

Onde existe uma virilidade (ansiosa) se encontrará o consumo de carne. [A política sexual da carne, de Carol J. Adams].

No Quênia, a diversão especista fica por conta da corrida anual de camelos que atrai turistas de vários países. No vídeo acima é possível observar a crueldade rolando solta com chicotadas e outros instrumentos para forçar os animais a correrem, enquanto são obrigados a carregarem pessoas em suas costas.

Tem crueldade pra todo gosto: os camelos são mortos para humanos comerem a sua carne, são usados para transporte, turismo e diversão humana. Das camelas, exploram também a sua maternidade. Escravas do comércio de leite na Europa e em substituição, ou de modo complementar, às vacas no Quênia, com incentivo do governo Holandês.

ATEN√á√ÉO: TODAS as reportagens jornal√≠sticas, produzidas por empresas que desconhecem e/ou n√£o adotam a filosofia vegana ou animalista e que falam de animais, s√£o narradas e editadas com linguagem especista, ou seja, discriminat√≥ria em preju√≠zo dos animais, o que significa dizer que n√£o informam sob a √≥tica dos Direitos dos Animais, refor√ßando, assim, uma ideia err√īnea ou equivocada de naturalidade e/ou bem-estar quanto ao uso ou presen√ßa dos animais nas mais diversas atividades humanas e explorat√≥rias. N√£o se pode aferir que os animais s√£o felizes e/ou bem tratados nesses conte√ļdos, ainda que especialistas sejam consultados, pois o par√Ęmetro a ser levado em considera√ß√£o jamais poder√° ser o de seus opressores e/ou profissionais a estes ligados.

Aten√ß√£o: o v√≠deo est√° dispon√≠vel e pode ser visto ao clicar, acima, na frase ‚Äúassistir no Youtube‚ÄĚ.

No v√≠deo √© poss√≠vel ver o instante em que √© negado ao filhote, o leg√≠timo “propriet√°rio” do leite de sua m√£e, o direito de se nutrir para que possa crescer saud√°vel. E assim, recebe de heran√ßa uma vida de sofrimento ante seu debilitado estado de sa√ļde, explorado at√© a morte. Exatamente como os camelos na Austr√°lia, privados de beber √°gua, exatamente como os bezerros e demais animais escravizados mundo afora na atividade pecu√°ria. A nenhum animal explorado s√£o assegurados os direitos que lhes cabem. Camelos s√£o escravizados como meio de transporte e para corrida com pessoas montadas em sua corcova em outros pa√≠ses. Ora o servi√ßo, ora a divers√£o que, for√ßadamente oferecem, n√£o os poupam de serem retalhados para tamb√©m servirem de alimento.

No deserto do Saara, turistas de todo o mundo fazem safari ou cavalgadas com camelos. No Catar, a corrida de camelos é um negócio milionário que garante somas vultosas nas contas bancárias dos poderosos sheiks, que são donos de fazendas e também possuem a propriedade sobre esses animais que valem uma fortuna.

O equipamento de tortura n√£o √© mostrado como tal, propositalmente camuflado, ao passo em que se procura desenvolver um discurso c√īmico para esconder o horror. √Č a pol√≠tica humana da barb√°rie. Se os camelos nas m√£os desses bilion√°rios recebem tratamento que seres humanos entendem por uma ‚Äúvida boa‚ÄĚ (piscina, spa, fisioterapia, centro de treinamento etc), √© evidente que os animais n√£o precisam de nada disso em vida livre, n√£o pediram por isso em troca de uma vida de escravid√£o. Al√©m de que isto n√£o se d√° em respeito ou considera√ß√£o ao animal, e sim porque cada um vale uma pequena fortuna de um milh√£o e meio de d√≥lares e √© preciso cuidar bem do patrim√īnio, tal como se faz com os demais animais usados para turismo mundo afora. Ou algu√©m, em s√£ consci√™ncia, acha normal e saud√°vel um camelo ser for√ßado a nadar?

O aparato (rob√ī) na corcova do camelo que n√£o tem outro fim sen√£o dar choques no pobre animal para que saia em disparada, onde a suposta obedi√™ncia por comandos de voz de seu algoz, via r√°dio, parece s√≥ mais uma piada, n√£o fosse tr√°gica toda a situa√ß√£o. Dizem que antes do aparelho, usavam crian√ßas para a fun√ß√£o (como acontece no Egito). Os grupos de defesas de direitos humanos precisam perceber que os camelos s√£o como as crian√ßas humanas (veja aqui) levando ao t√©rmino toda tradi√ß√£o violenta. A explora√ß√£o de vulner√°veis, seja de crian√ßas humanas, de crian√ßas n√£o-humanas e tamb√©m de mulheres, √© corriqueira para esses homens cru√©is.

E como nesse mundo o apetite humano ainda √© insaci√°vel, camelos tamb√©m s√£o servidos nas mesas do mundo √°rabe, em partes, como se fossem cortes do corpo de um boi ou at√© mesmo inteiros em festas de casamento, segundo blog de uma brasileira que mora em Abu Dhabi. √Č poss√≠vel vermos carne e embutidos de camelo, salsichas de camelo, salames de camelo, hamb√ļrgueres de camelo com ouro. Sim, ouro 24 quilates. Leite de camela e latic√≠nios derivados tamb√©m s√£o produzidos de forma abundante nesses pa√≠ses.

O tormento dos animais por meio das mais variadas formas de explora√ß√£o, viol√™ncia, subjuga√ß√£o, massacre e crueldade os tornam aut√™nticos escravos da humanidade, seja para o transporte, seja para o apetite, seja para a divers√£o, o lucro etc, at√© mesmo por parte dos povos que foram ou s√£o explorados e ter clareza desses fatos nos d√° for√ßas para continuarmos a defender os mais indefesos e vulner√°veis, humana e historicamente injusti√ßados e que, a bem da verdade, tamb√©m s√£o os leg√≠timos seres origin√°rios desta Terra, estando aqui h√° muito tempo antes de n√≥s, homo sapiens de todas as diferentes etnias e condi√ß√Ķes. Defender os direitos de todos os animais n√£o-humanos e os direitos da nossa m√£e Terra n√£o √© nada mais do que a obriga√ß√£o de qualquer ser humano digno e justo, que se nega √† incivilidade.